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DÖRDÜNCÜ BÖLÜM

A. MODERN DÖNEM “ÖRTÜNME” YORUMLARININ TARİHÎ ARKA PLANI

6. CUMHURİYETİN İKİNCİ DÖNEMİ

O mote da primeira gestão de Bezerra de Menezes na FEB foi o trabalho de contemporização entre os segmentos do movimento espírita. As experiências do político conciliador do Império parecem ter conduzido a sua militância no sentido da criação de uma unidade. Coerente com sua posição, ele procurou realizar costuras para conciliar as dissensões internas (ARRIBAS, 2010, 170-174). Uma de suas ações relacionadas a esse intento parece ter sido a implantação, nas dependências da FEB, de um estudo semanal de O Livro dos

Espíritos (L.E.) de Allan Kardec (WANTUIL, 2002, p. 233). Conferências já faziam parte do

repertório de iniciativas da Instituição. Em uma delas, o próprio Bezerra anunciou sua conversão. Uma inovação, contudo, foi introduzida na sistemática de trabalho adotada, com as palestras públicas estruturadas pela leitura comentada de algumas questões do L.E. A primeira obra do Pentateuco kardecista é composta por perguntas e respostas, aproximando-se do gênero cartilha ou catecismo. A organização do estudo seguindo-se uma ordem crescente das perguntas permite a inferência de que havia uma preocupação em promover uma leitura sistemática do conjunto do texto. Assumir definitivamente uma obra de referência foi uma ação importante, principalmente se levarmos em conta a fato de que naquele momento, não havia se consolidado uma leitura espírita hegemônica, autorizada e canônica. Sua implantação pode indicar também uma intencionalidade em garantir um consenso doutrinário mínimo entre os diversos grupos dentro desta comunidade de leitores ainda muito fluída.

A dinâmica intramuros, contudo, foi solapada pela chegada do Código Penal Republicano. Seu artigo 157 criminalizava o Espiritismo no Brasil21. Os espiritistas

21 Possivelmente o evento mais impactante no cenário do movimento espírita da década de 1890 foi a criminalização do Espiritismo pelo novo Código Penal republicano. Por meio deste as práticas espíritas passaram a ser tipificadas em lei como crime. Associadas a uma série de outras práticas, como rituais de magia e adivinhação e, inclusive, também, as de charlatanismo, caracterizadas dentro de um bojo muito diverso, foram apontadas como infração contra a saúde pública por considerarem que elas exploravam a credulidade, induziam à loucura e indicavam um exercício ilegal da Medicina. O movimento espírita passou a sofrer repressão policial e precisava se reorganizar para sobreviver. Várias foram as investidas da polícia a centros espíritas do Rio de Janeiro. Denúncias apresentadas acarretaram diversos processos judiciais.A tipificação criminal do Espiritismo representou uma vitória da aliança entre a classe médica alopata e a Igreja Católica, celebrando uma parceria que se perpetuará por décadas adentro no século XX. Entre ambos se consolidou uma interlocução marcada pela migração reciproca de argumentos. Pesquisas vêm demonstrando (GIUMBELLI, 1997, p.89; ALMEIDA, 2007; ARRIBAS, 2010) que até pelo menos a década de 1950 houve uma troca de serviços caracterizada por um recurso de autoridade ao argumento do campo alheio entre os médicos e os católicos. Médicos com frequência usam argumentos religiosos ou defendem interesses do grupo católico e padres lançam mão de argumentos

46 ensaiaram uma reação para sustar a criminalização. Em 1890, Bezerra de Menezes havia deixado a Presidência da FEB para assumir no mesmo cargo a direção do Centro Espírita do Brasil, entidade ligada a Federação. Foi em nome desta instituição que ele dirigiu no fim de dezembro uma representação ao Presidente Deodoro da Fonseca, solicitando a exclusão dos artigos do Novo Código Penal que tipificavam criminalmente as práticas espíritas. Vários espíritas considerados de prestígio assinaram o documento, dentre eles o próprio Bezerra, Dias da Cruz, presidente da FEB à época, e Antônio Luiz Sayão. Mais uma tentativa ocorreu em agosto de 1893, quando outra representação foi encaminhada agora ao Congresso Nacional, pedindo a decretação de inconstitucionalidade dos mesmos artigos. Nesta tentativa, foi inserida também a assinatura do senador Pinheiro Guedes (SOARES, 2010, p. 80). Em ambas as iniciativas, não houve ressonância das autoridades, mantendo o Estado brasileiro a criminalização.

Uma das ações das lideranças ligadas ao grupo dos religiosos foi procurar atuar no campo jurídico para defender os interesses e garantir direitos dos militantes de centros espíritas, principalmente médiuns e diretores das instituições. De fato, a FEB só veio a ter seus integrantes citados em processos judiciais em 1904, mas a instituição forneceu assessoria jurídica aos centros menores, disponibilizando advogados e realizando a defesa de seus membros. Esse procedimento engendrou um fortalecimento significativo do papel federativo da instituição. Transmutada em porto seguro dos centros na tempestade anunciada, a representatividade da FEB ampliou-se. Vemos assim que a conjuntura externa levou a uma necessidade de representação. No cenário carioca do momento, a FEB desempenhou essa função, mesmo que a compreensão inicial dos seus fundadores não apontasse nesta direção. Essa ascensão, no entanto, poderia não ter transcendido os horizontes conjunturais se a estratégia adotada pela Federação não tivesse obtido êxito, pois outras instituições com pretensões federativas surgiram, a maioria de efêmera duração. Diante da criminalização, que percurso tomar? Qual trajetória seguir? A opção feita pelos representantes da FEB foi a de

médico-científicos visando à “patologização” dos espíritas. Ao que tudo indica, esta parceria realmente se prolongou por décadas. Em seus estudos, a autora identificou que os psiquiatras atuantes no eixo Rio-São Paulo nas décadas de 1930 e 1940 compreendiam as práticas espiritistas como “patologizadora”. Dentre eles, muitos possuíam uma formação católica, assumindo um rótulo religioso explícito, sendo inclusive integrados no movimento de leigos do catolicismo (ALMEIDA, 2007, p.112 e 113). Vale salientar que esta ampliação da utilização do conceito de Espiritismo para abarcar um conjunto muito diverso de segmentos religiosos e práticas diferenciadas se consolidou no Brasil nas décadas posteriores, ao ponto de hoje se fazer necessária a qualificação de qual Espiritismo estaríamos tratando (kardecista, umbandista, dentre outros), mas no período da criação do Código Penal os vocábulos espiritismo, espíritas, espiritistas estavam diretamente associados aos praticantes do kardecismo, inclusive porque foram estes que os introduziram no cenário brasileiro, já que traduziram do francês os neologismos criados por Allan Kardec.

47 buscar navegar de acordo com os mecanismos disponibilizados pelo próprio Estado Republicano. Em 1891 veio à luz a Nova Carta Magna. Entre os seus preceitos estava a garantia da liberdade religiosa. A escolha do culto religioso estava, desde então, garantida como direito constitucional. Os advogados contratados pela Federação exploraram esse viés, lançando mão nas defesas judiciais o dispositivo da Constituição. Sob a égide da FEB, o movimento espírita passou a utilizar o rótulo de religião como recurso de proteção e legitimação (GIUMBELLI, 1997, p.137-142).

Em termos legais, a estratégia adotada revelou-se eficaz. Nenhuma causa foi perdida. No que tange à dinâmica intramuros, a consolidação de uma autoimagem religiosa nos espiritistas apresentou rebatimentos imediatos. Internamente as perseguições policiais e judiciais ao movimento respaldaram ainda mais uma leitura religiosa do Espiritismo. Como não compreender os espiritistas enquanto cristãos modernos? Também não foram eles perseguidos em seu momento primitivo? A repressão fundamentou da mesma forma uma teleologia. À semelhança do Cristianismo, que em um primeiro momento representava apenas uma minoria religiosa (VEYNE, 2010, p. 35-58), o Espiritismo constituiria uma nova hegemonia vencendo não pelo rótulo, mas pelo convencimento. Perseguidos hoje para ser vitoriosos amanhã. Na atualidade, considerados criminosos, no futuro, mártires. A referência histórica dos primeiros cristãos é exemplar. Desta forma, no cenário do campo religioso brasileiro, ocupado quase que exclusivamente pela Igreja Católica começou a consolidação de uma nova opção: um Espiritismo especificamente religioso (ARRIBAS, 2010, p. 128-129).

Evidentemente o trânsito para um Espiritismo oficialmente definido e orientado como uma religião (IDEM, p.129) não se deu sem traumas nem estertores. O grupo autodenominado de espíritas científicos procurou reagir para reverter a situação. Afastaram-se da FEB formando uma dissidência. Em 04 de abril de 1894, aglutinaram-se sob a liderança de Angeli Torterolli em torno da fundação de outra instituição com caráter federativo: União Espírita de Propaganda no Brasil (UEPB). A reação dos religiosos foi imediata. Orquestraram as manobras decisivas os dois responsáveis pela edição da revista O Reformador: Leopoldo Cirne e Alfredo Pereira. Publicaram artigos em série, denominados de “Nossa Missão”. Na sequência, reconduziram Bezerra de Menezes ao posto da Presidência da FEB (IDEM, p. 174- 175).

Havia aproximadamente dois anos que Bezerra de Menezes concentrara suas atividades doutrinárias no Centro Espírita Grupo Ismael. Nesta fase, participou ativamente dos estudos da obra de Roustaing coordenados por Luiz Sayão, se aproximando

48 significativamente do segmento religioso. O seu retorno foi marcado por uma mudança no tom e pela ruptura com a prática de fornecer concessões para constituir consensos mínimos. Em sua segunda gestão, ele desenvolveu estratégias de enfrentamento com a radicalização das posições. O conflito aberto era uma constatação. Ocorre então a partir de 1895 um acirramento na disputa simbólica entre religiosos e científicos. Não cabiam mais contemporizações internas. O confronto tornou-se público e as posições irreconciliáveis.

Os liderados de Torterolli estruturaram uma série de ações por meio da UEPB. Em sua sede, realizavam estudos diários para seu quadro de sócios, bem como reuniões mediúnicas semanais consideradas experiências científicas experimentais. Seguindo o mote da instituição, cujo foco era a propaganda, foram promovidas sessões públicas para divulgação doutrinária que se aproximavam de um formato semelhante a um espetáculo. Momentos de estudo e reflexão eram intercalados com apresentações musicais e teatrais. Realizadas ao ar livre nas ruas cariocas ou em clubes da Cidade, esses eventos incorporavam práticas muito diferentes das que eram vivenciadas nos intramuros dos centros espíritas. Contavam não só com o público em geral, mas também com as representações de entidades voltadas a benemerência, como a maçonaria, por exemplo. Ao que tudo indica, esses espetáculos da UEPB objetivavam chamar a atenção para explicitar uma demonstração de força. Possivelmente representavam uma tentativa de propor um modelo de propagação da Doutrina Espírita em alternativa ao configurado pelos religiosos.

Essa duas frentes eleitas pela UEPB - a cientificidade doutrinária materializada inclusive por meio de experiências fenomênicas e a divulgação do Espiritismo via eventos no formato de espetáculos - foram combatidas com veemência pelo grupo dos religiosos sitiados na FEB. Bezerra de Menezes publicou um artigo na edição de agosto de 1896, denominado “A Verdadeira Propaganda”. Sua abertura anuncia uma contraposição frontal aos ditos científicos:

Pensem como quiserem os que entendem dever fazer a propaganda espírita por todos os modos, mesmos nas praças, sujeitando a divina doutrina a galhofa do público, mesmo nos teatros, em meio do ridículo dos espectadores, e até nos alcouces, por entre os esgares desprezíveis de seres infelizes, seus frequentadores. Nem Jesus, o santíssimo modelo, nem os apóstolos, seus imitadores, expuseram jamais à galhofa, ao ridículo e aos esgares da corrosão os ensinos de salvação. (MENEZES, 2011, p. 41).

A crítica, claramente destinada aos espetáculos organizados pela UEPB, envolve duas ordens: quanto às práticas e quanto aos locais de realização. Os interlocutores diretos, os

49 leitores a que o texto se destina parecem ser os integrantes do movimento espiritista, mas dentre eles não estão os “científicos”, pois não há a busca de convencê-los. No desenvolvimento do artigo, Bezerra explicita ainda com ênfase sua repulsa sobre a realização em locais considerados inapropriados, chamando-os de “antros”. Logo em seguida, enfoca o questionamento das práticas “espetaculares” implementadas, procurando dar mais densidade ao discurso:

Pelo contrário, os que são trazidos como em folia, por milhares que sejam virão crentes pelo modo porque viram obrar os propagandistas, de que o espiritismo é meio de distração, se não de brincadeira, e esses milhares nem aproveitam para si, nem concorrem de leve para o triunfo da boa lei. Propagar o espiritismo por toda a parte, sim; mas propagá-lo com o respeito e o acatamento que requer o ensino da divina revelação. (MENEZES, 2011, p.42).

As referências sacralizadas acerca de Jesus Cristo e ao Espiritismo foram mobilizadas como argumento de autoridade para dar sustentação à argumentação. Sua presença demonstra o distanciamento de certas representações entre os dois grupos, às vezes sutis outras abissais. Ao que tudo indica, os espetáculos com apresentações teatrais, musicais, declamações ao ar livre, feriam as sensibilidades dos religiosos. O uso de espaços dedicados a atividades de entretenimento, inclusive carnavalescas, caminhou neste mesmo sentido. Bezerra então canaliza e catalisa esse estranhamento para constituir uma crítica frontal à UEPB. Se compararmos essa posição com a adotada no artigo de 1890, intitulado “Fracos, porque desunidos”, veremos uma mudança significativa de tom, estratégia e postura.

A união faz a força, precisamente porque nasce dela o emprego dos esforços de cada um. Com quanto mais razão, pois, devem os espiritas unir-se, quando precisam de forças para resistirem aos inimigos da Terra e aos inimigos do Espaço? Da união resultará a uniformidade do trabalho, distribuídos regularmente pelos grupos e pelos indivíduos, segundo suas aptidões e disposições morais. Da união resultará o apoio mútuo, quer no sentido do socorro caridoso, quer no dos recursos para a obra da propaganda. Da união, em suma, nascerá o método, sem o qual todo o esforço humano é perdido, toda a boa-vontade é estéreo (MENEZES, 2011, p. 40).

Há no texto uma forte posição conciliatória. A mensagem aqui é a da unidade na diversidade; o respeito às diferenças internas para garantir os espaços para todos os segmentos. Este seria o caminho para a criação de um método, de um formato híbrido em que todos os espiritistas se reconheceriam. O convite ao “apoio mútuo, quer no sentido do socorro caridoso, quer no dos recursos para a obra da propaganda” não veio por acaso. Nesse trecho, o autor está se situando em um debate, no qual os religiosos se reconheciam mais nas práticas de assistência social como os científicos apostavam sua ênfase nas atividades de divulgação

50 doutrinária. No início da década de 1890, já no pós-criminalização, mesmo que a busca por hegemonia já estivesse deflagrada, internamente, a vitória significava colocar o outro na atitude de submissão. Em 1896, o grupo adversário perdeu o estatuto de irmandade, de coparticipe. A mudança significativa representou uma radicalização, porque os rivais internos foram catapultados. Não mais a presença submissa. Agora era a negação da presença, sua exclusão. No movimento espírita que se organizava sob a égide da FEB, eles não estariam mais autorizados a se abrigarem no mesmo rótulo.

No mês seguinte à publicação do artigo “A Verdadeira Propaganda”, Bezerra de Menezes lançou outro, agora no editorial. “Clama, não Cesses” foi ainda mais contundente.

Espiritismo não é ciência como apregoam os que procuram, nos fenômenos por ele produzidos, antes o maravilhoso do que os ensinos de salvação. Se o espiritismo fosse ciência, seria invenção ou descoberta dos homens, como têm sido todas as questões que são conhecidas até hoje. Se fosse ciência, fonte de luz para a inteligência, seria, como todas as que são conhecidas até hoje, estreme de ensinos religiosos. (...) Ciência é ele, porque altíssima religião; e quem diz religião diz ciência, por ser religião a ciência das ciências. Neste sentido, e só neste, pode se dizer que o Espiritismo é ciência: Religião científica. (MENEZES, 2011, p. 43-44).

No momento da radicalização, Bezerra lança mão do que parece ser uma apropriação das definições de ciência e religião advindas do positivismo. Na continuação ele desenvolve uma argumentação, procurando demonstrar as características epistemológicas da Doutrina Espírita como uma revelação. Por isso, apesar de todos os esforços dos espiritistas da UEPB, o Espiritismo não estaria sendo aceito como conhecimento válido pelo campo científico. Por essa razão, o intento seria uma tentativa vã e “Nada têm conseguido no sentido desse maior empenho”. (MENEZES, 2011, p. 45). Havia assim uma barreira epistemológica intransponível para a inserção do Espiritismo na esfera das ciências. Já quanto ao campo religioso, sua entrada era “natural e espontânea”:

Entretanto, aí está, desafiando as fúrias da incredulidade, o Espiritismo brilhantemente organizado em alta e sublime doutrina religiosa! Como, então, é ciência, se não dá para a constituição de uma ciência? Como deixar de ser religião, se dá para a constituição da mais elevada doutrina religiosa? (MENEZES, 2011, p. 45)

Essa defesa do Espiritismo como saber especificamente religioso é eloquente não só das representações que norteavam o grupo ligado a Bezerra, mas também revela seu senso pragmático. A constituição do Espiritismo inserido como uma opção no campo religioso brasileiro representou uma estratégia importante para garantir a sua perpetuação. No artigo em análise, ele faz críticas abertas ao grupo dos ditos científicos. Disseca o lema da UEPB,

51 “DEUS, AMOR e LIBERDADE”, procurando apontar as incoerências entre os dizeres e as posturas dos seus dirigentes. Questiona novamente as práticas implementadas por eles, afirmando que essas são relativas a empresas teatrais e festas mundanas, mas impróprias para o “exercício religioso”. A acusação foi categórica: estariam deturpando o verdadeiro Espiritismo. A gravidade da situação justificaria o tom veemente do texto como pode ser visto na sua conclusão.

Talvez haja severidade nestes nossos dizeres, mas, além de que não se arranca o cancro, sem dor, acresce que está acima de todas as considerações humanas o amor do próximo. Que nos impõe o dever de tentar o maior esforço por abrir os olhos aos que dormem nas trevas da morte, e de prevenir os incautos do abismo que se lhes cava debaixo dos pés. (MENEZES, 2001, p. 47).

A disputa discursiva passou então a adquirir ares de luta espiritual. A UEPB escolheu as páginas do Reformador para responder as críticas de Bezerra. Na época, a FEB disponibilizava no seu órgão oficial de divulgação espaço para publicações de outras instituições espíritas. Quando o artigo dos científicos foi encaminhado, eles “publicizaram” o texto como manutenção de sua política editorial, mas incluíram uma nota de esclarecimento. Os científicos procuraram então responder a Menezes com a mesma intensidade:

Os argumentos produzidos pelo Dr. Bezerra de Menezes, em prol da sua orientação espírita, não passam de vistosas bolhas de sabão sopradas pelo seu misticismo para deslumbrar a simplicidade ignorante dos que não sabem ou não se querem dar ao trabalho de raciocinar. (...) Como pode a religião ser ciência, se uma é produto da presunção e a outra é resultado da evidência? Se a primeira é hipotética e a segunda é positiva? Se aquela é estacionária e esta progressiva? Não! A religião não é ciência, porque a ciência sempre foi e há de ser sempre a formidável adversária da religião. (TORTEROLLI22 APUD SOARES, 2010, p. 107-108).

Neste trecho e ao longo de seu artigo, Torterolli utiliza referências nominais a Bezerra de Menezes e à FEB, acusando o Presidente da instituição de lançar mão de uma “retórica eclesiástica”. A dicotomia apresentada entre o campo científico e religioso dá mostra de quanto as posições haviam se radicalizado. O uso literal do nome e críticas enfocando diretamente o comportamento de Bezerra parece demonstrar a fragilidade da posição da UEPB ante a realidade do fortalecimento da FEB com a criminalização do Espiritismo.

22

Encontramos fragmentos deste em Soares (2010). Nesta obra detectamos uma interessante operação de apagamento. O nome do autor do artigo contra Bezerra de Menezes não foi revelado. Segundo Arribas (2010), este seria Torterolli. Tornando-se um personagem proscrito da História escrita por espíritas, não há referências a sua existência em obras como Grandes Espíritas do Brasil , escrita por Wantuil (2002).

52 O episódio descrito possibilitou certa visibilidade das disputas internas por via das trocas de artigos assinados pelos líderes das duas entidades. Claramente vinha conquistando a vitória o grupo ligado à FEB. A posição de Bezerra de Menezes só foi possível pela consolidação dos “religiosos” na direção da instituição. No ano anterior, quando assumiu a Presidência da FEB, exigira uma reformulação dos estatutos como um dos primeiros atos, adquirindo poderes absolutos quanto à condução da Federação. A palavra de ordem foi dar plenos poderes ao presidente. Nesta posição privilegiada, implementou as mudanças para tornar a FEB uma instituição modelar. Durante o ano de 1895, ele construiu as suas bases internas. Segundo Giumbelli (1997, p. 115), entre os dois grupos em litígio existiam principalmente diferenças nas práticas relativas à vivência dos postulados doutrinários. Foi então no seu segundo mandato que essas diferenças se tornaram mais nítidas, justamente