BÖLÜM 9: SAVAŞ UNSURLARI
9.1. Cihat Anlayışı ve Cihan Hâkimiyeti
O estágio de Observação da Relação Mãe-Bebê-Família (ORMBF) tem sido oferecido aos alunos do quarto e quinto anos do Curso de Psicologia, da Faculdade de Filosofia Ciências e Letras de Ribeirão Preto (FFCLRP-USP) em parceria com o Centro de Saúde Escola (CSE) da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto (FMRP-USP), ambas da Universidade de São Paulo.
O CSE constitui-se de sete unidades organizadas para assistência à saúde de nível primário e secundário, estando ainda comprometido com a formação de recursos humanos para trabalharem nas várias áreas de formação específicas e níveis de atenção do setor saúde, bem como, com a produção científica (ANEXO I – ver mapa do CSE). Destas sete unidades, uma se constitui em uma unidade de referência secundária com funcionamento 24 horas para urgências e emergências e atenção especializada para a área distrital, atendendo cerca de 120.000 habitantes;
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uma unidade materno-infantil, quatro Núcleos de Saúde da Família atendendo uma população de cerca de 23.000 habitantes e uma unidade materno-infantil que teve incorporada uma equipe de Saúde da Família, responsável por uma população de 12.000 pessoas.
Nesta última, a Unidade de Vila Tibério, onde tem se desenvolvido o estágio, funcionava uma unidade materno-infantil, com pediatra e ginecologista e enfermagem desenvolvendo o Programa de Atenção Básica à Saúde da Criança e da Mulher, sendo que a partir do ano 2000, com a contratação de Agentes Comunitários de Saúde e o início da Residência de Medicina Comunitária com ênfase em Saúde da Família, a unidade passa a desenvolver uma assistência mais ampliada. São cadastradas as famílias de uma área adscrita, menor que a de atuação anterior, porém, esta comunidade começa a receber as visitas da equipe de saúde, antes só realizada pela equipe de enfermagem, e se estende a faixa etária para atendimento. Posteriormente, com a vinda de mais um médico e enfermeira, constituiu-se uma equipe mínima do Programa de Saúde da Família, que põe em prática, junto com a equipe já existente, a estratégia preconizada pelo Ministério da Saúde.
O estágio da ORMBF inicia-se em 1998, um pouco antes da transição relatada, mas quando alguns da equipe já percebiam o esgotamento do trabalho em saúde centrado no atendimento médico individual. Importante relatar este momento, porque a proposta da docente responsável pelo estágio dos alunos do Curso de Psicologia era de que estes pudessem aprender sobre o desenvolvimento infantil, observando uma consulta médica pediátrica. Certamente, havia uma inovação da instituição retirando os alunos do aprendizado teórico para uma experiência mais vivencial. Ainda que a proposta de observação da consulta pediátrica fosse uma alternativa ampliada de um laboratório de habilidades, ela se daria em um contexto reduzido da vida de uma criança. Mas, existia nas intenções um desejo de mudança maior. Diante da contra-oferta, por parte do serviço, de observar, longitudinalmente, o crescimento e desenvolvimento de uma criança no seu ambiente natural, incluindo até o acompanhamento de puericultura, ela foi
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imediatamente aceita, apesar da falta de experiência da docente responsável pelo estágio. O mesmo se deu em relação aos alunos, cuja adesão ao novo estágio foi boa.
Mas em que consiste a ORMBF?
Uma adaptação do método da Observação9 Psicanalítica de Bebê, que tem sido usado no treinamento de psicoterapeutas infantis da Clínica Tavistok, em Londres, desde 1948, quando o curso começou. Em 1960, esta mesma observação foi introduzida no currículo do Instituto de Psicanálise de Londres. Oferece ao estudante a oportunidade de aprender sobre o desenvolvimento infantil, desde o nascimento, no seu ambiente e na relação imediata com a família (BICK, 1964). A observação fornece uma descrição macroscópica e longitudinal do desenvolvimento do indivíduo, o estudo da continuidade genética10, inserida no contexto familiar e social. Assim aprende-se sobre as peculiaridades e complexidade das relações, através da observação de uma relação em estado nascente. Outro ponto importante é a situação do observador na sua relação com a família e consigo próprio (MÉLEGA, 1995).
O observador aprende e treina a técnica da ORMBF durante um ano, com atividades de no mínimo 4 horas semanais, uma hora para observar, outra para escrever o relato das observações, que não deve ser feito durante a observação, e duas horas de seminário/supervisão11. Busca-se o desenvolvimento de uma atitude observadora, que implica que se possa participar da situação sem intervir, emitindo opiniões ou julgamentos; deixar- se inundar pelos sentimentos e emoções sem buscar teorizações que expliquem, acalmem ou fechem as questões. É preciso, ao contrário, tolerar a angústia do não saber, para que seja mantida a postura receptiva do observador. Deve deixar-se flutuar nas regressões da dupla mãe-bebê e de seus próprios aspectos infantis despertados pelas emoções sentidas e observadas. O desenvolvimento desta atitude é auxiliado pelo apoio do
9 A observação designa o próprio ato de observar qualquer fenômeno que se visa o conhecimento. 10 Aspecto processual do fenômeno (KLEIN, 1969).
11 O termo “supervisão” usado aqui difere da concepção comum: uma visão superior, capaz de tudo ver e assim controlar. Prática usual na saúde mental, é construída na participação interativa dos membros do grupo, para facilitar o grupo supervisionado a perceber, rever seu modo de pensar e agir..
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grupo de supervisão, que através do relato pode reviver e recriar o material da observação. É no grupo que as ansiedades podem ser aliviadas e surgir novas compreensões (CARON et al, 2000).
O Registro das Observações não é apenas um relatório descritivo do ocorrido durante a visita à família para observação, deve conter, também, os afetos, as emoções vivenciadas na relação. Por ser feito após, e não durante, o período de observação, os aspectos lembrados, que serão descritos, e os esquecidos que poderão ser lembrados durante a leitura do relato, ou em outra ocasião, revelam os acontecimentos importantes, porquanto impactaram o observador. Isto é, tiveram força para provocar interesse, despertar escuta e sensibilidade para desvendar o oculto, essencial para o compromisso na atenção integral à saúde.
No início não é uma tarefa fácil, não é conhecida; envolve treino e disciplina de escrever em associação livre, o mais imediato possível, sob o impacto recente das emoções despertadas. Requer tempo, pois são longas. E o resultado, muitas vezes confuso pela própria situação ou provocado pelos afetos da experiência, não promove o sentimento de realização. Além disso, os estudantes, receiam a avaliação objetiva e subjetiva. Mas são as várias realizações semanais acrescidas pela supervisão, que transformam esta tarefa. Ela não deixa de ser trabalhosa, no entanto, na leitura e releitura da observação realizada, os estudantes tornam-se conscientes de aspectos, antes não levados em conta, lembram de ocorrências que não foram valorizadas. Assim, sentem-se encorajados, podem perceber a importância do registro, tal como proposto, em outro sentido. Sem desconsiderar o esforço para sua execução, podem fazê-lo de forma mais leve.
Quando pode assim ser apreendido, o registro tenta traduzir a experiência do observar a relação mãe-bebê. Mas é outra criação da imagem desta relação, com as emoções despertadas no observador por tudo que nela ocorre (MALTZ, 2003). Pode haver registro sem criação. Pode nem haver registro. Todas as formas podem revelar desde os laços do encantamento (LACROIX; MONMAYRANT, 1997) às dificuldades do
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observador para entrar em contacto com os desacertos, desarmonia, sofrimentos e inseguranças também presentes na relação.
Durante as supervisões, acompanhamos a experiência do observador, ajudando-o a entrar em contato consigo mesmo (MÉLEGA, 1995; SOUZA, 1995; TALBERG,1995). Muitos são os que se permitem perceber os seus pré-conceitos12, com sua intolerância ao diferente e com sua impotência diante das coisas que não se pode mudar. Para esses, os modelos, configurações e padrões de comportamento da relação Mãe-Bebê- Família, que vão se delineando ao longo da experiência, revelam uma outra dimensão cuidadora.
O treinamento é dirigido para a formação de psico-terapeutas, no entanto a dupla mãe-bebê e mesmo outros membros da família podem se beneficiar da presença do observador, compartilhando, em uma linguagem verbal ou não, suas emoções, angústias e sofrimento. Comprovou-se, nas diversas situações de supervisão, que a postura discreta e acolhedora do observador exerce uma influência facilitadora na interação da dupla Mãe- Bebê, no encaminhamento de problemas e na melhoria da auto-estima materna (CARON, 1995). Assim, este método tem sido aplicado em outros enfoques, com adaptações para novos contextos. Embora as experiências sejam recentes, revelam uma riqueza de potencialidades criativas no campo das pesquisas e reflexão sobre o desenvolvimento humano e nos processos de intervenção (BERTOLDI, 2000; CARON,1995).
A perspectiva da Observação da Relação Mãe-Bebê-Família configurou-se como possibilidade de pesquisa e aprendizado pela experiência da dimensão tão complexa das relações humanas, considerando-os como fundamental para os profissionais que tomam a concepção ampla de saúde como objeto e as tecnologias leves como ferramenta de trabalho.
No trabalho em saúde, estamos, trabalhadores e equipe de saúde, indivíduo, família e comunidade, inseridos em um cotidiano definido pelo
12 O que se espera é que o observador não inverta a ordem da Observação, ou seja faça uma substituição antecipada e precipitada da Observação em si, por seus conceitos e expectativas, portanto, preconcebendo (REZENDE,S.D.)
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território das relações. Mais que o lugar do encontro, estão implicados outros, como a casa, o trabalho, a escola, a comunidade. Refere-se ao tempo, não só do aqui agora, mas o passado, que constitui a história dos envolvidos, e o futuro, com suas expectativas e projetos. Inclui também o ritmo da vida cotidiana, dado por sua organização, que faz com que as coisas, os afazeres se repitam com certa periodicidade, garantindo uma certa tranqüilidade. E, neste movimento, na maioria das vezes, perdemos a capacidade de nos indignarmos, passamos a banalizar o sofrimento, a dor e a morte, acríticos em relação àquilo julgamos impossível mudar (MATUMOTO; FORTUNA, 1998).
Precisamos estar abertos à investigação do novo, do diferente, despojados do que já sabemos e de soluções prontas ─ sem memória,sem desejo (BION, 1973). Nesta interação consigo próprio, com outro(s), com o meio podemos descobrir um espaço, que Merhy (1997) denomina “interseçor” e Winnicott (1975) “transicional”, onde o estabelecimento de relações interpessoais, de vínculo, de solidariedade e acolhimento possibilitam a constituição de sujeitos autônomos capazes de escolherem entre os diversos modos de andar a vida.
Assim, temos por pressuposto desta investigação que a ORMBF possa ser um processo para conhecermos as vicissitudes da comunicação intersubjetiva, para que, apropriando-se dela, não apenas quanto conceito, mas através da experiência refletida, tornemo-la ferramenta de trabalho, com o objetivo de melhorar a qualidade de assistência em saúde, incorporando em suas ações os princípios da integralidade de atenção, da humanização do cuidado e do reconhecimento da autonomia e dos direitos dos usuários dos serviços de saúde.
Percurso da Pesquisa 28