• Sonuç bulunamadı

A distinção entre os dois tipos de produção indispensáveis a toda ordem social, apontada por Engels no prefácio ao seu livro de 1884, isto é, a dimensão da produção dos meios de subsistência e necessidades sociais e a da produção dos próprios seres humanos, não foi objeto de maior elaboração dos fundadores do materialismo histórico. Os escritos de Marx, particularmente “O

capital”, não visavam uma teoria geral da reprodução, abordando a questão a partir da análise histórica das relações sociais desenvolvidas no âmbito do modo de produção capitalista.

De acordo com Marx, produção e reprodução (latu sensu) da ordem social são processos inter-relacionados, que não podem ser concebidos como momentos isolados. O processo de produção, portanto, é considerado “em sua permanente conexão e constante fluxo de sua renovação”, de modo que todo processo social de produção é, ao mesmo tempo, um processo de reprodução66. Sob o capitalismo, tal continuidade exigiria o permanente consumo da força de trabalho pelo capitalista e a renovação das condições de exploração do trabalhador – que o obrigam a constantemente vender sua força de trabalho para viver67:

Na realidade, o trabalhador pertence ao capital antes que se venda ao capitalista. Sua servidão econômica é, ao mesmo tempo, mediada e escondida pela renovação periódica da venda de si mesmo, pela troca de seus patrões individuais e pela oscilação do preço de mercado do trabalho. O processo de produção capitalista, considerado como um todo articulado ou como processo de reprodução, produz, por conseguinte, não apenas a mercadoria, não apenas a mais-valia, mas produz e reproduz a própria relação capital, de um lado o capitalista, do outro o trabalhador assalariado 68.

Como Marx destaca, se o processo de produção é iniciado com a compra da força de trabalho por determinado tempo, esse início deve se renovar incessantemente69. O consumo da força de trabalho pelo capitalista como meio para a autovalorização do capital depende, assim, da constante manutenção e reprodução biológica e social da classe trabalhadora. Desta maneira, a reprodução do capital encontra-se vinculada ao consumo individual de meios de subsistência realizado pelos trabalhadores, ainda que este se dê fora do ambiente da produção, por exemplo, na esfera familiar.

66 MARX, Karl. “O Capital: crítica da economia política”. Volume 1, Tomo 2. In: Coleção os economistas. São Paulo:

Nova Cultural, 1985, p.153. Trata-se do Livro 1, capítulo XXI (“Reprodução simples”) de “O Capital”.

67

MARX, Karl. “O Capital: crítica da economia política”. Volume 1, Tomo 2. In: Coleção os economistas. São Paulo: Nova Cultural, 1985, p.153. Trata-se do Livro 1, capítulo XXI.

68 MARX, Karl. “O Capital: crítica da economia política”. Volume 1, Tomo 2. In: Coleção os economistas. São Paulo:

Nova Cultural, 1985, p. 161.

69 “Como o processo de produção é, ao mesmo tempo, o processo de consumo da força de trabalho pelo capitalista, o

produto do trabalhador transforma-se continuamente não só em mercadoria, mas em capital, em valor que explora a força criadora de valor, em meios de subsistência que compram pessoas, em meios de produção que empregam o produtor. O próprio trabalhador produz, por isso, constantemente a riqueza objetiva como capital, como poder estranho, que o domina e explora, e o capitalista produz de forma igualmente contínua a força de trabalho como fonte subjetiva de riqueza, separada de seus próprios meios de objetivação e realização, abstrata, existente na mera corporalidade do trabalhador, numa só palavra, o trabalhador como trabalhador assalariado. Essa constante reprodução ou perpetuação do trabalhador é a condição sine qua non da produção capitalista” (MARX, Karl. “O Capital: crítica da economia política”. Volume 1, Tomo 2. In: Coleção os economistas. São Paulo: Nova Cultural, 1985, p. 158).

Embora este consumo individual do trabalhador seja “para ele mesmo improdutivo, pois reproduz apenas o indivíduo necessitado; ele é produtivo para o capitalista e para o Estado, posto que produz a força produtora da riqueza alheia”70. Podemos concluir, portanto, que, segundo Marx, o consumo individual dos trabalhadores apresenta-se, em última instância, como condição objetiva do processo produtivo, sendo o combustível necessário para o dispêndio da força de trabalho. Tal como uma máquina necessita de permanente manutenção para o seu efetivo funcionamento, os trabalhadores, mesmo fora do processo direto de trabalho, tornam-se um acessório do capital e seu consumo individual, dentro de certos limites, “é apenas um momento do processo de reprodução do capital” 71:

Ao considerar a “jornada de trabalho” etc., mostrou-se oportunamente que o trabalhador é com frequência forçado a fazer de seu consumo individual mero incidente do processo de produção. Nesse caso, ele se abastece de meios de subsistência a fim de manter sua força de trabalho em andamento, como se abastece de água e carvão a máquina a vapor e de óleo a roda. Nesse caso, seus meios de consumo são simples meios de um meio de produção; seu consumo individual, consumo diretamente produtivo.72

O consumo individual dos trabalhadores, destarte, seria imprescindível ao capital não somente por aqueles converterem o que lhes é pago em meios de subsistência comprados no mercado – permitindo a circulação de mercadorias –, mas também por garantir a conservação e reprodução do meio de produção mais indispensável ao capitalista: o próprio trabalhador. O consumo do trabalhador, então, seria de dupla espécie, já que tanto atuaria como força motriz do capital como executaria funções vitais fora do processo de produção73:

O consumo individual do trabalhador continua sendo, pois, um momento de produção e reprodução do capital, quer ocorra dentro, quer fora da oficina, da fábrica etc., quer dentro quer fora do processo de trabalho, exatamente como a limpeza da máquina, se esta ocorre

70 MARX, Karl. “O Capital: crítica da economia política”. Volume 1, Tomo 2. In: Coleção os economistas. São Paulo:

Nova Cultural, 1985, p. 158.

71

MARX, Karl. “O Capital: crítica da economia política”. Volume 1, Tomo 2. In: Coleção os economistas. São Paulo: Nova Cultural, 1985, p. 158.

72 MARX, Karl. “O Capital: crítica da economia política”. Volume 1, Tomo 2. In: Coleção os economistas. São Paulo:

Nova Cultural, 1985, p.157.

73

“O dinheiro – essa parte do capital que o capitalista gasta para adquirir capacidade de trabalho – , considerado sob a sua forma real, representa nem mais nem menos do que os meios de subsistência existentes no mercado – ou nele lançados em certas condições que entram no consumo individual do operário. O dinheiro não é mais do que a forma modificada destes meios de subsistência; mal o recebe, o operário converte-o de novo em meios de subsistência. Esta transformação, assim como posteriormente o consumo destas mercadorias enquanto valores de uso, é um processo que não conserva nenhuma relação direta com o processo imediato de produção, mais exatamente com o processo de trabalho; antes se efetua à margem do mesmo.” (MARX, Karl. Capítulo VI inédito de “O capital”. São Paulo: Centauro, 2004, p. 49).

durante o processo de trabalho ou durante determinadas pausas do mesmo. (...) Em nada altera a coisa se o trabalhador realiza seu consumo individual por amor a si e não ao capitalista. Assim, o consumo do animal de carga não deixa de ser um momento necessário do processo de produção porque o animal se satisfaz com o que come. O capitalista pode deixar tranquilamente seu preenchimento a cargo do impulso de autopreservação e procriação dos trabalhadores. Ele apenas cuida de manter o consumo individual deles o mais possível nos limites do necessário (...) 74.

Ao mesmo tempo em que Marx considera o consumo essencial ao processo de trabalho75 e à reprodução das relações sociais no seu conjunto, o autor destaca a relativa autonomia dos trabalhadores na fruição de seus salários – dentro dos limites já estabelecidos pelo seu próprio valor de troca. Nestes termos, o consumo seria revestido de uma aparência voluntária, pois, em regra, o operário consome os seus meios de subsistência quando o processo imediato de produção é interrompido76, longe do controle do capitalista. Assim, “a parte do capital gasta em salários aparece formalmente como uma parte que já não pertence ao capitalista, mas sim ao operário”, adotando a forma de meios de subsistência que, por sua vez, serão consumidos privadamente pelos trabalhadores77.

É o próprio operário que converte o dinheiro em valores de uso quaisquer, compra com eles esta ou aquela mercadoria e, como possuidor de dinheiro, como aquisidor de mercadorias se encontra face aos vendedores de mercadorias exatamente na mesma relação que todos os demais compradores. As condições da sua existência – assim como a quantidade de valor do dinheiro por ele ganho – forçam-no desde logo a realizar esse dinheiro num círculo bastante restrito de meios de subsistência. Mesmo assim, é possível aqui algumas variações. (...) O operário pode fazer economias e pode imaginar que entesoura. Pode, do mesmo modo, desbaratar o salário em aguardente, etc. Ao fazê-lo, contudo atua como agente livre e tem que arcar com as consequências; é ele o responsável que pela forma como gasta o seu salário, aprende a autodominar-se ao contrário do escravo, que

74 MARX, Karl. “O Capital: crítica da economia política”. Volume 1, Tomo 2. In: Coleção os economistas. São Paulo:

Nova Cultural, 1985, p. 157.

75 “É certo que na realidade o consumo de meios de subsistência pelos operários pode englobar-se (incluir-se) no

processo de trabalho; assim como, por exemplo, se inclui nas máquinas o consumo de matérias instrumentais pelas mesmas, também o operário se apresenta apenas como um instrumento adquirido pelo capital que para a sua função no processo de trabalho exige consumir, receber, certa porção dos meios de subsistência com caráter de matérias instrumentais”(MARX, Karl. Capítulo VI inédito de “O capital”. São Paulo: Centauro, 2004, p. 49).

76 MARX, Karl. Capítulo VI inédito de “O capital”. São Paulo: Centauro, 2004, p.50. 77 MARX, Karl. Capítulo VI inédito de “O capital”. São Paulo: Centauro, 2004, p. 50.

necessita de um amo. É claro que isto é válido apenas se se considerar a transformação dos servos ou escravos em trabalhadores livres, assalariados. A relação capitalista apresenta-se neste caso como uma promoção na escala social.78

De acordo com Marx, portanto, apesar do consumo dos meios de subsistência não integrar o processo imediato de produção de mercadorias, constitui pressuposto da própria venda da capacidade de trabalho, sendo determinante para a absorção do maior quantum possível de trabalho vivo pelo capital79. Se, como sublinha Marx, o trabalhador livre é responsável pela mercadoria que fornece ao capitalista, devendo fornecê-la com certo nível de qualidade se não quiser ceder o seu lugar a outros vendedores de mercadorias do mesmo gênero, o consumo dos meios de subsistência deve ser realizado de maneira a atender da melhor forma possível aos anseios do capital. Mesmo afastados do processo produtivo imediato e do controle do capitalista individual, as vidas dos trabalhadores continuam, pois, regidas pelas necessidades impostas pela produção capitalista, em sua totalidade.

Do mesmo modo que seu consumo individual, as relações familiares, que em geral interferem neste consumo, estariam também sujeitas aos efeitos da exploração capitalista. À medida que a indústria e a organização social da produção se desenvolvem, todos os membros da família tornam-se potenciais vendedores de força de trabalho, de forma que, se o trabalhador vendia anteriormente sua própria força de trabalho – da qual dispunha como pessoa formalmente livre –, agora vende igualmente sua mulher e filhos, tornando-se, nas palavras de Marx, um “mercador de escravos”80.

A apropriação de forças de trabalho suplementares pelo capital conduziria cada vez mais à substituição do trabalho masculino adulto pelo trabalho feminino e infantil81 levando à ruína física, devastação intelectual e degradação moral das crianças, jovens e mulheres trabalhadoras. Além de

78 MARX, Karl. Capítulo VI inédito de “O capital”. São Paulo: Centauro, 2004, p. 103. 79

“A forma do valor de uso de que essa parte se reveste, na sua condição de mercadoria, antes do seu ingresso no processo de produção – como meios de subsistência – é pois completamente diferente da forma que adota no interior desse processo e que é a da força de trabalho que se manifesta ativamente, a do próprio trabalho vivo. É isto portanto o que diferencia especificamente esta parte do capital daquela que existe com a forma de meios de produção, e essa mesma é a razão pela qual, com base no modo capitalista de produção, os meios de produção no sentido lato – ao contrário de (e antítese com) os meios de subsistência – aparecem como capital em si e para si.” (MARX, Karl.

Capítulo VI inédito de “O capital”. São Paulo: Centauro, 2004, p.50).

80 MARX, Karl. “O Capital: crítica da economia política”. Volume 2. In: Coleção os economistas. São Paulo: Nova

Cultural, 1985, p. 23. (Trata-se originalmente do Livro 1, Capítulo XIII de “O Capital”).

81

“À medida que a maquinaria torna a força muscular dispensável, ela se torna o meio de utilizar trabalhadores sem força muscular ou com desenvolvimento corporal imaturo, mas com membros de maior flexibilidade. Por isso o trabalho de mulheres e crianças foi a primeira palavra de ordem da aplicação capitalista da maquinaria! (...). transformou-se rapidamente num meio de aumentar o número de assalariados, colocando todos os membros da família dos trabalhadores, sem distinção de sexo nem idade, sob o comando imediato do capital. O trabalho forçado para o capitalista usurpou não apenas o lugar do folguedo infantil, mas também o trabalho livre no círculo doméstico, dentro dos limites decentes, para a própria família.” (MARX, Karl. “O Capital: crítica da economia política”. Volume 2. In:

convertê-los em meras máquinas de produção de mais-valia, “com a adição preponderante de crianças e mulheres ao pessoal de trabalho combinado”, a maquinaria quebraria finalmente a “resistência que o trabalhador masculino ainda opunha na manufatura ao despotismo do capital” 82.

A rebeldia dos trabalhadores masculinos daria lugar à docilidade e subserviência, consideradas características próprias das mulheres e crianças, o que viria a repercutir negativamente na luta de classes. Marx reafirma esta preocupação em uma nota de pé de página, ao analisar a questão das leis fabris na Inglaterra em “O Capital”, quando apresenta a seguinte citação de um trecho do discurso de Lord Ashley ao Parlamento inglês83:

O Sr. E., um fabricante, informou-me de que emprega exclusivamente mulheres em seus teares mecânicos; ele dá preferência às mulheres casadas, especialmente àquelas com família em casa, que depende delas para se sustentar; são muito mais atentas e dóceis, e são compelidas a aplicar o máximo de seus esforços para obterem os meios de subsistência de que necessitam. Assim, as virtudes, as virtudes peculiares do caráter feminino, são pervertidas para seu próprio prejuízo – assim, tudo o que há de mais honesto e terno em sua natureza é transformado num meio de sua escravização e sofrimento.84

A troca de homens por mulheres e crianças, portanto, contribuiria para conter a revolta contra os patrões, promovendo a tolerância às formas mais brutais de exploração em nome da preservação do emprego e da garantia do sustento da família. Além de provocar o rebaixamento geral dos salários pela introdução de novas reservas de trabalhadores cujo trabalho é depreciado, a substituição da força de trabalho masculina levaria o valor dos salários – antes equiparado ao tempo necessário à reprodução da força de trabalho do trabalhador e seus dependentes – a decair ao patamar de subsistência do trabalhador individual:

O valor da força de trabalho era determinado pelo tempo de trabalho não só necessário para a manutenção do trabalhador individual adulto, mas para a manutenção da família do trabalhador. A maquinaria, ao lançar todos os membros da família do trabalhador no mercado de trabalho, reparte o valor da força de trabalho do homem por toda a sua família. Ela desvaloriza, portanto, sua força de trabalho. A compra de uma família parcelada, por exemplo, em 4 forças de trabalho, custa,

82 MARX, Karl. “O Capital: crítica da economia política”. Volume 2. In: Coleção os economistas. São Paulo: Nova

Cultural, 1985, p. 28.

83 “Tem Hours Factory Bill. The Speech of Lord Ashley”, discurso pronunciado em 15 de março de 1844, no

Parlamento ingles.

84 MARX, Karl. “O Capital: crítica da economia política”. Volume 2. In: Coleção os economistas. São Paulo: Nova

talvez, mais do que anteriormente a compra da força de trabalho do cabeça da família, mas, em compensação, surgem 4 jornadas de trabalho no lugar de uma, e o preço delas cai proporcionalmente ao excedente de mais-trabalho dos quatro em relação ao mais-trabalho de um. Agora, quatro precisam fornecer não só trabalho, mas mais- trabalho para o capital, para que uma família possa viver. Assim a maquinaria desde o início amplia o material humano de exploração, o campo propriamente de exploração do capital, assim como ao mesmo tempo o grau de exploração 85.

O barateamento da força de trabalho e a intensificação da exploração na indústria atingiriam inclusive o trabalho domiciliar moderno86. O trabalho a domicílio passaria a ter sua estrutura tradicional completamente revolucionada, sendo regido pelo ritmo industrial e pela superexploração da força de trabalho. Para suprir as necessidades familiares, o lar converte-se em “antro de miséria”87, marcado pela “brutalidade do trabalho excessivo e noturno”, sob o controle da autoridade paterna (patria potestas).

Contudo, se por um lado a exploração capitalista teria contribuído para o abuso do poder paterno no seio da família, por outro, ao desafiar os fundamentos da economia tradicional e lançar ao mercado de trabalho mulheres e crianças, abriu caminho para a dissolução das antigas relações familiares88. Marx, então, reconhece na grande indústria a oportunidade de mulheres, jovens e crianças transitarem para além da esfera domiciliar, propiciando a sua participação no processo de produção social. Desta maneira, o modo de produção capitalista gera o fundamento econômico para uma forma mais elevada de família e de relações entre ambos os sexos:

Não é, no entanto, o abuso do poder paterno que acarretou a exploração direta ou indireta de forças de trabalho imaturas pelo capital, mas, pelo contrário, é o modo de exploração capitalista que fez do poder paterno, ao suprimir sua correspondente base econômica, um abuso. Por terrível e repugnante que agora pareça a dissolução do

85 MARX, Karl. “O Capital: crítica da economia política”. Volume 2. In: Coleção os economistas. São Paulo: Nova

Cultural, 1985, p. 23. (Trata-se originalmente do Livro 1, Capítulo XIII de “O Capital”).

86

MARX, Karl. “O Capital: crítica da economia política”. Volume 2. In: Coleção os economistas. São Paulo: Nova Cultural, 1985, p. 78.

87 “A necessidade de generalizar a lei fabril de uma lei de exceção para fiações e tecelagens, estas primeiras formações

da empresa mecanizada, em uma lei de toda a produção social decorre, como se viu, da marcha histórica de desenvolvimento da grande indústria, em cuja esteira é completamente revolucionada a estrutura tradicional da manufatura, do artesanato e do trabalho domiciliar; a manufatura transforma-se continuamente em fábrica, o artesanato em manufatura e, por fim, as esferas do artesanato e do trabalho domiciliar tornam-se, em tempo relativo espantosamente curto, antros de miséria, onde campeiam livremente as mais fantásticas monstruosidades da exploração capitalista.” (MARX, Karl. “O Capital: crítica da economia política”. Volume 2. In: Coleção os economistas. São Paulo: Nova Cultural, 1985, p.91).

88 MARX, Karl. “O Capital: crítica da economia política”. Volume 2. In: Coleção os economistas. São Paulo: Nova

antigo sistema familiar no interior do sistema capitalista, a grande indústria não deixa de criar, com o papel decisivo que confere às mulheres, pessoas jovens e crianças de ambos os sexos em processos de produção socialmente organizados para além da esfera domiciliar, o novo fundamento econômico para uma forma mais elevada de família e de relações entre ambos os sexos. É, naturalmente, tolo tomar como absoluta tanto a forma teuto-cristã de família quanto a forma romana antiga, ou a grega antiga, ou a oriental, que, aliás, constituem entre si uma progressão histórica de desenvolvimento. É igualmente óbvio que a composição do pessoal coletivo do trabalho por indivíduos de ambos os sexos e dos mais diversos grupos etários – embora em sua forma capitalista espontaneamente brutal, em que o trabalhador comparece para o processo de produção e não o processo de produção para o trabalhador –, fonte pestilenta de degeneração e escravidão, tenha, sob circunstâncias adequadas, de converter-se inversamente em fonte de desenvolvimento humano 89.

Apesar de afetar o sistema familiar, o desenvolvimento capitalista não extinguiria a família como instituição. A produção de novas gerações de trabalhadores para a indústria capitalista exigiria não somente a sua manutenção física como ainda a transmissão e a acumulação de