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Ainda no âmbito tributário impositivo da União, podemos trazer como hipótese de tributos que podem tutelar o meio ambiente o Imposto Territorial Rural e o Imposto de Renda.

Imposto sobre a Propriedade Territorial Rural (ITR)

De acordo com o art. 153, VI, da Constituição Federal, compete à União instituir impostos sobre a propriedade territorial rural, sendo certo que, nos termos do seu § 4º, referido imposto será progressivo75 e terá suas alíquotas fixadas de forma a desestimular a

manutenção de propriedades improdutivas, bem como para aqueles imóveis rurais que não atendam sua função social no que diz respeito à utilização adequada dos recursos naturais disponíveis e preservação do meio ambiente (art. 186, II CF). Ainda, de acordo com o inciso II do art. 153, não incidirá sobre pequenas glebas rurais, definidas em lei, quando as explore o proprietário que não possua outro imóvel.

O CTN define, em seus art. 29 e 30, que o ITR tem como fato gerador a propriedade, o domínio útil ou a posse de imóvel por natureza, definido na lei civil, localizado fora da zona urbana do Município, sendo sua base de cálculo o valor fundiário.

Considerando que o art. , da Constituição Federal, dispõe que, como agente normativo e regulador da atividade econômica, o Estado exercerá, na forma da lei, as funções de fiscalização, incentivo e planejamento , e, determina que a lei estabelecerá as diretrizes e bases do planejamento do desenvolvimento nacional equilibrado, o qual incorporará e compatibilizará os planos nacionais e regionais de desenvolvimento , patente é a responsabilidade do Estado, devendo este intervir na agricultura, corrigindo distorções indesejáveis, buscando o bem-estar econômico e social.

Embora o ITR ainda não seja aplicado como um instrumento de política pública dedicado à conservação do meio ambiente, uma vez que sua progressividade foi imaginada no

74 Publicada no DOU de 13/1/2012, p. 2 e ss.,

http://www.in.gov.br/visualiza/index.jsp?data=13/01/2012&jornal=1&pagina=2&totalArquivos=112 (acesso em 8/11/2012).

75B‘ITOàMáCHáDOàe si aà ueà aà progressividade tem por função essencial a realização adequada do princípio da capacidade

o t i uti aà […],à ua doà apli adaà aosà i postosà i o ili ios,à te à aà fu ç oà deà e ita à aà o e t aç oà deà i uezaà i o ili ia .à O auto àai daàe u e aà ueàaàp og essi idadeà podeàte àout asàfu ções,àdesdeà ueàesta elecida em razão de outros parâmetros que não o crescimento da base tributária. É o que acontece, por exemplo, com a progressividade em razão do tempo, preconizada como instrumento para desestimular a permanência de imóveis em desacordo com os planos de urba izaç oàdasà idades ,à o oà no caso do IPTU progressivo, estabelecido pela CF/88 (Comentários ao Código Tributário Nacional, V. I, Atlas, São Paulo, 2003, p. 366 e 367).

contexto da década de 1960, em que as questões ambientais atuais ainda não eram evidentes, acreditamos que nada obsta que o viés ambiental seja incorporado à sua incidência.

Para tanto, o Estado poderá se valer da Política do Meio Ambiente, de forma a destacar uma proposta de uso extrafiscal do ITR, seja pelo estabelecimento de padrões de qualidade ambiental, pelo zoneamento ambiental, pela avaliação de impactos ambientais, ou pelo licenciamento e a revisão de atividades efetiva ou potencialmente poluidoras. Ou, ainda, da Política Agrícola (Lei 8.171/1991),76 que, muito embora tenha tido um

capítulo específico sobre tributação e incentivos fiscais vetado, conserva, em suas disposições finais (art. 103),77 obrigação do Poder Público de conceder incentivos especiais

ao proprietário rural que conservar a cobertura florestal ou sofrer limitação de uso dos recursos naturais existentes em sua propriedade.

No mesmo sentido, o Estatuto da Terra (Lei 4.504/1964),78 que, em seu art. 47, prevê a

utilização da tributação progressiva da terra como incentivo à política de desenvolvimento rural, ou seja, com caráter extrafiscal. A referida lei estabelece, inclusive, no art. 49, normas gerais para a fixação do ITR, que devem obedecer a critérios de progressividade e regressividade.

Outro exemplo que se pode apresentar é o da lei 9.383 de 1996, que exclui do campo tributário as áreas de preservação permanente e de ecossistemas e as comprovadamente imprestáveis para qualquer tipo de exploração, declaradas de interesse ecológico.

Nestes termos, considerando que a função social da propriedade rural está inegavelmente atrelada ao uso equilibrado dos recursos naturais que esta abriga e à conservação do meio ambiente, e que a própria Constituição Federal já prevê que o ITR tem caráter progressivo, tudo de forma a desestimular a manutenção de propriedades improdutivas , propõe-se no presente estudo que seja premiado o proprietário, que venha a introduzir, em seu imóvel rural, práticas que conduzam a um aproveitamento verde .

Assim, em casos dessa natureza, poderá o Executivo determinar alíquotas maiores aos proprietários/contribuintes de imóveis rurais que, dentro dos limites da sua propriedade, não estejam utilizando adequadamente os recursos naturais disponíveis e preservando o meio ambiente.

76 Confira sua íntegra em http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/L8171.htm (acesso em 8/11/2012).

77 Art. 103. O Poder Público, através dos órgãos competentes, concederá incentivos especiais ao proprietário rural que:

I - preservar e conservar a cobertura florestal nativa existente na propriedade;

II - recuperar com espécies nativas ou ecologicamente adaptadas as áreas já devastadas de sua propriedade;

III - sofrer limitação ou restrição no uso de recursos naturais existentes na sua propriedade, para fins de proteção dos ecossistemas, mediante ato do órgão competente, federal ou estadual.

Parágrafo único. Para os efeitos desta lei, consideram-se incentivos:

I - a prioridade na obtenção de apoio financeiro oficial, através da concessão de crédito rural e outros tipos de financiamentos, bem como a cobertura do seguro agrícola concedidos pelo Poder Público.

II - a prioridade na concessão de benefícios associados a programas de infraestrutura rural, notadamente de energização, irrigação, armazenagem, telefonia e habitação;

III - a preferência na prestação de serviços oficiais de assistência técnica e de fomento, através dos órgãos competentes;

IV - o fornecimento de mudas de espécies nativas e/ou ecologicamente adaptadas produzidas com a finalidade de recompor a cobertura florestal; e

V - o apoio técnico-educativo no desenvolvimento de projetos de preservação, conservação e recuperação ambiental.

Conforme será abordado no presente estudo, referido viés ambiental é fundamento do projeto de lei 487/2011, do Município de São Paulo, que prevê a concessão de incentivos aos estabelecimentos industriais, comerciais, de prestação de serviços e aos condomínios residenciais que empreenderem ações de apoio à reutilização e à reciclagem de resíduos sólidos, na forma de isenção parcial do Imposto Predial e Territorial Urbano (IPTU).

Imposto sobre a Renda e Proventos de Qualquer Natureza (IR)

O art. 153, inciso III, da Constituição Federal, prevê que compete à União instituir Imposto sobre Renda e proventos de qualquer natureza, devendo este, nos termos do § 2º, inciso I, ser informado pelos critérios da generalidade, da universalidade e da progressividade, na forma da lei.

O art. 43, do CTN, por sua vez, determina que o IR tem como fato gerador a aquisição da disponibilidade econômica ou jurídica de renda, assim entendido o produto do capital, do trabalho ou da combinação de ambos, e de proventos de qualquer natureza, sendo certo que sua incidência independerá da denominação da receita ou do rendimento, da localização, condição jurídica ou nacionalidade da fonte, da origem e da forma de percepção.

O Imposto de Renda foi o primeiro tributo no Estado brasileiro a ser empregado com uma função ambiental. Essa previsão constava da lei 5.106 de setembro de 1966, que estabeleceu a possibilidade de abatimento ou desconto nas declarações de rendimento de pessoas físicas ou jurídicas, dos recursos empregados em florestamento e reflorestamento, com clara carga extrafiscal deste tributo, podendo ser empregado de forma eficaz na intervenção do Estado sobre o domínio econômico.79

O mesmo ocorre quando a legislação do IR permite a dedução, pelas empresas, de gastos com máquinas, materiais ou mão-de-obra utilizados na implantação de dispositivos que protejam o ambiente, ou que efetiva a implementação de políticas de proteção.

Ainda são tímidos os exemplos de uso do IR para proteção ambiental. Mas é possível identificar um movimento nesse sentido, havendo diversos projetos de lei com viés ecológico:

Projeto de lei 3.470/200880: pretende instituir o Programa Empresa Consciente,

com a concessão de incentivos fiscais do Imposto sobre a Renda da Pessoa Jurídica – IRPJ, para projetos voltados à conservação do meio ambiente, redução da poluição ambiental e valorização do trabalhador. Referido PL foi aprovado pela Comissão de Desenvolvimento Econômico, Indústria e Comércio, em 10/11/2010. Contudo, foi arquivado pela Mesa Diretora da Câmara dos Deputados, em

79 LOBATO, Anderson Orestes Cavalcante; ALMEIDA, Gilson César Borges. Tributação ambiental: uma contribuição ao

desenvolvimento sustentável. In: TÔRRES, Heleno Taveira (org.). Direito Tributário Ambiental. São Paulo: Malheiros, 2005. p. 633.

80 Confira sua íntegra em

http://www.camara.gov.br/proposicoesWeb/prop_mostrarintegra?codteor=569647&filename=PL+3470/2008 (acesso em 8/11/2012).

31/1/2011,81 nos termos do art. 105, do Regimento Interno da Câmara dos

Deputados.

Projeto de lei 5.974/200582: dispõe sobre incentivos fiscais para projetos

ambientais. Prevê que as pessoas físicas e jurídicas poderão deduzir do imposto de renda devido, respectivamente, até 80% (oitenta por cento) e até 40% (quarenta por cento) dos valores efetivamente doados a entidades sem fins lucrativos, para aplicação em projetos destinados a promover o uso sustentável dos recursos naturais e a preservação do meio ambiente. Referido PL foi apensado ao PL 5.162/2005.

Projeto de lei 5.162/200583: Dispõe sobre mecanismos de incentivo a projetos de

proteção ao meio ambiente e doações ao Fundo Nacional de Meio Ambiente, instituído pela lei 7.797/1989. De acordo com referido PL, é facultada às pessoas físicas ou jurídicas a opção de aplicar parcelas do Imposto sobre a Renda, a título de doação ou patrocínio, no apoio direto a projetos de proteção ao meio ambiente sem fins lucrativos, habilitados para esse fim pelo órgão ambiental federal competente. Referido PL foi arquivado, em 3/10/2007,84 pela Mesa Diretora da

Câmara dos Deputados, nos termos do § 4º, do art. 58, do Regimento Interno da Câmara dos Deputados.