A imprensa não nasceu livre e, devido a sua característica de mobilizar os cidadãos, colaborar na construção de opiniões e auxiliar no comando da sociedade, desde seu surgimento, é alvo e coadjuvante de jogos de poder.
O legado deixado pelas revoluções, por meio das disputas travadas com a intenção de garantir a liberdade de informar, nos faz compreender esta importância que a imprensa tem, principalmente na construção da opinião pública. Na verdade, existe uma espécie de magia sobre seu papel na sociedade. O trabalho de informar livremente e colaborar na formação da opinião pública encanta e é requisito básico para a manutenção de uma sociedade igual, democrática.
Por outro lado, o controle do fluxo de informações, que vai contrário às doutrinas que pregam a livre informação, representa uma forma de tentar, de alguma maneira, formar novas opiniões e conduzir idéias de acordo com ideologias criadas por governos e autoridades. Neste sentido, quando a imprensa passa a veicular notícias opostas às idéias políticas e ideológicas das autoridades, a censura e o controle são garantias para induzir o pensamento dos cidadãos.
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Na verdade, as múltiplas relações entre imprensa e autoridades, existentes desde os primórdios, são espelhos dessa luta pelo poder: de informar, conhecer novas perspectivas e debater. Nos dois últimos séculos, o cenário dessa era pela luta da informação (seja unicamente pelo seu controle ou pelo exercício de transmiti-la de maneira verídica) vem sendo marcado também por políticas de autoproteção, que encontram na censura uma peça- chave, por restrições que ameaçam o exercício da democracia e por ações que exaltam a violência. Atualmente, é possível listar governos que restringem o trabalho dos jornalistas e situações nas quais a sociedade é banida do seu direito de manter-se informada.
Em uma perspectiva mais ampla, podemos citar países como a Coréia do Norte, Eritréia e Turcomenistão que constituem a lista dos piores locais para o exercício da liberdade de imprensa, de acordo com um relatório de 2005 da organização Repórteres sem Fronteiras (CLASIFICACIÓN, 2005). Nestes países, a imprensa privada não existe, a liberdade de expressão é nula e a democracia é um processo que não faz parte da maneira de governar. Os jornalistas que ali trabalham são representantes oficiais do governo, e qualquer desvio de conduta é transformado em pressão psicológica ou até mesmo em morte.
Nos últimos anos, devido à guerra, o Iraque é outro país que vem se transformando em espaço de hostilidades para os jornalistas, deixando ainda mais exposto o conturbado jogo de poder entre a imprensa e as autoridades (mais detalhes podem ser conferidos no terceiro capítulo). Em uma análise geral, um relatório da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco) afirma que as guerras vitimaram com a morte pelo menos 274 jornalistas em zonas de conflito entre 1990 e 2002 (FREEDOM, 2005).
O mosaico de restrições à liberdade que se forma na era contemporânea não poupa também as democracias ocidentais. No Brasil, de abril de 1997 a novembro de 2005, o
Programa em Defesa em Defesa da Liberdade de Imprensa da Associação Nacional de Jornais (ANJ) registrou 179 casos contra o direito da livre informação.
Em um ranking mundial da Repórteres sem Fronteiras sobre as nações com maior ou menor liberdade de imprensa, os Estados Unidos, onde nasceram os princípios da liberdade de imprensa, caíram 20 posições no último ano. Ocupando o 44º lugar, ficando atrás de países como Hong Kong, África do Sul e Chipre, o país decresceu na lista do último ano devido, principalmente, ao encarceramento de jornalistas, como foi o caso da repórter do New York
Times Judith Miller, e de políticas para manter a segurança pública, principalmente após os
atentados de 11 de setembro de 2001.
Por fim, pode-se afirmar que, embora o tempo e as novas tecnologias tenham colaborado para a liberdade de imprensa, atitudes autoritárias e governos rígidos ainda comprometem o direito de informar. A idéia deixada pelas revoluções de que a liberdade de imprensa é fundamental para a construção e manutenção de uma democracia permanece. Mas o desejo pelo controle também faz parte de um jogo de interesses que parece nunca ter fim.
2 LIBERDADE DE IMPRENSA E OS REGIMES AUTORITÁRIOS E TOTALITÁRIOS
Com o poder de invadir e manipular o imaginário coletivo por meio de técnicas de propaganda e persuasão, os regimes autoritários e totalitários propagados pelo mundo, principalmente no século XX, encontraram na repressão, na censura e nas ameaças algumas das estratégias mais eficazes para controlar o livre fluxo de informações. Em busca de uma unidade de pensamento, na qual uma das idéias principais era demonstrar o papel do Estado como mantenedor da ordem e do desenvolvimento, estes governos proibiram escritores de publicar obras consideradas de contrapropaganda, esconderam informações, torturaram jornalistas e intervieram nos meios de comunicação.
Tais medidas eram aplicadas com a justificativa de que representavam uma estratégia para criar a imagem de um país harmonioso e (paradoxalmente) livre de conflitos. Existia a intenção de promover uma linha de pensamento que incentivasse a população a manter uma opinião concentrada nos parâmetros propostos pelo governo. Além disso, prevalecia nestes regimes o controle da voz dissonante.
Para conhecermos as estratégias utilizadas na restrição à liberdade de imprensa e a relação destes dois regimes com o exercício do direito à informação, este capítulo tem o objetivo de traçar uma linha histórica dos fatos. Serão analisados tópicos pontuais para que seja possível conhecer a influência dos governos no trabalho jornalístico e a disponibilidade e luta da imprensa durante sua tortuosa relação com os estados autoritários e totalitários.
Primeiro abordaremos a posição do totalitarismo sobre o direito da livre informação, no qual negava-se a total liberdade de Estado. Depois, falaremos do posicionamento do autoritarismo diante as questões da liberdade de imprensa. De modo geral, os dois movimentos significaram o fim de uma ilusão proveniente das idéias democráticas, na qual o povo participava ativamente do governo e simpatizava com o partido da situação.