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2.2. Yönetim ve Kamu Yönetimi

2.2.3. Bilimsel Yönetim

O litígio territorial entre Venezuela e Guiana é uma herança dos tempos coloniais, como no caso dos outros litígios no platô das Guianas já mencionados no presente trabalho. A reivindicação venezuelana pela região de Essequibo, correspondente a dois terços do território guianês (ver mapa abaixo), atravessou séculos e ainda está presente nas relações entre os dois Estados. Recentemente, o governo venezuelano acrescentou uma oitava estrela na bandeira do país, supostamente como um tributo à contribuição da província da Guiana na luta da independência venezuelana no século XIX.

A região em questão caracteriza-se por conter sobre seu solo savana tropical amazônica rica em recursos minerais (ouro, bauxita e urânio), outros recursos naturais (produtos da floresta) e recursos hídricos para consumo próprio de água e potencial hidrelétrico. Próximo da rica região venezuelana do delta do Orinoco, o mar territorial da região em disputa é rico em petróleo (DESIDERÁ, 2012).

149 Mapa 29: Venezuela com área em litígio destacada

Fonte: http://gobiernoenlinea.gob.ve/home/venezuela.dot

No histórico do litígio podemos destacar que o acordo entre a Venezuela e a Guiana, ainda colônia britânica, feito em 1899, passou a ser contEstado pelo governo venezuelano a partir da segunda metade do século XX. Em 1962, Caracas começou a fazer esforços mais enérgicos para resolver o litígio de Essequibo. A Grã-Bretanha concordou, em novembro, em realizar as negociações tripartidas, incluindo os representantes da Guiana Inglesa, que iriam rever o registro da arbitragem de 1899. Após algumas conferências ministeriais, as partes concordaram em procedimentos por meio dos quais as reivindicações em conflito poderiam ser resolvidas definitivamente.

Após complicações durante a década de 1960 causadas por ocupações e reivindicações da Venezuela, a comissão tripartite que vinha negociando a disputa territorial declarou-se incapaz de produzir uma solução. Os dois governos começaram as conversações bilaterais em 1970, ano em que líderes dos dois países assinaram o Protocolo de Port-of-Spain. Sob os termos do protocolo, Caracas concordou em suspender as suas reivindicações territoriais para doze anos. As duas nações estabeleceram relações diplomáticas e continuaram suas conversas. Entretanto, no final da década de 1970 a possibilidade de construir uma hidroelétrica na

150 região a partir do rio fronteiriço Mazaruni sofreu contestação da Venezuela. Desiderá destaca que

Mesmo com a visita do Presidente Burnham à Venezuela em 1981, as relações pioraram bastante, contando com acusações de invasões territoriais dos dois lados, saídas em campanha diplomática pelo Caribe e pela América do Sul em busca de apoio, tentativas venezuelanas de impedir que a Guiana recebesse empréstimos de instituições financeiras internacionais que tivessem o objetivo de promover o desenvolvimento na área reclamada e, principalmente, o tratamento oficial da questão como de segurança nacional pelas duas partes – conclamando suas populações a contribuírem com a defesa, financeiramente ou com recrutamento. Com a deflagração da Guerra das Malvinas e cada um dos países apoiando uma parte distinta (Guiana ao lado do Reino Unido, Venezuela da Argentina), a possibilidade de haver guerra entre os países atingiu seu ponto máximo (DESIDERÁ, 2012, p.17).

Apesar da tensão entre os dois países não ter desembocado num conflito armado, o episódio demonstrou que quando se tratou da exploração das riquezas da região em contestação o movimento de securitização se intensificou. Acontecimento semelhante ao episódio entre Guiana e Suriname quando este último usou de atos hostis contra uma plataforma da CGX em 2000 autorizada pelo governo guianês a explorar petróleo na região.

Nos anos 1990 a questão fronteiriça ficou sem maiores demandas ou novidades, porém na década seguinte, no dia 13 de março de 2006, o presidente Hugo Chavez anunciou algumas mudanças na bandeira nacional, a qual incluía a adição de uma oitava estrela em homenagem à província da Guiana na luta da independência venezuelana – episódio que não apresentou grande repercussão na discussão sobre a região em litígio. Entretanto, dois acontecimentos recentes apontam para o potencial de securitização entre os dois Estados: em 2007 soldados venezuelanos, apoiados por helicópteros, usaram explosivos para destruir duas dragas de garimpo de ouro no Rio Cuyuni localizado perto da fronteira. As embarcações foram destruídas, pois de acordo com as autoridades venezuelanas elas estavam no lado da Venezuela87; em 2013 a Marinha da Venezuela deteve um navio operado por uma companhia petroleira dos Estados Unidos que navegava na região em litígio. Ambos os países alegaram que a embarcação que realizava estudos sísmicos estava em seus territórios88.

Os episódios foram tratados como acontecimentos isolados e não vinculados à reclamação venezuelana pela região do Essequibo. Em nenhum dos casos houve

87 http://www.estadao.com.br/noticias/impresso,guiana-acusa-venezuela-de-invadir-zona-de-garimpo-em-seu- territorio,81568,0.htm

151 movimentações militares maiores e a diplomacia bilateral tratou dos problemas. Entretanto, o histórico de tensão na região desde o final da década de 1970 teve a exploração dos recursos naturais (hídricos, auríferos e petrolíferos) como o ponto de partida de ações extraordinárias, securitizando o litígio.

A área de influência de muitos dos projetos de integração que compõem o Eixo do Escudo Guianês está na região contestada e a grande parte dos projetos não saiu do papel desde sua concepção em 2000. Mesmo sem declarações oficiais que vinculem o litígio com o baixo processo de regionalização e execução dos projetos integradores entre Guiana e Venezuela, entendemos que o histórico aponta para essa associação. O litígio com a Venezuela é uma variável importante na formulação da política doméstica e externa da Guiana e influencia a dinâmica de integração e segurança da região.

Desde a ascensão de Hugo Chavez ao poder em 1999, a Venezuela vem buscando construir um papel de liderança na região. Esse papel é marcado por uma capacidade de influenciar iniciativas conjuntas de integração regional e de buscar construir um eixo ideológico anti-hegemônico. Esse perfil trouxe uma agenda negativa de conflitos diplomáticos, distanciamentos políticos e tensões com vizinhos na região.

Essa agenda não afetou o Brasil diretamente, ao contrário, acabou construindo um cenário de aproximação econômica e política entre os dois países. Entretanto, a ampliação de influência, liderança e espaço de poder na região mexe na balança de poder, podendo gerar disputas entre os dois países. Diante disso, o posicionamento do Brasil perante o conflito fronteiriço entre Venezuela e Guiana torna-se variável importante na dinâmica de integração e segurança da região.

De acordo com Lima

A reivindicação da Venezuela por três quartos de seu território, a região do Essequibo, e as indefinições da fronteira com o Suriname, em especial, o limite marítimo e a reclamação da área conhecida como

New River Triangle, levaram a State House a definir sua integridade

territorial como prioridade para a área externa, e o incremento das relações com o Brasil estava no topo da lista. Por lá, cultivava-se a esperança de que a diplomacia brasileira servisse de contrapeso à pressão venezuelana (LIMA, 2011, p.106).

Entretanto, o posicionamento oficial diplomático brasileiro manteve-se na tradicional não interferência e não buscou influenciar qualquer movimentação na resolução do litígio

88

152 com a Venezuela. Organizações regionais como a Organização do tratado de Cooperação Amazônico e União nas Nações Sul-americanas tampouco registraram envolvimento na resolução do litígio, ausência observada nos outros litígios aqui trabalhados.

A dinâmica de integração e segurança da Guiana com a região amazônica e com a América do Sul em geral apresenta fortes semelhanças com a situação do Suriname. Seu isolamento geográfico, clivagem étnico-política interna, a presença de brasileiros, garimpo ilegal e litígios marcam a constelação de segurança guianense na região.

A comunidade brasileira cresce em um ciclo migratório que não fixa raízes e, consequentemente, não se mistura às outras etnias da Guiana. O contato maior dos brasileiros, ligados ao garimpo e aos serviços que compõem a atividade é com os indígenas, etnia em situação frágil dentro do mosaico étnico guianês. Apesar dos apontamentos das organizações indígenas sobre os danos causados pela atividade dos garimpeiros brasileiros, não encontramos discursos de constituição de ameaça sobre esse grupo.

Os projetos de integração visam dar maior conectividade à Guiana com seu entorno geográfico e atender sua carência energética através de conexões com a Venezuela, projetos esses que não saíram do papel desde 2000 e, dessa forma, não tiveram representatividade para a integração regional. Dos projetos da IIRSA somente uma ponte que liga a Guiana ao Brasil foi executado e mostrou até a presente data mais significado simbólico que dinamização da integração nas áreas de sua influência.

Os litígios que comprimem a Guiana com seus vizinhos aparentemente congelados no que diz respeito a sua resolução, também congelam as possibilidades de desenvolvimento de projetos nacionais e regionais na região. Um processo de securitização sobre os contenciosos territoriais afetariam, além dos países diretamente envolvidos, o Brasil. O silêncio do Brasil e das organizações regionais demonstram sua falta de força política e disposição de atores fundamentais na dinâmica de integração e segurança na América do Sul.

153 CAPÍTULO 8