A fim de esclarecer melhor o conceito de LC, os pesquisadores Cervetti, Pardales e Damico (2001) selecionaram três influências fundamentais que o diferencia de outras teorias de letramento: a obra de Paulo Freire, a teoria crítica social e o pós-estruturalismo.
Os estudos de Paulo Freire constituem a base para as teorias do LC (McLAUGLIN; DeVOOGD, 2004). Para as autoras, apesar de os trabalhos de Freire se voltarem para a educação popular de adultos, suas ideias conectam-se com as posturas atuais sobre construtivismo social, justiça social, liberdade, leitura e contexto. Dentre os trabalhos de Freire, destacamos aqueles que contribuíram para as discussões sobre letramento crítico, a saber, a rejeição ao modelo de educação bancária, a indissociabilidade entre educação e poder e o ato de ler.
A primeira contribuição de Freire diz respeito à sua rejeição ao modelo de ‘educação bancária’16, por essa aumentar a distância entre opressores e oprimidos e reforçar as relações desiguais de poder existentes. Contrário ao modelo citado, o autor defende uma educação problematizadora e emancipadora “em que os homens, submetidos à dominação, lutem por sua emancipação” (FREIRE, 1989, p. 43). Esse modelo de educação propõe que os oprimidos conscientizem-se das condições de opressão nas quais eles vivem, ou seja, a práxis, para que eles possam mudar essa condição, numa relação de reflexão-ação-transformação. Para o autor, “a práxis [...] é reflexão e ação dos homens sobre o mundo para transformá-la. Sem ela, é impossível a superação da contradição opressor-oprimido” (FREIRE, 1987, p. 21).
O segundo posicionamento de Freire, que contribui para as teorias do LC, é a impossibilidade de se pensar em educação sem se pensar na questão de poder, nem compreendê-la como uma prática autônoma e neutra. O autor esclarece que:
Na medida em que compreendemos a educação, de um lado, reproduzindo a ideologia dominante, mas, de outro, proporcionando, independentemente da intenção de quem tem o poder, a negação daquela ideologia (ou o seu desvelamento) pela confrontação entre ela e a realidade (como de fato está sendo e não como o discurso oficial diz que ela é), realidade vivida pelos educandos e pelos educadores, percebemos a inviabilidade de uma educação neutra (FREIRE, 1989, p. 16).
16 Freire (1989) explica o termo ‘educação bancária’ como uma transmissão de um conhecimento petrificado e compartimentado, depositado pelos professores nos alunos a fim e ‘enchê-los’ de conteúdos. Os alunos recebem as informações, memorizam-nas e as repetem quando solicitados.
A terceira contribuição de Freire (1989), que embasa a teoria de LC, é aquela que diz respeito ao ato de ler. Para o autor, o processo de leitura deve ir além da mera decodificação dos textos e abranger uma compreensão crítica em que os leitores são desafiados a perceber as relações entre o texto e o contexto. Nesse sentido, o autor afirma que:
Gostaria de voltar, pela significação que tem para a compreensão crítica do ato de ler e, consequentemente, para a proposta de alfabetização a que me consagrei. Refiro-me a que a leitura do mundo precede sempre a leitura da palavra e a leitura desta implica a continuidade da leitura daquele. Na proposta a que me referi acima, este movimento do mundo à palavra e da palavra ao mudo está sempre presente. Movimento em que a palavra dita flui do mundo mesmo através da leitura que dele fazemos. De alguma maneira, porém, podemos ir mais longe e dizer que a leitura da palavra não é apenas precedida pela leitura do mundo, mas por uma certa forma de “escrevê-lo” ou de “reescrevê-lo”, que dizer, de transformá-lo através de nossa prática consciente. (FREIRE, 1989, p. 13).
Além das contribuições de Freire (1989), Cervetti, Pardales e Damico (2001) também atribuem à teoria crítica social uma influência para o LC. A preocupação da teoria crítica social é com “o alívio do sofrimento humano e a formação de um mundo mais justo através da crítica da existência de problemas sociais e políticos e das alternativas propostas”17 (CERVETTI; PARDALES; DAMICO, op.cit., não paginado, tradução nossa). Segundo os autores, essas críticas podem revelar desigualdades e, por isso, são fundamentais na luta contra a opressão e a exploração de alguns grupos que mantêm sob controle as ideologias, as instituições e as práticas da sociedade.
A influência da teoria crítica social para o LC refere-se, pois, ao combate às desigualdades por meio da linguagem. Para isso, o sujeito pode ser levado a perceber os pressupostos ideológicos que subscrevem os textos e a forma como eles criam e preservam determinados interesses sociais, econômicos e políticos. Dessa forma, Morgan (1997 apud CERVETTI; PARDALES; DAMICO, 2001) sugere as seguintes questões que investigam as representações textuais:
Quem constrói os textos, cujas representações são dominantes em uma determinada cultura e em um determinado momento; como os leitores tornam-se cúmplices das ideologias persuasivas dos textos; aos interesses de quem essas representações e leituras estão servindo; e quando tais textos e leituras são desiguais em seus efeitos, como elas podem ser construídas de
17 No original: “The alleviation of human suffering and the formation of a more just world through the critique of existing social and political problems and the posing of alternatives.”
outra forma.18 (MORGAN, 1997 apud CERVETTI; PARDALES; DAMICO, 2001, não paginado, tradução nossa.)
A última influência significativa, apontada por Cervetti, Pardales e Damico (2001), para o LC, é o pós-estruturalismo. A crença de que o significado está no texto e a noção de neutralidade ou de verdade no julgamento de valor da interpretação dos textos são combatidos pelos pós-estruturalistas. Dessa teoria, o LC apreende que os significados dos textos são ideológicos e devem ser interpretados de forma subjetiva, influenciados pelo contexto sócio-político e discursivo onde ocorrem. A atenção do leitor deveria volta-se, então, para a questão do “discurso, do poder e do contexto de dependência dos significados” (CERVETTI; PARDALES; DAMICO, op.cit., não paginado) e da forma como a linguagem produz e mantém as relações desiguais de poder.
Nessa seção da dissertação, detivemo-nos a apresentar as diferentes teorias que influenciam o LC. Primeiramente, a pedagogia problematizadora e emancipadora de Freire e sua visão de educação e de linguagem como práticas libertadoras. Em seguida, os pressupostos da teoria crítica social acerca do uso da linguagem como ferramenta de crítica das desigualdades sociais, econômicas e políticas. Por fim, os pós-estruturalistas que incorporaram ao LC a identificação das ideologias presentes nos textos e da forma como a linguagem perpetua ou combate as relações desiguais de poder. Importa-nos, agora, compreender como as teorias de LC coadunam-se com o ensino de inglês, conforme veremos na seção a seguir.