Para Paulo Ribeiro da Cunha (2012), em sua análise sobre os escritos de Octávio Brandão99 e Leôncio Basbaum100, tais autores e suas respectivas obras estão indissociáveis da conjuntura das décadas de 1920 e 1930, tanto no que se refere ao conjunto da sociedade, apreendida em sua dimensão econômica, social e política, quanto no específico quadro da teoria e práxis da esquerda, marcado pela criação do PCB, em 1922; pela tentativa de se pensar o Brasil e o papel revolucionário da classe operária pela ótica do marxismo; pela ação política da Internacional Comunista (IC) e a sua forte influência teórico-revolucionária na vida partidária dos comunistas brasileiros, na virada da década de 1930.
O objetivo principal de Octavio Brandão, quando da elaboração de Agrarismo e Industrialismo101, era apreender a revolta tenentista de 1924, em todas as suas condicionantes, política, social, econômica e até mesmo “psicológica”, tendo como suporte os referenciais do materialismo dialético. Assim, aplicada a teoria marxista na compreensão da revolta dos jovens oficiais das Forças Armadas, Brandão estabelece o seguinte quadro esquemático:
[...] a tese estaria associada à fase do agrarismo feudal e seu expoente, Artur Bernardes. O industrialismo, corporificado na pequena burguesia e no capital industrial capitaneados pela sublevação de Isidoro Dias Lopes, seria a antítese; e a síntese inicia-se com o período da revolução proletária, historicamente demarcado com a fundação do PCB. (CUNHA, 2012, p. 90).
As rebeliões tenentistas, para o pensador comunista, estão associadas ao movimento contestatório da pequena burguesia brasileira, que gravitava no universo ideológico do “industrialismo”, contra as forças político-econômicas ligadas ao setor cafeeiro que, representantes do “agrarismo”, gozavam de uma posição hegemônica no cenário político nacional.
Dada a superioridade da produção agrícola frente ao setor industrial, no que tange ao número de estabelecimentos, valor da produção e mão-de-obra empregada, Octavio Brandão conclui que “[...] economicamente, o Brasil é um país agrário, país dominado
99 A obra em questão é Agrarismo e Industrialismo.
100 O texto de Leôncio Basbaum chama-se A caminho da Revolução Operário-camponesa.
101 A obra fora composta no ano de 1924, sendo publicada somente no ano de 1926, ainda que de forma
clandestina, tendo Brandão o cuidado de, diante da forte repressão policial, utilizar-se de pseudônimo, no caso: Fritz Mayer.
pelo agrarismo e não pelo industrialismo, [...]”. (BRANDÃO, 2006, p. 34). Além disso, dada a ínfima presença da pequena propriedade102 em nossa estrutura agrícola, o “agrarismo” simbolizaria, basicamente, o grande domínio rural, ou seja, o latifúndio, organizado em moldes capitalistas ou feudais103, cuja proeminência remonta ao período colonial:
A pequena propriedade rural não alcança sequer a décima parte do território: 9%. Portanto, o agrarismo nacional é o da grande propriedade, do latifúndio. Há quatro séculos que domina a grande propriedade. Há um século apenas que se forma lentamente a pequena propriedade. Portanto, a grande propriedade tem raízes profundas na história do Brasil. (BRANDÃO, 2006, p. 34).
À hegemonia econômica do “agrarismo” seguir-se-ia, em complemento, a sua dominação política:
Corolariamente: a política, a psicologia e a hierarquia social reinantes são cafeeiras. Quem manda na política nacional são os fazendeiros de café. A política tem de girar fatalmente em torno dos dois estados mais produtores de café – São Paulo e Minas Gerais. A miséria econômica e política da nação provem, em primeiro lugar, dos fazendeiros de café de São Paulo e Minas. Tudo é para eles. As leis são aprovadas ou repelidas conforme o seu desejo. Os impostos caem implacavelmente sobre a burguesia industrial e comercial, mas não sobre eles. (BRANDÃO, 2006, p. 37-38).
Octávio Brandão ainda teve o cuidado de articular as crises e conflitos internos com os impasses e contradições vividos pelo sistema capitalista, em sua fase imperialista, em escala global. Dessa forma, o que se assistia no território paulista constituía um componente de uma conjuntura maior, que acontecia mundialmente, marcada pelo acirramento dos conflitos entre as classes: “Se a isolarmos do cenário mundial, a revolta de 1924, em São Paulo, perderá uma de suas significações fundamentais”. (BRANDÃO, 2006, p. 28). Desta forma, a manifestação armada empreendida pelos “tenentes, naquele ano, constituiria “[...] um episódio, uma escaramuça local de uma grande batalha
102 Para Marcos Del Roio (1990, p. 43) Octávio Brandão “[...] faz referência ao proletariado rural, mas não
aos camponeses, pois, além de essa expressão ser pouco utilizada no Brasil, a pequena propriedade tinha pouco potencial revolucionário na formação social brasileira, já que surgia na zona de fronteira econômica ou na esteira da grande propriedade de produção declinante ou ainda em regiões de pouca importância para a economia de exportação”.
103 Para Octávio Brandão (2006, p. 36), “O agrarismo político é a dominação política do grande proprietário.
O grande no Brasil é o fazendeiro de café, de São Paulo e Minas. O fazendeiro de café, no Sul, como o senhor de engenho, no Norte, é o senhor feudal. O senhor feudal implica a existência do servo. O servo é o colono sulista das fazendas de café, é o trabalhador de enxada dos engenhos nortistas. A organização social proveniente daí é o feudalismo na cumieira e a servidão nos alicerces. Idade Média”. Em outra parte da obra, Brandão considera o coronel enquanto uma versão atualizada do “barão feudal” (BRANDÃO, 2006, p. 48).
internacional: a guerra internacional de classes”. (BRANDÃO, 2006, p. 31). Porém, diferentemente da forma pela qual a luta de classes se apresentava no continente europeu, ou seja, pelo embate entre burguesia e proletariado, no Brasil, a polarização dava-se entre a pequena burguesia e o setor agroexportador ligado ao café, este último identificado enquanto símbolo do arcaísmo, além de representar a face feudal da sociedade.
O quadro da sociedade brasileira se apresentava, para Octávio Brandão, da seguinte maneira: de um lado, enquanto grupo hegemônico, encontravam-se as forças ligadas ao setor agroexportador, principalmente as de São Paulo e Minas Gerais. Estas, associadas aos grupos financeiros internacionais104, formariam um bloco que conjugaria “feudalismo” e “colonialismo”. Em oposição a esta composição, estariam uma burguesia industrial de fraca expressividade, um movimento operário ainda incipiente e a pequena burguesia, esta última apresentando um comportamento vacilante e volúvel que lhe arrastava para soluções conciliatórias. Assim, diante de uma oposição débil e desorganizada, o “agrarismo” mantinha-se dominante na vida política e econômica do país. À sombra do latifúndio e, contra ele, tinha-se uma frágil resistência por parte da pequena burguesia e da classe operária e sua principal força de representação, o PCB, partido que ainda carecia de uma melhor estrutura para desempenhar seu mais importante papel.
Para Octávio Brandão, o principal equívoco da jovem oficialidade, quando da deflagração das rebeliões de 1922 e 1924, residiu na sua imaturidade política e no despreparo quanto às estratégias de ação que envolvem um movimento armado. Em 1922, não houve qualquer proclamação escrita que contivesse os ideais e as aspirações do movimento. Não se cuidou em provocar manifestações de massa ou insuflar o operariado. No plano ideológico, reinava toda a sorte de vacilos e hesitações típicos de uma mentalidade pequeno-burguesa que permanecia, assim, acorrentada à uma visão “estreita” da realidade. Assim sendo, os “tenentes”, enquanto militares, se tinham o conhecimento técnico com relação à insurreição armada, faltava-lhes, no entanto, a dimensão política que esta comportava:
104 As rebeliões tenentistas, encaradas enquanto uma disputa entre a pequena burguesia e o agrarismo
feudal, tem, enquanto uma de suas principais condicionantes, a guerra travada entre os imperialismos inglês e norte-americano por um maior espaço de influência na economia brasileira. Assim, enquanto os ingleses aliam-se ao situacionismo oligárquico, representado na figura de Artur Bernardes e, também, no latifúndio cafeicultor, representante do “agrarismo”, o capital ianque aproxima-se dos setores pequeno-burgueses, em torno dos quais figura a fração burguesa industrial (industrialismo): De um lado, o fazendeiro de café alia- se, nacional, [...], e internacionalmente, [...], ao financeiro. Do outro lado, o pequeno-burguês alia-se, nacional, [...], e internacionalmente, [...], ao burguês industrial”. (BRANDÃO, 2006, p. 103).
A visão do especialista é sempre estreita. Se, além de especialista, tem uma mentalidade pequeno-burguesa, a visão é duplamente estreita. E, se além de especialista e pequeno-burguês é positivista, a visão é triplamente estreita. Ele só vê a sua especialidade. [...]. Julga que sua especialidade resume o universo. O técnico só vê a técnica. Por isso, o bom artilheiro é geralmente um péssimo político. Não sabe combinar as forças para uma luta ampla. Não sabe dividir as forças do inimigo. Entende que a voz do canhão é o único elemento sério. O pior é que o técnico, não tendo a visão dilatada do político, não vê o principal. Quase sempre concentra as forças sobre elementos secundários. (BRANDÃO, 2006, p. 54-55).
A “estreita” consciência política e social da pequena-burguesia, fator fundamental para a sua derrota, impediu-a de perceber que “O fazendeiro de café só será derrubado pela frente única momentânea do proletariado com a pequena-burguesia e a grande burguesia industrial”. (BRANDÃO, 2006, p. 61).
Ante a possibilidade real de uma nova vaga contestatória com relação ao “agrarismo”, derrotadas a primeira, em 1922, e a segunda, em 1924, necessário se faz, primeiramente, estruturar organicamente o proletariado urbano, principal e único fator de natureza revolucionária, proporcionando-lhe sólida organização e formação política. Dessa forma, organicamente estruturado e politicamente amadurecido, sob a liderança do Partido Comunista, o operariado fabril converter-se-ia na
“[...] vanguarda de todas as forças revolucionárias na luta contra o feudalismo nacional e o dirigente de todos os oprimidos; operários agrícolas, meeiros, rendeiros, pequenos funcionários, mulheres trabalhadoras, pequena burguesia rural e urbana etc.” (BRANDÃO, 2006, p. 131).
Diante dessa perspectiva que se abria para o proletariado urbano e, sendo o Brasil uma nação “agrária”, fundamental seria a realização de um intenso trabalho de organização e arregimentação na zona rural, de forma a atrair o homem do campo para a causa revolucionária, transformando-o em força auxiliar dos operários “industriais”:
Procuremos arrastar as grandes massas operárias e camponesas em torno de palavras de ordem simples, concretas, práticas, imediatas. Não esqueçamos de que o Brasil, como a Rússia, é um país agrário. Incluamos em todos os nossos planos e cálculos, o elemento rural e seus correlativos: os vaqueiros, os lavradores pobres, os caboclos dos engenhos e das usinas, os seringueiros, os hervateiros, os colonos- servos, os rendeiros, os meeiros e até os pequenos proprietários que não vivam do suor alheio. Empreguemos todos os esforços para conquistar estes elementos, torná-los os aliados dos trabalhadores industriais, ligando-os numa solda indestrutível. Trabalhemos para desagrarizar, desfazendeirar, desmineirar, desbernardizar o Brasil. (BRANDÃO, 2006, p. 132).
Assim, de acordo com Paulo Ribeiro da Cunha (2012, p. 98), pode-se perceber em Agrarismo e Industrialismo a ausência de uma perspectiva que reservasse ao homem do campo a condição de um importante fator revolucionário. A construção analítica do rural, em Octávio Brandão, é realizada tendo como base as características inerentes ao universo feudal. Assim sendo, gozando de uma posição hegemônica no cenário nacional, a fração cafeicultora opunha-se veementemente aos reclames por uma modificação nas estruturas econômica, política e social. Essa forte resistência oferecida pelas classes agrárias é o que explicava a forma violenta por meio da qual se davam as relações sociais no campo, marcadas pelo reacionarismo da burguesia agrária; a completa sujeição do trabalhador rural, conformado com a sua realidade, e a ação brutal empreendida pelo cangaço.
Octávio Brandão reservaria, então, ao universo agrário e ao homem rural uma importância menor no quadro da Revolução, ainda que reclamasse uma aproximação do PCB com relação à população do campo, vista agora como uma componente relevante na preparação do movimento revolucionário, o que implicaria a necessidade sua organização e arregimentação. O espaço dedicado por Brandão à trajetória histórica do homem do campo, se comparado a dedicação do autor em explicar o amadurecimento político do proletariado urbano, é sintomático de sua concepção de Revolução, na qual “A base de ação atual é o proletariado da grande indústria” (BRANDÃO, 2006, p. 118), e o “[...] comunismo é, em primeiro lugar, uma teoria para os operários da grande indústria, da alta indústria centralizada, [...]” (BRANDÃO, 2006, p. 127-128).
Dessa forma, Octávio Brandão empreende esforço, em Agrarismo e Industrialismo, para inserir a classe operária, enquanto fator revolucionário de primeira grandeza, na esteira das manifestações político-militares empreendida pela pequena- burguesia contra a ordem oligárquica vigente, resultantes das contradições de ordem política, econômica e social que vinham corroendo os alicerces que sustentavam a condição hegemônica de que gozava uma fração das elites oligárquicas que compunham o bloco político dominante ao longo da Primeira República. Daí a importância de se estabelecer uma aliança estratégica com o movimento tenentista, em que pese as fortes desconfianças com relação à pequena-burguesia. É importante assinalar que, para Octávio Brandão, caberia ao operariado e sua vanguarda, o PCB, assumir o protagonismo no processo de transformação da realidade nacional, condição imprescindível para o sucesso do movimento. Contudo, esta posição proeminente da classe operaria e seu partido dar- se-ia posteriormente à revolução de caráter democrático-burguesa, quando estivessem
presentes, no palco da luta de classes, as condições necessárias para a derrota das correntes ligadas ao industrialismo105.
O Terceiro Congresso do PCB, realizado entre o final do ano de 1928 e o início de 1929, por meio das teses aprovadas, ratificaria o compromisso com a revolução de natureza “democrático-burguesa” e a orientação tática de uma aliança estratégica com a pequena burguesia, posicionamento que já vinha sendo explicitado, conforme visto, pelas lideranças partidárias. Contudo, é importante salientar que, mais uma vez, a questão agrária não receberia uma atenção especial, permanecendo, assim, várias lacunas e incertezas no que se refere ao posicionamento do partido frente aos interesses dos trabalhadores rurais e perante as relações sociais de produção vigentes na estrutura agrícola nacional:
Durante o processo congressual iniciou-se o debate sobre a questão agrária e camponesa, mas este era extremamente limitado pela carência teórica e de informações mais precisas sobre o campo brasileiro. Limitou-se a constatar o predomínio da grande propriedade e as condições de trabalho, sem, no entanto, determinar-se as relações de produção e as camadas sociais existentes. [...]. Julgavam ser mais realista propor um programa de defesa dos direitos sociais e de condições de vida, o que em si não mudava as relações de produção, mas poderia levar a patamares mais elevados a luta política. (DEL ROIO, 1990, p. 74).
De acordo com Marcos Del Roio (1990, p. 53), o panorama rural brasileiro, em suas dimensões socioeconômicas, só tardiamente ganharia relevância nas reflexões teórico-políticas do PCB106. Ainda assim, as análises acerca do universo agrário não tocavam no problema da concentração fundiária e no monopólio da propriedade agrícola, ficando ausente a questão do combate ao latifúndio, compreendido enquanto núcleo de sustentação do poder político e econômico das elites agrárias. Reflexo deste quadro é o esforço empreendido por Leôncio Basbaum, em A caminho da Revolução Operário-
105 Percebe-se, em Brandão, a presença da perspectiva “etapista” na formulação das características da
Revolução Brasileira, concepção essa que marcaria profundamente a produção intelectual dos comunistas brasileiros nos anos posteriores. Dada a condição do Brasil enquanto um país “semicolonial”, dominado pelo bloco burguês-feudal com o respaldado do imperialismo, a revolução democrático-burguesa constituiria o primeiro e importante passo em direção à revolução proletária, por meio da qual se alcançaria o comunismo.
106 Segundo o referido autor (1990, p. 28), quando da criação do Bloco Operário Camponês (BOC), em
1927, por iniciativa do próprio PCB, o partido, ao expor as intenções que motivaram a formação da frente única, sequer deu atenção ao problema da concentração fundiária e do monopólio da propriedade. A chamada “questão agrária” reduziu-se à apelos em favor da aplicação dos direitos sociais aos trabalhadores agrícolas. Para o referido autor, o tratamento dispensado ao campo, pelos comunistas brasileiros, refletia “[...] a visão de quem ainda encontrava dificuldade em sair do mundo do trabalho urbano e apenas lutava por sua unidade, [...]”.
Camponesa, escrito na década de 1930107, em (re) pensar o lugar do rural na estratégia da Revolução Brasileira.
Segundo Paulo Ribeiro da Cunha (2012, p. 106), a intenção de Leôncio Basbaum, nesse texto, era tecer considerações acerca da Revolução Constitucionalista de 1932, tratando das condicionantes e resultantes desse movimento. Além de uma postura crítica em relação ao PCB, a obra contém, também, importantes reflexões quanto ao panorama agrário nacional.
Basbaum invoca a necessidade de se estudar a realidade brasileira a partir dela mesma, ou seja, entender o que é o Brasil por meio do que lhe é característico e específico: população; antecedentes históricos; modos de produção; estrutura social; relações de poder e de propriedade. Da análise destas componentes, o autor em questão atesta a posição hegemônica que a grande propriedade agrícola desfruta no cenário nacional, circunstância essa que explica a triste condição em que vivia grande parte dos habitantes do país, localizada no campo e submetida a regimes de exploração do trabalho de natureza “semifeudal” e/ou “semiescravista”. Nas várias regiões do país, podia-se, assim, encontrar diversas formas de relações de trabalho: escravista; servil; capitalista:
Segundo ele, a população rural vivia em atraso, sob o regime de rendeiros e meeiros, na maioria das vezes como assalariada ou quase escrava em áreas de São Paulo e Rio de Janeiro. Também chamou a atenção para a existência de trabalho escravo na Bahia, Goiás, Mato Grosso, entre outros Estados. (CUNHA, 2012, p. 107).
Dessa coexistência entre diferentes regimes de produção e relações de poder nasceria um consórcio político dominante que, formado pela burguesia agroexportadora e pelos grandes latifundiários “feudais”, tinha nos principais Estados produtores de café o seu núcleo mais importante. Quanto à fração burguesa ligada à atividade industrial, Basbaum considera que a debilidade ideológico-organizativa, a dependência para com o capital estrangeiro e a postura conservadora diante dos movimentos populares, apresentadas por este grupo, representam fatores que lhe impediam de construir um projeto de poder próprio, enquanto alternativa ao do bloco agrário-feudal. Este e os seus aliados estrangeiros seriam os responsáveis diretos pelo quadro de dependência e instabilidade econômica, fruto da manutenção de um sistema produtivo que privilegiava
107 Não conseguimos ter acesso ao texto, sendo, por isso mesmo, nossas reflexões pautadas no estudo
crítico-analítico empreendido por Paulo Ribeiro da Cunha (2012). O referido autor chama-nos a atenção para o fato de que a obra fora publicada em 1933, sob condições um tanto quanto adversas – prisão, conflitos no interior do PCB, carência de fontes, perseguição política. Além disso, o texto de Basbaum teve pouca receptividade nos círculos comunistas.
a monocultura para exportação e, por isso mesmo, servia-lhes de sustentáculo político. Daí a complementaridade que se estabelecia, no Brasil, entre capitalismo e feudalismo, antitéticos à princípio, enquanto núcleos de apoio aos interesses imperialistas.
Diante desse quadro, Basbaum reclamava um movimento revolucionário que, apresentando um caráter agrário e anti-imperialista, com a decisiva participação das massas camponesas e do proletariado urbano, tinha por principal finalidade a erradicação do latifúndio; a distribuição de lotes de terra aos que cultivam; o combate ao imperialismo; a nacionalização das empresas estrangeiras; o não reconhecimento dos compromissos com os credores internacionais; nacionalização e coletivização dos meios de produção e da infraestrutura de transporte. Além disso, o militante comunista ainda reivindicava a formação de uma estrutura governativa sob o modelo dos sovietes, ou seja, na qual figurariam, como protagonistas, os operários da cidade e os trabalhadores do campo.
Dessa forma, a Revolução no país deveria apresentar uma natureza “democrático- burguesa” ou, sob outro nome, mas conservando o mesmo sentido, “agrária anti- imperialista”, cujo vetor principal estaria direcionado contra o latifúndio e contra o feudalismo, pilares de sustentação da burguesia agrária e dos latifundiários feudais que, em aliança com o imperialismo, formavam o bloco “feudal-burguês”, hegemônico na vida política do país. Nessa empreitada, o operariado urbano deveria contar, enquanto principal força de auxílio, com as massas rurais. Para Leôncio Basbaum, contudo, o PCB, em razão de sua debilidade organizativa e política, não conseguira fazer-se pujante entre os habitantes das cidades e do meio rural. No campo, o partido nem havia sequer, ainda, estabelecido qualquer tipo de aproximação com as massas rurais, as quais desempenhariam fundamental papel na Revolução. Por tais motivos, o intelectual