Como nosso foco é pensar a formação do professor de Português, procuramos conhecer como as diretrizes nacionais da educação norteiam o processo de ensino de Língua Materna no que diz respeito às concepções de linguagem e de gramática, aos objetivos e às orientações metodológicas previstas
na preparação dos alunos e, desse modo, entender como a proposta idealiza a sistematização das atividades para os níveis de ensino fundamental e médio. Para tanto, esclarecemos, inicialmente, o que são e como estão organizados os Parâmetros Curriculares Nacionais, a partir daqui referenciados como PCN. Em seguida, delimitamos as concepções de linguagem e de gramática, assim como os objetivos de ensino e as orientações de planejamento para a realização das atividades que envolvem exercícios de oralidade, de escrita e de análise linguística.
Segundo os PCN (BRASIL, 1998, p. 27), as atividades de ouvir, falar, ler e escrever devem permitir, “por meio da análise e da reflexão sobre os múltiplos aspectos envolvidos, a expansão e a construção de instrumentos que permitam ao aluno, progressivamente, ampliar sua competência discursiva”. Essa competência é entendida como “a capacidade do usuário empregar adequadamente a língua nas diversas situações de comunicação” (TRAVAGLIA, 1996, p. 17). Portanto, o ensino de língua deve estar voltado para os usos da língua, já que precisamos estar conscientes de que constantemente nos envolvemos em interações sociais, nas quais utilizamos as várias linguagens que nos permitem estabelecer com os outros e com o mundo mecanismos de interação e intercompreensão.
Alarcão (2011, p. 25), por sua vez, afirma que é preciso entender que o alicerce da vivência da cidadania requer dos interactantes certas capacidades para “compreender o mundo, compreender os outros, compreender-se a si e compreender as interações que entre estes vários componentes se estabelecem e sobre tudo isto ser capaz de linguajar” em múltiplos contextos sociais. Nesse caso, constatamos que o objetivo de formação de alunos cidadãos está atrelado ao desenvolvimento da competência comunicativa, haja vista que esta lhes permite interagir com os outros nas diversas situações e nos contextos comunicativos da vida cotidiana.
Analisando as ideias expressas por esses autores, constatamos que, se pretendemos traçar objetivos de ensino voltados para que os alunos desenvolvam suas habilidades comunicativas, a Educação Linguística precisa ajudá-los a “saber fazer as coisas com as palavras” (LOMAS, 2003, p. 15). Por isso, acreditamos que os cursos de formação de professores devem compreender os desafios e as implicações dessa educação, haja vista que trará mudanças significativas no processo de ensino e aprendizagem, especialmente nos papéis desempenhados pelo professor (orientador/facilitador) e pelos alunos (aprendentes), como também
nas práticas pedagógicas que deverão se modificar para atender às exigências de formar cidadãos que tenham habilidades linguísticas de ouvir, falar, ler, entender e escrever (LOMAS, 2003).
Segundo Palma, Turazza e Nogueira Júnior (2008), a Educação Linguística tem como um dos pressupostos a ênfase nos usos da língua, na pluralidade de situações comunicativas e nas diversas variações. Por esse motivo, ao ensinar a Língua Materna, o professor não pode centrar-se em uma única variável da língua, nem se alicerçar no ensino tradicional das nomenclaturas gramaticais. Nesse aspecto, concordamos com os autores, pois entendemos que um ensino voltado para a formação de usuários competentes precisa desenvolver “uma didática diversificada que pressupõe o saber usar o material linguístico como recurso significativo, de forma refletida [...]” (PALMA; TURAZZA; NOGUEIRA JÚNIOR, 2008, p. 225). Esse pensamento se ajusta ao propósito de formar alunos cidadãos que saibam usar a linguagem como instrumento de defesa de seus pontos de vista, como também empregá-la nas interações sociais.
É preciso salientar que incluir a Educação Linguística nos cursos de licenciatura oferecidos pelas universidades pressupõe a observância de dois aspectos relevantes na formação de professores. O primeiro é entendermos que os alunos-mestres estão se preparando profissionalmente para formar alunos linguisticamente competentes e o segundo é que os próprios estagiários encontram- se, também, no papel de aprendente da Língua Materna. Logo, é necessário que o futuro professor tenha domínio dos conhecimentos científicos aportados nas teorias linguísticas (Linguística cognitivo-funcional, Linguística textual, Análise do discurso etc.) e nas teorias da Educação, inter-relacionando a área de Língua Portuguesa e Pedagogia para fundamentar sua prática no contexto de sua sala de aula (PALMA; TURAZZA; NOGUEIRA JÚNIOR, 2008).
Quanto à definição, os Parâmetros Curriculares Nacionais consistem em um documento oficial que tem como objetivo principal melhorar a qualidade da educação escolar em todo o Brasil, servindo, portanto, de referência nacional para o ensino. Por isso, suas orientações apontam para a construção de caminhos práticos, fundamentados teoricamente, que possam auxiliar os professores do ensino fundamental e médio, bem como os alunos do curso de licenciatura em Letras – futuros professores de Língua Materna –, a realizar suas ações didáticas de forma condizente com os princípios norteadores da educação nacional. Dessa maneira, a
análise das concepções trazidas pela proposta servirá de apoio para a reflexão sobre a prática diária do docente e o planejamento de suas aulas. Assim sendo, compreendemos que o documento oficial realmente apresenta avanços significativos para a preparação dos alunos na área da linguagem, visando à formação de um cidadão consciente e crítico, coincidindo com o perfil que deles se espera no contexto social.
Os PCN reorganizam o currículo escolar em áreas e subáreas, ressaltando a necessidade de promover o desenvolvimento de competências cognitivas e culturais dos alunos nos diversos níveis de ensino. A proposta para o ensino fundamental está sistematizada em diferentes áreas, tais como: Língua Portuguesa, Língua Estrangeira, Matemática, Ciências Naturais, História, Geografia, Artes e Educação Física, fundamentadas em questões relevantes à educação que envolvem conhecimentos sobre Ética, Saúde, Meio ambiente, Orientação sexual, Transversalidade, Pluralidade cultural e Trabalho de consumo. Na área de Linguagem, o documento organiza-se em duas partes: a primeira refere-se à apresentação da área e à definição de linhas gerais da proposta, enquanto na segunda se encontram definidos os objetivos, os conteúdos com as devidas orientações didáticas, ressaltando-se as relações entre o ensino de Língua Materna e as tecnologias da comunicação, e, finalmente, os critérios de avaliação.
Para o ensino médio, os OCNEM organizam-se em três grandes áreas: Linguagens, Códigos e Tecnologias, Ciências da Natureza e suas tecnologias e Ciências Humanas e suas tecnologias, construindo uma concepção curricular de transdisciplinaridade. Lopes et al. (2006, p. 97) afirmam que, “para construir um conhecimento que seja responsivo à vida social, é necessário que diferentes disciplinas entrem em convergência e passem a focalizar tópicos comuns”.
No caso específico da área de Linguagem, Códigos e suas Tecnologias (OCNEM), a linguagem é concebida como um ato de produção de sentido, sendo constituída de outras subáreas, como: Língua Portuguesa, Língua Estrangeira Moderna, Educação Física, Artes e Informática, que, por sua vez, compõem um conjunto transdisciplinar de saberes que devem construir o perfil de aluno preconizado na proposta educacional vigente.
No que tange à concepção de linguagem para o ensino fundamental, os PCN (BRASIL, 1998, p. 22) definem-na
como uma ação orientada por uma finalidade específica, um processo de interlocução que se realiza nas práticas sociais existentes nos diferentes grupos de uma sociedade [...]. Dessa forma, se produz linguagem tanto numa conversa de bar, entre amigos, quanto ao escrever uma lista de compras, ou ao redigir uma carta – diferentes práticas socais das quais se pode participar.
Além disso, consideram que a linguagem realiza-se na interação verbal entre interlocutores e, por isso, não pode ser compreendida fora da situação concreta de produção, isto é, há um vínculo muito forte entre os participantes da interlocução e a situação na qual se produzem os enunciados, pois “é no interior do funcionamento da linguagem que é possível compreender o modo desse funcionamento” (BRASIL, 1998, p. 22). Já na área de Linguagem, Códigos e Tecnologias no ensino médio (BRASIL, 2002, p. 19), a linguagem é entendida como
a capacidade humana de articular significados coletivos em sistemas arbitrários de representação, que são compartilhados e que variam de acordo com as necessidades e experiências da vida em sociedade [...]. A principal razão de qualquer ato de linguagem é a produção de sentidos.
Nessa perspectiva, podemos perceber que a linguagem está fundamentada na ótica enunciativo-dialógica de Bakhtin (1992), na qual é definida como social, criativa e pluridimensional, sendo, portanto, produção e produto cultural das práticas sociais, implicando, assim, seu caráter interativo, pois serve de intermediária nas relações interpessoais que ocorrem no momento da comunicação.
Sob esse enfoque enunciativo-dialógico para o ensino de Língua Materna, os PCN (BRASIL, 1998, p. 7) consideram que usar a linguagem significa
[...] produzir discurso: dizer alguma coisa a alguém, de uma determinada forma, em um determinado contexto histórico e em determinadas circunstâncias de interlocução. Isso significa que as escolhas feitas ao produzir um discurso não são aleatórias – ainda que possam ser inconscientes –, mas decorrentes das condições em que o discurso é realizado [...]. Isso tudo determina as escolhas do gênero no qual o discurso se realizará [...].
Daí, podemos observar que, na proposta, a linguagem é definida como um ato comunicativo que produz sentidos, devendo ser trabalhada de forma significativa na vida dos alunos, fazendo-os interagir através de textos e gêneros discursivos que circulam no meio social em que vivem. Então, os alunos precisam estar conscientes
das condições de produção e recepção dos discursos produzidos/recebidos, bem como entender os contextos em que ocorrem as interações das quais participam. Portanto, podemos constatar que as orientações presentes nos parâmetros insinuam um ensino de linguagem a partir de sua perspectiva de uso, ou seja, como ato interativo.
Vale salientar que essa nova concepção de ensino e aprendizagem, cujas bases firmam-se no desenvolvimento das competências cognitivas e culturais, requer dos professores conhecimento, reflexão e empenho no exercício da transposição didática dos princípios teóricos que norteiam e fundamentam as suas práticas na sala de aula, exigindo ainda esforços no planejamento e na elaboração de materiais didáticos.
A partir dessas considerações, podemos vislumbrar que o processo de ensino e aprendizagem da Língua Materna exige do professor uma formação acadêmica inicial bem fundamentada nas teorias linguísticas e didático-pedagógicas que se ajustem aos objetivos da proposta vigente e às metodologias que favoreçam o desenvolvimento das competências e habilidades que devem constituir o perfil dos alunos. Nessa ótica, os PCN delineiam o perfil de saída dos alunos, esperando que eles aprendam por meio da escuta de textos orais, da produção de textos escritos e orais e da análise linguística. Sabemos que a incorporação dessas novas orientações provoca sérias mudanças na postura do professor, uma vez que ele precisa criar situações nas quais os alunos possam experienciar os conhecimentos linguísticos; na escola, que se voltará para um aluno real, concebido como um ser ativo que constrói seu conhecimento a partir da interação com o outro; e, especialmente, nos alunos, que passarão a utilizar e a produzir a linguagem, aprendendo o funcionamento de suas diferentes manifestações e diferentes códigos (verbal e não verbal).
Ao tomarmos essas concepções de língua/linguagem relacionando-as ao ensino de Língua Portuguesa, observamos que o objeto de ensino e aprendizagem passa a ser “o conhecimento linguístico e discursivo com o qual o sujeito opera ao participar das práticas sociais mediadas pela linguagem” (BRASIL, 1998, p. 22). Assim, os parâmetros nos orientam que é preciso trabalhar em sala de aula com a multiplicidade de variáveis linguísticas, o que possibilitará ao aluno desenvolver seu potencial de interação social com o outro e em diferentes contextos.
Como o objetivo é ampliar a competência discursiva dos alunos, a proposta recomenda que a prática de Língua Portuguesa precisa considerar a linguagem como atividade discursiva, o texto como unidade de ensino e uma noção de gramática que se ajuste ao conhecimento que o sujeito traz consigo, para que, aos poucos, possa ir aperfeiçoando-se através de exercícios discursivos variados.
Além disso, os parâmetros sugerem que os docentes tomem como base um diagnóstico sobre o que os alunos já possuem para que, a partir dele, possam elaborar um planejamento das ações didáticas de modo que atenda às necessidades comunicativas imediatas e à ampliação do saber linguístico. Dessa maneira, o ensino de Língua Materna centra-se no propósito de desenvolver e sistematizar a língua que o aluno já possui de forma internalizada, estimulando a verbalização e o domínio de outras linguagens existentes no contexto social em que vivem.
Sob esse ponto de vista, os conteúdos de Língua Portuguesa deverão ser organizados de modo diferente, pois a gramática perderá sua hegemonia, passando para um segundo plano, no qual servirá como recurso para compreender, interpretar e produzir textos diversos. Portanto, será necessário construir atividades de ensino que sejam significativas, contínuas e organizadas sob uma concepção enunciativa da língua. Essas atividades, que envolvem os conhecimentos epilinguísticos, devem estimular a transformação das escolhas inconscientes dos alunos em escolhas conscientes, que permitem as reflexões metalinguísticas, tornando-os habilitados no domínio e no emprego dos saberes linguísticos em reais situações de uso da linguagem (GERALDI, 1996).
Em relação às orientações metodológicas, os PCN nos fazem vislumbrar que o ensino de Língua Materna abrange atividades que refletem as concepções de língua/linguagem e gramática, das quais derivam o objeto de ensino, os objetivos, os conteúdos e a avaliação. Como afirma Antunes (2009, p. 218), “o que e como ensinamos e avaliamos estão na dependência imediata das concepções que temos acerca do que é uma língua, de como funciona e a que fins se propõe”. Portanto, o fazer pedagógico do professor de Português precisa articular-se, principalmente, com a concepção de língua, porque é a partir dela que os objetivos são traçados, a metodologia é escolhida e as atividades são planejadas.
Nessa perspectiva, as práticas de ensino devem firmar-se no entendimento de que o domínio da linguagem é funcional e interativo, por isso tudo o que se refere
à dialogicidade da língua e à produção de sentidos que se manifesta na diversidade de textos orais e escritos e dos diferentes gêneros passa a ser o cerne da ação didática. Quanto ao tratamento didático dos conteúdos, a proposta orienta que a metodologia utilizada pelo docente esteja pautada no princípio norteador de açãoĺreflexãoĺação, uma vez que os PCN (BRASIL, 1998, p. 65) instruem que no ensino de Língua Portuguesa é preciso incorporar “a reflexão às atividades linguísticas do aluno, de tal forma que ele venha a ampliar sua competência discursiva para as práticas de escuta, leitura e produção de textos”.
Logo, ao planejar as aulas, o professor deve considerar de que maneira as competências esperadas dos alunos serão transformadas em objetivos que favoreçam a construção de uma consciência linguística, pois serão as metas pretendidas para orientar a seleção de conteúdos e de procedimentos didáticos efetivados nas práticas educativas. Ou seja, se a finalidade é desenvolver a competência comunicativa, os saberes e o saber fazer devem estar articulados de modo que possam alcançar o objetivo de formar sujeitos linguisticamente competentes. Em síntese, os PCN apontam para uma nova prática de ensino de Língua Materna que priorize um enfoque interativo e enunciativo da linguagem, exigindo dos docentes uma renovação metodológica nas ações pedagógicas e na reorganização das atividades de leitura, de escuta, de produção textual e de análise linguística, voltadas para o domínio do uso da língua.
A partir dessas considerações, fundamentamos as nossas análises sobre as práticas pedagógicas dos alunos-mestres, buscando entender como fazem a transposição didática dos saberes em prol de um ensino de Língua Portuguesa, conforme propõem os parâmetros curriculares nacionais.