No âmbito da Linguística Aplicada (LA), pesquisadores investigam, dentre outras coisas, como a linguagem funciona, como ela é usada e como pode contribuir com as questões da vida cotidiana. Nesta pesquisa, consideramos pertinente investigar em que medida o conhecimento sobre a língua usada em contextos sociais reais pode impactar e proporcionar mudanças na vida dos educandos e nas práticas de letramento desenvolvidas no contexto escolar. Por essa razão, dentre outras, delimitamos, como campo de investigação deste estudo, a LA, concebendo-a em uma abordagem crítica. Compartilharmos do entendimento de que
Como linguistas aplicados, precisamos não só nos perceber como intelectuais situados em lugares sociais, culturais e históricos bem específicos mas também precisamos compreender que o conhecimento que produzimos é sempre vinculado a interesses. Se estamos preocupados com as óbvias e múltiplas iniquidades da sociedade e com o mundo em que vivemos, então creio que é hora de começarmos a assumir projetos políticos e morais para mudar estas circunstâncias. Isso requer que rompamos com os modos de investigação que sejam associais, apolíticos e a- históricos (PENNYCOOK, 1998).
Ao optarmos por esse enquadramento teórico-metodológico, consideramos que ele nos permite examinar a base ideológica do conhecimento que produzimos. Dessa forma, vinculamo-nos à LA, a qual propõe que se reveja a relação entre teoria e prática, levando em conta as vozes dos que vivem as práticas sociais que queremos investigar (MOITA LOPES, 2006).
Temos o entendimento de que é preciso fazer pesquisa com responsabilidade social e com postura ética, tendo em vista a promoção do outro pela transformação da consciência. Consideramos importante refletir sobre o papel do pesquisador em relação aos participantes, levando em conta os seus interesses e necessidades. Nesse sentido, compreendemos que “os
que pesquisam os mundos social, psicológico e educacional [...] têm responsabilidade especial para com os conceitos e as pessoas que pesquisam de escolher lógicas de investigação que sejam críticas e afirmativas de vida” (KINCHELOE; BERRY, 2007, p. 87).
Nessa perspectiva, consideramos também pertinente revestir nossa concepção de LA como um campo de pesquisa indisciplinar e transgressivo. Uma LA transgressiva nos impõe a necessidade de pensar a produção do conhecimento de forma diferente, isto é, politizando-o e problematizando-o (PENNYCOOK, 1998, 2006; MOITA LOPES, 2006).
Uma abordagem de pesquisa dessa natureza nos proporciona maior flexibilidade naquilo que concerne ao estabelecimento do diálogo entre perspectivas teóricas diversas, bem como a possibilidade de imprimir ao nosso trabalho um viés crítico, favorecendo a assunção de uma postura de combate ao mito da neutralidade da pesquisa, à medida que nos assumimos politicamente engajados nessa atividade.
Optamos, assim, pela abordagem qualitativa voltada para a compreensão e interpretação dos dados, o que nos permite uma visão holística do significado a partir de suas relações, inter-relações e do contexto. Apoiamo-nos para tanto no dizer de Mazzotti e Gewandsznadjer (1988, p. 151), para quem
[...] a maior parte das pesquisas qualitativas se propõe a preencher lacunas no conhecimento, sendo poucas as que se originam no plano teórico, daí serem essas pesquisas frequentemente definidas como descritivas ou exploratórias. Essas lacunas geralmente se referem à compreensão de processos que ocorrem em uma dada instituição, grupo ou comunidade.
De acordo com os autores acima citados, embora se proponha compreender uma realidade específica, isso não impede esse tipo de pesquisa de contribuir para a produção de conhecimento e que, a despeito do foco do pesquisador, é imprescindível que ele tenha consciência do estado de conhecimento produzido sobre o tema, a fim de que possa propor questões significativas e ainda não esgotadas.
Assim sendo, parece-nos também possível justificar nossa opção metodológica, pautando-nos na ideia de que, na condição de pesquisadora, buscamos com essa investigação, também, amenizar algumas lacunas existentes em nossa formação profissional, voltando-nos para a investigação crítica de nossa prática (MOITA LOPES, 1996), além de contribuir com
os estudos desenvolvidos no âmbito da Línguística Aplicada que investigam o ensino e a aprendizagem da língua com vistas a ressignificá-los.
No que diz respeito à teoria crítica, entendemos ser imperiosa a inserção da Linguística Aplicada numa abordagem crítica, propondo-se não somente criticar, mas também mudar, considerando a realidade investigada a partir de um viés político e ideológico, em que se perceba o sujeito como múltiplo e contraditório, construído no(s) e pelo(s) discurso(s). O posicionamento aqui assumido decorre da nossa compreensão de que, como linguistas aplicados,
estamos envolvidos com linguagem e educação, uma confluência de dois dos aspectos mais essencialmente políticos da vida. Na minha visão, as sociedades são desigualmente estruturadas e são dominadas por culturas e ideologias hegemônicas que limitam as possibilidades de refletirmos sobre o mundo e, consequentemente, sobre as possibilidades de mudarmos esse mundo. Também, estou convencido de que a aprendizagem de línguas está intimamente ligada tanto à manutenção dessas iniquidades quanto às condições que possibilitam mudá-las. Assim é dever da Lingüística Aplicada examinar a base ideológica do conhecimento que produzimos (PENNYCOOK, 1998, p. 24).
Além disso, se queremos formar cidadãos críticos e reflexivos, capazes de combater as iniquidades sociais, é necessário entendermos a escola como arena cultural complexa e desvendarmos os traços políticos e culturais que permeiam o ensino de línguas (PENNYCOOK, 1998), pois não podemos desconsiderar que a linguagem tanto serve à mudança quanto à manutenção do status quo. Sendo assim, “ao educador crítico cabe a tarefa de estimular os alunos, de implantar uma postura crítica, de constante questionamento nas certezas” (RAJAGOPALAN, 2001, p.154).
Do ponto de vista metodológico, esta pesquisa, realizada em situações reais de ensino e aprendizagem em que a pesquisadora interfere, analisa e transforma sua prática pedagógica, configura-se como uma pesquisa-ação política de caráter emancipatório (TRIPP, 2005). No que diz respeito ao seu caráter agentivo, esta investigação define-se da seguinte forma:
[...] um tipo de pesquisa social com base empírica, que é concebida e realizada em estreita associação com uma ação ou com a resolução de um problema coletivo no qual os pesquisadores e os participantes representativos da situação ou do problema estão envolvidos de modo cooperativo ou participativo(THIOLLENT, 1985, p. 16).
Pelo modo como se define, esse tipo de investigação torna-se, por excelência, uma pesquisa-ação crítica. Como práxis, permite-nos apreender a prática escolar, considerando-a em seus aspectos sociopolíticos e culturais, interligando-os aos fatores que a determinam. Essa apreensão favorece a reflexão acerca dos determinantes do momento histórico, das concepções e dos valores sociais de um dado momento histórico.
Nesse sentido, como uma ação informada pelos entendimentos teóricos, ela cumpre um importante papel: “encoraja aqueles que a examinam a quebrar a cultura12
do silêncio e remoldar suas consciências. [...] De fato, a pesquisa ação crítica torna-se pedagógica ao ensinar ao pesquisador e ao pesquisado a se fortalecerem em poder” (KINCHELOE, 1997, p. 192-193).
No tocante ao seu caráter emancipatório, esta pesquisa pode ser definida como “uma modalidade política que opera numa escala mais ampla e constitui assim, necessariamente, um espaço participativo e colaborativo, o que é socialmente crítico13 pela sua própria natureza” (TRIPP, 2005, p. 458). Dessa forma, este estudo vincula-se tanto àqueles de orientação emancipatória quanto aos de crítica social (CARR; KEMMIS, 1986), contribuindo, consequentemente, com o fortalecimento do grupo de participantes como um todo (CAMERON, 1992). Creditamos importância às pesquisas em que o pesquisador não se limite a investigar, sem ter o devido cuidado de saber se o uso que possa ser feito de sua pesquisa pode ou não calar a voz e retirar o poder daqueles que vivem em condições de desigualdade.
No âmbito da LA, ainda observamos a necessidade do desenvolvimento de pesquisas que vislumbrem a transformação dos atores sociais em pesquisadores de sua própria prática, de forma a transformar o conhecimento produzido em instrumento de poder. Por isso,
12 Em relação ao conceito de cultura, levamos em consideração a recomendação feita por André (1995,
p. 45): “Mesmo reconhecendo as várias conotações do termo cultura: modo de vida; maneiras de pensar, sentir e agir; teias de significado; valores, crenças e costumes; práticas e produções sociais; sistemas simbólicos, o estudo etnográfico deve se orientar para a apreensão e a descrição dos significados culturais dos sujeitos”.
13 Neste contexto, estamos entendendo crítico no sentido de prática problematizadora e socialmente
relevante, desenvolvida no domínio da LA em que se inserem os estudos do letramento crítico (PENNYCOOK, 2006).
justificam-se e tornam-se relevantes as pesquisas que sirvam tanto ao empoderamento do professor quanto dos seus alunos (MCLAREN, 2001).
É preciso, contudo, refletir sobre a necessidade de imbricação que deve existir entre esses três elementos: ética, poder e pesquisa, pois não podemos esquecer que, ao pesquisador, “cabe ter consciência sobre a quem este conhecimento vai dar poder” (MOITA LOPES, 1996, p. 11).
Assumindo essas características, a investigação realizada configura-se como uma pesquisa participativa e colaborativa, razão pela qual os participantes, isto é, a pesquisadora e os alunos, serão tratados aqui também como colaboradores. Urge ressaltar que estes assumiram, muitas vezes, o papel de co-pesquisadores pela efetiva participação, cooperando como parceiros em muitos aspectos da pesquisa, desenvolvida em um processo coletivo de consequências políticas (CARR; KEMMIS, 1986).
Por se tratar de uma investigação que se insere em um paradigma qualitativo e interpretativista, visando estudar a dinâmica da sala de aula, este estudo está ancorado nos pressupostos da Etnografia da Educação (ANDRÉ, 1995; ERICKSON, 1987), cujo foco recai sobre a compreensão da experiência cotidiana da escola. Nossa opção metodológica justifica- se também por acreditarmos que o tipo de pesquisa aqui apresentado permite que aquele que dela participa
chegue bem perto da escola para tentar entender como operam no seu dia-a- dia os mecanismos de dominação e resistência, de opressão e de contestação ao mesmo tempo em que são veiculados e reelaborados conhecimentos, atitudes, valores, crenças, modos de ver e de sentir a realidade e o mundo (ANDRÉ, 1995, p. 41).
Além disso, do ponto de vista epistemológico, os pressupostos dessa modalidade de investigação científica definem-se dialeticamente, vislumbrando-se, por exemplo, que a práxis seja redimensionada a partir da reflexão suscitada pela própria ação da pesquisa.
Na condição de pesquisadora participante desta investigação, tivemos, por exemplo, a possibilidade de refletir sobre nossa ação docente, nela interferindo, de modo a analisar e transformar, ao longo do processo da pesquisa, a nossa prática pedagógica, buscando a ressignificação das práticas de letramento desenvolvidas no contexto escolar. Procurando
refletir sobre a nossa própria ação e conhecer mais de perto a realidade da escola, buscamos também apreender, no percurso de pesquisa,
as forças que impulsionam ou que retêm, identificando as estruturas de poder e os modos de organização do trabalho escolar, compreendendo o papel e a atuação de cada sujeito nesse complexo interacional onde ações, relações, conteúdos são construídos, negados, reconstruídos ou modificados (ANDRÉ, 1995, p. 41).
Dessa forma, acreditamos que o desenvolvimento de uma pesquisa nessa vertente etnográfica pode imprimir maior transparência às bases ideológicas das concepções que assumimos sobre o letramento, visto que focalizamos as práticas culturais, locais e específicas da comunidade em que atuamos, isto é, não nos limitamos à investigação do processo monolítico do letramento (KLEIMAN, 2001). Ainda em consonância com essa autora, consideramos que
os estudos etnográficos, que examinam a construção das práticas escolares na interação, se constituem num campo propício para a transformação da
práxis, uma vez que esses estudos permitem perceber a inscrição, no
microcontexto da interação em sala de aula, de questões macrossociais, como a ideologia do letramento (KLEIMAN, 1995, p. 48).
Entendemos, enfim, que o desenvolvimento de uma pesquisa-ação como a que ora apresentamos torna-se relevante, em primeiro lugar, porque não se limita apenas a registrar, a descrever e a interpretar dados gerados pelo pesquisador, mas fundamentalmente porque, em sendo crítica, leva em consideração a voz dos seus sujeitos, os quais fazem parte do contexto do qual emergem as situações e as problemáticas investigadas.
Nesse sentido, evidencia-se o caráter formativo dessa modalidade de pesquisa, que possibilita aos sujeitos dela participantes a tomada de consciência das transformações e mudanças ocorridas no processo. No nosso caso, durante todo o percurso de pesquisa, os alunos tiveram a oportunidade de refletir, de discutir e de opinar sobre as atividades desenvolvidas coletiva ou individualmente, no projeto de letramento do qual resultaram os dados gerados, sugerindo, sempre que necessário, o redimensionamento das ações planificadas. Quanto a nós, como um dos agentes da investigação, acumulamos os papéis de pesquisadora e de professora.
Imagem 1: Campus IFRN – Zona Norte, E.E.A.T.
Nessa perspectiva metodológica, tomou forma a característica emancipatória da pesquisa, visto que aos sujeitos foi oportunizada a possibilidade de participação consciente, libertando-se de ideias pré-concebidas acerca das práticas do letramento escolar, percebendo o seu potencial de protagonistas e de agentes geradores de mudanças, reorganizando, assim, a sua autoconcepção de sujeitos históricos.
Esta pesquisa não se limitou a compreender ou a descrever o universo da nossa prática, mas procurou transformá-lo. O caráter emancipatório a ela atribuída foi assumido por nós de forma deliberada. À medida que mergulhamos na práxis do grupo social em estudo, as mudanças foram sendo negociadas, geridas e engendradas coletivamente, tornando os colaboradores e a própria pesquisadora mais empoderados para desenvolver o projeto de pesquisa como uma ação para a mudança social e o fortalecimento do grupo (KINCHELOE, 1997; MCLAREN, 2001; GIROUX, 1997).