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Ebû Sehl es-Suʻlûkî (ö 369/980)

18 Em 2003 o país contava com cerca de 148 milhões (em uma população de cerca de 177 milhões)

de brasileiros que não tinham acesso ao computador em seus domicílios, segundo o Relógio da Inclusão Digital, que marca permanentemente a taxa de inclusão digital de acordo com os dados que proporciona o site da Fundação Getúlio Vargas, FGV.

Para o segundo momento da aula de Geografia, desenvolvida no laboratório de Informática, o professor adotou alguns procedimentos da aula anterior. Agrupou os alunos por região de moradia, solicitou que lessem novamente o manual de instruções, caso necessitassem, e reafirmou o objetivo para aquela atividade. Após esses procedimentos, o professor de Geografia antecipou a leitura que iriam fazer, contextualizando-a com os conhecimentos dos alunos, conhecimentos esses estimulados na aula anterior, na qual pretendiam acessar o site da Prefeitura de Belo Horizonte.

20:30 h Prof.: E aí, pessoal, vamos recomeçar? Se necessário, leiam novamente o

manual de instruções para saberem como usar os computadores. Relembrando: nosso objetivo neste projeto é desenvolver uma visão cartográfica do meio geográfico em que vivemos através da leitura que iremos fazer aqui, no site da Prefeitura Municipal de Belo Horizonte. Os alunos, ao chegarem ao laboratório de Informática, encontraram os microcomputadores ligados e cerca de 70% estavam acessados ao site pretendido. O professor e os alunos também contaram com o auxílio do assistente responsável pelo laboratório, que se esteve presente na sala durante toda a atividade. Por esses motivos, não precisaram ler novamente os manuais.

No que diz respeito à tecnologia informática, pode-se dizer que sua utilização restringiu-se à dificuldade dos alunos por não terem conseguido fazer, de início, as máquinas operarem. Isso tem estreita relação com a questão da leitura, considerando que o objetivo do professor era o de estimular a produção intelectual através do uso do microcomputador. Haveria, portanto, outra forma ainda de, neste caso, ler a tecnologia:

20:40 h Prof.: Todos estão ligados no site da Prefeitura? Olha aí. Este suporte que

estamos usando é diferente daquele com o qual estamos acostumados. Não tem páginas de papel, olha aí...é diferente dos livros, jornais e revistas... e a função desse gênero aí é de informar, divertir, atualizar nossos conhecimentos. Olha lá, o nome dessa página é : www.pbh.gov.br. É como se fosse o título de um livro e dentro dele há várias histórias com outros títulos. Então, vamos entrar em outra página desta história: www.portal1.pbh.gov.br/pbh . Nesta

página encontraremos o que estamos pesquisando: o mapa que contém o bairro e rua onde vocês moram.

De toda forma, o mérito da iniciativa do professor foi a de tentar induzir os alunos a percorrerem caminhos desafiadores/diferentes, a inferirem informações e relações entre as informações que já conheciam (Olha aí. Este suporte que estamos usando é diferente daquele com o qual estamos acostumados) e a buscarem pistas auxiliares através da leitura completa do texto digital, (Não tem páginas de papel, olha aí.../ Nesta página encontraremos o que estamos procurando: o mapa que contém o bairro e a rua onde vocês moram.), com o objetivo de obterem uma compreensão global da leitura cartográfica.

O procedimento adotado pelo professor, ao promover uma leitura da visão cartográfica do meio geográfico através da tela do microcomputador, foi uma nova estratégia de leitura proposta aos alunos.

Pôde-se perceber que, durante a leitura, alguns alunos desconectavam, sem querer, a Internet. A linguagem usada para construírem sentidos para a leitura virtual estava ainda complicada e distante do universo deles. Pareciam estar ansiosos para verificarem se o bairro e a rua onde moravam estavam mesmo “desenhados” nas páginas consultadas. Quando conseguiam encontrá-los, demonstravam surpresa e uma certa euforia, pois pareciam não acreditar que “os becos” onde moravam fossem demarcados como “ruas” pela Prefeitura, conforme depoimento de alguns alunos: (anotações de caderno de campo, 08.10. 2003).

Aluno 1: Ô, professor, a Rua 17 tá aqui mesmo. Olha, tem até o Bar do Sô Jorge...!

Aluno 2: ... Esse bequinho aqui é onde eu moro? Mas ele tá com nome diferente... por quê? Aluno 3: Será que o meu bairro é grande assim mesmo? Eu não consigo entender bem esses

traços.

As estratégias do ensino de leitura utilizadas nessa aula são uma referência para a análise da prática pedagógica coordenada pelo professor, considerando que as suas estratégias, ao utilizar o texto digital como suporte, facilitaram a construção de significados dos alunos.

Nessa abordagem da leitura cartográfica, o trabalho pôde acontecer porque as práticas de leitura dos textos que circularam na aula proporcionaram aos alunos

uma abertura para relacionarem o tema estudado com outros que já conheciam dos conteúdos abordados nas aulas de Geografia.

Ao término da atividade, cerca de 80% dos alunos (num total de 40 alunos em sala) tiveram êxito nessa atividade e o processo de compreensão da leitura cartográfica foi organizado pelo professor de forma interdisciplinar, ao combinar os mapas com informações históricas que o professor e alunos foram construindo para sua interpretação.

Dessa maneira, o professor utilizou os seguintes recursos e ações como estratégias de ensino de leitura:

1. adoção de dois procedimentos da aula anterior: agrupamento dos alunos por região de moradia e incentivo à nova leitura do manual de instruções;

2. restabelecimento dos objetivos para a construção do conhecimento;

3. ativação do conhecimento prévio dos alunos ao antecipar os procedimentos para leitura;

4. estímulo à inferência de informações e relações entre as informações que já conheciam;

5. estímulo à busca de pistas auxiliares para a construção da leitura global do texto digital.

6. desenvolvimento do processo de compreensão da leitura cartográfica.

As tecnologias da informação e comunicação, se utilizadas com capacidade criativa, podem permitir maior velocidade, confiabilidade, armazenamento e processamento de conhecimentos codificados e de outros tipos de informação. Isso porque as potencialidades dessas tecnologias advêm do avanço das áreas de Eletrônica, de Telecomunicações e de Informática, pelo fato de estarem hoje nitidamente integradas, abrangendo o uso do microcomputador, com seus recursos de hipertexto, referindo-se a um conjunto de textos interligados hierarquicamente, facilitando a navegação do leitor pelos diversos assuntos ali integrados.

Vimos como a importância das tecnologias da informação e comunicação, para as aulas aqui trabalhadas, ficou evidenciada nas atividades e nas intenções do professor: de que elas pudessem auxiliar no processo de democratização da leitura de outro tipo de texto. No entanto, a capacitação

prévia do usuário (também do professor, que demonstrou ter dificuldades para operar as máquinas), inclusive para aproveitar as oportunidades oferecidas para usar a Internet, se fez necessária.

É preciso refletir então que a utilização das novas tecnologias da informação implica, de fato, maiores possibilidades de codificação/decodificação de conhecimentos. Mas os conhecimentos prévios aí subjacentes são difíceis de transferir instantaneamente e, sem eles, é possível que não haja (de)codificação das informações. O problema de fundo na questão das dificuldades de leitura (também aqui explicitadas) foi o do analfabetismo funcional, ainda mais grave, porque atinge também quantidades extraordinárias da população brasileira: três em cada quatro brasileiros (conforme dados da Agência Brasil, 30.09.2004).