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Elaborado o ato, deverá ser transcrito e registrado perante a Junta Comercial, exigências que também permanecem, no caso de o sócio ser também administrador.

Nas suas decisões, o sócio único pode ser representado, como por exemplo se ele for analfabeto374, devendo logicamente constar a identificação e qualificação pormenorizada do representante. Talvez esta situação poderia ser considerada como delegação de administração diante da unipessoalidade, mas existe na Instrução Normativa disposição específica a respeito permitindo-se a representação.

As decisões tomadas pelo sócio único podem ser impugnadas quando o mesmo colocar seus interesses pessoais frente aos interesses da sociedade. Há quem possa imaginar que isso não seja possível, pois os interesses estariam sempre em perfeita consonância, mas efetivamente não é o que ocorre. Em muitas situações, pela irresponsabilidade de seu titular, a atividade empresarial acaba por ser sacrificada, porque esquece-se de sua verdadeira função social.

Neste sentido, importante a defesa de que trata-se de sociedade institucional, justamente para banir qualquer tipo de interesse ou benefício pessoal, porque, embora unipessoal, a empresa representa valores econômicos e sociais, e sua importância para a coletividade deve se sobrepor a qualquer interesse egoisticamente colocado.

374 1.2.13.3 - Representação de titular - Quando o titular for representado, a condição do representante e sua qualificação deverão ser indicadas, em seguida à qualificação do titular. Instrução Normativa Nº 117, de 22 de novembro de 2011. Aprova o Manual de Atos de Registro de Empresa Individual de Responsabilidade Limitada. Disponível em: http://www.jucepa.pa.gov.br/,

Na doutrina espanhola375, discute-se, inclusive, a possibilidade de suspensão do direito do sócio único, mas admite a dificuldade de se operacionalizar tal situação se ele também for o único administrador.

Uma sugestão que se faz é no sentido de não comprometer-se a atividade empresarial, buscando-se a intervenção judicial, através de nomeação de administrador judicial, que pode ser provocada por qualquer interessado, como por exemplo os administradores ou credores. Tal pedido deve ser precedido de impugnação à decisão do sócio, sendo que as decisões contrárias à lei são nulas, como, por exemplo, atos simulados e os atos contrários aos interesses da atividade são considerados anuláveis.

Assim, a intervenção judicial poderá ocorrer diante da não aprovação da gestão social, bem como da ausência de decisão acerca da aprovação das contas do exercício anterior e sobre a aplicação do resultado.

Por fim, em que pese ter uma pessoa só a frente da atividade empresarial, nem por isso está dispensada do cumprimento das formalidades sobre suas decisões, pois importante dar conhecimento a terceiros sobre as alterações feitas.

5.8 Administração

Como a EIRELI (Empresa Individual de Responsabilidade Limitada) conta com sócio único, surge a indagação de que se não se concentrarem na mesma pessoa os poderes de deliberação e de gestão, como se estabelecerá a relação, a fim de evitar-se contratempos, no que tange à responsabilidade pelos atos praticados? Primeiramente, não existe qualquer problema em delegar-se a administração da EIRELI (Empresa Individual de Responsabilidade Limitada) para terceiro estranho ao quadro de sócio. Porém, a exemplo da Espanha, o ato constitutivo pode vedar o ingresso de terceiro não sócio na administração:

Al no ser necesario, salvo que los estatutos sociales dispongan lo contrario que se trate de uma limitada nueva empresa (art. 139.3 LSRL), ostentar La condición de sócio para ser nombrado administrador [...].376

375 FERNANDÉZ, Maria Belén Gonzáles. La sociedad unipersonal em el Derecho Español. Espanha:LA LEY, 2004, p.255.

Marlon Tomazette admite a nomeação de administradores estranhos ao quadro social, facilitando a profissionalização da gestão, mas quanto à pessoa jurídica, diante da aplicação subsidiária das regras da sociedade limitada, entende ser discutível.

No Brasil somente pessoas naturais podem ser nomeadas como administradores e muitas críticas já foram feitas a esse respeito, pois não há qualquer justificativa para tanto. Em razão da aplicação subsidiária da legislação sobre a sociedade limitada, para a EIRELI (Empresa Individual de Responsabilidade Limitada) também não é permitida a administração por pessoa jurídica.

Neste sentido assinala J. X. Carvalho de Mendonça, que a pessoa jurídica adquire a capacidade para atingir seus fins através de pessoas naturais e é a vontade dessas pessoas que direcionam a vontade da sociedade.377

Para a atividade se desenvolver, coloca-se a pessoa natural à frente. A Instrução Normativa 117 do DNRC378, no que se refere a administração, coloca a possibilidade dela ser delegada a pessoa estranha ao quadro societário, não podendo ser jurídica e se estrangeiro deve ter visto permanente. E por fim, os administradores não podem ter sido condenados pela pratica de crime.

Em relação ao administrador nomeado, exigem-se todos os requisitos, como o dever de diligência e de informação e que o mesmo não incorra em nenhum impedimento, conforme disposto na Lei 8934/94, art. 35, inciso II. Pode- se cogitar, inclusive, da possibilidade da administração ser atribuída a um órgão colegiado, conforme dispõe o artigo 1060 e seguintes do Código Civil, quando dispõe a respeito das sociedades Limitadas.

Enfim, é bom destacar que o fim social da empresa deve prevalecer como principal objetivo, tanto na hipótese de um único sócio administrá-la, quanto no caso de vários administradores. Isso porque a deliberação é única, podendo levar ao autoritarismo em relação à administração e, esta, por sua vez, poderá fugir das

376

FERNANDÉZ, Maria Belén Gonzáles. La sociedad unipersonal em el Derecho Español. Espanha:LA LEY, 2004, p.255, p.267.

377377

MENDONÇA, J.X Carvalho de. Tratado de Direito Comercial Brasileiro. Livro Segundo: Dos commerciantes e seus auxiliares. Vol. III, 2. ed. Rio de Janeiro: Freitas Bastos, 1933, p.86-87.

378 Item 1.2.23.2 A EIRELI poderá ser administrada pelo titular e/ou por não titular. Item 1.2.23.4 A pessoa jurídica não pode ser administradora. Item 1.2.23.5 A pessoa jurídica não pode ser administradora. (IN 117, 1.2.23.4). Administrador estrangeiro deverá ter visto permanente e não estar enquadrado em caso de impedimento para o exercício da administração.

decisões do único sócio, buscando soluções individualistas, quando o objetivo principal é a manutenção da fonte produtora. Assim, o foco deve ser sempre a manutenção da fonte produtora.

Uma sugestão aqui proposta é a adoção da governança corporativa, como ditame a ser consagrado no ato constitutivo, a fim de se evitar dissabores com interpretações equivocadas em possível embate jurídico, para discutir-se a responsabilidade dos envolvidos.

Waldo Fazzio Júnior admite o administrador pessoa jurídica, pela ausência de obstáculo legal.379 No meu modo de ver, deve ser nomeada pessoa natural, tendo em vista a possível dificuldade na atribuição de responsabilidades e também diante do fato de que sempre teremos uma pessoa natural para exercer a atividade.

A competência dos administradores compreende as atividades de gestão e representação da sociedade perante terceiros, atos de execução das decisões do único sócio.

Por esta razão, sendo ato de execução, estão os administradores vinculados aos atos deliberativos e o sócio poderá a qualquer momento intervir diante de seu direito de fiscalização. Os administradores não podem, ser considerados meros executores de decisões perante terceiros, pois são os seus atos que garantem a preservação da empresa e daí devem estar atentos para a preservação da atividade empresarial, afastando qualquer interferência individualista.

Por esta razão é que o administrador, terceiro estranho ao quadro societário, deve diligenciar no sentido de que todas as decisões do sócio único sejam documentadas e registradas na Junta Comercial para sua completa eficácia.