2. MESLEKLERİN KURAMSAL ANALİZİ
3.2. Mesleki Denetim
3.2.2. Dışsal Denetim: ‘Dönüşlü Modernizasyon’
Ao longo deste texto, de algum modo, já comentamos algumas das características da metáfora. Por essa razão, naturalmente, algumas podem ser retomadas na presente subseção, já que contribuem para o delineamento da concepção de metáfora.
Tradicionalmente, por muito tempo, a metáfora foi considerada uma forma do discurso mais restrita à linguagem literária. No entanto, os estudos contemporâneos têm demonstrado que a metáfora, sem dúvida, está arraigada nas nossas atividades cotidianas. Dessa forma, ela não é exclusiva de um único domínio discursivo.
Foram Lakoff e Johnson que deram novos rumos aos estudos que envolvem o fenômeno metafórico ao publicarem a obra Metaphors we live by em 1980, cuja tradução utilizada nesta pesquisa data de 2002, conforme já mencionado em uma nota de rodapé. Com essa obra, introduziram a visão de que a metáfora não está apenas na linguagem, mas está presente no sistema conceptual também. A metáfora, conforme afirmam, “[...] está infiltrada na vida cotidiana, não somente na língua, mas também nos pensamentos e nas ações. Nosso sistema conceptual ordinário, em termos do qual não só pensamos, mas também agimos, é fundamentalmente metafórico por natureza.” (LAKOFF; JOHNSON, 2002, p. 45). São, pois, os conceitos contidos nas metáforas que basicamente caracterizam as nossas atividades cotidianas, estruturando a nossa realidade.
Como explicitamos anteriormente (ver 3.1), o segundo momento da ciência cognitiva é o da mente corporalizada, que é justamente o da obra supracitada. Diante disso, Lakoff e Johnson (2002) partem de uma visão experiencialista e sustentam que a metaforicidade do sistema conceptual emerge das nossas experiências com o corpo e com o ambiente físico e cultural em que vivemos. Nesse sentido, Lakoff (1987, p. 48, tradução nossa)39 defende que “[...] as categorias de eventos e outras categorias abstratas são estruturadas metaforicamente com base em estruturas a partir da realidade da experiência física.” É exatamente por essas razões expostas que fazemos uso constante de metáforas, quer dizer, na ânsia de sermos comunicativos, apelamos para o mundo físico, não apenas porque não nos recorre, em determinado momento, um modo de nos expressarmos em linguagem literal.
Da mesma forma que são criadas inúmeras unidades lexicais arbitrariamente, o que é visto como um processo natural, a criação de expressões metafóricas configura também um processo automático. Levando em conta o postulado de Lakoff e Johnson (2002) de que a
39 […] event categories and other abstract categories are structured .metaphorically on the basis of structures from the realm of physical experience.
metáfora está implantada na nossa vida cotidiana, diríamos que a maioria das pessoas emprega expressões, como, por exemplo, “levantar/erguer a cabeça”, “tirar da cabeça” (português); alzare la testa, levare/togliere dalla testa (italiano), sem ter ciência de que são metafóricas, ou, nas palavras dos autores, “o fato de serem metafóricas nunca ocorre à maioria das pessoas.” (LAKOFF; JOHNSON, 2002, p. 80). Destacamos que a falta dessa percepção pode ser vista até como negativa, mas concebemo-la como própria dos usuários da língua, posto que as pessoas, em geral, não refletem sobre os processos que estão envolvidos nos discursos produzidos ou sobre aqueles que as afetam. É nesse momento que nós, enquanto professores-pesquisadores, temos o papel de suscitar essa reflexão.
Nessa linha, as expressões idiomáticas que este trabalho contempla são repletas de metáforas que lhes estão subjacentes. Desse modo, convém retomarmos o trabalho de Gibbs e O’Brien (1990), focalizado no segundo capítulo desta dissertação (ver 2.2.2). Com efeito, o processo de produção das metáforas é automático, contudo, conforme mencionado, os resultados comprovados por Gibbs e O’Brien (1990) evidenciam que se as pessoas forem instigadas a refletir sobre as imagens mentais empregadas em expressões idiomáticas, por exemplo, haverá um conhecimento compartilhado da base metafórica de ditas unidades.
Além de Lakoff e de Johnson, Gibbs foi outro estudioso que deu grande contribuição à teoria da metáfora conceptual. Tais investigadores, juntamente com Kövecses, formam uma das frentes que contribuíram para o aperfeiçoamento dos estudos da metáfora conceptual nos últimos 30 anos. (LIMA; FRANÇOZO; GIBBS, 2001). Por outro lado, Lima, Françozo e Gibbs (2001, p. 110) apontam que “apesar de existirem evidências empíricas suficientes da linguística e da psicologia sugerindo fortemente que as metáforas são uma parte fundamental da nossa cognição do dia-a-dia”, há uma outra vertente de estudo entre os psicólogos cognitivos que se centra em torno da realidade psicológica das metáforas conceptuais, cujos exemplos são os trabalhos de Wierzbicka. Tomaremos por base os pressupostos dessa autora, no que concerne, especificamente, à definição de emoção.
Dadas essas considerações para auxiliar a delinear o conceito de metáfora, entendemos a metáfora segundo a concepção de Lakoff e Johnson (2002, p. 47-48), que afirmam que “a essência da metáfora é compreender e experienciar uma coisa em termos de outra”, dado que reflete a forma pela qual concebemos os eventos, o mundo e como conceitualizamos um domínio mental em termos de outro. Nesse enfoque, esses semanticistas consideram que é possível identificar um domínio-fonte e um domínio-alvo para cada metáfora. Valendo-se dessa definição e de outros fundamentos discutidos neste capítulo que envolvem a concepção
de metáfora, esse processo cognitivo pode ser visto basicamente como uma transferência de sentidos de um domínio concreto (domínio-fonte) para um abstrato (domínio-alvo).
Kövecses (2000, 2005) amplia o conceito de metáfora ao defender que, além de as metáforas terem relação com a língua e com o pensamento, tal como Lakoff e Johnson (2002) asseveram, tem ligação com o nosso corpo, e essa noção será fundamental para o exame das expressões idiomáticas. Dessa forma, esse autor defende a natureza corporal da metáfora e afirma que “[...] o pensamento abstrato, amplamente definido pela metáfora, é o resultado de como o corpo humano restringe a maneira de pensarmos sobre abstrações, por exemplo, tempo, emoção, moralidade e política.” (KÖVECSES, 2005, p. 9, tradução nossa)40.
A respeito das abstrações que fazemos, Kövecses (2005) sintetiza ao enfatizar que os processos metafóricos surgem quando os falantes querem entender ou transmitir instâncias mais intangíveis, aquilo de mais íntimo. Ao tomarmos a emoção como essa entidade intangível na concepção adotada (conforme abordaremos em 3.6), no momento em que os conceitos emocionais emergem, ainda não estão muito bem delineados, visto que só são bem compreendidos por meio dos referidos processos citados por Kövecses (2005). Um exemplo de como essa compreensão acontece seria por meio da EI gelare il sangue (nelle vene). Tal expressão idiomática corresponde literalmente a “gelar o sangue (nas veias)” no PB, um equivalente pleno por ser correspondente a “gelar o sangue (nas veias)”, e, ao pensarmos que o aumento da temperatura do sangue simboliza susto, compreendemos o significado da EI supracitada.
Lakoff (1993), por sua vez, sintetiza o modelo metafórico; para ele, há uma correlação natural entre A e B em um mapeamento. Dessa maneira, se X está em um recipiente A e o recipiente A está em um recipiente B, logo, X está no recipiente B. Por exemplo, se o conceito IDEIAS está na cabeça, e a cabeça está no corpo, logo, o conceito IDEIAS está no corpo.
A metáfora, portanto, é inerente à linguagem, ao pensamento e ao corpo. Diante dessa concepção, os conceitos preconizados por Kövecses (2000, 2005, 2010), por Lakoff (1987), por Lakoff e Johnson (2002) e por Gibbs (1992, 1993, 1994) vêm contribuir para esta dissertação. Assinalamos que o último pesquisador citado contribui principalmente com a sua visão de que as expressões idiomáticas conservam em grande parte a sua metaforicidade.
Interessa-nos sublinhar ainda que Kövecses enfoca questões relevantes acerca da universalidade e da variabilidade de metáforas entre culturas. Tal especialista justifica as similaridades pelo compartilhamento da estrutura básica da metáfora presente nos conceitos
40 […] abstract thought, largely defined by metaphor, is the result of the way the human body constrains the way we think about abstractions such as time, emotion, morality, and politics.
emocionais em diversas culturas (KÖVECSES, 2000, p. 146). Um exemplo de estrutura básica é a metáfora do recipiente. Assim, voltando o olhar para a concepção de que a metáfora teria uma natureza corporal, é possível pensar, com Kövecses (2005), que se o corpo humano é essencialmente universal, por conseguinte, as metáforas teriam um caráter naturalmente universal. Nas palavras de Kövecses (2005, p. 285, tradução nossa)41, “[...] o corpo é a base de muitas metáforas conceptuais. As metáforas que emergem dele são potencialmente universais também.”
Todavia, Kövecses (2000, p. 170) relativiza ao declarar que a mesma metáfora pode ser elaborada de forma diferente em duas línguas. Ele ainda explica quais seriam as possíveis causas para essa variação: em primeiro lugar, aponta que cada comunidade linguística (ou grupo social) tem experiências que lhes são próprias, específicas; e, em segundo lugar, as metáforas podem sofrer variações ao longo do tempo, pois estão inseridas dentro de um contexto histórico, o que também envolve a história de cada indivíduo. (KÖVECSES, 2005).
Ao relacionarmos com a nossa pesquisa, avaliamos que se trata de uma relação de reciprocidade; analisar a metáfora pressupõe a análise das expressões idiomáticas e vice- versa, para, a partir de então, conhecer como cada cultura constrói os conceitos emocionais investigados e molda as suas experiências com o mundo físico. Para Lakoff e Johnson (2002), a interligação entre a língua e a metáfora ocorre de maneira sistemática. De acordo com eles, “podemos usar expressões metafóricas linguísticas para estudar a natureza de conceitos metafóricos e, dessa maneira, compreender a natureza metafórica de nossas atividades.” (LAKOFF; JOHNSON, 2002, p. 50).
Acrescentamos ainda que Lakoff e Johnson (2002), em sua obra de grande importância para a teoria da metáfora conceptual, formulam a existência de três tipos de metáforas conceptuais, a saber: orientacionais, estruturais e ontológicas. Apresentamos, na sequência, a definição desses três tipos de metáforas, pautando-nos pelos estudos desses semanticistas.
3.4.1 Metáforas orientacionais
De certa forma, já antecipamos um pouco as características desse tipo de metáfora quando tratamos do esquema para cima-para baixo (ver 3.3.6). Em decorrência disso, na presente subseção, em consonância com Lakoff e Johnson (2002), incorporamos a visão de
41 […] body is the basis of many conceptual metaphors. The metaphors that emerge from it are potentially universal as well.
que o conceito metafórico subjacente às metáforas orientacionais organiza todo um sistema de conceitos em relação a um outro, de modo que a maioria das metáforas se relaciona com a orientação espacial.
Dada a relação existente entre as metáforas e as orientações espaciais, Lakoff e Johnson (2002, p. 59) exemplificam que tais orientações podem ser da seguinte natureza: para cima-para baixo, dentro-fora, para frente-para trás, em cima de-fora de (on-off), fundo-raso, central-periférico, etc.
Cumpre-nos pontuar que essas orientações metafóricas possuem um vínculo com o mundo físico, por isso, à medida que o funcionamento dos nossos corpos se dá no ambiente físico, podem ser semelhantes, conforme Lakoff e Johnson (2002) expõem. No entanto, ponderam que tais metáforas de espacialização podem variar culturalmente por apresentarem um caráter basicamente físico. Um exemplo dessa base física e cultural a ser citado é que, em geral, na nossa cultura, aquilo que está em uma posição superior ou aquilo que é grande têm uma valoração positiva. Por outro lado, aquilo que está em posição inferior ou aquilo que é pequeno são aspectos avaliados como negativos. Elucidando com exemplos de nosso próprio corpus, esses fundamentos são ilustrados pelas seguintes expressões idiomáticas:
Avere un grande cuore. (italiano)/ Ter um grande coração. (português) Di poco cuore. (italiano)/ De coração pequeno. (português)
Observamos que a primeira EI italiana e o seu equivalente no PB fazem referência à pessoa generosa ou muito boa, apresentando, por isso uma conotação positiva. Um dos elementos que contribuem para esse valor é o adjetivo “grande”, que nas culturas italiana e brasileira é visto como positivo. Contrariamente ao que se evidencia no primeiro exemplo, a segunda combinatória italiana e o seu equivalente no PB fazem alusão a uma pessoa insensível, desprovida de bondade, e, nesse caso, os elementos poco (= “pouco” no PB) e “pequeno” favorecem a formação da conotação negativa, dado que o que é pequeno ou pouco têm uma valoração negativa nas duas culturas.
3.4.2 Metáforas estruturais
A respeito das metáforas estruturais, Lakoff e Johnson (2002) concebem esse tipo de metáfora dentro de uma relação em que um aspecto de um determinado conceito é compreendido em termos de outro. Ou, em outras palavras, diferentemente do tipo de
metáforas discutidas no tópico anterior, que organizam o sistema conceptual, dentro das metáforas estruturais, o conceito metafórico estrutura um conceito em termos de outro.
Para tanto, os pesquisadores supramencionados fornecem vários exemplos de metáforas com essas características e um deles é a metáfora DISCUSSÃO É GUERRA, que optamos por dar ênfase nesta subseção. Nessa metáfora, focaliza-se o conceito discussão em termos de batalha, no sentido de que os participantes da discussão podem ganhar ou perder. Com isso, discutir implica utilizar um arsenal bélico de argumentos para convencer o outro. Baseando-nos na explanação de Lakoff e Johnson (2002), ressaltamos que, nesse caso, o outro – aquele com quem discutimos – é visto como um adversário. Os autores, então, afirmam que “embora não haja batalha física há uma batalha verbal, que se reflete na estrutura de uma discussão – ataque, defesa, contra-ataque etc.”(LAKOFF; JOHNSON, 2002, p. 47).
3.4.3 Metáforas ontológicas
Dentre os três tipos de metáforas conceptuais, a que mais nos interessa são as metáforas ontológicas, por acreditarmos que contribuirão sobremaneira para este estudo. Como esta pesquisa analisa determinadas unidades lexicais que contemplam o corpo humano, estamos ancorando-nos na concepção metafórica de que o corpo é um objeto recipiente para as emoções. Para Lakoff e Johnson (2002), as nossas experiências podem ser identificadas com entidades ou com substâncias. Assim, o esteio para as metáforas ontológicas está na relação das nossas experiências com objetos físicos (especialmente com nossos corpos). E, os elementos dessa relação, segundo eles, “fornecem a base para uma variedade extremamente ampla de metáforas ontológicas, isto é, formas de se conceber eventos, atividades, emoções, ideias etc. como entidades e substâncias.” (LAKOFF; JOHNSON, 2002, p. 76).
Com base nessa citação, depreendemos que os nossos corpos são conceituados metaforicamente por metáforas ontológicas e, por meio da relação da metáfora com a linguagem, compreendemos as nossas emoções, a forma pela qual cada cultura define a sua realidade social.
Valendo-se dessas características desse tipo de metáfora, um dos mapeamentos ontológicos citados por Lakoff e Johnson (2002) é a MENTE É UM OBJETO QUEBRADIÇO. Os autores empregam a unidade lexical “mente”, mas, neste trabalho, estamos considerando “cabeça” (testa ou capo) e unidades lexicais afins, que incluem “mente” (mente) e “cérebro” (cervello). Dessa forma, podemos ilustrar o referido mapeamento ontológico com ocorrências do nosso trabalho:
A CABEÇA É UM OBJETO QUEBRADIÇO
Lambiccarsi il cervello. (italiano)/ Quebrar a cabeça; frigir/fritar os miolos. (português)
Rompere(si) il capo. (italiano)/ Quebrar a cabeça; frigir/fritar os miolos. (português) Rompere(si) la testa. (italiano)/ Quebrar a cabeça; frigir/fritar os miolos. (português)
O CORAÇÃO É UM OBJETO QUEBRADIÇO
Colpire al cuore. (italiano)/ Atingir o coração. (português) Strappare il cuore. (italiano)/ Cortar o coração. (português)
Spezzare/schiantare il cuore a. (italiano)/ Despedaçar/partir o coração de. (português) Struggersi il cuore. (italiano). (italiano)/ Cortar/ferir o coração. (português)
Além dessa metáfora ontológica, ainda podemos exemplificar EIs com a seguinte metáfora ontológica:
A CABEÇA É UM OBJETO EM MOVIMENTO
Fare girare la testa a. (italiano)/ Virar a cabeça de. (português)
Con la testa tra le nuvole. (italiano)/ Com a cabeça em outro mundo; com a cabeça (bem) longe (de, daqui); com a cabeça nas nuvens; com a cabeça no ar; com a cabeça no mundo da lua.
Além da metáfora, outra estrutura conceptual que pode integrar o modelo cognitivo idealizado é a metonímia. Com isso, passaremos a abordar, na sequência, o que compreende o processo metonímico.