• Sonuç bulunamadı

Ebu‟l-Mehâsin er-Rûyânî (ö 502/1108)

Belgede Horasan Şâfiîliği ve Râfiî (sayfa 151-154)

Como demonstrei no segundo capítulo, as irmandades serviram de espaço para os forros legitimarem seus sentimentos e valores e ainda exporem uma visão de mundo que se dava pela expressão de suas tradições (danças, batuques, eleição de reis e rainhas), afirmando sua presença na sociedade local. Isso foi possível porque se ajustaram ao costume da época, de se reunir em irmandades em devoção aos santos católicos, mas procurando romper com algumas normas que lhes eram impostas e constituindo outras em que melhor se expressassem.

Nos testamentos e inventários e na análise dos Livros de Compromisso, notei que os pretos, crioulos e pardos encontravam-se rodeados pelos ritos católicos, que envolviam suas vidas, do nascimento à morte. Assim, por meio das irmandades,

elaboraram formas de proteção e afirmação perante a sociedade colonial, ao mesmo tempo em que os valores morais ligados à formação de famílias por meio do casamento, do batismo dos filhos e da solidariedade com os pares foram legados aos seus descendentes.

Nesse sentido, possibilitava-se aos livres – filhos dos forros – uma relação de pertença em meio a uma existência que era continuamente reestruturada no universo das relações sociais. A distinção de suas pessoas e a inserção social privilegiada podia ser alimentada no espaço das irmandades. Segundo Boschi (1986, p. 152):

A natureza dos vínculos e das relações entre os membros de uma irmandade colonial mineira nem sempre diziam respeito as suas concepções e sentimentos comuns frente a Deus ou ao orago de sua invocação, podendo estar mais nitidamente relacionada a necessidade dos indivíduos se irmanarem na defesa de seus interesses e de suas angustias comuns.

Percebemos que os crioulos e pardos livres, em suas necessidades de afirmação na sociedade e reconhecimento social, começaram a integrar outras associações como a Arquiconfraria de São Francisco, Irmandade de Nossa Senhora da Boa Morte, a Irmandade do Amparo e a Irmandade das Almas148 em suas filiações, como confirma a Tabela 8:

Tabela 8: Filiação a irmandades pelos crioulos e pardos livres

Irmandades Número de testadores

Irmandade das Almas 8 Arquiconfraria de São Francisco 7

Nossa Senhora do Rosário 5

Nossa Senhora do Amparo 3

Nossa Senhora do Rosário e Irmandade das Almas 2

Nossa Senhora do Amparo e Arquiconfraria de São Francisco 2 Arquiconfraria de São Francisco e Nossa Senhora do Rosário 2 Arquiconfraria de São Francisco e Irmandade das Almas 1 Não declarou filiação à irmandade 10

148

Total: 40 Fonte: Testamentos LT CPO (1719- 1799) – ACGB/IBRAM – Sabará.

A historiografia tem mostrado que pertencer a uma irmandade era significativo para a identificação e para a organização dos homens nos núcleos urbanos. O auxílio mútuo entre os pares e uma coesão grupal na valorização dos vínculos e redes de sociabilidades foram imprescindíveis para alimentar os anseios dos negros por ascensão social. Nesse sentido, lembro o pensamento de Barth (1998) a respeito da identificação dos sujeitos num grupo étnico, em que eles elaboram a percepção de um “nós” em contraposição a um “eles”, experimentando categorias de autoatribuição e identificação, organizando sua interação com as demais pessoas da sociedade.

Levando em consideração que a filiação a mais de uma irmandade era comum na sociedade mineira colonial, considero que alguns testadores, crioulos e pardos, não se afastavam da Irmandade do Rosário, mas integravam outras irmandades em suas filiações. Por exemplo, o preto forro Jacob Lopes de Brito, já citado no segundo capítulo, desejava satisfazer o que devia de anuais à Irmandade do Rosário e à Confraria de “meu padre São Francisco desta vila de quem sou indigno irmão”149, desejando que tais irmandades acompanhassem seu corpo à sepultura. Vê-se que Jacob já estava inserido em uma irmandade que aceitava um grande número de pardos. Seus filhos crioulos, como herança, já estavam inseridos em uma rede de sociabilidades e, possivelmente, de solidariedade que poderiam ser reforçadas na participação cotidiana em ambas as irmandades.

Nos Compromissos da Irmandade do Amparo e da Boa Morte, criados por pardos e crioulos livres, noto que seriam eleitos para provedores dos cargos os seus irmãos com “mais prudência e estabelecimento de bens”150 e não se faz menção a pessoas brancas para ocupação de cargos, como direcionava o Compromisso da Irmandade do Rosário do Arraial de Santa Rita. Os irmãos da Boa Morte relataram que a imagem da santa devota se encontrava no altar mor da capela de Nossa Senhora do Rosário dos Pretos, da qual, possivelmente, eram filiados.

Como membros, os crioulos e pardos, poderiam ser eleitos para os todos os

149

ACBG/ IBRAM – Museu do Ouro. LTCPO 28(43) f.9- 1773, CSO I (40)300- 1773. Jacob Lopes de Brito.

150

ACBG/ IBRAM – Museu do Ouro. Livro de Compromisso de Nossa Senhora da Boa Morte – Paracatu. Novembro de 1808. Capítulo17.

cargos, inclusive os de oficiais maiores, como escrivão, tesoureiros e procuradores. Talvez, por terem as habilidades necessárias, ocupassem os lugares dos brancos que aí estavam inseridos como oficiais maiores, burlando, assim, a dominação ideológica a que estavam sujeitos151. Se assim acontecia, só saberíamos por meio da leitura das atas de reuniões e demais documentos internos dessas irmandades, os quais não encontramos.

A pertença a irmandades dava aos crioulos e pardos a oportunidade de distinção e de coesão grupal, além de confirmar os legados de seus ascendentes na apreensão das práticas educativas morais, ou seja, da convivência com os ritos, da coordenação de suas irmandades, da organização de famílias etc. A solidariedade e os laços de afetividade reforçavam ainda mais as redes de sociabilidades e os possíveis investimentos educativos que receberiam ou fariam aos seus filhos, parentes, afilhados, “crias da casa”, enjeitados etc.

Nesse sentido, o pardo Joaquim da Mota Campos, o qual era homem solteiro que não tinha filhos, desejava que se realizassem obras pias para casar órfãos e assistir os pobres e aleijados. Pedia ele missas na cidade do Rio de Janeiro para as almas necessitadas e ainda deixava a sua sobrinha 200 mil reis “para ajuda de seu casamento e só depois de casada se lhe entregarão, e antes que chega a isso se porão a juros em mão segura a render para ela, que tanto o premio como o principal se lhe entregará ao depois de casada como dito fica”152. O casamento está explícito como reforço positivo, como o comprova a doação de um “prêmio” após sua consumação. Assim, imersos nesse mundo de valorização dos ritos católicos, homens e mulheres pardos os realizavam e se integravam melhor naquela sociedade patriarcal e hierarquizada.

Outras obras pias e investimentos no sentido de proporcionar bom casamento, boa inserção no mundo do trabalho e distinção frente aos pares são abordadas no tópico a seguir.

151

No Compromisso da Irmandade do Rosário do Arraial de Santa Rita, a inserção dos brancos nos cargos maiores está explícita da seguinte forma: “A mesa será composta de dois juízes e duas juízas, doze irmãos e três oficiais maiores com os cargos de escrivão, tesoureiro e procurador, sendo estes oficiais maiores brancos por não terem os pretos a inteligência necessária para os mesmos cargos; e os que forem eleitos em uma não poderão ser reeleitos senão depois de passados três anos, excetuando os oficiais maiores que hão de ser brancos”. ACBG/ IBRAM – Museu do Ouro. Livro de Compromisso da Irmandade de Nossa

Senhora do Rosário dos Pretos do Arraial de Santa Rita da Freguesia de Santo Antônio do Rio Acima na Comarca do Sabará - 1784. Capítulo 2.

152

ACBG/ IBRAM – Museu do Ouro. Translado do testamento anexo ao inventário CSO I (51)381-1780. Joaquim da Mota Campos.

Belgede Horasan Şâfiîliği ve Râfiî (sayfa 151-154)