Ao voltarmos nosso olhar para os argumentos utilizados pelos enunciadores com o intuito de justificarem a tese a disciplina de Língua Francesa é desprestigiada na escola, notamos que grande parte deles são fundamentados em um consenso social que atribui maior peso e importância a algumas disciplinas em relação a outras. Dentre os domínios de avaliação, os que mais se destacaram nas falas dos enunciadores foram o Pragmático e o Ético. Eles acentuam que circula nos imaginários sócio-discursivos a relação de utilidade/inutilidade que apresenta cada disciplina no cerne da vida escolar, imprimindo uma avaliação concernente ao domínio do Pragmático. Junto a essa avaliação, os enunciadores trazem em seus discursos certo sentimento de inconformidade com o status da disciplina de Língua Francesa. Eles revelam se sentirem “injustiçados” em relação aos outros professores visto que também passaram por uma formação de nível superior na qual tiveram que lidar com inúmeras dificuldades, mas com muita força de vontade e determinação as venceram, foram submetidos a um concurso público assim como todos os colegas das outras disciplinas, porém não se sentem valorizados como eles, o que imprime aos seus relatos uma avaliação no domínio Ético.
Segundo Charaudeau (2008, p.235), os domínios do Ético e do Pragmático podem combinar-se na medida em que uma regra de comportamento cuja eficácia se mediu e verificou (Pragmática) torna-se um dever ou um modelo de conduta (Ética). Essa realidade vem à tona nos conselhos de classe, momento este em que os docentes e a direção da escola se reúnem para fazerem uma reflexão avaliativa dos conteúdos dados, a qualidade do trabalho desenvolvido, o aproveitamento dos alunos, etc. Segundo os relatos dos entrevistados, a direção escolar faz certa pressão para que os professores de língua estrangeira aprovem seus alunos para as séries seguintes. Tal atitude reflete a hierarquia que a direção da escola atribui a cada disciplina. Todavia, no julgamento de nossos enunciadores, não é ético fazer distinção entre disciplinas que fazem parte da mesma grade curricular e que têm o mesmo tratamento, em termos de peso, nos documentos oficiais.
Aqui cabe abrir um parêntese acerca da questão do peso das disciplinas, assunto bastante recorrente nos discursos dos entrevistados. No terceiro capítulo dessa tese, fizemos uma releitura sobre os textos oficiais que norteiam o ensino, sobretudo na cidade do Rio de Janeiro. Não encontramos qualquer orientação explícita sobre a existência de uma hierarquia entre as disciplinas que justificasse a atribuição de pesos distintos às mesmas. Todavia, tanto a Secretaria Municipal de Educação (SME) quanto a Secretaria de Estado de Educação (SEEDUC) aplicam exames com o intuito de avaliar quantitativamente o ensino e a escola. No exame elaborado pela SME e pela SEEDUC, as disciplinas avaliadas são Língua Portuguesa e Matemática. Logo, podemos subentender que há maior preocupação com algumas disciplinas do que com outras, visto que as avaliações contemplam apenas duas disciplinas e são elas que diagnosticarão o nível da educação no Rio de Janeiro comparando-o aos outros estados do Brasil.
Talvez, essa seja a razão pela qual alguns docentes e a própria direção escolar atribuam peso maior a algumas disciplinas. Vejamos abaixo os trechos das entrevistas (exemplos de 60 a 65) cujos argumentos se fundamentam predominantemente nos domínios de avaliação Pragmático e Ético.
Domínios do Pragmático e do Ético:
Exemplo 60: “O que eu menos faço é ensinar francês”; “eu abro as portas para outro objetivo”; “eu
tento mostrar que tem outros caminhos, eu tento falar da cultura.”;“Em conselho de classe de final de ano o francês não tem peso”; “matemática, português reprovam mas francês, música, educação
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O enunciador E traz em seu discurso uma constatação: “O que eu menos faço é ensinar francês”. Talvez este enunciador esteja fazendo aqui uma alusão aos Parâmetros Curriculares Nacionais que preconizam a formação ampla do cidadão, o que vai além do simples ensino de habilidades linguísticas. Ainda em consonância com os PCNs, o enunciador expõe que desenvolve também um trabalho voltado para a apresentação da(s) cultura(s) do país estrangeiro, fazendo com que o aluno reflita sobre aspectos de alteridade, levando-o assim a repensar a sua própria cultura. Em relação ao lugar da disciplina de Língua Francesa na escola, o enunciador E afirma que essa tem um peso diferente de outras, ou seja, que é vista de uma forma diferente das outras, com exceção das disciplinas de música e educação física, que estariam no mesmo patamar de qualificação do francês. Implicitamente, ele revela não ser ético fazer tudo menos ensinar francês uma vez que foi para isso que estudou e passou em um concurso público. Porém, os documentos oficiais veem maior utilidade no ensino de línguas quando este se volta para reforçar conteúdos de cidadania e apoiar a aprendizagem de outras disciplinas.
Exemplo 61: “No Conselho de Classe você nunca vai ver um aluno ficar reprovado só em francês.
Ele pode ficar só em matemática ou só em português. Essas matérias possuem maior peso”; “acho que é um privilégio do aluno do Pedro II ter essa língua ainda no currículo.” (enunciador V)
No discurso do enunciador V também fica nítido que a disciplina de Língua Francesa possui “menos peso” que as outras e, portanto, nenhum aluno ficará reprovado nessa disciplina. Fica claro o desejo desse enunciador em exaltar a disciplina de Língua Francesa, de mostrar sua importância ao relatar que os alunos de sua instituição são privilegiados por terem a possibilidade de estudarem essa língua estrangeira. Ele não está admitindo que sua disciplina « não sirva para nada » - está julgando o comportamento de seus colegas como antiético por não o reconhecerem como um igual.
Exemplo 62: “Sabemos que tem essa grade curricular em que vem primeiro a Língua Portuguesa e a
matemática, depois vem as outras: ciências, história e depois educação física, artes, música, espanhol e inglês e por último o francês”; “o Município deu até uma valorização agora, de conseguir o método
“Et toi” que facilitou muito a vida do professor”; “quando falam que a Língua Portuguesa é que tem um peso, eu estou de pleno acordo”; não tenho nenhuma tristeza que as pessoas achem que a língua
francesa seja “a coitada”.” (enunciador N)
Novamente, a disciplina de Língua Francesa é vista como aquela de menor importância na escola para o enunciador N. Segundo ele, os imaginários que circulam
caracterizam a disciplina com certa depreciação, como se fosse “a coitada”. Entretanto, o enunciador demonstra não se sentir ofendido com esse julgamento e diz até que concorda com o “sistema de peso” que aparece de forma implícita nos documentos oficiais e nos discursos da comunidade escolar. Também traz, implicitamente, um sentimento de justiça ao apontar a atitude da Secretaria Municipal de Educação ao adotar o manual didático “Et toi” para o ensino de francês. Ele sente sua disciplina valorizada pelo fato de contar com um recurso que já estava disponível a todas as outras.
Exemplo 63: “A matéria dentro da rede é muito desvalorizada”;“eu acho que a própria Secretaria
de Educação desvaloriza a disciplina quando ela coloca que uma matéria reprova e outra não”; “e aí surge o conceito de área em que língua estrangeira, artes, música e educação física fazem parte de
uma área só”; “e depois passou-se a dizer: “Essas não podem realmente reprovar”; “independente
de o aluno fazer ou não fazer, ir ou não ir, sua disciplina não contava”; “eu vejo que é uma disciplina
que nunca vai ser muito levada em conta.” (enunciador W)
O enunciador W reitera a opinião dos outros colegas afirmando que a disciplina de Língua Francesa é desvalorizada em relação às outras. Ele nos explica ainda como surgiram esses conceitos de área, que subdividia as disciplinas em grupos e consequentemente, o grupo que abrigava as disciplinas de Língua Estrangeira, Artes e Educação Física, tidas como as de menor peso, passou a não mais poder reprovar os alunos. Para esse enunciador, a política de organização por área e de atribuição de pesos às disciplinas tirou a importância das mesmas. Mais uma vez vem à tona o sentimento de injustiça como consequência de uma disciplina receber tratamento diferenciado em relação à outra embora todas se façam presentes na grade curricular.
Exemplo 64: “Eu acho que o status é muito diferente do das outras; No conselho de classe eu escuto
assim: “Ah, professor. Se puder abrir mão...”; O aluno já tá em 4 disciplinas e com 3 ele fica em dependência. Se a senhora abrir mão da nota...” ; A língua estrangeira de modo geral ela tá relegada a um segundo plano. O cara tem que saber português, matemática, física e química. (Esse pensamento reflete a opinião do senso comum); Ah, o senso comum. É um “achismo” partilhado por muitos mas é velado ainda. Isso não é comentado. Mas todos partilham dessa ideia. A língua estrangeira é relegada a isso... Dentro da língua estrangeira tem a sua hierarquia: inglês, depois do inglês o espanhol e depois o francês. Ainda tem alemão, italiano... Por que tem no Estado. Mas esses são ainda mais raros que a gente. Coitados! Se eu tô me sentindo meio preterida, imagina esses...”(enunciador B)
O enunciador B também relata o desprestígio da disciplina. Comenta que de uma
forma geral as línguas estrangeiras são sempre desvalorizadas na escola mas há uma hierarquia entre elas, cabendo ao francês a terceira posição. A disciplina de Língua Francesa recebe o status “inferior” em relação a outras, o que seria injusto em sua concepção. A prática
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docente desse enunciador parece estar embasada pelos documentos oficiais no que tange às atividades de caráter mais dinâmico a serem levadas para a sala de aula. Segundo ele, a utilização de materiais de apoio, tais como revistas, filmes e músicas tornam a aula mais atrativa, deixando de ter o caráter monótono acentuado pelos PCNs, por exemplo.
Exemplo 65: “Aí eu chego no conselho e pergunto porque que tem que ser francês que tem que abrir
mão? Não existe nenhum documento que diga que o francês tem menos peso. Eu digo que o francês está na grade curricular, tá na língua estrangeira. Se aqui é francês tem que respeitar. Então tira da grade. Língua estrangeira e educação artística tem peso menor para reprovar o aluno no conselho de classe. Sempre eles pedem no colégio para abrir mão nessas disciplinas.” (enunciador R)
Assim como os outros colegas, o enunciador R relata a menor importância da disciplina de Língua Francesa em relação a outras apesar de desconhecer qualquer texto oficial que regulamente o peso das disciplinas.
A tese de que a disciplina de Língua Francesa é desprestigiada na escola ganha força ao ser confrontada com os argumentos elencados pelos enunciadores. Na concepção deles, por mais que não haja um documento oficial que explicite maior importância para uma disciplina do que para outra, eles justificam essa percepção, essa “norma implícita” pelo fato de a) a disciplina não reprovar e b) a carga horária de trabalho ser reduzida. Os enunciadores se queixam de não terem o poder de sanção já que a disciplina não reprova, ratificando que independentemente do esforço que o aluno fará ao longo do curso ele terá êxito ao final. Por essa razão, acreditamos que todos os argumentos estejam impregnados de valores semânticos pertencentes aos domínios do Pragmático e do Ético ao fazerem referência à inutilidade da disciplina (segundo membros da comunidade escolar) e pelo fato de os professores se sentirem em patamar inferior em relação aos outros embora tenham feito esforços para ocuparem a posição em que se encontram profissionalmente, o que lhes faz sentirem-se injustiçados.
Dando continuidade às análises, a seguir, veremos o olhar da comunidade escolar, a começar pelos alunos, pelo viés dos próprios enunciadores.