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1.1. Etik

1.1.3. ĠĢletme Etiği Kavramı

1.1.3.3. ĠĢletmelerdeki Etik Sorunlar ve Sorunların Çözümleri

As relações entre alimentação e saúde estabelecidas pelos médicos cariocas durante boa parte do século XIX funcionavam, em maior ou menos grau, como uma das explicações para o surgimento de várias doenças que assolavam a capital do Império. A abordagem utilizada na explicação do surgimento de epidemias e endemias na cidade privilegiava os aspectos ambientais como elementos fundamentais.124 Assim, parecia

123 Sobre o ―resgate‖ de Moleschott pela historiografia contemporânea, cf. nota 84.

48 consenso entre os higienistas que o clima quente e úmido do Rio de Janeiro era uma causa importante no surgimento de doenças, como as febres. Em 1835, Luiz Pedro de Queiroz afirmava que:

―(...) a Cidade do Rio de Janeiro pela posição, e composição de seo sólo, athmosphera humida, e pesada, as vicissitudes desta, sua vegetação, estado de electricidade, seos ventos, e bruscas mudanças, seos edificios, e ruas, está no caso de fornecer materiaes para o apparecimento das febres intermittentes.‖125

Em 1850, essa visão se mantinha:

―[A cidade do Rio de Janeiro é] cercada de soberbas montanhas, em cujas faldas correm cristallinos rios; ao norte e ao nascente é ella banhada pelo mar, constituindo uma verdadeira cercadura (...) onde fórma hum largo mangue, que sujeito como os outros á enchente e vasante da maré estabelecem focos de pestiferas exalações. Vista ao sul parece plantada ao redor de gigantescas montanhas cobertas de huma variada vegetação, montanhas que (...) embaração a circulação do ar (...). É constantemente arejada por dous ventos (...) arejamento [que] é muitas vezes modificado pelas repentinas mudanças athmosphericas. (...) vemos a cidade do Rio de Janeiro achar-se em poucas condições hygienicas. Os mangues, os pantanos, os lagos, tudo proveniente do pouco declive da cidade a impossibilita de largos esgotos, tornando-a por tamto em extremo insalubre. Essas aguas além de estarem sujeitas pela sua estagnação á decomposição das matérias n‘ellas contidas, conservam quase sempre animaes mortos, cuja putrefação accelerada pela força do calor vicia a

49 athmosphera, e constituem focos de milhares de males taes como, as

febres intermittentes (...)‖126

A relação entre clima e saúde não é nova. Desde a antiguidade grega, médicos e pacientes não hesitavam em correlacionar o clima à ocorrência de doenças. O que parece ter mudado ao longo do tempo são aspectos particulares das condições externas e seu significado, permanecendo, entretanto, a mesma ligação. Elementos como o ar, a comida e a bebida, os exercícios, o sono, as evacuações e as paixões eram as primeiras explicações127

— explicações estas que continuariam a vigorar durante boa parte do século XIX, tanto em países europeus quanto no Brasil.

A existência de doenças endêmicas era compreendida em relação à topografia e ao clima, bem como os surtos epidêmicos — em que as mudanças climáticas relacionadas às estações eram vistas como causas determinantes do aparecimento generalizado e inesperado de doenças.128 Assim, o calor e a localização ao nível do mar do Rio de Janeiro,

aliados às montanhas que cercavam a cidade e impediam a circulação do ar eram tidos como elementos perigosos à saúde.

Esta relação entre o homem, a natureza e o clima pode ser bem exemplificada no seguinte comentário do médico Antônio Corrêa de Souza Costa,129 em 1865:

126 Brito, ―Tres Theses em Sciencias Ascessorias,‖ 9-10. Outra descrição detalhada da topografia, vegetação e atmosfera do Rio de Janeiro está em Queiroz, 13-6.

127 Hannaway, ―Environment and Miasmata,‖ 292-3. 128 Ibid., 293.

129 Professor de Higiene da Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro e, durante algum tempo, seu vice- diretor, Antônio Corrêa de Souza Costa foi também membro da Academia e do Conselho do imperador. Em 1883, ocupou por pouco tempo a presidência da Junta Central de Higiene Pública, vindo a falecer no início de 1884. Sua tese inaugural, de 1857, tratou ―Da Infecção Pululenta‖. Em 1859, elaborou a tese destinada a concurso ―Da Desinteria nos Países Tropicais‖ e, em 1865, apresentou para o concurso à cadeira de Higiene Pública a tese ―A Alimentação da Classe Pobre no Rio de Janeiro‖, que utilizamos nesse estudo. Escreveu também sobre o diagnóstico diferencial entre a hipoemia intertropical e o impaludismo, além de um formulário farmacêutico militar (em colaboração). Santos Filho, 2: 131, 273 e 582, citado em Benchimol, Dos Micróbios aos Mosquitos, 113, nota 3.

50 ―Para não atribuir, pois, exclusivamente á alimentação, aquillo que aliás é

devido á concurrência de causas diversas permitta-se-nos duas palavras ácerca da acção de algumas dessas causas. Temos em primeiro lugar o clima do Rio de Janeiro, com sua elevada temperatura, suas constantes variações termo-barometricas, seu exagerado estado hygrometrico e electrico, etc. A acção que exerce esta climatologia especial sobre os habitantes do Rio de Janeiro é bem conhecida. Nós já tivemos occasião de defini-la em um trabalho sobre a opilação130 (...) Se passarmos do

clima ás condições topographicas de nossa cidade, encontraremos a pouca elevação de seu solo sobre o nivel do mar, a existencia de pantanos em alguns arrabaldes da cidade, a construcção viciosa de suas casas, pela maior parte baixas, humidas e pouco ventiladas, a grande humidade de seu solo (...). Se, em terceiro lugar quizermos attender ao temperamento lynphatico, á constituição fraca, aos hábitos irregulares (...), ainda ficaremos convencidos que estas causas tendem a enfraquecer o organismo, predispondo-o para um certo numero de molestias.‖131

Tristão Cândido Mayer também nos oferece o mesmo retrato:

―Ha muito que a observação tem mostrado que nos paizes onde se vem muitos lagos e pântanos, naquelles lugares em que os terrenos offerecem pouca declinação de maneira á não dar escoamento fácil ás agoas pluviaes (...) em fim em toda a parte onde as agoas se tornão estagnadas: ahi se dezenvolvem, alem de outras muitas enfermidades, as intermittentes (...). Desta verdade infelizmente temos muitos exemplos do Brazil, nossa Patria! Na Província do Rio de Janeiro (...)‖132

130 O referido trabalho foi publicado na Gazeta Médica do Rio de Janeiro em 1862, e será citado oportunamente. 131 Costa, ―Qual a Alimentação,‖ 37-9.

51 A partir dessa relação é que deve ser visto o conceito de miasma, originado entre os gregos e no seio da teoria hipocrática, tido como o agente causador de boa parte das enfermidades no século XIX. Com o significado de poluição ou de um agente poluente, o ar era visto como causa de surtos de doenças, e a contaminação por miasmas a razão porque elas afetavam certo número de pessoas ao mesmo tempo.133 Embora de natureza

indefinida — como fica claro pela leitura das teses médicas, que buscam incessantemente identificá-las —, as fontes gerais de putrefação que formavam os miasmas incluíam cadáveres de pessoas ou de animais, alimentos podres e o apodrecimento da matéria vegetal.134

De fato, há novamente um consenso entre os médicos cariocas durante quase todo o século XIX sobre a formação dos miasmas e sua capacidade de produzir doenças.135 Com

sinônimos como eflúvios, exalações ou emanações paludosas, os miasmas, definidos como ―certos princípios deletérios muito sutis‖, originavam-se a partir dos cemitérios, das latrinas e das águas estagnadas dos pântanos, e variavam sua ―esfera de atividade‖ segundo os climas, as estações e os ventos.136 As águas estagnadas, ao evaporarem, contaminavam o ar

com emanações miasmáticas provindas ―da putrefação de matérias animais e vegetais‖, que predispunham a população a contrair inúmeras doenças.137

133 Hannaway, 295.

134 Ibid.

135 Embora os médicos cariocas advertissem sobre as controvérsias quanto à existência ou não dos miasmas, muitos deles aceitavam sua existência, cujos ―milhares de fatos incontestáveis (...) assim o comprovam‖. Queiroz, 21. A natureza dos miasmas, segundo os diversos autores consultados pelos médicos brasileiros, é discutida em Queiroz, 21-5; Mayer, 11, Brandão, ―Considerações sobre a Febre em Geral, e as Perniciosas em Particular,‖ 24-5, e Feital, ―Duas Palavras sobre as Febres Intermittentes Paludosas,‖ 16-8.

136 Brandão, ―Considerações sobre a Febre em Geral,‖ 36. Embora cada um desses termos gozasse de definição própria segundo autores tomados como referência pelos médicos brasileiros, elas foram usadas nas teses cariocas, todas, como sinônimos de miasma. ―Estas designações, porém, não são sinônimas, e cada uma tem sofrido sua interpretação, abstraindo, porém, desta, não achamos inconveniente algum em usar de qualquer delas, ajuntando-se-lhe a palavra paludosas ou pantanosas.‖ Nogueira, ―Das Febres Intermittentes,‖ 13. Assim, as exalações designavam ―os fluidos gazosos, e os corpos imponderaveis em circulação na athmosphera, particulas aquosas, mineraes, metalicas, vegetaes, animaes, &c.‖ e os eflúvios — termo que Queiroz atribui ter sido empregado primeiramente por Giovanni Maria Lancisi (1654-1720) — designavam ―as partículas, que emanão dos lugares coberto d‘agoas estagnadas‖. Queiroz, 20.

52 Em tese de 1839, Mayer resume a sua formação:

―Tem-se assentado que nos lagos e pantanos ha evaporação constante de substancias quer animaes quer vegetaes, que se achão ahi accumuladas, e em estado de putrefacção; que os seos principios os mais subtis dissolvidos nos vapôres aquozos, e tornando-se nimiamente (sic) rarefeitos pela acção do calorico, elevão-se na athmosfera, vão occupar as suas camadas superiores; pelo resfriamento desta elles condensão-se, e precipitão-se sobre a terra. São estes principios que nós chamamos miasmas, e que tão bem tem sido apellidados – effluvios e emanações paludosas.‖138

Além das febres intermitentes, outras doenças, como cólera-morbus e febre amarela, eram originadas a partir dos miasmas, e os desvios da dieta poderiam dar condições para que essas moléstias se instalassem. Examinemos um pouco mais de perto esse panorama das enfermidades que preocupavam os médicos do Rio de Janeiro, e quais as determinações dietéticas para preveni-las.