Os séculos XII e XIII foram marcados por diferentes acontecimentos que desafiaram a Igreja, abriram feridas no sistema feudal, marcaram a vida dos habitantes das cidades e exigiram novas e adequadas respostas. A Igreja se encontrava numa encruzilhada: internamente, sendo corroída pelas seitas heréticas que arrebatavam as massas populares e desafiavam o clero e a hierarquia, desacreditados pela corrupção e pelos maus costumes; e pelos constantes conflitos envolvendo a luta pela hegemonia do poder entre o papa e o imperador. E externamente: a ameaça das invasões muçulmanas que, em 1212, debilitaram os domínios latinos no Oriente.
O Concílio de Latrão IV convocado em 1215 por Inocêncio III tem como metas principais a organização de uma nova cruzada e a reforma da Igreja. A convocação é dirigida aos reis, aos bispos, aos abades e aos superiores das novas ordens religiosas. O Papa Inocêncio III pensava “convocar um concilio para buscar a solução das muitas necessidades que a Igreja padecia (pro multis necessitatibus ecclesiasticis).”114
A participação de Francisco de Assis, na qualidade de fundador e primeiro ministro geral dos irmãos menores, no IV Concílio de Latrão não encontra consenso entre os historiadores.115 Contudo, “autores modernos há que o confirmam, atribuindo a
113 LE GOFF, J. São Francisco de Assis, p. 37. 114
GARCÍA, A. G. Historia del Concilio IV Lateranense de 1215, p. 16. 115 IRIARTE e LE GOFF põem em dúvida esta participação de Francisco.
particular devoção do santo pelo sinal Tau à impressão que lhe produziu o discurso inaugural de Inocêncio III comentando o texto de Ez 9, 4-6.”116
Na preparação do concílio é pedido aos participantes convocados que tragam suas aportações, suas colaborações e sugestões para a assembleia conciliar. É a primeira vez na história – antes dos concílios modernos – que esta metodologia é adotada, isto é, que os conciliares chegassem acompanhados de uma investigação prévia desde as suas realidades. No entanto, “não conhecemos nenhuma resposta escrita que haja sido transmitida como o papa havia ordenado. A impressão que produz a atitude dos bispos no concilio é que estavam mais interessados em reclamar possíveis direitos sobre bens temporais, mais do que a reforma espiritual da Igreja.”117
O Concílio de Latrão IV tratou da temática da cruzada, abordou a realidade dos hereges e sobre a maneira de combatê-los; versou sobre diferentes matérias de cunho jurídico; deixou normativas para a vida monástica e estabeleceu parâmetros para as novas formas de vida religiosa, e na sua primeira constituição plasmou um novo símbolo de fé, o terceiro depois de Nicéia, em 325, e Constantinopla, em 382.
O símbolo lateranense contém uma atualização das verdades da fé católica, segundo o momento histórico que a Igreja atravessava no início do século XIII, marcado pela intensa elaboração teológica e jurídica. Eis o conteúdo referente à Eucaristia expresso na primeira constituição de Latrão IV:
Ora, existe uma Igreja universal dos fiéis, fora da qual absolutamente ninguém se salva, e na qual o mesmo Jesus Cristo é sacerdote e sacrifício, cujo corpo e sangue são contidos verdadeiramente no sacramento do altar, sob as espécies do pão e do vinho, pois que, pelo poder divino, o pão é
transubstanciado no corpo e o vinho no sangue; de modo que, para realizar
plenamente o mistério da unidade, nós recebemos dele o que ele recebeu de nós. Este sacramento, não pode produzi-lo absolutamente ninguém senão o
sacerdote que tenha sido regularmente ordenado, segundo o poder das
chaves da Igreja que o mesmo Jesus Cristo concedeu aos Apóstolos e aos seus sucessores. (DH 802)
É a primeira vez que a palavra transubstanciação é introduzida num texto oficial da Igreja118 para expressar a transformação do pão e do vinho em Corpo e Sangue de Cristo. A conversão eucarística é afirmada frente aos diferentes grupos que professavam a heresia cátara e a competência exclusiva do sacerdote ordenado é defendida frente aos diferentes grupos valdenses que negavam a eficácia dos sacramentos celebrados por um ministro indigno.
116 IRIARTE, L. História Franciscana, p. 42. 117
IRIARTE, L. IDEM, p. 19.
A recepção e a interpretação de um concílio é um processo que não se dá de modo imediato e homogêneo, mas vai acontecendo em ritmo diferente nos diversos lugares de acordo com as circunstâncias próprias. Por isso, “a grande maioria dos teólogos e dos canonistas pensaram que as declarações do concílio se limitavam à afirmação da presença real, por isso, se consideraram relativamente livres para proporem suas próprias interpretações dessa mudança de substância que se verificava durante a liturgia.”119
O fruto imediato do símbolo promulgado no concilio foi o incremento que se verificou na prática já em uso da adoração extrassacrifical pelos fiéis e a valorização dos sacerdotes, validamente ordenados, como os únicos protagonistas da confecção/celebração do sacramento da Eucaristia.
2.6.1 Transubstanciação
As disputas teológicas contra a teoria de Berengário de Tours120 trouxeram um grande avanço para a reflexão teológica, sobretudo pelos desdobramentos do conceito de substância (substantia). A presença do corpo de Cristo “per modum substantiae não podia deixar de provocar a questão de como ele se tornava presente.”121
A história mostrou que longo foi o caminho que conduziu a teologia eucarística até a apropriação do termo transubstanciação122, que apareceu pela primeira vez, em 1140, num escrito de Rolando Bandinelli. A princípio “este novo termo não é acolhido com entusiasmo pelos teólogos. Pedro Lombardo (+1159) não o menciona em suas Sentenças.”123
Lothario de Segni (1160/1 – 1216), que mais tarde ocupou a cátedra de Pedro, com o nome de Inocêncio III (1198 – 1216), também tratou da temática da Eucaristia em sua obra De sacro altaris, onde tratou de explicar a liturgia da missa. Ele faz uso do termo transubstanciação: “A carne e o sangue não se formam materialmente do pão e do
119 BROUARD, M. (ORG.) EUCHARISTIA. Enciclopédia da Eucaristia, p. 242. 120 GIRAUDO, C. Num só Corpo: tratado mistagógico sobre a Eucaristia, p. 432.
121 FEINER, J. e LOEHRER, M. Compêndio de Dogmática Histórico-Salvífica IV/5. A Igreja. Eucaristia Mistério Central. Misterium Salutis, p. 55
122 IDEM, Compêndio de Dogmática Histórico-Salvífica IV/5. A Igreja. Eucaristia Mistério Central. Misterium Salutis p. 56 -58
123
ROUILLARD, Ph. Transsubstantiation. Catholicisme: Hier – Aujourd’hui – Demain. Tomo XV, p. 245.
vinho, mas que a matéria do pão e do vinho se transforma na substância da carne e do sangue; não acrescenta nada ao corpo, mas se transubstancia no corpo.”124
O termo transubstanciação não ocupa um lugar central nas discussões e elaborações teológicas do século XIII. São Tomás de Aquino (+1274)125, o menciona somente quatro vezes na sua Summa Theologiae. A maioria os teólogos126 que viveram após o concílio de Latrão IV continuaram elaborando suas obras com base em Hugo de São Vítor e Alexandre de Hales. Posteriormente “Duns Scotus e seus adeptos fundaram sua concepção fideísta da presença real no Credo do IV Voncílio de Latrão e afirmavam que esse Credo era uma verdadeira definição da doutrina.”127
2.6.2 O Concílio de Latrão e os Frades Menores
No que diz respeito ao impacto do concílio na vida de Francisco de Assis128 e na de seus irmãos menores, os historiadores mencionam, sobretudo, os efeitos que são causados pelo cânon 13: “sobre a proibição de fundar novas ordens religiosas”129
; e pelo cânon 10: “previa a atividade dos frades em conjunto com os bispos não apenas para assegurar a pregação, mas para ouvir confissões, distribuir as penitências e para todas as outras coisas referentes à salvação das almas.”130