B. Hareket Teorileri
1. Hareketin Birleştirici İncelenmesi
Como pudemos verificar através da análise da trajetória política de Bernstein, seus posicionamentos básicos não sofreram uma reviravolta radical, como querem nos fazer crer muitos estudiosos de seu pensamento540. As incongruências e ambigüidades presentes desde o início de seu percurso intelectual, marcado predominantemente por uma evidente inclinação ao ecletismo e ao antidogmatismo, já sinalizavam para o fato de que Bernstein não adotaria, ao longo de sua vida, um viés teórico estritamente marxista.
540 Bo Gustafsson (1975, p.115) identifica como momento marcante desta ruptura o comentário e epílogo
elaborados por Bernstein em 1895/1896 para a edição alemã do livro “História da Revolução Francesa de 1848”, de Louis Héritier. Nestes escritos Bernstein realiza uma dura crítica aos insurretos, opondo-se radicalmente à interpretação de Marx exposta em “A Luta de Classes na França – de 1848 a 1850”. Contudo, na literatura a versão mais corrente localiza a “conversão” de Bernstein ao revisionismo ainda no ano de 1896, na série de artigos reunidos sob o nome “Problemas do Socialismo”, publicados pela Neue Zeit (Gay, 1970; Fetscher, 1982; Kolakowski, 1985; e Schorske, 1972).
Seja no âmbito de sua atividade jornalística, de seus escritos teóricos ou de sua atuação partidária e parlamentar, Bernstein declarava-se acima de doutrinas e alinhamentos políticos, assinalando seu compromisso com a verdade. Compreendida como princípio científico, a verdade seria instrumento fundamental à orientação da prática política voltada para a produção de resultados. Consoante argumentara em “O novo desenvolvimento das relações agrárias na Inglaterra”, artigo escrito em 1896, mesmo não sendo algo sempre agradável a verdade seria útil e indispensável, pois nos ensinaria a voltarmos forçosamente nossa atenção para as tarefas que podemos efetivamente resolver, afastando-nos do imobilismo derivado de idéias que não se encontram amparadas na realidade541.
Como na doutrina positivista, a “verdade” apurada cientificamente seria o antídoto contra a contaminação pelo utopismo e por outras mistificações a que os indivíduos estariam sujeitos. Dentre estas mistificações encontrar-se-ia ainda o culto a personalidades. Ao propugnar que o interesse da “grande causa” não poderia ser ofuscado pela glória de um único indivíduo, Bernstein alertava que a social-democracia não deveria possuir lendas nem fazer de seus precursores “santos”. Tais personalismos e glorificações impediriam a submissão dos líderes e expoentes da social-democracia à devida análise crítica542 tanto no plano teórico quanto no plano das ações político-organizativas.
Tendo isso em vista, Bernstein realizou em seu estudo biográfico sobre Ferdinand Lassalle, escrito entre 1889 e 1890, uma incisiva censura ao culto erigido ao seu redor, promovido por discípulos como Hasselmann, Hasenclever e Tölcke – responsáveis, em sua concepção, pela conversão da Associação Geral dos Trabalhadores Alemães em uma espécie de “seita”543. Se nesta fase contava ainda com o relevante apoio e orientação de Engels na tarefa de dessacralizar a figura de Lassalle – e assim minar a influência deste sobre o movimento operário – em apenas alguns anos Bernstein voltou suas armas em direção ao arcabouço teórico marxiano.
Mesmo não sendo possível ou apropriado determinar no tempo o momento preciso do “desvio teórico” bernsteiniano em direção ao revisionismo, pode-se facilmente constatar que no final da última década do século XIX, sobretudo após a morte de Engels em 1895,
541 BERNSTEIN. “Problemas del socialismo”. 1896-1897. In: Las Premisas del socialismo y las tareas de la socialdemocracia. Problemas del socialismo. El revisionismo en la socialdemocracia. México: Siglo Veintiuno, 1982, p.39.
542 BERNSTEIN, Eduard. Ferdinand Lassale: le réformateur social. Paris: Marcel Rivière, 1913, p.227. 543 Ibid, p. 226.
Bernstein passou a dedicar-se com maior afinco à tarefa de sublinhar e esclarecer seus pontos de discordância em relação ao marxismo oficial do partido.
Embora suas críticas fossem endereçadas à direção do Partido Social-Democrata Alemão – que a seu ver seria responsável por obstaculizar o progresso prático da social- democracia através da adoção intransigente de fórmulas rígidas preestabelecidas, oriundas da doutrina marxista –, Bernstein passou a defender a polêmica proposta de elaboração de uma ampla e profunda revisão das teses fundamentais de Marx e Engels, no intuito de oferecer fundamentos teóricos à prática reformista.
Recorrendo tanto à tradição socialista precedente, como é o caso de Proudhon, quanto a autores declaradamente liberais, como Lujo Brentano e Julius Wolf, e escorando-se ainda na análise de dados empíricos relativos ao progresso da economia alemã provenientes do censo industrial de 1895, Bernstein pretendia apontar erros e contradições nos ensinamentos dos pais fundadores do socialismo científico, desferindo sérios ataques contra a teoria do colapso, a teoria da concentração do capital, a teoria da polarização das classes, a teoria do depauperamento do proletariado, a teoria do valor e a própria concepção materialista da história.
Com efeito, o revisionismo socialista, “com base na ciência e nas exigências da luta prática”544, procurava enxergar as mudanças políticas, econômicas e sociais geradas no seio da sociedade capitalista, investigar suas conseqüências e atestar seu impacto sobre a teoria marxista, a fim de determinar quais conclusões e pressuposições da doutrina teriam se tornado obsoletas frente ao desenvolvimento histórico subseqüente.
Em resumo, conquanto anunciasse sua filiação à tradição marxista, o empreendimento teórico bernsteiniano possuía claros objetivos práticos: extirpar do programa político da social-democracia os elementos considerados indesejáveis e ultrapassados constantes do projeto socialista, expor a divergência entre os meios e os fins defendidos pela ala “ortodoxa” e fundar alicerces teóricos que servissem de sustentação à tática gradualista, já defendida por diversos segmentos do partido.
Opondo-se ao dogmatismo imperante entre os membros da “ortodoxia” – que, de acordo com Bernstein, privaria a teoria marxista de seu genuíno caráter científico ao transformá-la em uma “sectária profissão de fé” 545 – asseverava que qualquer teoria socialista
544 BERNSTEIN. “The Marx cult and the right to revise”. In: Selected writings of Eduard Bernstein: 1900 – 1921. New Jersey: Humanities Press, 1996, p.46. Artigo publicado pela Sozialistische Monatshefte, em 1903.
que clamasse aderir aos imperativos do método científico deveria admitir invariavelmente a necessidade de revisão da construção marxiana. Sendo assim, um culto a Marx seria justificado apenas enquanto permanecesse no estrito limite da razão e do método científico.
Os primeiros esforços do autor no sentido de realizar uma ampla revisão da teoria marxista foram efetuados por intermédio de uma série de artigos intitulados “Problemas do Socialismo”546 publicados na Neue Zeit entre 1896 e 1898 e desenvolvidos, a pedido de Karl Kautsky e Viktor Adler, no livro “Os Pressupostos do Socialismo e as Tarefas da Social- democracia”, em 1899547. Nestes escritos, Bernstein dedica-se a compor os princípios basilares do revisionismo, aos quais manteve-se fiel até o final de sua vida548. Seu objetivo primordial consistia na refutação da teoria do colapso, propagada, ainda que de modo paradoxal, pelos líderes da social-democracia alemã e firmada na parte teórica do Programa de Erfurt. Estes aliavam à prática imediatista de luta por reformas políticas e econômicas uma confiança inabalável na iminente derrocada final do capitalismo resultante do agravamento das crises econômicas, conforme Marx e Engels haviam propugnado.
Bernstein, ao contrário, opunha-se frontalmente à idéia de que a sociedade burguesa estivesse à beira de um colapso. De acordo com sua perspectiva evolucionista, a economia capitalista teria desenvolvido inúmeros mecanismos de adaptação que a teriam tornado praticamente imune a crises econômicas gerais. Deste modo, todas as previsões marxianas relativas às conseqüências funestas da lei geral da acumulação capitalista – a concentração do capital, a queda tendencial da taxa de lucro, a expansão do exército industrial de reserva, o agravamento do pauperismo e a polarização das classes, isto é, os fatores que desvelariam o caráter contraditório da acumulação capitalista – estariam, para Bernstein, sob muitos aspectos, superadas.
Seu diagnóstico, no entanto, explora de modo ligeiro e superficial a nova faceta apresentada pelo capitalismo em sua fase expansionista. Limita-se a enunciar os efeitos produzidos pelas mudanças circunstanciais, que em sua análise ganham caráter definitivo e invariável. Nestes termos, o largo e contraditório processo histórico de expansão industrial atravessado pela Alemanha a partir de meados do século XIX assume, na otimista e
546 Ver seção 3.1.
547 Ao tempo da publicação do respectivo livro, as teses de Bernstein já haviam sido rechaçadas e condenadas no
Congresso do Partido Social-Democrata Alemão, em Stuttgart, realizado em 20/10/1898.
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Não observamos uma mudança substancial entre o pensamento de Bernstein até 1899, quando escreve “Os
Pressupostos...”, e seu pensamento após 1900. Deste modo, não aderimos à conceituação proposta por Manfred Steger (1997) que faz a diferenciação entre o “revisionismo de juventude” e o “revisionismo maduro” de Bernstein.
problemática análise bernsteiniana, o caráter de processo civilizador, no qual a sociedade dirigir-se-ia progressiva e linearmente no sentido da maior estabilidade, organização e harmonia social.
Deste modo, sua predição entrevê no âmbito da própria sociedade capitalista a passagem da anarquia da produção ao controle social a cargo do Estado, a suplantação da reificação das relações sociais e da alienação do trabalho pelo despertar moral de todas as classes sociais e a substituição da luta de classes pela cooperação geral.