A História em Quadrinhos (HQ) é um gênero muito popular, que faz parte do cotidiano de milhares de crianças, jovens e adultos pertencentes a distintas camadas da sociedade. Por ser um gênero textual que faz parte das leituras habituais do grupo infanto-juvenil, tem sido bastante utilizado no ambiente escolar, contribuindo para a formação do leitor e produtor de textos em Língua Materna e Estrangeira. Neste gênero, a linguagem verbal e não verbal são utilizadas simultaneamente para a compreensão da leitura, podendo ser direcionada em diversos tópicos, como: a variação linguística, a relação entre fala/escrita, caracterização de personagens, a depreensão do sentido por meio do contexto, a produção de coesão e coerência, a exploração dos recursos visuais e o contexto crítico (Rama & Vergueiro: 2004).
Grande parte dos materiais didáticos do ensino de Língua Materna e Línguas Estrangeiras utilizam a HQ como auxílio pedagógico. Por ser um gênero bastante conhecido em diversas faixas de leitores, publicado em vários espaços midiáticos e por apresentar um caráter híbrido, a HQ se torna um tipo de texto bastante atraente pelo forte apelo da imagem aliada a linguagem verbal na interação dos personagens quadro a quadro.
O uso de tiras de quadrinhos em provas de concursos e em vestibulares também tem crescido, nestas últimas décadas, deixando de ser visto como função de entretenimento ou como pano de fundo para questões de metalinguagem. Atualmente, boa parte das atividades realizadas com as HQs visa desenvolver a competência leitora do indivíduo ao ativar esquemas de conhecimento a respeito do contexto, gerando
58 estruturas/ quebras de expectativas para a construção inferencial do humor contido em cada história.
As tiras de quadrinhos – objeto desta Tese - são um “subgênero das HQs” que apresentam uma narrativa mais curta cujo eixo narrativo central, em geral não passa de três / quatro vinhetas sequenciais. Todas as cláusulas narrativas observadas na HQ são caracterizadas, em geral, por obedecer a uma ordem linear de eventos. Essa sequência de ações encadeadas (sob distintas formas) oferecem ao texto um desenvolvimento progressivo que, na maioria das vezes, se caracteriza pela tríade início, meio e fim; que constitui um enredo. Essas etapas narrativas se estruturam em termos de uma situação inicial de algo/alguém, que realiza algo, seguindo-se uma transformação da situação anteriormente apresentada, para enfim obter-se um desfecho final. A HQ é formada, concomitantemente pelo modo de organização narrativo por meio dessa sequência de ações lineares quadro – a – quadro e pelos balões, que sinalizam as falas das personagens, sendo que a descrição está nas imagens que elaboram informações detalhadas sobre o ambiente em que se desencadeiam a cena e as expressões faciais dos personagens.
Entretanto, as tiras representam jogos interativos explícitos na composição dos personagens e na sua construção narrativa. O autor das tiras parte do jogo interacional projetado pelos personagens para produzir humor, denunciar ou criticar atuações e comportamentos de indivíduos de um grupo social. Ele também administra dois jogos interativos em que os personagens, quadro – a – quadro, constroem uma história, e outro com o leitor das tiras que re-significa o humor produzido (Lins: 2002). No primeiro esquema interacional, o autor opera com os personagens de modo que esquemas de conhecimento são postos em comparação/ contraste através das pistas de contextualização oferecidas (verbal/ não-verbal), podendo gerar divergências de expectativas nos leitores. Esse estranhamento ocorre porque as estruturas de expectativas dos esquemas de conhecimento projetadas pelos personagens são quebradas intencionalmente. No segundo esquema, o leitor das tiras constrói o humor, através da operação e da comparação desses esquemas de conhecimento e da sua quebra de expectativa ao perceber que o contexto, inicialmente proposto, rompeu com o esperado. Se espera do leitor, desta forma, que utilize os esquemas de conhecimento para construir sentidos.
59 A interação entre os personagens é construída através desta comparação entre diferentes enquadres (Tannen & Wallat, 1986). A mudança de um alinhamento para o outro rompe com as estruturas de expectativas do senso comum, permitindo ao leitor identificar essas operações inferenciais que geram a construção do humor, acionando o conhecimento prévio sobre o perfil das personagens que os compõem, o lugar a que pertencem e as inferências encontradas em seus eixos narrativos (Fiuza: 2004). O duplo sentido atribuído a algumas palavras e expressões, a interpretação literal de certas expressões empregadas no texto, a ironia e a aplicação de regras lógicas para situações ilógicas são algumas dessas estratégias discursivas mais comuns para gerar efeitos humorísticos nas HQs.
Além disso, todo discurso quadrinizado deve ser entendido como uma prática social que se relaciona com o processo histórico e o projeto político de uma dada sociedade (Cirne: 1982). A HQ é um gênero produzido dentro de uma dada sociedade específica e, como tal, apresenta características próprias de cada ambiente da qual ela faz parte, fornecendo aos seus leitores mecanismos da cultura de massa e, ao mesmo tempo, comprometendo-se política e socialmente com o tempo histórico que marca a sua existência.
Cada HQ busca representar, de modo geral, acontecimentos culturais de diversos níveis, fazendo com que os seus leitores possam identificar-se ou não com as suas ideologias. A própria comicidade da HQ demonstra claramente aspectos culturais que podem ser compartilhados por outros grupos sociais. No ensino/aprendizagem, o humor é uma atividade que busca aproximar culturas de diferentes países e regiões (Kulikowski: 2002). Este pode ser visto através do componente imagístico em desenhos e caricaturas e, no linguístico, em jogos de palavras que aproveitam os seus aspectos fônicos para criar um outro contexto. Além de ser uma fonte para se explorar e ativar conhecimentos culturais em aulas de Língua Estrangeira e Materna, o humor busca despertar o senso crítico sobre algumas características de determinados grupos sociais.
O humor pode variar de um grupo social para outro, e a identificação com determinadas situações cômicas vai demonstrar que, em alguns pontos, houve a adesão cultural da comicidade. Para que determinada situação se apresente cômica é necessário que ela apresente um contexto propício para tal, seja linguístico, situacional ou sociocultural (Reyes: 1998). O contexto linguístico é formado pelo material linguístico que precede e segue a um enunciado, denominado de contexto. O contexto situacional é
60 o conjunto de dados acessíveis aos leitores e que se encontram em um espaço físico determinado. O contexto sociocultural é a configuração de dados e sua adequação a diferentes circunstâncias e ao tratamento linguístico adequado em cada tipo de situação. Para a compreensão e a construção humorística das tiras de quadrinho, o leitor busca correlacionar às pistas linguísticas fornecidas na tira aliando-as aos elementos culturais dispostos em cada contexto. O humor tem sido objeto de estudo de inúmeras áreas de conhecimento. Baião (1992:11) assinala que o humor é um fenômeno multifacetado, que deve ser abordado sob forma multidisciplinar, interessando a psicólogos, sociólogos, antropólogos, psicanalistas e terapeutas.
O cômico decorre de um rompimento de uma determinada situação de equilíbrio (Almeida :1999). O riso possui um caráter antagonista, depreciativo e opressor, pois sustenta a humilhação, a disposição e o isolamento do outro. Entretanto, o humor também é substituído pelo prazer da identificação jocosa universal, da reversibilidade, da pluralidade do sentido, construindo jogos de estereótipos sociais e de linguagens, fazendo com que a jocosidade do momento seja absorvida por um grupo.
Freud (1981) discute que os chistes possuem técnicas linguísticas específicas e podem provocar o humor através da condensação, do emprego múltiplo de um mesmo material e do duplo sentido.
O contexto, em que determinado humor está inserido, é construído em cima de acontecimentos sociais. A bagagem cultural dos próprios leitores e como estes os administram ao atuarem, no meio social, também são itens importantes na sua construção (Lins:2002).
O humor se caracteriza por romper o ritmo da sequência “normal” do texto e põe em foco o ridículo, a ternura, a compaixão e a piedade daqueles que os sofrem (Fiuza: 2004). Cabe ao leitor/ ouvinte perceber a diferença entre a mais provável interpretação do texto e a esperta seleção alternativa do interlocutor. O leitor que não consegue realizar a interpretação através do seu “conhecimento prévio ou enciclopédico”, juntamente com a sua interação com o contexto proposto tem dificuldades de construir o efeito humorístico do texto (Possenti: 2010). A cada passo da leitura, o leitor é obrigado a deixar de lado as interpretações possíveis, por serem incongruentes em relação ao restante do texto.
O leitor, ao realizar a compreensão das tiras de quadrinhos tanto em LM quanto em ELE, opera as pistas de contextualização fornecidas, utiliza os seus esquemas de
61 conhecimento compartilhados na interação com o outro e sinaliza as quebras de expectativas, percebidas no eixo narrativo que constroem o efeito humorístico do gênero.