B. Cezai Sorumluluk
3. Görevi Kötüye Kullanma Suçu
Como já havia mencionado, uma questão extremamente importante sobre a história do estudo do habitus que Lahire faz menção em seu texto é a disputa teórica entre a psicologia e a sociologia. Tal disputa não é algo fortuito, mas expressa o justo ponto de contato entre as duas disciplinas. Durkheim dizia que "toda sociologia é uma psicologia, mas uma psicologia
sui generis”. Se o habitus lida com os esquemas de ação, percepção, avaliação etc. não é de se estranhar que os estudos oriundos das ciências cognitivas podem ajudam bastante a elucidar os meandros do desenvolvimento e realização dos esquemas cognitivos dos atores em ação. Isso beneficia a sociologia, na medida em que se torna mais claro seu local epistemológico no panorama científico das discussões que envolvam as diferentes perspectivas teóricas sobre
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No filme “Tropa de Elite” observa-se que o treinamento exaustivo dos recrutas funciona tanto como uma forma de criar reflexos rápidos, que será a parte essencial de seu desempenho em situações reais, quanto do processo de “desindividualização” típicos dos contextos militares.
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fenômenos cognitivos. A intersecção entre as diversas áreas do saber permite recrutar os conhecimentos que se mostrarem úteis ao nível propedêutico da discussão sociológica. Desta forma, e seguindo essa orientação geral, Lahire, no livro já citado, busca subsídios em vários autores que ajudem a jogar mais luz sobre a noção de habitus nas Ciências Sociais27. Por isso, veremos algumas descobertas contemporâneas sobre as formas como se dão a estruturação inconsciente daqueles esquemas cognitivos que condicionam as ações das pessoas.
Menciono isso, que por sinal faz parte das observações de Anthony Giddens, porque, para adentrarmos nos meandros cognitivos do habitus, será preciso mobilizar descobertas que facilmente seriam associadas a autores malditos nas discussões sociológicas, como a psicologia comportamentalista de Ivan Pavlov. Vamos com calma. O que o pai da teoria do reflexo condicionado tem a ver com a discussão do habitus?
Para responder a essa pergunta, que poder soar extremamente provocativa, é preciso visitar as atuais descobertas sobre como se dão os processos de inconscientização dos hábitos comportamentais em geral. A partir daí, ficará mais claro as dificuldades teóricas e empíricas que o conceito carrega, bem como se ele se revela útil para a discussão principal desse texto, que são os aspectos sociais – e habituais – das mentiras.
A noção de habitus trabalha com a ideia de que as atividades sociais funcionam, na maior parte do tempo, de modo automático; este é o pressuposto fundamental do conceito de
habitus, cujo pressuposto tácito é o problema da inconscientização de esquemas mentais. O
órgão que concentra os processos inconscientes é o cérebro e suas terminações nervosas, o que implica dizer que há uma base neurológica que dá suporte à noção de um inconsciente cognitivo implícito na teoria do habitus. Mas não é qualquer ação que se transformará em segunda natureza. Há algo que habita os subterrâneos do cérebro que precisa ser completado e esclarecido. Charles Duhigg, em sua obra O Poder do Hábito, nos ajudará a entender tais circunstâncias.
Os hábitos, dizem os cientistas, surgem porque o cérebro está o tempo todo procurando maneiras de poupar esforço. Deixado por conta própria, o cérebro tentará transformar quase qualquer rotina num hábito, pois os hábitos permitem que nossas mentes desacelerem com mais frequência. (DUHIGG, 2012, p.35)
Então, segundo o autor, e seguindo a trilha neurocientífica que observa que o cérebro é o produto dos extensos processos de seleção natural, observa-se que é em um ambiente de
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escassez, que marcou grande parte da trajetória do Homo sapiens, que a eficiência energética dos processos físicos também implica na otimização do funcionamento cerebral, algo semelhante ao que acontece com o conceito de habitus, como “senso prático”: algo fácil de usar e um modo fácil de agir (obviamente, para quem já possui as específicas estruturas cognitivas para a tarefa).
(...) as escolhas que todos fazemos deliberadamente em algum momento, e nas quais paramos de pensar depois, mas continuamos fazendo, normalmente todo dia. Em certo momento, todos nós decidimos conscientemente o quanto iríamos comer e quando sairemos para correr. Depois paramos de fazer escolhas, e o comportamento torna-se automático. É uma consequência natural da nossa neurologia. E entendendo com isso acontece, você pode reconstruir esses padrões do jeito que quiser. (DUHIGG, 2012, p.15)
Tudo caminha em sintonia com as ocupações da sociologia do habitus. Porém, como a citação também deixa ver, o autor, dado o campo discursivo que ele ocupa, não deseja apenas que o leitor entenda a teoria do hábito, mas ele também busca levar suas descobertas ao nível da aplicação instrumental: entender para poder modificar. Se há uma parte da experiência do sujeito que seja possível intervir – os hábitos –, e se tais hábitos pontuais lhe causam sofrimento e havendo um conhecimento que possa ser utilizado para auxiliar na superação de certos problemas pessoais, sua teoria tem um fim interventivo manifesto. É de notar que a depender do grau de comprometimento social, alguns hábitos poderão ser mais ou menos modificáveis – alguns, por sua natureza mais fisicamente sociodependente, como seria o caso dos aspectos mais profundos da sociabilidade humana, seriam menos prováveis de se beneficiarem disso.
Como o cérebro é um sistema biológico, o desdobramento natural da discussão que busca as conexões entre neurociência e sociologia seria – até onde for possível – saber se existe algum lócus cerebral ao qual seria atribuído o controle e vigência dos aspectos automatizados do comportamento aprendido. Se houver tal estrutura viva desta ordem, pelo menos ao seu nível mais primário, seria de grande valia para sair de um entendimento puramente abstrato do conceito de habitus, para uma compressão de sua natureza orgânica. Sobre isso, Duhigg nos diz que:
Mais no fundo dentro do cérebro e mais perto do tronco cerebral – onde o cérebro encontra a coluna – há estruturas mais antigas, mais primitivas. Elas controlam nossos comporta-mentos automáticos, como respirar e engolir, ou a reação de susto que sentimos quando alguém pula de trás de um arbusto. Mais para o centro do crânio há um nó de tecido do tamanho de uma bola de
139 golfe, que é parecido com aquilo que se encontra dentro da cabeça de um peixe, réptil ou mamífero. Esses são os gânglios basais, um oval de células que, durante anos, os cientistas não entendiam muito bem, a não ser por suspeitas de que ele desempenhava um papel em doenças como o mal de Parkinson. (DUHIGG, 2012, p.31)
Seriam então os gânglios basais que tornariam possíveis que os aprendizados de rotinas diversas se transformassem em movimentos automatizados do indivíduo. São eles que possibilitam que se dispense a consciência, que atua no início do processo de aprendizado, fazendo com que alguma habilidade que foi aprendida por alguém se torne uma “segunda natureza”. Analisando bem a citação, a metáfora da segunda natureza não parece tão metafórica assim, pois se os processos cognitivos automatizados se localizam no mesmo setor cerebral que correspondem às áreas mais primitivas do cérebro, os hábitos interiorizados ao nível dos gânglios basais seriam uma natureza aprendida, como condição fundamental para a sobrevivência dos organismos vivos, e não apenas do ser humano. Ou seja, se for levado às ulteriores inferências teóricas sobre esse fenômeno, tudo pode se tornar “natureza” se sua interiorização conseguir alcançar o status cerebral descrito acima.
Se para o indivíduo todas as ações se muito repetidas se transformam em rotinas e costumes pessoais, é como se famigerada “teoria do menor esforço” fosse a base biológica para podermos falar em habitus, pois a conclusão que inevitavelmente se chega é que a consciência humana é um momento passageiro do aprendizado. A consciência seria um momento transitório para que as ações que são ou serão habituais se consolide ao nível inconsciente, apenas sendo necessário o retorno à consciência quando ocorre o fenômeno do
habitus precário, que busca corrigir as imperícias do agente. Então, toda a problemática
envolvendo a consciência e seus produtos políticos derivados precisam ser reavaliados (a “tomada de consciência” é a mais famosa delas), pois se as atuais descobertas das ciências cognitivas apontam para uma direção em comum, indicam que toda a problemática que envolve o habitus não diz respeito apenas às teorizações sociológicas sobre a ação social, mas dizem respeito também virtualmente a imensa maioria das áreas de pesquisas sobre os processos cognitivos que buscam a compreensão sobre os seres vivos e suas interações. Estudar os processos de estruturação cognitivas dos seres humanos seria, portanto, a expressão sociológica da descoberta de princípios epistemológicos mais amplos.
Querendo-se ou não (em razão do caráter refratário quanto a princípios biologizantes do social), os seres humanos são sistemas biológicos que têm a capacidade de construir e transmitir informações, experiências que acabam por se fixar no cérebro de um co- participante. Essas informações transmitidas se transformarão em elementos cognitivos.
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Então, o que não foi dado pelo instinto para a realização de certas tarefas e necessidades objetivas é preciso aprender e ser incorporado às estruturas neurais, tendendo a se transformar em um instinto de segunda ordem, o que já está consagrado nas ciências sociais como “segunda natureza”. Isto deve ser entendido então como a problematização-limite que separa as Ciências Sociais de outras perspectivas teóricas: saber quais são ou foram os agentes externos que motivaram a incorporação desses esquemas seria uma problemática sociológica, enquanto que os meandros biológicos internos que tornam materialmente possível tais incorporações seria algo voltado às problemáticas neurológicas.
É certo que uma perspectiva intermediária traçaria uma linha de continuidade entre as áreas científicas, o que parece ser o caso da perspectiva adotada por Charles Duhigg, em sua proposta de buscar mais conhecimento sobre a formação e reforma de hábitos em busca de uma tecnologia interventiva. Saindo da pura compreensão teórica para a instrumentalização prática, Duhigg releva como é possível que o conhecimento neurocientífico superespecializado adquira o status de um conhecimento que pode ser mobilizado por qualquer pessoa que esteja interessada em modificar os próprios hábitos considerados indesejáveis.
Havendo uma linha de continuidade entre a Sociologia do habitus e a Neurociência do hábito, pergunta-se: como um aprendizado adquirido pessoalmente ou com maior ou menor pressão social28 alcança o nível basal, ao ponto da maior parte do trabalho da consciência ter sido dispensado? Para que haja a possibilidade de práticas que muitas vezes as pessoas pouco se dão conta de como elas realizam, Duhigg propõe que há alguns elementos comportamentais essenciais que ele denomina de “loop do hábito”. Com isso ele está querendo identificar que há um padrão de comportamento que fortalece o hábito ao ponto de torná-lo automático. Há uma “deixa”, uma “rotina” e uma “recompensa” que consolidam o hábito. Há uma interface do comportamento realizado em consonância com o trajeto neural. Vejamos isso com mais detalhe.
28Não entraremos aqui nas discuss
ões sobre “ação social” iniciadas por Weber, por entender que para além da necessidade de alguns autores de desejar que seu campo, a sociologia, se “o” campo intelectual por definição como um imperialismo científico, o mais importante é saber microssociologicamente se a motivação depende mais da (relativa) iniciativa do agente ou do meio social. Por exemplo: uma coisa é alguém desejar se tornar um maratonista por achar um esporte que lhe trará grandes benefícios físicos; outra, bem diferente, é uma criança que, independentemente do que achar, é submetida à educação formal. Nos dois casos, são habitus que estão em desenvolvimento, mas o segundo caso acaba tendo uma pressão social imensamente superior ao caso do aspirante a maratonista – até por uma questão legal: os pais são obrigados a pôr seus filhos na escola, sob pena de serem processados por “abandono intelectual”.
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A deixa seria algum elemento, sinal, oportunidade, no ambiente que faz o agente começar seu movimento habitual. É como um gatilho do comportamento. Por exemplo, quando alguém é posto para escrever um texto, a deixa aqui seria a própria iniciação do ato de escrever. Se alguém está acostumado a correr num determinado horário, a deixa é o próprio horário29. Quando alguém que tenha “mania de limpeza” nota algo sujo no ambiente, a deixa é justamente a sujeira que acabara de identificar etc.
A rotina diz respeito aos procedimentos, ações e estratégias adotadas para realizar a tarefa. Vamos supor que um escritor precisa fazer um ensaio sobre uma notícia do dia, recebendo como deixa a oportunidade de produzir um texto sobre o assunto, e que se prepara para mobilizar seus recursos – seu “capital cognitivo”, diríamos como cientistas sociais – para realizar a tarefa. A “rotina” aqui seria a própria forma de reagir a tal tarefa, o que supõe suas estratégias típicas, infranconscientes, de escrever tal gênero textual. Um atleta de esporte competitivo, quando recebe a deixa de um passe, realiza uma manobra particular para responder à deixa que lhe foi dada – essa é a sua rotina.
A recompensa seria a sensação de alívio produzida ao final da tarefa, que quando bem sucedida reforça e fecha o loop; e com mais repetições segundo o mesmo ciclo anteriormente realizado faz o padrão cognitivo se consolidar. A recompensa é a contemplação e a dissipação emocional que acompanha a percepção de que a tarefa foi concluída, que no caso do escritor é o alívio do texto ter se resolvido; do atleta ter feito um passo corretamente.
Mas para que um padrão atinja mais fortemente a condição de se integrar aos gânglios basais e assim se tornar automático (fazendo com que o agente se perca nas suas malhas), há um elemento a mais que não apenas fecha o loop do hábito como também o potencializa: é a “ânsia”, que seria o corpo antecipando a satisfação de ter acesso à recompensa (quem conhece pessoas com forte vício em cigarro conhece de perto o que significa a interrupção do fumo: o fumante sente uma forte irritabilidade e ansiedade, ao ponto de sentir um estremecimento físico).
É assim que novos hábitos são criados: juntando uma deixa, uma rotina e uma recompensa, e então cultivando um anseio que movimente o loop. Pense no exemplo do cigarro. Quando um fumante vê uma deixa – digamos, um maço de Marlboro –, seu cérebro começa a esperar uma dose de nicotina. A simples visão de um cigarro é suficiente para que o cérebro anseie por uma dose de nicotina. Se essa dose não chega, o anseio cresce até que o
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Esse exemplo foi tirado pelo próprio hábito de Duhigg de comer doces em certo horário. Entendendo o loop de seu hábito ele conseguiu substituir a satisfação por doces por uma conversa com seus colegas de trabalho, o que lhe rendeu uma perda de peso.
142 fumante, sem pensar, estenda a mão e pegue o cigarro. (DUHIGG, 2012, p.66-7)
Após resumir as considerações de Duhigg sobre o hábito, quais seriam as implicações disso para a discussão sobre o habitus? De que forma é possível dialogar com o conhecimento que o loop do hábito nos fornece para um contexto sociológico? Não seria a aplicação ipso
facto do loop do hábito, mas localizar de que modo o tal circuito do hábito nos ajuda a
desvendar e a sofisticar a compreensão de fenômenos sociais que envolvam a problemática geral do habitus na sociologia.
Buscando um ponto de contato entre a teoria do habitus a o loop do hábito, o habitus na sociologia seria então o equivalente às “rotinas” que seriam mobilizadas para dar conta de uma tarefa? Por exemplo: o escritor do ensaio mobilizará seus recursos cognitivos e concluirá que o seu trabalho seria simplesmente o equivalente às rotinas praticadas pelos personagens e exemplos dados por Duhigg? O habitus na sociologia seria um simples “reflexo condicionado”? Para ser justo com a interface que liga as duas perspectivas é preciso atenção sobre a forma como os sociólogos utilizam e prescrevem o uso do conceito de habitus. Analisando os casos propostos por Duhigg se observa que em todos eles há um gatilho de ação que desencadeia todo o loop.
No caso do sociólogo, e devido à já referida ausência de problematização de Bourdieu, a aplicação e o desenvolvimento do conceito de habitus na sociologia muitas vezes coincide com a proposta de Duhigg. Mas isso se deve ao fato de que aparentemente o habitus na sociologia pretende contemplar fenômenos mais abrangentes do que a noção neurocientífica de Duhigg. Ou seja, não se reduz ao simples reflexo condicionado porque o habitus não é proposto para ser apenas um movimento compulsivo a ser feito, como o salivar do cão que responde condicionadamente ao toque da campainha, ou a algo como tirar um cigarro do maço, acendê-lo e pô-lo entre os lábios. Pelo contrário, há esquemas de ação que podem ser muito intricados, como é o ato de escrever, que a teoria do loop do hábito apenas faz menção de sua existência como uma etapa de um hábito, mas que devido ao enfoque mais global do fenômeno não teria como esmiuçar aquelas situações que implicam no aprendizado ostensivo e muitas vezes doloroso de uma habilidade.
Nesse sentido, o loop de Duhigg diz mais respeito a situações que de certa forma não demandam comportamentos criativos, como escrever um ensaio filosófico inédito, que demandam a mobilização de esquemas e estratégias de escrita e argumentação, mas ações e comportamentos que podem ser realizados sem a necessidade da evocação explícita de
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conhecimentos abstratos. Assim, mesmo que haja um elemento sutilíssimo que desencadeia o loop do hábito, que implique no acionamento dos esquemas de ação do habitus no momento da “rotina” de um intelectual, não se trata de um agir pontual, quase mecânico, como tomar uma xícara de café, mas a mobilização de esquemas mais complexos, que, a depender do caso, exijam algo que supõe um relativo e prolongado treinamento cognitivo. Uma coisa é ter a rotina de escrever seu nome na marcação do ponto funcional em seu trabalho ao final da tarde, sendo necessária apenas a memória psicomotora dos caracteres que compõem o nome de alguém. Outra bem diferente é escrever um ensaio filosófico ao final da tarde. Ambos são rotinas, mas uma é infinitamente mais complexa que a outra.
Dessa forma, o que faz coincidir a noção de hábito com a de habitus na sociologia é o aspecto repetitivo da ação, que acaba se tornando um comportamento gravado nas estruturas inconscientes do cérebro, havendo a possibilidade de gatilhos de ação que põem e que faz o agente pôr em movimento esses esquemas comportamentais.
O hábito como esquema de ação é que está no princípio de toda ação involuntária (semelhante à memória involuntária). Está ligada a todo um passado socializador que constituiu progressivamente, desde os primeiros passos, os primeiros balbucios hesitantes, desajeitados, dolorosos ou lentos até às práticas talentosas (sejam elas da ordem do gesto, da palavra, da percepção, da avaliação...). Para haver hábito, esquema de ação, é preciso, pois, a repetição. “É nadando que se aprende a nadar”. As fórmulas aristotélicas da Ética a Nicômaco, convertidas em provérbio popular, dizem o essencial do modo de constituição dos hábitos. Somente a acumulação- repetição (voluntária ou involuntária, organizada pedagogicamente ou tirada das experiências sociais) de comportamentos, de práticas relativamente análogas pode constituir esses “resumos de experiência”, como belamente os chamava Piaget, que são os esquemas de ação ou, dito de outro modo, os hábitos. Freqüentemente eles são tão bem interiorizados e naturalizados que se poderia até crer que eles mesmos são o seu próprio motor, esquecendo então os desencadeadores infinitesimais que os ativam. (LAHIRE, 2002, p.76-7)
Em muitos casos, esses circuitos cerebrais atuam sem ao menos haver explicitamente o seu recrutamento voluntário para que sejam acionados tais comportamentos habituais, havendo, para certos casos, uma rotina diária que, devido ao prazer a que o indivíduo está acostumado, não precisa mais de um gatilho tão bem delineado, havendo mais um desconforto interno que lhe serve como evento microscópico para dar início ao loop do hábito. Observemos o que Lahire pensa sobre esses comportamentos reflexos que as pessoas têm e que, a depender do hábito, se tornam “mais fortes do que elas”, como é o caso da adicção em