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Com a instauração do Estado Novo, adotou-se um sistema de governo calcado na centralização política e na ampliação da capacidade de intervenção do Estado, absorvendo este, por meio de mecanismos de base corporativa, as demandas sociais e os conflitos de classe, buscando equacioná-los dentro dos canais institucionais, de forma a garantir o controle oficial sobre a sociedade e, assim, manter o equilíbrio e a estabilidade do regime. Contudo, muito embora tenha o Estado articulado novas relações com os grupos políticos regionais, de forma a garantir alianças e compromissos institucionais entre os entes federativos e o Governo Federal, a contrapartida desta aproximação residia na preservação dos meios tradicionais, por meio dos quais os pactos políticos regionais eram costurados. Ficava resguardada, assim, as estruturas de dominação oligárquica que sustentavam as elites políticas estaduais. Neste sentido,

[...] a reformulação agrária, que atinge o âmago da ordem política dominante, sustentada pelo poder fundiário, será, de maneira ainda mais radical, postergada: eram sólidos e organizados os interesses que as reformas porventura atingissem e, inversamente, frágeis e desarticulados os seus prováveis beneficiados. Visivelmente, o poder central filtrará as medidas tenentistas incorporando apenas propostas residuais inócuas ou facilmente digeríveis. (CAMARGO, 1996, p. 141).

A política econômica idealizada por Getúlio Vargas, segundo Gabriela Beskow (2010, p. 08), no que tange ao universo rural, apresentou uma orientação que estabelecia uma articulação entre a produção agrícola e o setor industrial, com o objetivo de garantir o desenvolvimento do país em bases autônomas, reduzindo-se a dependência com relação ao mercado externo, tanto no que se referia à acumulação capitalista, quanto na necessidade de se importar artigos manufaturados e gêneros de primeira necessidade.

Nesta inter-relação entre o campo e a cidade, a zona rural deveria constituir o espaço de produção de matérias-primas para a atividade manufatureira e de consumo dos artigos industrializados, a partir do incremento do mercado interno147. No programa político da Aliança Liberal, Vargas afirmaria que

O problema econômico pode-se resumir numa palavra – produzir, produzir muito e produzir barato, o maior número aconselhável de artigos, para abastecer os mercados internos e exportar o excedente de nossas necessidades. Só assim poderemos dar sólida base econômica ao nosso equilíbrio monetário, libertando-nos, não só dos perigos da monocultura, sujeita a crises espasmódicas, como também, das valorizações artificiais, que sobrecarregam o lavrador em benefício dos intermediários. A agricultura, embora florescente em muitas zonas, ressente-se, por toda a parte, da falta de organização e método. (VARGAS, 1938a, p. 38).

Assim, para combater efeitos maléficos advindos do modelo econômico hegemônico adotado ao longo da Primeira República, calcado na monocultura para a exportação e na dependência para com mercado externo, Getúlio Vargas estabelecia, como medida imperiosa, a diversificação da produção para o mercado interno, que deveria suplantar, em importância, o comércio exterior. O político gaúcho atribuía à primazia da atividade exportadora, sujeita às crises cíclicas do sistema econômico mundial, e à adoção de planos de auxílio ao setor agroexportador, a responsabilidade pela situação de fragilidade e instabilidade financeira que assolava o Brasil. Contudo, a dinamização, modernização e diversificação da atividade agrícola para o comércio interno não importaria no abandono da produção para o mercado externo, fundamentada na grande propriedade monocultora.

Para a realização deste objetivo, ainda na plataforma da Aliança Liberal, Getúlio Vargas chamou a atenção para a situação de miséria e abandono à qual estava relegada a população rural. Caberia ao Estado promover a organização da população do campo, educando-a para o trabalho e dando-lhe condições culturais e materiais para desenvolver-

147 Dentre os documentos pertencentes ao arquivo de Gustavo Capanema, que se encontra no acervo do

CPDOC-FVG, reunidos por Simon Schwartzman na obra Estado Novo: um autorretrato há um intitulado “Colônias Agrícolas e Cooperativismo” que diz: “Hoje, porém, procura-se realizar uma política de povoamento do solo e de fixação do homem à terra, que é ao mesmo tempo preventiva e de readaptação imediata das condições da vida rural aos verdadeiros rumos do desenvolvimento econômico do país. Ela tem em vista preparar, desde já, os futuros núcleos consumidores dos instrumentos da lavoura que as fábricas oriundas da grande siderurgia nacional lançarão no mercado interno. Ela prevê que o novo surto industrial, prestes a revolucionar o país, pode determinar novas migrações de despovoamento do sertão em busca de trabalho nos centros urbanos. Então cuida de desenvolver a mentalidade do sertanejo, concedendo- lhe facilidades de crédito e ensinando-lhe as vantagens do regime de cooperação e da pequena propriedade, para que se torne psicologicamente favorável à harmonização dos interesses do campo com os da cidade” (SCHWARTZMAN, 1983, p. 350).

se economicamente e socialmente, de forma a inseri-la na coletividade nacional, enquanto produtora e consumidora

[...] é necessário atender à sorte de centenas de milhares de brasileiros que vivem nos sertões, sem instrução, sem higiene, mal alimentados e mal vestidos, tendo contato com os agentes do poder público, apenas, através de impostos extorsivos que pagam. É preciso grupá-los, instituindo colônias agrícolas; investi-los na propriedade da terra, fornecendo-lhes os instrumentos de trabalho, o transporte fácil, para a venda da produção excedente às necessidades do seu sustento; despertar-lhes, em suma, o interesse, incutindo-lhes hábitos de atividade e economia. Tal é a valorização básica, esta sim, que nos cumpre iniciar quanto antes – a valorização do capital humano, por isso que a medida da utilidade social do homem é dada pela sua capacidade de produção. (VARGAS, 1938a, p. 28)

Além disso, Getúlio Vargas reconheceria no latifúndio um obstáculo ao desenvolvimento econômico e social do interior do país e das massas rurais:

Em não poucas das regiões mais próprias para a agricultura, impera ainda o latifúndio, causa comum do desamparo em que vive, geralmente, o proletariado rural, reduzido à condição de escravo da gleba. Nessas regiões, seria conveniente, para os seus possuidores e para a coletividade, subdividir a terra, afim de colonizá-la, fazendo-se concessões de lotes a estrangeiros, como a nacionais, a preços módicos, mediante pagamento a prestações, além do fornecimento de máquinas agrícolas, mudas e sementes. (VARGAS, 1938a, p. 39).

Neste sentido, também na plataforma política da Aliança Liberal, Getúlio Vargas já anunciava, enquanto projeto de governo, a formação e a defesa da pequena propriedade, mediante a desagregação do grande domínio rural. O lento, mas contínuo, desaparecimento do latifúndio, em favor da pequena produção agrícola, alinhava-se à concepção de que uma nova configuração do panorama agrícola nacional se fazia necessária, face a necessidade de industrialização do país.

De acordo com Gabriela Bescow (2010, p. 82), o conteúdo crítico que Getúlio Vargas dispensara ao latifúndio, transigindo com a sua desagregação em favor da pequena propriedade, passaria, ao longo de seu governo, por um processo de reorientação, que teve como desenlace, no Estado Novo, a promoção de políticas de colonização, cujo principal escopo era a ocupação e o aproveitamento econômico de espaços “vazios”, integrando-os, também, a partir de uma ótica sustentada pelos tenentes “centristas”, no que tange às estratégias de Defesa e Segurança Nacional:

A colonização foi concebida a partir de diferentes modalidades. Uma delas era a das colônias localizadas nas faixas de fronteira, consideradas estratégicas na defesa do território nacional. Segundo o determinado na Constituição de 1937, em uma faixa de cem