C. Sirkülerin Yargısal Denetimi
1. Genel Olarak
Deve-se primeiramente situar a pessoa de Paulo em seu contexto histórico a fim de se compreender seus ensinos e práticas.
Segundo Lucas no livro dos Atos dos Apóstolos, Paulo teria sido natural da Cilícia, mais especificamente a cidade de Tarso e posteriormente criado em Jerusalém (cf. At 9,11; 21,39; 22,3; 26,4). O próprio Paulo reafirma sua origem Israelita (Rm 9,4-5; 11,1; 2Cor 11,22; Fp 3,5). Na cronologia proposta por Murphy- O’Connor1 seu nascimento estaria em torno do ano 6 a.C. .
Fabris2 concorda com esta aproximação. Este autor leva em conta o relato do
livro de Atos dos Apóstolos e a primeira menção de Saulo, no momento do martírio de Estevão em cerca de 30 d.C. (cf. At 7,58). O texto descreve Saulo como “jovem” (neani,aj), naquele contexto este termo descrevia pessoas entre 24 e 40 anos. Em Filêmon (c. 50 d.C.), Paulo se apresenta (cf. Fm 9) como “velho” (presbu,thj) naquela época o termo era usado para pessoas entre 50 e 60 anos. Portanto em sua primeira aparição em 30 d.C. Paulo teria entre 25 e 30 anos e em 50 d.C. teria entre 55 e 60 anos, tendo nascido assim na primeira década da era Cristã entre 5 e 10 d.C..
O Nome
No livro de Atos dos Apóstolos a mudança de nome de Saulo para Paulo é sutil (cf. At 13,1-2.7.9.13). Na narrativa de sua conversão, ainda é chamado de Saulo (cf. At 9,1-9) e na continuação da narrativa o próprio Jesus ainda se refere a Paulo com o nome “Saulo de Tarso” (cf At 9,10-18). Mas posterior e incidentalmente seu nome muda3 ao longo das narrativas (cf. At 13,1-13).
Nunca se usa “Saulo” em suas cartas, possivelmente ele teria crescido com os dois nomes como atesta a expressão (Sau/loj de,( o` kai. Pau/loj) “...Saulo, que também se chamava Paulo...” (cf. At 9,9). A duplicidade de nomes era comum
1 MURPHY-O’CONNOR, J.. Paul, a Critical Life. Oxford: Oxford University Press, 1997, p.8.
Tradução minha.
2 FABRIS, R.. Paulo, apóstolo dos gentios. São Paulo: Paulinas, 2003, p.18.
3 Pode-se cogitar que Lucas muda para o nome romano “Paulo” como recurso literário visando destacar a
mudança de eixo na narrativa. Tal qual os patriarcas no AT e o próprio Pedro no NT que tiveram seus nomes mudados para destacar de forma emblemática a missão que exerceriam; Saulo passa a ser Paulo e a partir deste ponto da narrativa, ele lidera as equipes nas viagens missionárias.
no ambiente multilingual do judaísmo antigo; por exemplo, Paulo chama Pedro tanto pelo seu nome grego (Petros) quanto pelo equivalente judeu-aramaico (Cefas)4. Rackham sugere que a mudança de nome se dá de forma
estratégica. O nome judaico de Paulo cai e em seu lugar é usado o nome grego. Mais do que isto desde que Paulo é um cidadão romano e sua missão e viagens serão ao longo do império romano, nada mais adequado do que usar seu nome grego5; Dillon e Fitzmyer6, Harrison7, Munck8 e Bruce9 concordam
com este ponto de vista apresentado. Lake e Cadbury10 optam pela
neutralidade e descrevem uma variedade de opções adotadas historicamente: 1. Cidadania romana.
2. Costume Hebreu de possuir dois nomes. Apoiado por Orígenes. 3. Nome tomado do procônsul Sérgio Paulo. Apoiado por Jerônimo.
4. Nome dado a Saulo quando da sua ordenação para o serviço em Antioquia (cf. At.13,1-4). Apoiado por Crisóstomo.
5. Nome escolhido por Paulo para destacar sua modéstia como o “menor dos apóstolos” (visto que o nome “Paulo” significa pequeno). Apoiado por Agostinho.
Barret, baseando-se na expressão em Atos 13,9 “Saulo que também é Paulo” (Sau/loj de,( o` kai. Pau/loj), nega qualquer possibilidade de Paulo ter adotado um novo nome e sugere somente uma mudança de eixo da narrativa:
A fórmula o` kai tem inumeráveis paralelos nos papiros; isto é, ela não descreve uma mudança de nome e sim introduz o nome alternativo; Paulo, portanto não assume o nome do
4 HARRIL, J. A.. Paul the Apostle. His Life and Legacy in Their Roman Context. Cambridge:
Cambridge University Press, 2012, p. 24.
5 RACKHAM, R. B.. The Acts of the Apostles. Grand Rapids, Michigan: Baker Book House, 1964, p.
203.
6 DILLON, R. J.; FITZMYER, J. A. in BROWN, R. E.; FITZMYER, J. A.; MURPHY, R. E. Eds. CBSJ. Tomo III. Madrid: Ediciones Cristiandad, 1972, p. 489-490.
7 HARRISON, E. F.. Acts: The Expanding Church. Chicago: Moody Press, 1975, p. 206.
8 MUNCK, J.. The Acts of the Apostles. The AB. New York: Doubleday & Company, Inc., 1967, p.
119.
9 BRUCE, F. F.. The Acts of the Apostles. Grand Rapids, Michigan: W. B. Eerdmans Publishing
Company, 1986, p. 257.
10 LAKE, K.; CADBURY, H. J. The Beginnings of Christianity. Part I The Acts of the Apostles.
procônsul. Lucas pode, contudo, ter pensado que esta era uma ocasião apropriada para introduzir o nome romano de Saulo.11
Ramsay12 segue o viés estratégico e afirma que o nome empregado por Paulo
muda em razão do novo cenário que ele enfrentará em suas viagens. Como responderia Paulo a respeito de quem era diante de um procônsul romano? Este autor diz que segundo a metodologia de abordagem de Paulo (cf.1Cor 9,20), seria mais provável ele dizer que era “Paulo um cidadão romano” do que “Saulo um judeu de Tarso”. A narrativa de Atos toma um novo rumo, e a mudança de nome também se alinha com a postura de Paulo como líder daí em diante.
Haaker também comenta sobre este tema do nome de Paulo:
Não há dúvida que Paulo era um judeu de nascimento (Rm 11:1; 2 Cor 11:22; Fp 3:5). Mais precisamente ele reivindicava ser um membro da tribo de Benjamim (Rm 11:1; Fp 3:5) e portanto, faz sentido que seus pais tenham lhe dado o nome do primeiro rei de Israel, aliás único desta tribo, Saulo foi o nome chamado pelo Senhor ressuscitado na visão de Paulo em Damasco (At 9:4; 22:7; 26:14) (...) Desde que Benjamim era o mais novo dos filhos de Jacó/Israel, Paulo poderia ter feito uma alusão à sua origem Benjamita em 1 Cor 15:8, onde ele chama a si mesmo de último e menor dos apóstolos (...) O nome Paulo (proveniente do Latim com significado de “pequeno”) sob o qual ele tornou-se famoso não foi um resultado de sua conversão, mas um segundo nome para ser usado com o público greco- romano (como Silas e Silvano).13
Cidade Natal
De fato, Paulo era de Tarso (cf. At 21,39; 22,3) uma cidade muito antiga (localizada na atual Turquia). Cidade sucessivamente ocupada por vários povos14. Tarso fez parte das conquistas de Alexandre Magno a partir de 330
a.C. Pompeu adicionou a cidade ao império Romano no século I a.C. e a tornou em capital e metrópole da província da Cilícia e uma das principais
11 BARRET, C. K. The Acts of the Apostles. Vol. 1, ICC. Edinburgh: T&T Clark, 1994, p. 616.
12 RAMSAY, W. M. St. Paul the Traveller and the Roman Citizen. Grand Rapids, Michigan: Baker
Book House, 1982, p. 81-83.
13 HAACKER, K. Paul’s Life in DUNN, J. D. G. Ed Gn The Cambridge Companion to ST Paul.
Cambridge: Cambridge University Press, 2003, p. 21.
14 FABRIS, R.. Paulo, apóstolo dos gentios. São Paulo: Paulinas, 2003, p.18-25. Este autor desenvolve
em sua obra uma descrição detalhada sobre como a cidade de Tarso se desenvolveu e quais foram sua dominações políticas e influências culturais.
cidades do império romano15. Desde 66 a.C. seus cidadãos receberam o direito
da cidadania romana (cf. At 22,27-28). Desta forma, a primeira etapa da vida de Paulo se deu em uma cidade cosmopolita, aberta comercial, cultural e religiosamente tanto para o Ocidente quanto ao Oriente16.
Ricciotti resume desta forma a condição da cidade de Tarso:
Tarso, em suma, com o seu comércio mundial, com suas tradições de caráter oriental, com a helenização assimilada, com seus cínicos filósofos estóicos que debatiam no agorá ou às margens do tranquilo rio Cnido, com as suas discussões eruditas, com os oficiais romanos, figurava como uma verdadeira cidade cosmopolita nos melhores tempos do império romano.17
Paulo desta forma nasceu em uma metrópole de prestígio considerável, ainda que seus pais não fizessem parte da classe eminente da indústria ou educação e sim faziam parte da dispersão dos hebreus18. Ricciotti19 afirma que a
população de judeus advindos da diáspora na cidade era numerosa (cf. 2Mc 4,30-36).
Paulo é um judeu legítimo que nasce com cidadania romana em uma cidade dominada pela cultura grega20, este amálgama cultural será de valor
providencial para sua missão. Como comenta Schnelle21, Paulo não era um
itinerante entre mundos diferentes e sim como Filão e Josefo, ele uniu em si a cultura judaico-helenista e o helenismo greco-romano.
Paulo22 tem toda uma vivência cosmopolita, é um judeu da diáspora, mas
passa até o início de sua juventude em Tarso. Devido a este ambiente familiariza-se com idiomas variados, hebraico e aramaico (cf. At 21,40; 22,2), grego (cf. At 21,37).
15 BALL, C. F. A vida e a época do apóstolo Paulo. Rio de Janeiro: CPAD, 1998, p. 6.
16 VASCONCELLOS, P. L.; FUNARI, P.P. Paulo de Tarso. Um apóstolo para as nações. São Paulo:
Paulus, 2013, p. 27-29.
17 RICCIOTTI, G. Paolo Apostolo. Biografia con introduzione critica. Roma: Scuola Salesiana del
libro, 1946, p. 5-9. Tradução minha.
18 WHITE, A. The Apostle Paul. Cincinnati: Jennings and Grahan, 1967, p.13. 19 RICCIOTTI, G. Paolo Apostolo. Biografia con introduzione critica. p. 5-9.
20 GARCÍA, P. Aquel Pablo de Tarso. San Salvador: Parroquia del Corazón de María, 2008, p.14. 21 SCHNELLE, U. Paulo: Vida e pensamento. Santo André: Academia Cristã; São Paulo: Paulus, 2010,
p.92.