B. E VLİLİK D IŞI B ERABERLİKLER VE A LTERNATİF Y AŞAM T ARZI
1. Evlilik Dışı Beraberlik Şekilleri
As Posturas precisavam de estratégias para sua aplicação e fiscalização. Neste sentido, ocorrem modificações no funcionalismo público, tais como o Fiscal (cargo semelhante ao de Almotacé, no período colonial), membro da Câmara Municipal, cuja principal atribuição é fazer valer as prerrogativas das Posturas Municipais, conforme explica Teixeira:
O fiscal é responsável essencialmente pela fiscalização e execução das posturas municipais, por alertar os que não as respeitam e por apresentar regularmente um relatório de seu trabalho à Câmara. Em caso de negligência, o fiscal é por sua vez passível de uma contravenção penal. (TEIXEIRA, 2009a, p. 269).
Seu desempenho era cobrado e acompanhado pelos membros da Câmara, e pelos cidadãos. Além da atuação do fiscal, é significativa a participação da polícia, dos funcionários das Câmaras Municipais e Juízes16. Com relação à polícia, é constante a
solicitação de mais forças policiais e sua melhor distribuição pela província. Um destacamento maior se localizava na capital e outro no interior (Assú e Apodi), e as demais localidades ficavam à mercê da “bandidagem”. A falta de policiamento ocasionava insegurança tanto à população quanto às autoridades, que se furtavam da aplicação da lei com receio de retaliações – chegavam a acobertar crimes através das práticas de “apadrinhamento”. Segundo os Presidentes, a precariedade na segurança era ainda agravada pela falta de legislação que a combatesse de forma mais incisiva, como ilustra Mascarenhas:
Senhores, a respeito da segurança individual, he bem triste o quadro que se nos apresenta. Tempo houve, em que ninguem se reputava seguro, nem mesmo em sua propria casa. Em vão o cidadão pacifico procurava recurso nas Authoridades; estas receando serem victimas do punhal do assassino, não se atrevião a perseguil-o, pois sabião de certo, que no Jury encontraria elle a mais decidida protecção. Tal foi o estado, a que nos reduzio huma Legislação fraca, inadequada aos nossos costumes, e que considerou o paiz mais em relação ao que devia ser, do que ao que na realidade era. (MASCARENHAS, 1843).
16 Cabe aqui um esclarecimento a respeito das atribuições das várias instâncias do poder, no quesito da
segurança: enquanto as ofensas menores (agravos, desentendimento) eram da alçada das Câmaras Municipais, sendo que em casos particulares poderiam envolver o Presidente de Província; já os problemas relativos à segurança individual e de propriedade, eram atribuições do Governo central.
Esta citação é recorrente nas falas dos Presidentes: na ausência de funcionários para manter a ordem pública, a população e autoridades se viam à mercê de contraventores. O distorcido senso de justiça fazia com que julgamentos e punições fossem esquecidos e acobertados pelos agentes que deveriam garantir a segurança e a justiça. Outro de destaque é a análise que faz o Presidente apreendendo a legislação como “fraca”, que considerou mais o “que devia ser, do que ao que na realidade era”: conceitos como civilidade, princípios de educação e respeito não eram muito disseminados (a população pobre tinha dificuldade de acesso ao ensino), alguns princípios básicos de cidadania não eram cumpridos. Contudo, a legislação havia sido criada considerando a existência de uma base educacional. Destacamos também nesta citação, uma referência implícita aos conceitos de “percepção” da realidade, delineados na metodologia e conceitos desta investigação: identificamos o entendimento de “intervenção”, quando Mascarenhas diz que se deveria considerar o país mais como “o que devia ser”, e a compreensão de “apreensão” quando o presidente considera “o que na realidade era”, ideias muito aproximadas das dos aspectos conceituais defendidos nesta tese.
No tocante a policiamento, os itens de intervenção foram diversos: em 1836, o presidente João José Ferreira de Aguiar solicita à Câmara aumentar o contingente para pelo menos 120 homens (AGUIAR, 1836); em 1837 Manoel Ribeiro da Silva Lisboa propõe a criação do cargo de “Delegado do Governo Presidencial”, inclusão de atribuições legais aos Chefes de Polícia, limitação da jurisdição dos Juízes de Paz e concessão de gratificações (LISBOA, 1837). No ano seguinte, 1838, João Valentino Dantas Pinajé, propõe que a Polícia tenha duas frentes de atuação (PINAJÉ, 1839). A polícia deveria ser remanejada para atividades ligadas à construção civil (infraestrutura), demonstrando preocupação com a ociosidade destes praças17. Já em
1839, o Presidente Manoel de Assis Mascarenhas determina um aumento do soldo dos praças, acreditando ser a baixa remuneração o motivo da pouca eficácia (MASCARENHAS, 1839). Em 1842, o Presidente Manoel de Assis Mascarenhas propõe a criação de mais um cargo de Oficial (MASCARENHAS, 1842). Em 1844, o Presidente Venceslau de Oliveira Bello indica a necessidade de mais destacamentos em outros pontos de província (só havia em Assu, Maioridade e na Capital), mas percebe a inviabilidade da proposta, dada as parcas verbas (BELLO, 1845). Finalmente, a última referência ocorre em 1845, quando o presidente Casimiro José de Moraes Sarmento identifica um grave problema, decorrente da seca: surgimento de
17 Podemos apontar neste caso, certo contrassenso, ou o paradoxo definido por Bardin: se o corpo policial
era tão diminuto e pouco efetivo, na proposta de intervenção o Presidente idealiza suprimi-lo e realocá-lo para a área de construção de infraestrutura, apontando a questão físico-espacial como mais importante do que a segurança.
uma “grande quantidade de ladrões que tem apparecido por todos os pontos da Provincia, e principalmente na Maioridade, no Seridó, em Acari, e nos municipios de Extremoz e S. Gonçalo” (SARMENTO, 1845). O Presidente solicita às autoridades locais que recrutem todos os homens que estivessem sem empregos:
Homens que sempre vivêrão entregues á ociosidade e á preguiça, que subsistião do que espontaneamente lhes offerecia a natureza, hoje, que pela aturada falta de chuvas nada encontrão daquillo de que contumavão a alimentar-se, em alcateias ou individualmente, se achão em continua aggressão á propriedade dos industriosos e trabalhadores (SARMENTO, 1845)
Incorporados aos serviços de policiamento, estes homens teriam uma ocupação, reduzindo a criminalidade; propõe redistribuir o destacamento existente (169 praças ao todo) em forças menores, enviadas para o Príncipe, Goianinha, reforçando o de Assu, e para Socavão e Ceara Mirim, para impedir a ação de quadrilhas, que estavam começando a praticar assassinatos aos que não consentiam aos assaltos. A situação encontrada em 1845 é atípica; com a seca, a população era levada a práticas extremadas. Em linhas gerais, não havia uma proposta única para solucionar o problema do policiamento, cujas ideias iam de aumento de praças, aumento de cargos superiores, aumento de soldos, redistribuição de pessoal, reformulação de atribuição dos cargos e até realocação de atividades dos praças. O que ficava evidente era que o policiamento era apreendido como sendo insuficiente e pouco eficaz. Mas e qual seria a repercussão desta falta de segurança para a cidade potiguar? Fazia com que a população, de início, tomasse para si as providências para garantir a sua própria justiça e a consequência mais grave era a falta de confiança na justiça oficial. Certos de não haver punição, o que fazia a população seguir as legislações promulgadas por qualquer órgão público, como as Posturas? Dada à baixa receita das Municipalidades, podemos inferir que as multas por desacato às Posturas, por exemplo, possivelmente não eram arrecadadas ou sequer cobradas, deixando que a cidade, na prática, se desenvolvesse de acordo com o entendimento de cada um, às vezes, à revelia da elite e de suas legislações.
Além dos Presidentes, observamos as Câmaras Municipais agindo para minimizar a questão do policiamento, através das Posturas. Havia uma preocupação da Câmara Municipal e dos Juízes de Paz, com o controle da população e dos hóspedes destes moradores; para exemplificarmos, dar abrigo a alguém por mais de três dias, é motivo, nas Posturas de Apodi de 1837, para se comunicar ao Juiz de Paz, mostrando documentos que comprovem sua idoneidade. Já nas Posturas de Angicos,
de 1837, o tempo é oito dias, a partir dos quais é obrigatório avisar à autoridade. O máximo deste tipo de controle é visto nas Posturas de São José de Mipibu:
Art 1º Os juízes de Paz farão, de dois em dois anos, um exato arrolamento de todas as pessoas que existirem nos Distritos de sua jurisdição, com especificação de suas naturalidades, idades, e ocupações, fazendo assinar os vadios termo de bem viver, em o qual se designará a ocupação, o meio de vida [...] Art 3º Os Inspectores de Quarteirão darão parte aos Juízes de Paz das pessoas que de novo aparecerem em seus distritos declarando d’ onde vieram, a que fim, para onde se dirigem e em que se ocupam, porque sendo vadios, assinem termo de bem viver e sendo malfeitores, se proceda contra eles na forma da lei [...]. (POSTURAS Municipais de São José de Mipibu, de 6 de Novembro de 1838).
O controle era observado nas áreas rurais, e nas localidades; observamos a proibição, sempre determinada pela elite local, de dar tiros na área urbana das vilas e povoações, vetada a comercialização de pólvora e fogos artificiais, mesmo nas festividades. Várias Posturas também proibiram correr ou esquipar a cavalo nas ruas da vila e povoações, a partir das 18 horas. E também grandes preocupações com o (mau) uso do espaço urbano, nas Posturas de Extremoz de 1837, da qual destacamos alguns pontos: a proibição de jogos que os “pretos e índios” costumavam fazer nas tavernas; multas por abrigar escravos fugidos; o veto ao “ajuntamento de pretos e vadios” em locais de venda de bebidas, após estes terem suas mercadorias; e a proibição de barulho sem motivo durante a noite, com destaque para os “pretos” que não poderiam usar atabaques. Fica evidente nestas Posturas certa “indisciplina”, de negros, escravos, índios e vadios, que havia em Extremoz e que perturbavam a boa convivência. A segurança individual, na apreensão, dos Presidentes, era um problema em vários pontos do RN ocasionada por uma população identificada pela elite como “perigosa”: índios e escravos negros, “orientados ao vício e crime”.
Na Administração pública, são mencionados os funcionários públicos, sobretudo os ligados às Câmaras Municipais e Juízes. A principal apreensão feita pelos Presidentes são críticas a pouca atuação e a baixíssima frequência com que as assembleias aconteciam, que tornava moroso qualquer processo que necessitasse de julgamento ou avaliação dos órgãos públicos, como esclarece Mascarenhas:
O Jury não se tem reunido com aquella regularidade, que a Lei exige. Nesta Cidade [Natal] não pôde ainda haver a primeira Sessão deste anno, pela demora de hum dos Juizes de Paz em remetter a relação dos Jurados do seu Districto [...] No Municipio de S. José pôde o Juiz de Direito reunir o Jury com grande custo; mas teve de encerrar a Sessão, antes do preaso grande na Lei, a pezar de haverem processos pendentes, porque os Jurados se ausentárão [...] Na Camara do Assú não me consta que tenha havido Jury neste anno. A
ausencia prolongada do respectivo Juiz de Direito, e a estação nimiamente chuvosa, são, além d’outras, as causas da inobservancia da Lei nesta parte. Não tenho cessado de expedir terminantes ordens aos Juizes de Direitos interinos para convocarem o Jury; mas infelizmente ellas não tem sido cumpridas com aquellas pontualidade, que se devia esperar. (MASCARENHAS, 1840).
Percebe-se que a pouca frequência de reuniões das Câmaras era uma realidade no RN. Numa província cujo acesso à educação ainda era tão restrito, indivíduos com grau de instrução, aptos a assumirem cargos públicos, era também reduzido, ocasionando superposição de atividades. Vez que os salários públicos eram baixos e atrasavam, observamos que o cargo público trazia mais benefícios no “status social” do que em retorno financeiro. Somado às condições da província (dificuldade de locomoção e comunicação) temos a atuação pouco eficaz, que, conjuntamente com outros fatores, contribuem direta ou indiretamente para a precariedade urbana. Com relação à Câmara Municipal, é mencionada em 1836, pelo presidente João José Ferreira d’ Aguiar, a situação de morosidade e pouca eficiência da atuação das Câmaras e dos juízes, e a proposta seria a criação de uma terceira comarca, que reduziria as distâncias. Na tentativa de resolver a questão das longas distâncias, constatamos várias propostas de intervenção dos Presidentes. A primeira proposta de intervenção aparece em 1835, quando o Presidente de Província Bazilio Quaresma Torreão propõe que a Comarca de Natal, ao invés de dividida em quatro distritos, fosse em dois. Esta foi a única proposta na qual se reduz o número de distritos – o presidente o justifica pela carência de juízes. No ano seguinte, 1836, o presidente João José Ferreira d’ Aguiar defende a criação de mais uma comarca na província, para acelerar as decisões dos processos em andamento. Na visão do Presidente:
[...] quazi que vos posso afirmar que, com a divizão existente das Commarcas, elles [os juízes] nunca aparecerão; por quanto, sendo necessario a um Juiz de Facto, desamparar as suas lavouras, os seos gados, e seos interesses, tendo, alem dos quinze dias da Sessão ordinaria, de percorrer um espaço de vinte e cinco, trinta, e mais legoas; prefere antes o pagamento da multa do que o comparecimento pessoal no Tribunal; exemplo este tantas vezes repetido, que o Juiz de Direito d’esta Commarca já se tem vista obrigado a chamar extraordinariamente quarenta e seis Juizes . por somente averem comparecido quatorze dos sorteados (D’ÁGUIAR, 1837).
Aumentando uma comarca, a abrangência geográfica de cada uma delas seria reduzida, diminuindo o tempo destes juízes nas viagens. O presidente Manoel Ribeiro da Silva Lisboa retoma esta discussão em 1837, solicitando que as duas comarcas existentes, abrangendo uma vasta área de 140 léguas precisavam ser
subdivididas. Em 1838, o presidente João Valentino Dantas Pinajé propõe que Assu fosse subdividida em duas comarcas, pois as distâncias dificultavam as atribuições dos juízes. A última referência acontece em 1839, quando o Presidente Manoel de Assis Mascarenhas identifica a demanda pela divisão das comarcas como uma realidade “reconhecida e palpada”, entendendo que existindo duas comarcas, cada uma composta por 7 municípios, impedia o desempenho dos juízes e prejudicava a população.
Outra questão ligada à justiça pública é a “Redução de distritos”: uma proposta de intervenção é detectada em 1838, pelo presidente João Valentino Dantas Pinajé que propõe a redução do número de distritos de paz18 em Natal (18 distritos) e
Assu (22 distritos), pois seu aumento não havia auxiliado na redução da criminalidade. O que se destaca nessa discussão, e que a torna interessante para esta pesquisa, é o fato de que as propostas de intervenção relacionadas ao “Status político” vêm no sentido de reorganizar o território, para melhor controlá-lo, seja do ponto de vista jurídico, como aqui se discute, seja do ponto de vista da criação dos municípios, já mencionado. Muitos Presidentes mencionam a necessidade de aumentar as comarcas, para minimizar as distâncias. Quanto aos municípios e distritos, a posição dos Presidentes não é muito clara; para alguns, deve acontecer uma redução na quantidade e para outros, aumentar não faria diferença. O fato inegável era que as distâncias tornavam os processos lentos ou os atravancavam. Era indiscutível era que esta situação estimulava a impunidade e mais crimes – tipos de apreensão observados pelos Presidentes. As implicações negativas das falhas de comunicação desta rede atingiam diretamente as cidades potiguares: a população, sem entendimento de que ações individuais acarretavam prejuízos para a coletividade, certos da impunidade, se desvirtuavam das legislações. A apreensão da elite sobre estas questões demonstra que se tratava de um grave problema. Mais uma vez, os padrões de civilidade social, seja no campo, seja na cidade, estavam longe de serem os desejados pela elite. Oficialmente, a quantidade de comarcas permanece a mesma, e o problema das longas distâncias continuou. Cabe ressaltar, nesta discussão sobre as comarcas, que representavam mais uma forma, como o município, de controle e
18 O Distrito de Paz é caracterizado pela existência do Juiz juntamente com o seu escrivão, constituindo-
se o Juízo de Paz. De acordo com Vieira Ferreira in Rodycz, (2003, p. 08), as funções do Juiz de Paz consistiam em “conciliar as partes antes da demanda, processar e julgar as causas cíveis cujo valor não excedesse a dezesseis mil-réis; manter a ordem nos ajuntamentos (reuniões públicas), dissolvendo-os no caso de desordem; pôr em custódia os bêbados durante a bebedice [...]”, dentre várias outras atribuições citadas pelo autor, que sempre tinham a ver com a ordem social, com a gestão dos recursos naturais, agricultura, etc. Rodycz esclarece ainda (2003, p. 22) que o “Distrito de Paz” era a área de jurisdição do Juíz de Paz, determinada pelas Câmaras Municipais, devendo conter pelo menos setenta e cinco casas habitadas. Em 1834, o Ato Adicional transferiu essa atribuição das Câmaras Municipais para as Assembleias Provinciais. Acesso em outubro de 2013, através do site:
http://www.tjrs.jus.br/export/poder_judiciario/historia/memorial_do_poder_judiciario/memorial_judiciario_ga ucho/revista_justica_e_historia/issn_1676-5834/v3n5/doc/02-Wilson_Rodycz.pdf
organização do território, desta vez do ponto de vista judicial. Percebe-se também, que as comarcas têm suas sedes nos núcleos urbanos mais importantes, o que demonstra mais uma vez o papel destes na organização do território.