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B. Sorumluluğu Doğuran Hukuki Nedenler

4. Diğer Hukuki Sebeplere Dayanan Sorumluluk

Sinalizando o início de uma nova forma de cobertura jornalística, com a ampliação do fluxo de informação, a Guerra do Golfo deixou marcado na História a relação de submissão

da imprensa com o governo dos Estados Unidos. O conflito que invadiu a casa do público durante 24 horas por dia, por meio de imagens coloridas da TV, foi também um marco às restrições do direito de liberdade de imprensa. Neste aspecto, o conteúdo informativo foi usado, muitas vezes, como arma na guerra psicológica e para a indução da opinião pública.

Antes mesmo da guerra, a censura já existia no Iraque. Com a eclosão do acontecimento, a relação de controle à mídia, especialmente na cobertura que seria gerada para a maioria dos países (a dos norte-americanos), foi caracterizada principalmente pelas restrições à cobertura jornalística, o que isolou jornalistas do mundo inteiro e representou uma fiscalização no conteúdo informativo.

Cerca de 1,6 mil pessoas faziam parte da equipe de jornalistas posicionados no Golfo Pérsico para fazer a cobertura da guerra, excedendo o número de profissionais envolvidos na Guerra do Vietnã, por exemplo (CARRUTHERS, 2000). De agosto a dezembro de 1990, meses que antecederam o conflito, uma série de normas envolvendo governo dos EUA, forças militares e mídia foram aplicadas em troca da cobertura jornalística.

Devido à pouca tecnologia da época e à falta de satélites para a transmissão de dados, a maioria dos jornalistas foi obrigada a se submeter aos militares norte-americanos, que possuíam equipamentos mais modernos para a transmissão de dados. Para o governo, a preocupação maior não era de como a imprensa transmitiria suas reportagens, mas qual o conteúdo delas. Pensando nisso, Carruthers (2000) acredita que o Pentágono estava convencido de que a mídia poderia ser um obstáculo à vitória na guerra, como no Vietnã.

Na verdade, a Guerra do Golfo foi anunciada como a primeira guerra a ter imagens ao vivo transmitidas pela televisão. Pela primeira vez, em janeiro de 1991, um conflito foi mostrado em tempo real. Ao mesmo tempo em que se dava um largo passo à democratização da informação, apenas uma emissora tinha condições de transmitir as notícias para a casa do público.

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No momento em que a guerra explodiu, a CNN dominou por completo a cobertura do conflito. Outras emissoras, como CBS e ABC e NBC, perderam o contato com seus correspondentes na capital iraquiana, o que fez com que todas as emissoras do mundo se vissem na obrigação de televisionar as imagens da CNN. A emissora se transformou no único canal de informação a fazer contato entre a guerra e o resto do mundo e em uma forma restrita de veiculação da informação.

Em um aspecto geral, a cobertura de guerra representou para a imprensa um retrocesso a sua própria liberdade de informar. Temendo represálias do governo e uma reprise da guerra do Vietnã, quando foi acusada de colaborar para a derrota dos norte-americanos, boa parte as empresas jornalísticas optaram pela cobertura branda dos fatos, onde a celebração da tecnologia e das armas utilizadas pelo Exército se mostrava maior e mais importante do que os resultados violentos do conflito. No caso da cobertura transmitida pela televisão, a CNN, por exemplo, mostrou ao mundo um espetáculo em que mísseis atravessavam o céu de Bagdá, mas pareciam não causar destruição.

Na verdade, a autocensura imposta na cobertura ficou evidente já nos primeiros dias de veiculação do trabalho jornalístico. Não existia a intenção de falar dos mortos, e a população civil iraquiana sequer apareceu nos noticiários ou transmissões. Quem assistia ao conflito pela televisão tinha a impressão de estar acompanhando uma guerra limpa, sem inimigos, sem batalhas e sem violações às liberdades. Na verdade, a violência da Guerra do Golfo começou contra a própria imprensa: amordaçada, transmitiu fatos omissos à opinião pública.

O tipo de imagem usado na cobertura, com luzes de mísseis e efeitos, colaborou com o espetáculo que precisavam as redes de TV, ao mesmo tempo em que tranqüilizou a consciência ocidental e ajudou a manter o apoio dos governos que participavam do conflito. O contraponto da cobertura jornalística caracterizada pela autocensura se dá quando

conhecemos os números da primeira guerra do Golfo: sabe-se hoje que pelo menos 150 mil pessoas morreram ou foram feridos na chamada “guerra sem sangue”.

Por trás da cobertura jornalística que tanto chamou a atenção da opinião pública, escondeu-se, principalmente, a tortuosa relação entre a liberdade de imprensa e a guerra. Como em outros conflitos, o Exército ditou as regras do jornalismo. Interessado em manter a propaganda ideológica e conduzir as mentes por meio da guerra psicológica, autoridades fizeram limitações para tentar invadir os pensamentos da população.

Entre as restrições na cobertura, foram proibidas notícias sobre as tropas, fotografias, incluindo tomadas aéreas ou de satélites, informações sobre as atividades de inteligência e sobre movimento das tropas durante as operações, textos e imagens que identificassem aviões ou barcos perdidos e dados sobre o número de mortos. Na verdade, o governo justificou tal controle para manter a segurança do país e evitar o uso de tais informações pelos inimigos, e usou a imprensa como aliada de guerra para conduzir a opinião pública.

A relação entre a mídia e os Estados Unidos durante este conflito se deu, de acordo com Pizarroso (1991), por meio de três instrumentos:

a) O controle de fontes e acesso das mesmas, com censura prévia de todo material transmitido e filtragem de informações;

b) O silêncio sobre o número de mortos e feridos no Iraque e a proibição de transmitir imagens das vítimas;

c) O excesso de dados técnicos e informações marginais, combinadas com apagões de informações nas primeiras horas da ofensiva aérea e terrestre.

Durante o conflito, o êxito da política informativa deveu-se à política militar e ao isolamento diplomático do regime iraquiano, que lhe fez perder a credibilidade no Ocidente como contrapeso das informações do Pentágono. Além disso, o líder iraquiano Saddam

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Hussein mostrou-se interessado em ocultar seu povo, fortalecendo a opinião pública em favor dos Estados Unidos.

Tal envolvimento conduzido pelo controle da liberdade de imprensa gerou, sem dúvida, reflexos positivos à atuação do governo norte-americano na guerra. Nesse caso, ao mesmo tempo em que se submetia às restrições, tal controle era encarado pela opinião pública como necessário à manutenção de segurança do Estado – o que mostra, a princípio, um desinteresse da população pela liberdade de imprensa e a necessidade de trocar a segurança pública pelo direito de ser informado.

Pesquisas de opinião pública realizadas durante o conflito justificam o crescimento na crença pelo governo dos EUA. Conforme uma pesquisa do jornal USA Today, publicada em 18 de janeiro de 1991, 75% dos norte-americanos apoiava a decisão de ataque do então presidente, George Bush. Após um mês da intervenção, o apoio militar havia aumentado para 81%.

Segundo pesquisa realizada entre 25 e 27 de janeiro do mesmo ano, pelo Princeton

Survey Associates (Le Monde 29/01/1991) 57% dos entrevistados se declaravam a favor do

controle da mídia. Por outro lado, 80% consideravam que os militares não disfarçavam ou dissimulavam as notícias e 72% consideravam a cobertura aceitável e objetiva. Uma semana depois, uma pesquisa do Times Mirror Center afirmou que 78% dos entrevistados apoiavam as restrições nas informações e que 59% acreditava que o Pentágono deveria incrementar o controle.

Nessa perspectiva, inclusive os jornalistas entrevistados afirmaram que a censura à liberdade de imprensa foi necessária no conflito. Uma pesquisa realizada na época pelo semanário francês L’Express (21 de fevereiro de 1991) revelou que 63% dos jornalistas franceses consideravam normal se submeter à censura militar e 78% deles achavam legítima a autocensura. Dessa forma, o controle foi aprovado, principalmente, devido aos seguintes

tópicos: quando coloca em perigo a vida (78%), quando o inimigo pode obter informações (77%), quando a informação pode servir como propaganda para o inimigo (48%).

Por fim, as coberturas jornalísticas durante a Guerra do Golfo deixaram ainda mais expostas as frágeis relações da imprensa com o poder. Sem condições para assumir suas próprias decisões e pressionada pelas autoridades e pela opinião pública, a imprensa foi vítima e cúmplice da própria vulnerabilidade.