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TABLO LİSTESİ

BÖLÜM 1: YERLEŞİM MERKEZLERİ

2.1. Mimari Tipleri

2.1.3. Sivil Mimari

2.1.3.4. Saray ve Konut Mimarisi

2.1.3.4.1. Beyt/Hane/Hânümân/Ev

TRANSPARÊNCIA

Se estamos em situação, estamos enredados, não podemos ser transparentes para nós mesmos, e é preciso que nosso contato com nós mesmos só se faça no equívoco.

MERLEAU-PONTY.

5.1 A consciência perceptiva e a estrutura corporal.

As concepções de experiência direta, de intencionalidade e de estrutura corporal, descritas na experiência do comportamento simbólico, passaram despercebidas pelo introspectivismo, pelas Psicologias associacionistas e, de certo modo, não foram, pela própria teoria da Gestalt, levadas ao seu termo absoluto, isto é não permaneceram categorias fundantes e descritivas do comportamento autenticamente filosóficas196. Se com Brentano e Husserl, inicialmente, a noção de intencionalidade descreve a disposição natural da consciência para se dirigir às coisas e, depois, as categorias de experiência direta e estrutura com Köhler e Koffka determinam o substrato e o arranjo essencial do comportamento foi, fundamentalmente, com Merleau-Ponty que a noção de intencionalidade ganhou a sua leitura mais radical através de um alargamento que incorporou, ao mesmo tempo, a matéria, a vida e o espírito.

Apreendemos com Merleau-Ponty, que não é exclusividade do pensamento ou, mesmo, do comportamento superior a posse de noções como valor e intencionalidade. Essas noções, como originalmente estabeleceu A

196

Nesse caso, precisamos lembrar da crítica acerca do fisicalismo das formas e da retenção do campo da experiência direta aos pressupostos da física. Movimentos sustentados, ainda que de forma distinta, pelas obras de Köhler e Koffka.

Estrutura do Comportamento, também estão presentes, em graus distintos, nas coisas, no corpo e, também, na descrição merleau-pontyana da consciência perceptiva.

Portanto, as elaborações de uma teoria da consciência e da noção de corpo fenomenal, em A Estrutura do Comportamento e na Fenomenologia da Percepção, são inseparáveis das idéias de experiência direta, de intencionalidade e de estrutura. O pensamento merleau-pontyano buscou, antes de tudo, reconhecer na experiência direta o lugar original de uma consciência primeira que, diferente do associacionismo, não se fundamenta na certeza da posse das coisas que, de modo geral, são tomadas, desde de Locke, como o resultado de um movimento que se estabelece na montagem de um contato objetivo entre as representações constituídas na consciência e aquilo que se passa no mundo natural. De modo análogo, diferente do introspectivismo, a consciência primitiva também não se funda na crença de que as coisas são significativas somente na medida em que estão dadas ao domínio da consciência. A teoria da consciência merleau-pontyana pressupõe o fim da filiação irrestrita ao abstracionismo, seja ela, como nos referíamos no início desse trabalho, de fundo empirista ou racionalista. As coisas, se não são em sua integridade apreensíveis pela consciência, também, na perspectiva merleau-pontyana, não se resumem à condição de operarem como causas inapreensíveis de representações que somente são dadas à consciência: a consciência não é inteiramente constituinte ou, mesmo, constituída.

Com Merleau-Ponty é o mundo natural que é recuperado e reconhecido como aquele no qual, conjuntamente, consciência e corpo estão estruturalmente ligados. Há, sobretudo, com Merleau-Ponty uma tentativa de reconhecer o caráter

e a natureza dialética da consciência e das suas relações na sua primeira vivência, no seu primeiro estado, no seu primeiro lugar. Mas, enfim, o que seria isso? O que significa a vivência original da consciência? Suponhamos o caso de uma consciência voltada sobre si mesma. De imediato, podemos dizer que se trata de um gesto intencional, carregado de ambigüidade. Nessa volta sobre si mesmo, não há auto-percepção no sentido de um movimento capaz de ter a posse representativa de si, como aquele preconizado pela consciência intelectualista. O voltar-se para si mesmo não admite, antes de tudo, um abandono de si próprio, algo como uma atitude de sobrevôo, pois sobre essa experiência estão descartadas, ao mesmo tempo, a transcendência e a imanência absolutas. Merleau-Ponty indica, muito claramente, que o sujeito que percebe não está aberto sobre si mesmo como, por exemplo, estaria uma razão constituinte diante de um mundo apático. O processo de percepção não exige um a priori, ou mesmo uma consciência normatizadora da percepção. A percepção é integralmente uma experiência de estrutura, é sempre um gesto intencional e, então, a volta sobre si mesmo, é um fluxo contínuo de auto-percepção, primitivo e inacabado. O nosso primeiro e mais insistente diálogo é com o nosso próprio corpo, é com a nossa consciência. Podemos dizer sobre a consciência o que, em grande parte, na Fenomenologia da Percepção é estabelecido sobre o corpo: a vida primitiva da consciência é um objeto, mas um objeto diferente, pois nunca me abandona.

Na vivência de uma consciência primitiva temos, contrariamente à interpretação realista, o conhecimento perspectivo que não é, em absoluto, tratado como uma falta, um acidente ou, mesmo, uma imperfeição. O perspectivismo não é, ainda, visto como um conhecimento menor que precisa ser

ultrapassado em direção a um conhecimento totalizante. O conhecimento fundado na consciência perceptiva modifica a nossa leitura da existência, pois pressupõe a confissão de uma vivência estrutural que atravessa as interpretações acabadas, determinadas a erigir um discurso representativo sobre um caráter singular e universal das coisas, do eu e do outro. É a perspectiva que torna possível que o objeto seja sempre uma coisa interrogável, isto é, aberta e explorável. As coisas reveladas no perspectivismo, como a própria percepção, nunca permanecem definitivamente encerradas em uma representação totalizante. Do mesmo modo que as coisas têm, entre os seus caracteres, propriedades retidas na forma de uma unidade indivisível e transparente, também permanecem opacas e inacabadas. Na experiência direta, antes de qualquer definição da consciência reflexiva, os objetos são sempre seres ambíguos, pois se não se mostram integralmente são, do mesmo modo, dados como unidades significativas, mesmo que permaneçam em perspectiva: “A perspectiva não me aparece como uma deformação subjetiva das coisas mas, ao contrário, como uma de suas propriedades, talvez sua propriedade essencial.”197 Nesse sentido, uma perspectiva, um lado da mesa, a face de brinquedo retangular, uma situação experimentada representam somente uma experiência possível num mundo sempre aberto. A realidade das coisas transcende as próprias coisas como, também, as coisas transcendem a experiência própria. A posse do dado integral, da unidade indivisível e definitiva ou, mesmo, do conceito universal, como quer a consciência reflexiva, só seria possível com o fim do tempo e a ausência de todas as tensões perceptivas que estruturam a nossa existência no mundo. Na

197

interpretação de Merleau-Ponty estamos em situação, em contato com um mundo mais dinâmico e opaco do que aquele representado pelas filosofias dogmáticas e sustentado pela consciência realista: “O percebido é apreendido de uma maneira individual como “em si”, isto é, como dotado de interior que eu não acabaria nunca de explorar, e como “para mim”, isto é, como dado em pessoa através de seus aspectos momentâneos.”198

Os objetos dados na experiência direta são vividos como realidades e, então, só depois se constituem como objetos puros, limpos e verdadeiros como a ciência e consciência moderna assim os definiram. Portanto, é preciso voltar ao pré-objetivo e procurar o sentido desses objetos dados antes de toda e qualquer determinação objetiva, antes da operação abstracionista da consciência reflexiva. Nesse aspecto, o caráter descritivo da percepção direta pressupõe uma reformulação da noção de consciência, das suas operações e das suas formas de representação: “A consciência é antes uma rede de intenções significativas, às vezes claras para si mesmas, às vezes ao contrário, vividas antes que conhecidas”.199 Como já falamos do corpo e, ainda, do comportamento dialético das formas simbólicas, é preciso ter claro que a consciência não é um receptáculo que recebe do exterior estruturas já acabadas. Não se trata, nesse caso, adverte Merleau-Ponty, de aceitar os pressupostos do inatismo cartesiano, ou mesmo do kantismo sobre a consciência: “desde de que se tome por análise à consciência elementar percebe-se que lhe é impossível aplicar-lhe a distinção célebre da

198

MERLEAU-PONTY. La structure du comportement. p.201.

199

forma a priori e do conteúdo empírico.”200 Para Merleau-Ponty a consciência perceptiva - na busca pela auto-compreensão, como nos referíamos a pouco - no contato consigo mesma e com o mundo, desdobra-se na experiência direta. No campo fenomenal, como bem já estabelecemos no terceiro capítulo, temos a experiência irrefletida de um mundo que não se distende em um conjunto de propriedades abstratas e independentes que precisam ser ligadas. A experiência vivenciada no campo fenomenal é estrutural, supõe um arranjo total onde nem o sujeito e nem o objeto estão dispostos, como concebe a Física clássica, como se fossem coisas depositadas no espaço homogêneo. O campo da experiência direta, ambíguo, suporta tanto experiências opacas como transparentes, pois as coisas certamente nos são dadas, ainda que permaneçam, como Husserl indica, isoladas (abschattung), vistas somente a partir de determinado perfil ou perspectiva.

Com Merleau-Ponty, apreendemos que a subjetividade está além do que poderíamos chamar de um estado de consciência, ela também se refere a um arranjo impessoal no qual todos os gestos e pensamentos já estão como que previamente estruturados. Nesse sentido, na filosofia de Merleau-Ponty não há lugar para o subjetivismo, para o relativismo e para o empirismo radical. A subjetividade, desde sempre encarnada – estruturada -, vinculada a experiência perceptiva é anterior ao projeto de uma consciência vazia capaz de, por si mesma, alcançar os objetos puros, pois, como o texto a seguir indica, as formas intervêm desde sempre na experiência perceptiva: “A forma é uma configuração visual e

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sonora, ou mesmo anterior à distinção dos sentidos, onde o valor sensorial de cada elemento é determinado por sua função no conjunto e varia com ela(...)”201

A nossa experiência perceptiva não supõe uma dicotomia substancial entre a consciência e o corpo, pois além de uma organização de natureza estrutural, como o texto acima descreve, temos, fundamentalmente, uma ligação estrutural entre a consciência, o corpo e as coisas mundanas. Na experiência direta, nesse sentido, a consciência não é uma operação cognitiva desinteressada ou, ainda, uma instância superior e constituinte das coisas. A consciência perceptiva, diferente das abordagens clássicas, é integralmente atravessada por uma intencionalidade engajada aos gestos expressivos do nosso corpo e às significações que as coisas suscitam em nós. Precisamos aceitar a idéia de que não há gesto sem intenção, não há palavra sem propósito, pois a nossa existência está integralmente abarcada de intencionalidade. Desde a elaboração de A Estrutura do Comportamento, somos alertados a evitar as antinomias reducionistas do introspectivismo e do empirismo e, desse modo, recuperar a expressividade valorativa que estruturalmente se impõe a nós. Nesse caso, é necessário voltar à velha fórmula, a consciência perceptiva é intencional e, nesse aspecto, comporta todos os caracteres que essa definição tão fundamental à fenomenologia suporta. Assim, como a consciência perceptiva, o nosso comportamento em todos os seus gestos é muito mais complexo do que sugerem as análises limitadas ao exame das solicitações vitais, ou aquelas que recorrem à hipótese de uma consciência interior incólume ao corpo e ao ambiente.

201