DRAM SANATINDA DRAMATİK DİL VE KULLANIM
2.1. Neden „Dramatik Dil?‟
Uma breve incursão pelo bairro étnico da Liberdade, na cidade de São Paulo, reduto de comércio e restaurantes do Extremo Oriente, nos apresenta uma profusão de ideogramas chineses, presentes nas barracas da feira de artesanato, nas lojas e nas roupas das próprias pessoas que por ali circulam: camisetas, cartões de felicitação, adesivos, chaveiros e tatuagens com os kanji2 das palavras “paz”, “amor”, “amizade” e
“força” são bastante comuns.
Palavras que não apenas inspiram, mas também demonstram um certo caráter “místico” em geral associado à cultura oriental. Não por acaso, a caligrafia japonesa é associada, no Brasil, a um certo estado “zen”, possivelmente um estado espiritual extático de paz e sintonia:
DÔ – CAMINHO DA ARTE 133 imaginamos o calígrafo como um ancião, um monge budista, uma pessoa “iluminada”; sua escrita deve emanar quietude e mansidão.
No entanto, esse lado “místico”, “zen”, enquanto propaga uma forma de caligrafia idealizada, na forma de clichê, obscurece outras manifestações da caligrafia. Além disso, ainda esconde as reais apro- ximações do zen com a caligrafia japonesa e sua trajetória.
Um olhar mais apurado, de fato, revela que a caligrafia na verdade sempre acompanhou o seu tempo, transformando-se, adaptando-se e recriando-se. Vindo da caligrafia chinesa, a caligrafia japonesa se constituiu tendo antecedentes épicos: em séculos de história, a escrita caligráfica chinesa testemunhou a queda e a unificação de reinos, e desprendeu-se de sua origem de comunicação divina, em que carac- teres eram utilizados para fins oraculares,3 para servir de instrumento
de ligação entre os homens. Seus vários suportes – varetas de bambu, bronze, madeira, pedra e papel – não evoluíram apenas segundo a necessidade social da escrita da sua época, mas vieram acompanha- dos de refinamentos estéticos, criação de novos estilos e teorias, que construíram uma tradição da escrita caligráfica bastante sólida.
No entanto, uma vez em território nipônico, a caligrafia ali se desenvolveu aos poucos, com um percurso singular e uma identidade própria em relação à chinesa, ainda que o diálogo com a China nun- ca tenha se rompido. No período Heian (794-1185), por exemplo, devido à queda da dinastia Tang, houve um declínio da influência chinesa e emergiram manifestações genuinamente japonesas, como o surgimento do sistema fonético kana (do qual derivou o estilo de caligrafia de mesmo nome) e de valores estéticos próprios, como aqueles presentes na poesia, que prezavam mais a sugestão do que a riqueza ornamental da poesia chinesa (Henshall, 2005).
Mais à frente, durante a Idade Média japonesa, ocorreram mais transformações na cultura e nas artes japonesas, em que o zen- -budismo tem um papel significativo, e que nada tem a ver com
3 Os caracteres eram inscritos em ossos/cascos de tartaruga e submetidos ao fogo, que criava rachaduras entre eles, dando margem a interpretações oraculares (Earnshaw, 1988).
134 CECILIA K. J. SHIODA, EUNICE V. YOSHIURA, NEIDE H. NAGAE (ORGS.) o tão propagado clichê. Foi nesse período que elas incorporaram valores zen que moldaram a sua essência atual, como a experiência do momento presente, o dinamismo, a relação com o espaço e o não dualismo (Westgeest, 1996) – valores que podem ser perfeitamente encontrados na caligrafia.
A caligrafia japonesa valoriza o momento presente no seu fazer, mais do que a busca de uma forma perfeita e bem-acabada. Não existe o retoque, a correção, e, por isso, muitas vezes a caligrafia é vista como uma arte de “gesto único”. O registro da escrita no papel acaba sendo o retrato de um intervalo vivido e, como na vida, não há volta. Para fazê-lo, é necessário uma entrega total:
Nesta arte das linhas, encontramos uma continuidade do tempo e do movimento. Uma vez começado, um trabalho deve ser levado imediata- mente à finalização. Para fazer isso, deve-se ter continuidade no coração. (Minami; Kazuaki, 1961, p.102)
Um coração disperso certamente não será capaz de produzir um trabalho de caligrafia bem-feito, o que significa que o calígrafo deve estar num processo de aprimoramento contínuo, a fim de se disciplinar e aprender. É através da prática constante que o calígrafo cria uma relação dinâmica, não apenas com os materiais, mas também consigo mesmo, com a sua própria escrita e com o todo ao seu redor.
É importante ressaltar que as noções de tempo e espaço são conceitos bastante peculiares no Japão, sobretudo pela presença do ma – um elemento da cultura japonesa que em geral faz referência a tempo, espaço e tempo-espaço e está presente nas artes, na música, na arquitetura, e até mesmo dentro do cotidiano japonês, na comunicação gestual e verbal4 (Okano, 2007b, p.10).
Por conta do ma, o espaço nas artes japonesas permite outra pers- pectiva, a de um espaço de participação. Nesse sentido ele é um espaço amplo, que envolve e é envolvido pela ação criativa – o que remete também à visão não dualista presente no zen.
DÔ – CAMINHO DA ARTE 135 Na caligrafia, o não dualismo pode ser visto de algumas formas, como na relação do calígrafo com os materiais, que se comportam como uma extensão do próprio corpo; e nas relações entre linha e espaço – não apenas como elementos simbólicos que se complemen- tam no papel, mas também como reflexos presentes no corpo que faz a caligrafia (e, portanto, na linha que é traçada), e no ambiente que o circunda (o espaço).
O fato de a caligrafia ter elementos do zen na sua essência não significa, no entanto, que haja nela uma uniformidade, como algo serializado e formatado. Pelo contrário, isso a torna dinâmica. Além disso, por conta das singularidades presentes em cada pessoa, há a possibilidade de a caligrafia transcender uma simples escrita e ser a expressão viva do seu autor.
Na história da caligrafia japonesa há exemplos marcantes de calígra- fos que são exemplos disso. Um deles foi o monge budista Nakahara Nantenbo (1839-1925), cujo trabalho foi uma das referências para os calígrafos do pós-guerra. Além de ter se tornado um respeitado sacer- dote no zen, Nantenbo também ficou conhecido por suas pinturas e caligrafias, iniciadas tardiamente. Sua caligrafia era descompromissada de regras e nos últimos anos assumiu uma forma de prática zen (Addis, 1998 apud Holmberg, 1998). Uma descrição desse monge-calígrafo fazendo caligrafia retrata algo bastante singular:
[...] primeiro ele bebia uma enorme quantidade de saquê para entrar num estado mental próprio. Finalmente, levantando-se e jogando abaixo sua xícara, ele disse: “Vamos começar”. Amarrando seu robe, ele pegou seu pincel em ambas as mãos, mergulhou na tigela de tinta, um auxiliar tirou parte do excesso de tinta do pincel, deu uma respirada profunda em seu estômago, e gritou “Katsu” [vitória!]. Ele unia seu corpo e espírito juntos, como um lutador de sumô, durante o ritual de preparação antes do com- bate: o pincel movia com o som “sa-sa-sa” e gotas de tinta se espalhavam nos rostos dos espectadores... No momento em que ele terminava a última linha do primeiro caractere... ele de repente chutou o pincel com o pé direito, espalhando tinta por cima das tábuas do teto. Ele não tinha planejado, mas o chute poderoso foi uma ocorrência zen que investiu sua caligrafia com uma força tremenda. (ibidem)
136 CECILIA K. J. SHIODA, EUNICE V. YOSHIURA, NEIDE H. NAGAE (ORGS.) A caligrafia de Nantenbo, de certa forma, já prenunciava aquilo que seria a grande mudança da caligrafia japonesa no século XX, a de uma escrita fruto de uma visão pessoal e autoral.