4.6 Kentsel Alan Kullanımı
4.6.2 Genel Arazi Kullanımı
Biló descobriu-se confiando em Nossa Senhora de Nazareth, observando as pessoas que pagavam as promessas, ainda quando era menino.
É de... Eu descobri, Miguel, é assim ó: ocê vai olhando... quando eu tava menino, aí, eu tô olhando, os outro tá só... leva um retrato e agora falo:
“Rapaz, por quê que „cê só leva retrato?”; “Isso é graça alcançada”. Falo assim: “graça alcançada, quê isso?”. Aí fiquei pensando, ele falou comigo assim: “É, os outro, às vez, pede Nossa Senhora uma coisa e melhora a
doença ruim, um trem, aí eles pega, promete trazer um retrato, se melhorar,
pra trazer um retrato e por no pé d‟Ela”; “Ah, e trem...”. E nisso foi... Dia
oito eu tô vendo, vinha nêgo e tudo... eu ia lá na igreja, tava aquele mundo de vela acesa, falei assim... aí eu tava conversando, ainda falei assim, perguntei até uma dona na igreja, falando com meu irmão, então, eu falei
assim: “Por quê que „cês acende esse bolo de vela, aqui?”; “Não, num é
nós não, ali cada um faz um pedido pra Nossa Senhora, aí e acende uma
vela”; “Ai, eu posso acender uma?”; ela falou assim: “Ó, ocê pede e pode
acender uma vela aí”; mas eu num acendia não. Aí, eu sai e fui embora10
.
Diante de determinados costumes regionais, como levar um retrato para a Padroeira em função de um pedido atendido, Biló reagia com curiosidade: observando, perguntando e pensando sobre a retribuição que as pessoas davam à graça alcançada11. Aqueles hábitos chamavam a sua atenção para algo que ele desconhecia, inicialmente, e a sua atitude era a de entrar em relacionamento com aquilo que lhe parecia estranho, através de suas investigações sobre o modo como as pessoas ofereciam o seu agradecimento, que tinha como centro de interesse a Padroeira.
Em seu relato, Biló nos explicitou que, envolvendo-se com a festa, ia tomando fé em Nossa Senhora, na medida em que testemunhava as graças que outras pessoas alcançavam, além daquelas que ele mesmo já tinha atingido.
Tomando [fé] é porque na gente mexendo, a gente vê graça que Ela faz e os outro alcançando muita graça, a gente também alcançando graça, então, a
gente vai tendo fé n‟Ela. Que todo mundo recebe graça e... igual lá em Raposos,
nós foi levar bandeira lá pra... que ela ficou lá uns quinze dias em Raposos.
Tinha uma menina lá que sumiu, tinha uns quatro dia qu‟ela num... qu‟ela tinha
sumido. Aí, a mãe dela procurando, então nessa... deu, nessa vez, que nós foi em Raposos, com Nossa Senhora de Nazareth, a mãe dela tava lá chorando,
pedindo Nossa Senhora de Nazareth que mostrasse ond‟é que a filha dela tava,
10 Lopes (2001), op. cit.
11 O olhar que Biló apresenta é de um aprendiz, que foi guiado e sustentado pela fé de seu pai na Padroeira, expressa concretamente na dedicação à Sua festa.
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qu‟Ela mostrasse com vida. Aí, passou uns três dia, eles acharam ela... a pé na
estrada de Raposos indo pro Morro. E eles ainda tava tirando, rapaz, até bicho na boca dela. Tinha quatro dia que num comia, nem bebia. E achou ela com vida. Aí, a mulher tá lá agradecendo, então, a gente... o dia que nós foi lá, a mulher tava chorando e agradecendo, então naquilo ocê vendo a pessoa chorando e agradecendo, ocê num... Aí, foi dobrando mais na fé. Aí... e nós... a gente vê muita coisa, então, nisso vai só dobrando a fé nossa. Né, Miguel?12.
Participando da festa e envolvendo-se nas atividades desse momento, como levar a Padroeira para visitar cidades vizinhas, Biló deparou-se com uma situação em Raposos (MG) de uma mãe aflita pelo desaparecimento da filha. Em sua narração, as lembranças são marcadas pela intensidade com a qual essa mãe vivia o desejo de rever a filha e se reportava à Santa pedindo ajuda, no momento em que eles estavam peregrinando com Nossa Senhora. O fato que a menina foi encontrada em uma situação deplorável, mas com vida, chamou a atenção de Biló, uma vez que o seu resgate ocorreu em uma circunstância na qual tudo já estava a favor de seu perecimento. Isso, portanto, ressaltou ainda mais a resposta precisa da Padroeira ao pedido feito por aquela mãe: “qu´Ela mostrasse com vida”. O choro e a postura grata à Santa dessa senhora, como uma manifestação de sua gratidão Àquela que, respondendo ao seu desejo, lhe prestou auxílio e benefício, também foi um momento que cooperou para o aumento da fé de Biló.
Assim, Biló, presenciando a ação da Padroeira enquanto organizava a festa, percebeu que estar com saúde, fazer a festa, não se preocupar com alguma enfermidade tinha relação com o amparo que Ela sempre lhe ofereceu.
[...] A gente tando com saúde, igual a gente vê: num tem doença, num tem nada, a gente tá mexendo com festa, num tá preocupado com doença, pra
mim já é um... ajuda d‟Ela e fé no... aí, a fé vai aumentando. [...]
„Cê entendeu? Tudo que a gente tá... quer dizer, eu mais... eu quase num tô
fazendo nada por Ela, eu quase mais peço. E tudo que eu tenho pedido a Ela, eu tenho alcançado. Então, a gente vai tomando fé13.
12 Lopes (2001), op. cit. 13 Ibid.
Capítulo 02 – Análise da entrevista com Biló
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Mesmo fazendo muito pouco por Ela, a Padroeira respondia aos seus pedidos. E, mais uma vez, a sua certeza foi afirmada: “a gente vai tomando fé”.
Uai? Então, ali é mais que uma festa
“Vendo” e “pensando” sobre o que observava: assim começou, para Biló, a experiência de tomar fé em Nossa Senhora e na festa:
[...] E nisso eu fui vendo, fui pensando o quê que era isso e nisso é que foi... que foi eu tomando fé, foi olhando os outro pedindo e foi tomando aquele trem, fui tomando, então, é nisso que começou.. A gente começando a se... a sentir que Nossa Senhora... A gente foi começar entender graça, que até melhora e aquele negócio, então, fui sentindo aquele trem e a gente foi crescendo e... aí, eu fui tomando confiança em Nossa Senhora ajuda a gente. Então, nisso que começou esses trem. Que a gente vê os outro pe... a gente vê até hoje, assim, chega um paga uma promessa, outro nêgo chega aí,
andando descalço: “porque, ah, eu pedi Nossa Senhora isso e se eu
melhorasse eu ia... eu andava essa rua toda descalça na procissão; e Ela,
então, recebi, Ela fez...”. E nisso, ocê vai só aumentando a fé n‟Ela com... A
gente vai só tendo fé. Só tendo fé na festa. Quando Ela... Além de tá fazendo
pra gente, a gente tá vendo os outro também falando... falo assim: “Uai! Então, ali é mais que uma festa”. Eu tenho fé com alguns trem, mas Nossa
Senhora de Nazareth, eu num sei... Eu... Tem muito santo, às vez, tem muita Nossa Senhora que tudo é Ela mesmo, mas eu pra mim, tem que ser Ela. Eu pra mim, a devoção minha é Ela mesma14.
O fato de que, diante de uma necessidade específica, as pessoas colocavam-se em uma postura de súplica foi o primeiro aspecto que chamou a sua atenção. Nesse momento, ele compreendeu que era a Padroeira quem poderia responder aos pedidos dos romeiros. Biló afirmou que, ao ver os outros pedirem e serem atendidos, entendeu o que era graça. Foram as promessas cumpridas e suas demonstrações de gratidão que lhe permitiram “tomar confiança” no auxílio que a Padroeira oferecia àquelas pessoas15. Continuar a ver esse tipo de expressão até a atualidade, afirmava o amparo que a Virgem dispunha aos devotos. E o que ele via? Um esforço das pessoas, como andar toda a procissão descalço em resposta à possibilidade de ser atendido e a confirmação de uma graça alcançada.
14
Lopes (2001), op. cit.
15 Aqui, há uma passagem para Biló, que descreve a transição do fundamento de sua fé, apoiada em seu pai para Maria de Nazareth, sem perder o contato com os seus antepassados, uma vez que o conteúdo da fé era idêntico ao de seus genitores.
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Assim, para Biló, “ir tomando fé” na Padroeira foi algo progressivo, que teve seu início a partir daquilo que ele enxergava: o pedido dos fiéis e o empenho em cumprir a promessa em função de uma graça alcançada por Aquela que eles afirmavam ser capaz de responder. Gradualmente, ele também vai aumentando a sua fé na festa, pois se tratava do momento no qual via pessoas reverenciarem a Santa, realizando demonstrações de oferta que legitimavam a Sua ação em prol dos que se sentiam necessitados de Seu auxílio. O valor sacramental daquele momento vem à tona – “Então, ali é mais que uma festa” –, uma vez que a mobilização das pessoas, vista por Biló, revela o motivo pelo qual as pessoas se encaminham a Morro Vermelho: o agradecimento por alguma graça concedida pela intercessão de Nossa Senhora de Nazareth.