Busca-se a partir deste momento realizar uma avaliação dos direcionadores de competitividade da produção de tilápia em tanques-rede na UHE Canoas I.
O Gráfico 4 traz uma avaliação conjunta dos sete direcionadores previamente estabelecidos: tecnologia e inovação, insumos e infraestrutura, estrutura de mercado, gestão interna, ambiente institucional, relações de mercado e questões ambientais para o conjunto dos piscicultores
Gráfico 4 – Avaliação geral dos direcionadores de competitividade
Fonte: Elaborado pela autora.
A tecnologia e inovação foi considerada favorável à competitividade da produção de tilápia em tanques-rede na UHE Canoas I. Não foi observada
dos demais equipamentos utilizados no manejo da produção pode ser considerado satisfatório. Além disso, a tecnologia utilizada neste tipo de produção é de fácil acesso em termos de custos para aquisição ou desenvolvimento, e não tem sido necessários investimentos consideráveis em inovações tecnológicas. Dos 12 piscicultores, apenas 1 dos entrevistados (localizado no Estado de São Paulo), apontou os tanques-rede como fatores desfavoráveis de competitividade, sendo que para os demais piscicultores os tanques-rede são considerados fatores favoráveis ou muito favoráveis.
O direcionador insumos e infraestrutura foi considerado de favorável a muito favorável, mesmo havendo uma discrepância entre o conjunto de subfatores fornecedores (alevinos e ração) e o conjunto (rodovia e infraestrutura).
A disponibilidade e qualidade das rações e dos alevinos favorece o setor piscícola na região analisada, sendo que nenhum dos 12 piscicultores apontou os fornecedores como fatores desfavoráveis a competitividade. A existência de empresas especializadas no fornecimento de insumos (no caso da ração) permite aos piscicultores a disponibilidade de produtos de qualidade comprovada.
O subfator “rodovias” pode apresentar-se como gargalo da cadeia da piscicultura, já que os entrevistados relataram de modo recorrente as más condições das estradas, em especial, estradas rurais municipais que interligam o local da produção (junto ao lago da represa) até as rodovias de ligação estadual ou federal que cortam a região. Por não possuírem controle sobre o subfator rodovias, estes podem alterar seu impacto sobre o nível de competitividade dos pisicultores em função de ações desenvolvidas pelos órgãos públicos que controlam tais variáveis. A recuperação de uma estrada vicinal ou o recapeamento de uma rodovia de ligação pode melhorar o fluxo de insumos em direção as propriedades, e de produtos em direção ao mercado. Em relação a subfatores sobre os quais os piscicultores não possuem controle, ações de ingerência sobre os órgãos públicos tornam-se necessários e ganham extensão quando feitos por meio de ações coletivas.
Estrutura de mercado apresentou-se como neutra a favorável. Em especial, o subfator “capacidade de produção em relação ao tamanho de mercado” foi considerado desfavorável a muito desfavorável pelos piscicultores. Isso porque
de não haver mais espaço para a implantação de novos projetos de piscicultura (novas concessões) na represa da UHE Canoas I, existe a possibilidade de expansão da produção, através da alocação de mais tanques na maioria das propriedades. Entretanto, restrições de ordem financeira por parte dos piscicultores impendem tal investimento, corroborando os resultados dos subfatores “programas governamentais de incentivo para a atividade” e “acesso ao crédito para piscicultor”, incluídos no indicador ambiente institucional, que foram considerados muito desfavoráveis para a competitividade
Apesar disso, de modo geral, o número de piscicultores no reservatório e capacidade de negociação com fornecedores de insumos e compradores de tilápia foram considerados fatores bastante favoráveis à competitividade. O subfator “localização da propriedade em relação aos clientes” também teve contribuição para o direcionador estrutura de mercado ser considerado favorável. Isso porque além da gama de organizações que compram a produção de tilápia (atravessadores, frigoríficos, pesque-pague e lanchonetes) ser abrangente, os mesmos estão localizados em municípios próximos ao reservatório da UHE Canoas I, a grande maioria com distâncias menores que 200 quilômetros.
A gestão interna foi considerada favorável. Apesar de alguns entrevistados relatarem problemas em relação à qualificação de mão de obra operacional especializada para a atividade, o subfator posicionamento dos tanques e demais equipamentos foi considerado favorável ou muito favorável ao manejo. Além disso, os piscicultores empregam na produção pelo menos uma das ferramentas de gestão alistadas, a saber, informática, planejamento da produção, controle de custos e controle de receitas.
O ambiente institucional apresentou-se como direcionador desfavorável à competitividade da produção de tilápia em tanques-rede. Para os piscicultores, de modo geral, este contexto desfavorável se dá por conta da burocracia existente nos órgãos competentes regulamentadores da atividade que acarreta na demora da concessão da autorização de uso de espaços físicos de corpos d’água de domínio da União para fins de aquicultura bem como do licenciamento ambiental. Conforme apontado pelo Quadro 10, existem solicitações de autorização de uso e licenciamento ambiental com mais de 10 anos junto aos órgãos competentes.
apontadas anteriormente e o número de agências ou órgãos reguladores que possuem ingerência sobre as atividades desenvolvidas pelos piscicultores, colaboram para estruturar o cenário desfavorável atribuído ao ambiente institucional.
Os entrevistados apontaram também problemas referentes à legislação ambiental ser cumprida e fiscalizada de forma diferente nos dois estados, mesmo os piscicultores estando inseridos no mesmo reservatório. Isso acontece porque enquanto a autorização de uso é concedida por órgãos federais, o licenciamento e a fiscalização ambiental são responsabilidade dos órgãos estaduais do meio ambiente.17 Com isso, sendo a fiscalização realizada por órgãos distintos, resulta em procedimentos e atuações diferentes.
Além disso, subfatores como “programas governamentais de incentivo para a atividade” e “acesso ao crédito para piscicultor” foram mencionados como quase que inexistentes pelos piscicultores, o que, para eles, resulta em menores níveis de competitividade. Esses dois subfatores foram os que apresentaram as menores pontuações entre todos os subfatores analisados, com destaque negativo principalmente para as pontuações aferidas pelos piscicultores localizados no lado paulista da represa.
O direcionador de competitividade relações de mercado foi considerado favorável. Isso se deu pelo bom julgamento que os entrevistados fizeram quanto à relação estabelecida com os compradores de tilápia e quanto a como é estabelecido o preço e feito o pagamento da mesma. Foi mencionado pelos piscicultores que o preço da tilápia é estabelecido a partir de dois fatores principais: o custo de produção e o mercado (lei da oferta e procura), sendo que os pagamentos geralmente se dão à vista ou no prazo de 30 dias.
Por fim, questões ambientais encontram-se na faixa favorável a muito favorável para a competitividade piscícola, apesar da discrepância de comportamento quando observado de maneira separada as ponderações feitas pelos piscicultores dos dois lados da represa, conforme será demonstrando na sequência. Os entrevistados, de modo geral, categorizaram como importante o atendimento à legislação ambiental bem como os impactos ambientais que a
17 São Paulo: CETESB (Companhia Ambiental do Estado de São Paulo); Paraná: IAP (Instituto
piscicultura.
Realizada a avaliação geral dos indicadores de competitividade, inicia-se neste momento a avaliação dos mesmos indicadores por município/estado (Cândido Mota – SP e Itambaracá – PR), representada no Gráfico 5.
Gráfico 5 – Avaliação dos direcionadores de competitividade por município/estado
Fonte: Elaborado pela autora.
É possível observar que os direcionadores tecnologia e inovação e estrutura de mercado se comportam de forma semelhante entre os dois estados, obtendo resultados similares.
O direcionador insumos e infraestrutura foi considerado de neutro a favorável entre os piscicultores de Cândido Mota – SP e de favorável a muito favorável entre os entrevistados em Itambaracá – PR. Apesar de as considerações serem semelhantes para os subfatores qualidade e disponibilidade de insumos e rodovias, piscicultores paulistas deram notas mais baixas quando indagados sobre infraestrutura (energia elétrica, água, acesso à internet) na propriedade.
Enquanto no Paraná a gestão interna foi considerada favorável à competitividade da produção de tilápia em tanques-rede, em São Paulo esse
entrevistados deste estado apontam dificuldade acentuada em encontrar mão de obra operacional especializada. Além disso, visto que os piscicultores do Paraná estão há mais tempo na atividade, é possível que suas experiências no decorrer do tempo lhes façam enxergar a gestão e organização interna como fatores primordiais à competitividade.
No Paraná, ambiente institucional foi considerado de neutro a desfavorável, e em São Paulo de desfavorável a muito desfavorável. Quando indagados sobre normas e leis federais e estaduais que regulamentam a atividade da piscicultura em tanques-rede, piscicultores de São Paulo julgaram este subfator como um empecilho para a competitividade, enquanto piscicultores do Paraná tiveram opiniões neutras sobre o mesmo.
O direcionador relações de mercado apresentou uma pequena diferença entre os dois estados. Isso pode ser entendido pelo fato de que os piscicultores de São Paulo estão mais insatisfeitos com a forma como é estabelecido o preço e feito o pagamento da tilápia, do que os piscicultores do Paraná.
A maior discrepância é observada no direcionador questões ambientais, considerado de neutro a desfavorável em São Paulo e muito favorável no Paraná. O subfator “atendimento à legislação ambiental” foi o que teve maior representatividade nessa diferença entre os dois estados.
Durante as entrevistas foi possível perceber que os piscicultores do Paraná dão grande importância a este subfator, devido à fiscalização contínua que é feita pelos órgãos estaduais ambientais competentes. Os piscicultores enxergam que se não cumprirem as leis ambientais podem ter sua competitividade afetada por conta de multas de valores altos, marginalização no mercado e até serem banidos da atividade. Em São Paulo, por sua vez, o menor rigor na fiscalização ambiental faz com que os piscicultores considerem atender ou não atender à legislação ambiental como indiferente à competitividade.
Foi realizada também uma análise da controlabilidade dos direcionadores de competitividade e seus subfatores, a fim de observar até que ponto os piscicultores tem capacidade de intervir nos mesmos. A atribuição dos graus de controlabilidade ficaram a cargo da pesquisadora e podem ser verificados no Quadro 19, conforme segue: CF: Controlável pela firma (piscicultores); CG:
Incontrolável.
Quadro 19 - Controlabilidade dos direcionadores de competitividade e seus subfatores
Controlabilidade
CF CG QC I
Direcionador Tecnologia e Inovação X
tanques-rede X
demais equipamentos X
Direcionador Insumos e infraestrutura X
fornecedores de ração X
fornecedores de alevinos X
rodovias X
infraestrutura X
Direcionador Estrutura de Mercado X
localização da propriedade X X
nº de produtores na represa X
capacidade de negociação com o comprador X X capacidade de negociação com fornecedores de
insumos X X
capacidade de produção em relação ao tamanho
de mercado X X
Direcionador Gestão interna X
qualificação de mão de obra operacional X X posicionamento dos tanques e demais
equipamentos X
Direcionador Ambiente institucional X normas/leis federais que regularizam a atividade X normas/leis estaduais que regularizam a atividade X (Continua na próxima página)
atividade X
acesso ao crédito especial para produtor X X influência da legislação ambiental na atividade X
Direcionador Relações de mercado X
relação com a organização para a qual vende a
produção X
forma como é estabelecido o preço e feito o
pagamento da tilápia X
Direcionador Questões ambientais X
atendimento à legislação ambiental X impactos ambientais que outros agentes causam
na atividade X
impactos ambientais que a atividade causa X
A partir do quadro é possível observar que os piscicultores não possuem controle sobre o direcionador que se apresentou como desfavorável para a competitividade em ambos os estados; o Ambiente Institucional. Subfatores como normas e leis que regulamentam a atividade e programas de incentivo são totalmente controláveis pelo governo. Entretanto conforme já apontado anteriormente, apesar de não possuírem controle sobre o direcionador Ambiente Institucional, é possível realizar ações, de maneira conjunta, que permitam maior participação desses agentes na formulação das normas e regulamentos.
Quando se trata de acesso especial ao crédito para piscicultores, os mesmos podem ter participação na controlabilidade por se adequarem aos requisitos necessários ao acesso. Entretanto, nas entrevistas realizadas, os piscicultores deixaram claro que o acesso ao crédito especial para piscicultores é muito burocrático e, por isso, quase que inexistente.
Em relação à gestão interna, direcionador considerado neutro pelos piscicultores de São Paulo e favorável pelos piscicultores do Paraná, tem grande parte de sua controlabilidade definida pela firma, no caso, os próprios piscicultores. Nesse caso, a formação dos piscicultores parece não possuir efeito sobre o reconhecimento ou a adoção de uma gestão mais ou menos profissional da piscicultura. Agentes localizados no lado paranaense, que possuem uma escolaridade média menor, percebem maior valor na gestão do que os piscicultores localizados no lado paulista e, com grau de escolaridade maior.
O direcionador qualificação de mão de obra é definido como “quase controlável” e “controlável pela firma”, porque a qualificação dos trabalhadores depende tanto do governo e entidades (com a oferta de cursos de capacitação), como do interesse dos próprios indivíduos em qualificar-se. Mesmo assim, a firma pode exercer certa parcela de controle por contratar e qualificar sua mão de obra operacional, de modo a aumentar sua competitividade.
Questões ambientais é outro direcionador considerado desfavorável à competitividade pelos piscicultores de São Paulo. A grande discrepância observada com os piscicultores do Paraná está no atendimento à legislação ambiental, subfator inteiramente controlável pela firma. Visto que este ponto trata do atendimento e não da fiscalização (que seria controlável pelo governo), os piscicultores de São Paulo apresentam um problema de competitividade segundo este subfator.