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Şahitlerin Vasıfları Üzerinde Hassasiyet

2. MUHAKEME USULÜ HUKUKUNDA SAVUNMA HAKKINI KORUYAN

2.3 İspatın Sıhhati Üzerinde Hassasiyet

2.3.2. Şahitlerin Vasıfları Üzerinde Hassasiyet

Seguindo o raciocínio anteriormente descrito, podemos afirmar que o que irremediavelmente se perde será, entretanto, condição para que algo se construa em seu lugar. O “trabalho da memória” pode ser entendido, assim, “como uma operação transformadora, tradutora, criadora, portanto, em que o original, já reduzido a apenas um traço no momento de sua inscrição, será menos resgatado que reinventado, menos ponto de chegada que ponto de partida para a construção de uma outra estória”.227

Mesmo que Brás Cubas busque exprimir todo o seu passado, o tempo dos acontecimentos, por mais que ele queira, nunca se conserva tal qual fora, pois existe uma dessimetria entre o que se diz e o que de fato se passou – há algo que se torna irrecuperável pela memória e, em seu lugar, constrói-se uma outra coisa. Por mais que o narrador procure relatar todas as suas lembranças, tocá-las por inteiro, há uma lacuna da memória que não é preenchida, muito embora o fio do traço original possa ser, em um outro momento, traduzido.

Tu que me lês, se ainda fores viva, quando estas páginas vierem à luz, – tu que me lês, Virgília amada, não reparas na diferença entre a linguagem de hoje e a que primeiro empreguei quando te vi? Crê que era tão sincero então como agora; a morte não me tornou rabugento, nem injusto.

– Mas, dirás tu, como é que podes assim discernir a verdade daquele tempo, e exprimi-la depois de tantos anos?228

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CASTELLO BRANCO. A traição de Penélope, p. 39.

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O próprio narrador, em outro momento da obra, utilizar-se-á do termo “recompor o pretérito”, ao referir-se às cartas antigas. O passado escrito nas cartas, recordado ao passar por uma releitura de quem se encontra no presente, pode ser recomposto e traduzido de uma forma nova:

Outras vezes agitava-me. Ia às gavetas, entornava as cartas antigas, dos amigos, dos parentes, das namoradas, (até as de Marcela), e abria-as todas, lia-as uma a uma, e recompunha o pretérito... Leitor ignaro, se não guardas as cartas da juventude, não conhecerás um dia a filosofia das folhas velhas, não gostarás o prazer de ver-te, ao longe, na penumbra, com um chapéu de três bicos, botas de sete léguas e longas barbas assírias, a bailar ao som de uma gaita anacreôntica. Muarda as tuas cartas da juventude!

Ou, se te não apraz o chapéu de três bicos, empregarei a locução de um velho marujo, familiar da casa de Cotrim; direi que, se guardares as cartas da juventude, acharás ocasião de “cantar uma saudade”. Parece que os nossos marujos dão este nome às cantigas de terra, entoadas no alto mar. Como expressão poética, é o que se pode exigir mais triste.229

Muito embora o conselho que o narrador dê ao leitor seja o de guardar as cartas para conhecer a “filosofia das folhas velhas”, ou para “cantar uma saudade”, o que também se pode depreender, nas entrelinhas desse texto, é que, se o pretérito é recomposto pelo ato de leitura, isso significa que o seu lugar pode não ser apenas o da nostalgia, uma vez que este é transformado por tal ato, podendo, com isso, se abrir para o futuro, como uma filosofia das folhas novas, como um momento de criação ou de reinvenção da própria história – como a criação de uma memória do futuro.

Já havíamos nos referido também, no capítulo I de nossa dissertação, às traças que corroem a folhas das cartas, no conto “Papéis velhos”, devorando parte da palavra eterno, de modo que restaram escritas as letras et e a palavra minuto. Assim como as traças

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corroem as folhas e as letras escritas no papel, o verme do tempo também corrói a memória, e sobram dessa corrosão alguns resíduos, restos que resistem aos efeitos do tempo. É a partir desses restos ou fragmentos de memória que se constrói ou reconstrói, cria-se ou inventa-se a história de um sujeito e, quem sabe, a história humana. E são esses restos, pensados como inscrições de linguagem, ou letras, que não são corrompidos pela ação dos vermes do tempo, juntamente com as fendas abertas pelo esquecimento, que constituem o tecido da memória. A ameaça das traças e dos vermes é, também, metonímica do trabalho do escritor, que é indissociável de um trabalho com o tempo e com a memória.

Outro aspecto da memória é desenvolvido por Lucia Castello Branco no seu já citado livro, A traição de Penélope. A autora aponta como a questão do trabalho da memória, como uma operação tradutora, é desenvolvida por Freud, quando, por exemplo, o autor indica que a tarefa do analista não é análoga somente à do arqueólogo; mas, também, à do tradutor. Ainda segundo a autora,

o conceito de tradução é também utilizado por Freud inúmeras vezes, para referir-se ao processo analítico, e sua analogia com a memória pode ser depreendida da leitura do capítulo VII de A Interpretação dos Sonhos, através da noção de “trabalho do sonho”, desenvolvida pelo autor. (...) O trabalho do sonho nada mais é, portanto, que uma operação tradutora que, a partir de um mecanismo de deslocamentos e condensações, termina por dar ao sonho uma outra forma, uma outra linguagem, análoga à dos pensamentos oníricos, mas sempre elaborada, sempre segunda.230

Essa “outra linguagem”, realizada pelo trabalho da memória, como operação tradutora, pode ser aproximada do que Brás Cubas diz a respeito do movimento das marés: “Com efeito, quando a onda investe a praia, alaga-a muitos palmos a dentro; mas essa

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mesma água torna ao mar, com variável força, e vai engrossar a onda que há de vir, e que terá de tornar como a primeira”.231

Cada vez que a onda investe a praia e volta ao mar, para novamente retornar à praia, ela já não é mais a mesma e, no entanto, traz os resíduos da onda que fora; assim também acontece com a memória, pois quando uma lembrança rompe a barreira do recalque e ganha acesso à consciência, algo do seu material primitivo já se incorporou a outros materiais e passou por algum tipo de transformação. É como se uma lembrança se incorporasse ao fragmento de outras lembranças ou, até mesmo, de fantasias do sujeito e, quando vem à tona, surge modificada, transformada, embora traga consigo os resíduos ou traços do original.

O poeta João Cabral de Melo Neto, citando Eliot, também se refere, metaforicamente, à memória como ondas do mar, fazendo alusão ao movimento das marés: “Como disse Eliot em The wast land: ‘These fragments I have shored against my ruins’. Assim, a memória são fragmentos trazidos à praia contra minhas ruínas. Como você gosta de ouvir, falo de meu pai, de minha mãe, de meus avós, até do quarto onde nasci. Mas são sempre fragmentos, só fragmentos”.232

No entanto, são esses mesmos fragmentos de palavra, que constituem a memória, que serão trabalhados em uma tradução e, muitas vezes, ganharão uma nova linguagem ao passarem por outras leituras e outros olhares. Assim, se a memória é pensada como um texto corroído ou como os restos ou ruínas de um texto, podemos afirmar que são esses fragmentos de texto que poderão ser utilizados pelo sujeito na recomposição ou, se preferirmos, na reinvenção de sua própria história.

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MACHADO DE ASSIS. Memórias póstumas de Brás Cubas, p. 605.

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