2.5.1 Arquivos digitais
O registro em áudio das dez entrevistas foi separado em arquivos por pastas, resultando em um total de oito horas e cinquenta e dois minutos. Essas entrevistas foram digitadas e separadas em arquivos por pastas. O referido material transcrito foi organizado em um caderno, denominado “caderno das entrevistas”, com um total de cento e dez páginas. Todavia, após o processo de textualização e validação junto às colaboradoras, as entrevistas ficaram reduzidas a oitenta e seis páginas.
Todas as fotografias disponibilizadas para a pesquisa foram escaneadas, totalizando cento e setenta e duas fotos, organizadas em um arquivo digital, separado em pastas por assunto para facilitar o processo de busca: aulas, apresentações, cursos e professores. Os documentos escritos e programas foram similarmente escaneados e separados por assunto, num total de duzentos e dezenove páginas, organizadas em pastas em um arquivo digital. A mídia utilizada em ambos os arquivos foi o DVD-R.
Embora não tenha utilizado todo esse material na presente pesquisa, digitalizá-lo e organizá-lo foi considerado importante, tanto para decidir o que usar desse acervo nesse trabalho quanto pelo desejo e possibilidade de vir a explorá-lo em futuras pesquisas.
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A direção da Escola de Música pretende criar um arquivo, vindo a tratar e a catalogar esses e outros documentos da Instituição. Mas, durante o trabalho de campo, tal material ainda não estava disponível para o público em geral.
2.5.2 Textualização
Por ocasião do término das primeiras entrevistas, me questionei, na fase das transcrições, como seria escrever as narrativas sem perder a dinamicidade da fala. Recorrendo à literatura disponível, entrei em contato com alguns recursos usados para tentar chegar a esse fim. Os autores chamam esse processo de “textualização” (GATTAZ, 1996; PORTELLI, 2004).
Gattaz (1996) relata quatro etapas na construção do documento escrito, no tocante à textualização. O primeiro passo dado é a transcrição literal, em que a fala vai para o papel com as marcações de interrupção de fala e os silêncios. O segundo é a retirada das palavras repetidas e não entendidas na gravação, bem como de algumas expressões frequentemente usadas na oralidade, tais como né, hã, é... hum, entre outros, iniciando o processo de textualização. Tais expressões, todavia, não foram retiradas por completo do texto transcrito, no intuito de deixar a fluidez e a naturalidade do discurso. O passo seguinte é trazer o ambiente da entrevista, não só o físico, mas o emocional: como risos, entonação e inflexão de voz. O quarto e último é a validação. Nessa etapa, o texto é disponibilizado aos depoentes para que haja a leitura e a oportunidade de acrescentar ou suprimir dados.
Quando ouvi o áudio das primeiras entrevistas e passei a transcrevê-los, percebi que era necessário desde o início marcar no texto as emoções, os silêncios, bem como a inflexão da voz, para que houvesse o registro daquele momento que acabara de vivenciar - até mesmo os gestos faciais e corporais foram descritos no texto, uma vez que fazia pouco tempo que tinha realizado a entrevista e me lembrava com mais nitidez e detalhes desses momentos. Cabe ressaltar que esta foi uma prática corrente nesta pesquisa: a transcrição ocorreu logo após a realização de cada entrevista.
Os passos narrados por Gattaz (1996) na busca da textualização ocorreram nesta pesquisa, porém não em ordem linear, como sugere a literatura consultada. Alguns passos foram simultâneos, como o registro das emoções juntamente com o texto „bruto‟. O processo seguiu-se com a lapidação das repetições de palavras e a validação.
Ao falar sobre o tratamento devido às entrevistas, Portelli (1997) comenta: “tenho um compromisso comigo mesmo de não usar o material da entrevista de forma que possam prejudicar a pessoa de quem o obtive, nem de a ela desagradar” (PORTELLI, 1997, p. 14. Grifo no original). Assim, desde o início, quando entrei em contato com as colaboradoras, tive o cuidado de firmar um compromisso, explicando que, quando transcritas as entrevistas, elas
teriam acesso ao texto para possíveis alterações e acréscimos, podendo autorizar (ou não) aquilo que (não) lhes parecesse apto.
Os encontros de validação foram momentos em que as colaboradoras, em contato com seus textos, trouxeram novos relatos, ao elucidarem, por exemplo, dúvidas acerca de lugares, nomes e alguns fatos que não estavam ainda claros para mim. Algumas dessas lembranças, por serem consideradas dolorosas, não foram mantidas no registro, a pedido das colaboradoras.
Outro aspecto a considerar é que, nesse momento de validação, as colaboradoras „se viram‟ como que impressas no papel; ficaram, então, ávidas por „corrigir‟ o texto, em uma tentativa de que seus relatos pudessem estar dotados de clareza e nitidez. É tanto que às vezes diziam: “Será que fui clara, Cleide?”, “Falar, a gente fala... outra coisa é a fala no papel...”. E assim, faziam as correções que lhes pareceram necessárias.
Para mim, foi difícil viver situações em que depoentes cortaram parte de suas falas, como em relatos sobre: gênero, trabalho, profissão docente, conflitos entre colegas referente a (falta de) compreensão e/ou valorização acerca do trabalho de musicalização, entre outros. Como pesquisadora, acredito que esses tensionamentos são importantes materiais para uma pesquisa nessa perspectiva sociológica da educação musical, no entanto, por questões éticas, os cortes foram aceitos e respeitados.
2.5.3 Análise dos dados
Depois das entrevistas serem transcritas, textualizadas e aprovadas, foi iniciada a etapa propriamente analítica do material empírico. Como sintetizam Bogdan e Biklen (1994), trata-se de um processo de organização e interpretação dos dados.
Neste sentido, foram geradas as categorias de análise, a partir do material empírico em confronto e articulação com os objetivos da pesquisa. Deste modo, como citado anteriormente, cinco categorias foram pensadas, considerando o material empírico: formação pedagógica musical das professoras, construção de suas carreiras, criação do CIART, concepções e práticas pedagógicas musicais, e a relação do Curso com a Escola de Música.
Essas categorias, por sua vez, subsidiaram a construção do sumário. Este experimentou várias versões. Na terceira versão, começou a ser possível separar os dados em capítulos e respectivas subdivisões. Outras modificações na estrutura do trabalho continuavam a ser elaboradas, envolvendo mudanças de lugares, até chegar à quinta versão, onde a organização dos capítulos começava a ganhar maior consistência.
Um processo dinâmico também se estabeleceu em relação ao marco teórico adotado; lia e relia os autores elegidos, com o intuito de interpretar os dados com alguma densidade analítica.
Um grande desafio encontrado na hora da análise e da escrita foi tentar me afastar de um contato tão próximo com as colaboradoras e seus relatos, e me concentrar no papel de pesquisadora. Não foi minha intenção estabelecer comparação entre os relatos, pelo contrário, tentei manter a consciência de que os dados obtidos tinham igual significância. Em alguns lugares do texto, uma voz poderá aparecer mais do que outra, não significando isso maior valor dado a esta.
2.5.4 Procedimentos éticos
No período de inserção no campo empírico, foi entregue ao Diretor da Escola de Música da UFRN um documento solicitando autorização para a realização da presente pesquisa. Este, que a recebeu em mãos, acatou de imediato o meu pedido, autorizando meu ingresso na Escola e no CIART para possíveis incursões.
As professoras foram convidadas verbalmente a participar desta pesquisa. Ao entrar em contato com elas, explicitava os objetivos deste estudo e os cuidados referentes ao uso e tratamento de seus relatos.
Alguns cuidados são necessários quando se está tratando com pessoas numa situação de pesquisa. Portelli (1997) observa que, antes de tudo, o pesquisador precisa ter compromisso e respeito com aqueles que estão colaborando: “compromisso com a honestidade significa, para mim, respeito pessoal por aqueles com quem trabalhamos, bem como respeito intelectual pelo material que conseguimos” (PORTELLI, 1997, p. 15).
Outra preocupação é a dinâmica de retorno dos textos aos colaboradores, denotando atenção a estes e fidelidade do depoimento. Portelli (1997) comenta: “Recebemos tanto de pessoas e comunidades que não sentiremos nosso trabalho concluído, enquanto não entregarmos seus resultados àqueles que foram responsáveis por viabilizá-lo” (PORTELLI, 1997, p. 30).
Em relação aos escritos, as colaboradoras aprovaram as transcrições e as citações e assinaram as cartas de cessão de direitos (Anexo B). Tais ações são necessárias tanto para o relacionamento entre pesquisador e pesquisado, quanto para um maior aproveitamento dos dados obtidos em possíveis espaços de publicação acadêmica.