Um dos métodos de ensino mais utilizados pelo mestre Jesus foi o uso das parábolas (cf. Mc 4,33-34). Desta forma Jesus se emparelha ao estilo de
ensino do Antigo Testamento. Ao longo do desenvolvimento das Escrituras, líderes judeus, sábios, poetas e profetas se utilizam de vários temas e idéias recorrentes do imaginário do povo.
Wiersbe98 apresenta todo este processar de idéias e figuras desde o
Pentateuco até o Apocalipse. Lockyer99 de forma mais específica desenvolve
um estudo e análise de mais de 250 parábolas nas Escrituras e afirma que embora as parábolas fossem uma qualidade distintiva de Jesus, não foi ele que criou o método que remonta desde a antiguidade.
Neufeld100 classifica as parábolas de Jesus como:
1. Analogias surpreendentes e justaposições (cf. Mc 4,26-32). 2. Alegorias (cf. Mt 21,33-41; Mc 12,1-9; Lc 20,9-16).
3. Narrativas ou estórias estendidas. 4. Parábolas de juízo (cf. Mt 13,9-16).
5. Provérbios parabólicos ou aforismos (cf. Mt 5,13-16.39-41; 6,22-34; 7,3-27). 6. Parábolas sobre a graça e generosidade de Deus (cf. Mt 6,26.32; 7,11; 20,1- 16; Lc 15,11-32).
7. Parábolas de urgência e juízo (cf. Lc 13,24-30; Mt 25,31-46). 8. Parábolas éticas (Lc 10,29-35).
Este autor afirma que as parábolas de Jesus tinham o objetivo de selecionar aqueles com a habilidade de estarem aptos para o reino de Deus, tanto o presente quanto o vindouro. Também destaca que Jesus recorreu muitas vezes ao gênero literário das Escrituras de Israel, a forma de parábola chamada mashal (
lv'm'
).Snodgrass101 em uma extensa obra de mais de mil páginas também classifica
as parábolas:
1. Ditos aforísticos que são máximas, ou seja, comparações simples (cf. Mt 6,24; Lc 16,13).
98 WIERSBE, W.W. Preaching and Teaching with Imagination. The Quest for Biblical Ministry.
Illinois: Victor Books, 1994, p. 89-195. Tradução minha.
99 LOCKYER, H. Todas las Parábolas de La Bíblia. Miami: Editorial Vida, 1984, 531p. Tradução
minha.
100 NEUFELD, T. R. Y. Recovering Jesus. Grand Rapids, Michigan: Brazos Press, 2007, p. 159-183.
Tradução minha.
101 SNODGRASS, K. Compreendendo todas as parábolas de Jesus. Rio de Janeiro: CPAD, 2010, p.
2. Similitudes, ditos em forma de parábolas (cf. Mt 13,33; 15,14; Lc 6,39;14,28- 32).
3. Parábolas interrogativas (cf. Mt 11,16; Lc 7,31).
4. Parábolas narrativas indiretas simples que são histórias de exemplo (cf. Lc 10,37).
5. Parábolas narrativas duplamente indiretas que são metáforas ampliadas e estruturadas (cf. Lc 13,6-9; 14,15-24).
6. Parábolas narrativas jurídicas que evocam a autocondenação do ouvinte (cf. Mt 21,33-45; Mc 12,1-12; Lc 7,40-47).
7. Parábolas narrativas do tipo “quanto mais” que são histórias de contraste (cf. Mt 7,11; Lc 11,13).
Este mesmo102 autor também alista as características das parábolas de Jesus
da seguinte forma:
1. Histórias breves e austeras são indiretas e dizem o que é estritamente necessário (cf. Lc 14,16-24).
2. Marcadas pela simplicidade e simetria (cf. Mt 18,23-35; 25,14-30). 3. Concentram-se essencialmente nas pessoas.
4. Descrições fictícias tiradas da vida cotidiana, normalmente peseudorrealistas com hipérboles (cf. Mt 18,23-25).
5. São atraentes e sugerem uma pergunta implícita como chave de interpretação.
6. Contêm elementos de inversão para reorientar o pensamento e o comportamento (cf. Lc 10,25-37).
7. O tema central das parábolas é deixado para o final (cf. Mt 7,24-27; Lc 6,47- 49).
8. São contadas dentro de um contexto específico necessitando maior cuidado na interpretação e aplicação.
9. São teocêntricas, apontam para o reino de Deus.
10. Fazem freqüentemente alusão aos textos do Antigo Testamento.
11. A maior parte aparece em meio a coleções ou agrupamentos de parábolas.
Bravo103 destaca mais o distintivo prático e aplicativo das parábolas de Jesus:
1. Elas fazem referência não a doutrinas ou conceitos teológicos, mas a comportamentos (cf. Lc 10,25-37).
2. As parábolas são usadas como uma instância de diálogo com os destinatários.
3. Sua força argumentativa se fundamenta na experiência.
Destes três aspectos destacados, merece um questionamento maior o primeiro, pois mesmo o exemplo dado pelo autor (a parábola do “bom samaritano”) não confere visto que o propósito da parábola citada é um conceito teológico, ou seja, como aplicar a Lei em relação ao próximo.
Jeremias104 acerta quando afirma que um elemento essencial das parábolas é
a capacidade das imagens ficarem gravadas na memória mais fixamente do que temas abstratos. Em contrapartida, erra ao considerar as parábolas de Jesus como algo inteiramente novo, sem paralelos105 nos ensinos rabínicos106
(ele mesmo cita dois exemplos, Hillel e Johanan bem Zakkai). Chega a afirmar que as parábolas de Jesus exerceram uma parte decisiva na origem deste gênero literário das parábolas rabínicas. Em vista das obras já citadas que destacam amplamente este gênero já no Antigo Testamento, estas afirmações não são aceitáveis. Theissen e Merz apresentam a seguinte conclusão sobre este tema:
Jesus e os rabinos recorreram ao mesmo tesouro familiar de imagens, motivos e estruturas narrativas básicas e que, de fato, suas parábolas diferem em vários aspectos, mas são expressões do mesmo gênero.107
103 BRAVO, A. O estilo pedagógico do Mestre Jesus. Coleção Quinta Conferência, Bíblia. São Paulo:
Paulinas e Paulus, 2006, p.57-58.
104 JEREMIAS, J. Las Parábolas de Jesus. Navarra: Editorial Verbo Divino, 1997, p. 11-12. Tradução
minha.
105 VERMES, G. A religião de Jesus, o Judeu. Rio de Janeiro: Imago Editora LTDA, 1993, p. 89-93.
Este autor afirma a regularidade de parábolas nos ensinos dos rabbis e dá exemplos.
106 BORNKAMM, G. Jesus of Nazareth. New York: Harper & Brothers, 1960, p. 69. Nesta obra o autor
afirma que os rabbis também faziam uso abundante de parábolas a fim de clarificar um ponto em seu ensino e explicar o sentido de uma passagem escrita, como um auxílio ao ensino e instrumento de exegese. Tradução minha.
107 THEISSEN, G.; MERZ, A. O Jesus Histórico. Um manual. São Paulo: Edições Loyola, 2004, p.
Bailey108 faz um estudo detalhado das parábolas de Jesus em Lucas, o autor
destaca os contextos orientais de cada parábola, apontado o que Jesus queria que os ouvintes entendessem e fizessem; Também salienta um distintivo muito presente nas parábolas, o paralelismo, tão presente já nas Escrituras do Antigo Testamento.
Cerfaux109 alega que as fontes imediatas do pensamento de Jesus, mais
especificamente as parábolas do reino são os profetas Daniel, Ezequiel e Isaías. Também afirma que as parábolas eram uma forma tradicional de revelação de mistérios (cf. Dn 2,27-28; Is 8,16-17; Mt 11,25-27;13,11; Lc 10,21- 22). Esta revelação seria compreendida pelos verdadeiros discípulos de Jesus e endureceria aqueles que rejeitassem seus ensinos (cf. Is 6,9-10). Levoratti110
vai nesta mesma linha ao comentar sobre a finalidade das parábolas em Mt 13,10-17 e mais especificamente a pergunta dos discípulos: “...Por que lhes falas por parábolas?”. Este autor diz que as parábolas em Mateus não são enigmas indecifráveis, mas se tornam cada vez mais incompreensíveis para aqueles que já estão endurecidos para com os ensinos de Jesus (cf. Mt 13,15). Ou seja, pode-se entender que não são as parábolas que endurecem o coração do povo, o endurecimento é anterior e prejudica o entendimento. Por exemplo, uma leitura simplista de Mt 13,10-17 ou Mc 4,11-12.33-34 pode gerar uma má interpretação quanto a finalidade das parábolas. Jesus procurava elucidar, esclarecer com as parábolas e não esconder os segredos do Reino; Porém, o ensino de Jesus, seguindo a tradição profética é uma espada de dois gumes que produz juízo ou misericórdia, de acordo com o coração dos ouvintes, aqueles judeus que permanecessem obstinados e não reconhecessem a autoridade do ensino de Jesus não entenderiam a mensagem (cf. Mc 4,10-12; Is 6,9).
Bornkamm111 também assevera que entender a finalidade das parábolas de
Jesus com o objetivo de alienar o povo é contraditório com o que é apresentado nos Evangelhos. Ao contrário de certos escribas, seus
108 BAILEY, K. As parábolas de Lucas. São Paulo: Edições Vida Nova, 1995, p. 7-29. 109 CERFAUX, L. Jesus nas origens da tradição. São Paulo: Edições Paulinas, 1972, p. 72-90.
110 LEVORATTI, A. Las Parábolas de Jesus em Mateo 13.1-51 in “Enseñaba por Parábolas...”. Estúdio del género parábola em la Bíblia. Editado por Edesio Sánchez Cetina, p.135, sem mais informações. Tradução minha.
111 BORNKAMM, G. Jesus of Nazareth. New York: Harper & Brothers, 1960, p. 70-71. Tradução
contemporâneos, que procuravam um sentido alegórico para cada palavra e letra, as parábolas de Jesus eram investidas de um “significado imediatamente discernível”112 e podiam ser entendidas por pessoas comuns abertas à
aplicação em sua própria vida.