O utilizador do solo tem um objectivo primordial: maximizar a utilidade. Esta utilidade é (28) : "A propriedade em qualquer objecto, através da qual há tendência a produzir benefício, vantagem, prazer, bem ou felicidade...para a parte cujo interesse é considerado". Aparece assim um conceito mais vasto de solo, como recurso passível de um uso, cujo objectivo é maximizar a (sua) utilidade.
Neste contexto, o solo tem dois sentidos (29): é, por um lado, uma forma de propriedade que pode ser transaccionada, embora simultaneamente seja muito mais que uma propriedade privada, sendo a sua possessão mais que uma questão determinada pelo mercado; noutro sentido, o solo é uma forma de propriedade comum, tanto no sentido de passagem através das gerações, como por extensão, no sentido mais vasto de que a comunidade tem interesse nele. É deste contraste de perspectivas que advêm muitos dos conflitos entre o interesse privado e o interesse público.
Depois de um início comunal, artificial em muitos casos (Cap IV- Reconquista), passa- se ao privado, ou ao público, através de tentativas, mais ou menos conseguidas, de alienação do solo ao património público. A passagem a bem público, comunal, faz sentido se considerarmos que a terra é demasiado importante para ser vista meramente em termos de propriedade privada.
Os laços que ligam o homem à terra podem encontrar explicação na sua diversidade e diversidade de usos possíveis, não só a nível pessoal, como a nível de grupos individualizados socialmente. Os meios com que os utentes procedem ao uso do solo têm efeitos na paisagem e nos vizinhos. Se o solo não pode ser materialmente usado como paisagem, tem certamente um valor por razões estéticas (o turismo e recreação usam a terra muito como a agricultura a usa), sendo portanto compreensível que as pessoas se preocupem com aspectos estéticos ligados ao seu uso.
A terra (land) possui um certo número de aspectos e atributos: a sua natureza física e biológica e a sua produtividade em termos ecológicos, como espaço vital para instalação de
coisas, e como paisagem (30). Estes aspectos não são mutuamente exclusivos: o uso do solo
como ecossistema está localizado no espaço e tem dimensões físicas concretas; o uso do solo como espaço e como ecossistema tem consequências definidas no uso do solo como paisagem. Consequentemente, o uso pode proceder segundo três critérios, que interagem e não são, assim, compartimentados.
(28) BURNS, HART, 1970, The collected works of Jeremy Bentham : An introduction to the principles of morals and legislation, Londres, citado por MATHER, 1986, pp. 33
(29) MATHER, 1986, pp. 2 (30) op. cit., pp 6
2.1. Uso do solo como ecossistema
O homem vai procurar manipular os processos ecológicos, por forma a maximizar o potencial ecológico e os fluxos de energia, orientando-os para plantas ou animais percepcionados como valiosos ou úteis para si (comida, roupa, lenha, etc...). A intervenção dá- se a nível de uma gestão do ecossistema, removendo os componentes considerados como pontos de fuga de energia inúteis, e promovendo ou apoiando os componentes positivos. Ao fazer isto, quase invariavelmente, procede a uma simplificação do ecossistema.
No ecossistema natural há um ciclo, quase fechado, de nutrientes e produtos bioquímicos. No manipulado não há o retorno total, a produção é retirada do sistema, a produtividade primária bruta diminui muito. Nesse sentido, a única forma possível de reequilibrar o sistema, é recorrer a inputs artificiais, como os fertilizantes. Com as mudanças tecnológicas na agricultura vai-se reavaliando quais as áreas que podem ser rentavelmente usadas como ecossistema. Paradoxalmente, e é um caso de toda a validade para o Concelho de Mértola, a passagem da enxada à charrua, e desta ao tractor e á ceifeira-debulhadora, implicou o abandono de áreas de maior declive, visto que as máquinas não trabalham com declives acentuados. Neste caso a reavaliação levou ao abandono de áreas (mais) marginais, demonstrando que a influência do meio físico no uso do solo permanece forte, embora sancionado por questões de rentabilidade-intensidade desejada do uso, visto que tecnicamente quase tudo é ultrapassável.
Partindo do princípio que toda a prática agrícola é um uso do solo como ecossistema, é interessante traçar o percurso ao longo dos tempos. Se inicialmente, por razões técnicas, só se exploravam pequenas áreas num regime muito extensivo, nomeadamente através de selecção de espécies com interesse, como as azinheiras, ou produção de mel e cera graças a espécies não cultivadas, bem como parcas colheitas de cereal num sistema de queimada, rapidamente se intensificou o uso. Tendo em consideração que "os recursos só existem graças às técnicas que permitem explorá-los" (31), o aparecimento dos adubos vai permitir colmatar a perda de
inputs no ecossistema de baixa produtividade primária da região.
A agricultura existente até ao final do Século XIX (Cap IV) era, espacialmente, um mosaico disperso de áreas em que o solo era explorado como ecossistema. A maioria do espaço era o ecossistema propriamente dito, espaço vital, que oferecia produções naturais, cuja exploração era tão diminuta que pouco interviria no funcionamento global do conjunto. Nunca é demais realçar, contudo, que esse sistema estaria, então, já longe dum sistema não degradado.
Com as medidas político-económicas que se seguem na primeira metade do Século XX, praticamente todo o espaço vai ser submetido a uso como ecossistema, procurando tirar o máximo partido das suas potencialidades, parcas, através da agricultura. As limitações do ecossistema e a falta de capacidade de inputs artificiais, ou em quantidade insuficiente, acabariam por ditar o falhanço desse uso, sobretudo na extensão e intensidade com que foi tentado. Se houve uma nítida falta de adaptação às condições ecológicas do meio, foi certamente mais por desconhecimento, do que por falta de técnicas de organização do solo, entendidas como "...um dos meios de que dispõe uma determinada sociedade para se adaptar ao ambiente...sistema técnico constituído por instrumentos de trabalho e por conhecimentos técnicos que permitem a sua utilização..." (32).
Actualmente, a visão sistémica e global dos sistemas, bem como o grau de degradação que o sistema atingiu, reduzindo a níveis baixíssimos a rentabilidade da agricultura, tem como consequência uma utilização mais racional e mais extensiva do solo como ecossistema, pelo menos em termos de dimensão espacial, e não obrigatoriamente por vontade própria dos agentes intervenientes.
2.2. Uso do solo como espaço
Este uso faz sobretudo apelo ao conceito de extensão, enquanto o uso como ecossistema implica uma noção de fluxo, as colheitas são tiradas da mesma área ano após ano, existem uma série de inputs e outputs no e do sistema, canais de circulação e trocas dentro dele. No conceito de uso do solo como espaço entram as noções de dimensão, finito e limitado, e desta forma pode haver consumo material do solo. Diga-se que um mau uso do solo como ecossistema também pode levar a um consumo do solo como espaço.
Este tipo de uso é requerido para a instalação de edifícios, estradas, barragens (cujas albufeiras vão usar enormes quantidades de solo como espaço), ou para explorações mineiras, embora neste caso se maximizem recursos subjacentes ao solo.
Neste panorama, e voltando ao Concelho de Mértola, que exemplos se poderão dar ? O mais visível é todo o espaço que a mina e áreas adjacentes utilizaram, consumindo em maior ou menor grau, segundo um critério de necessidade de espaço vital (fábricas, açudes, depósito de escórias, vias de comunicação, infra-estruturas portuárias,...). O buraco deixado na área de exploração da massa mineral é o paradigma não só do consumo de solo como espaço, como do espaço propriamente dito.
2.3. Uso do solo como paisagem
Este uso implica valores estéticos, utilização não material, e o conceito de recurso ambiental. As preocupações paisagísticas embora não tão recentes quanto isso, devem-se na sua intensidade actual à crescente consciencialização do estado de degradação do meio, da interdependência homem-meio, e são resultado do consumo excessivo de solo como espaço para implantação de actividades não naturais.
A percepção deste uso pode ser facilitada recorrendo a várias situações actuais no Concelho de Mértola (mais desenvolvidas no Cap XI). O uso do solo como ecossistema tem a
priori duas consequências: largas áreas ficam sujeitas a usos agrícolas, de valor paisagístico
mais ou menos significativo, mas que são claramente artificiais na medida em que se contrapõem a um sistema natural de extrema diversidade e heterogeneidade, diversidade ecológica essa que é um recurso; e, por degradação, induzem consumo de solo como espaço, visto que a degradação das características edáficas dificulta, ou impossibilita, a recuperação da vegetação natural, podendo também permitir o desenvolvimento excessivo, dominador, de espécies que, de outra forma, se inseririam numa população muito mais vasta e diversificada (caso da monocultura de estevas em campos abandonados ou em áreas de pastagem de caprinos).
A perda de qualidade paisagística consequente, aliada à fraca densidade demográfica da área e ao escasso e demasiado extensivo uso do solo como ecossistema, leva à apetência de funções desqualificadas e desqualificantes, consumidoras de solo como espaço. Refiro-me concretamente a duas hipóteses que são apontadas para o Concelho. São elas um campo de tiro para a força aérea e uma lixeira de resíduos tóxicos, que aproveitaria o enorme buraco que foi a parte da mina a céu aberto (embora, penso, também se recorresse a uso de galerias abandonadas e que não foram encerradas ou inundadas).
No pólo oposto, a crescente preocupação com questões ambientais, ligadas à noção do solo como património comum dum país, enquanto sustentáculo de espécies vegetais e animais que urge proteger, tem tido como consequência a tentativa de classificação de vastas áreas de vegetação natural, pouco ou nada intervencionadas pelo homem. Refiro-me aos topos de vários relevos residuais (cristas quartzíticas), onde a topografia preservou a vegetação e o solo da arroteia (mas não da pastagem), e às vertentes mais declivosas de vales das principais linhas de água, onde uma densa e rica população vegetal subsiste (Guadiana, parte terminal do Cobres, Vascão). O seu interesse, além de paisagístico, até porque associado às características topográficas (pontos altos dominantes ou áreas de nítido interesse sob vários pontos de vista - como o Pulo do Lobo), prende-se também com a necessidade de práticas concretas de conservação da natureza, património da humanidade, e cujas especificidades locais há que proteger a todo o custo. O seu interesse como legado para as gerações
vindouras é hoje enorme e, talvez no futuro, face à degradação crescente do meio, assuma proporções incalculáveis.
Se é verdade que o uso do solo como ecossistema persiste, há agora novas formas de uso, como as coutadas e áreas de caça associativa. O objectivo é, infelizmente, a maximização de uma utilidade discutível, neste caso, por parte dos proprietários: o lucro. No entanto, os benefícios ambientais são grandes, partindo do princípio que este uso do ecossistema implica que ele seja o mais natural possível, por forma a sustentar uma fauna que se deseja, em quantidade e qualidade, o mais próxima possível da que existiria num ecossistema não degradado. Os custos sociais, bem como os problemas ligados ao direito ancestral de uso do solo como ecossistema para efeitos de caça pela comunidade (e outros...), tem criado alguns efeitos perversos e levantado muitos problemas (Cap XI).
Não deixa de ser verdade que, a passagem de largas áreas a um uso do solo como ecossistema natural, só contribuiriam para um maior valor paisagístico, contrariando a apetência de funções consumidoras de solo como espaço. O que é facto é que estas três possíveis utilizações do solo coexistem actualmente, multiplicadas por uma miríade de possíveis maximizações da utilidade desse uso a nível individual. Também aqui, para se poder
ler o uso do solo numa área, é preciso tomar conhecimento de quais as motivações que levam
a diferentes usos, sobretudo se essas motivações são induzidas por acções políticas, como subsídios e fundos de apoio, que fazem despontar, em qualquer momento, novas formas de maximização da utilidade de um uso.