KISALTMALAR CETVELİ ÖZET
C) Uzman Görüşüyle Bilirkişi Raporu Arasındaki Çelişkinin Giderilmesi
II- Çelişkinin Giderilmesi İçin Uzman Kişinin Duruşmada Dinlenmesi
Na secção anterior ficou esclarecido que os processos identitários são fragmentados, mutáveis e transitórios. Os contextos sociocultural e histórico moçambicanos não são diferentes, tal como será mencionado mais adiante neste capítulo. Desde a época colonial até aos dias que correm, as identidades das pessoas encontram-se fragmentadas, como resultado de um processo histórico, político e ideológico.
Aquando da sua chegada ao território que hoje se designa de Moçambique, os portugueses encontraram comunidades tradicionais africanas que conviviam com árabes e outros povos de origem asiática (Silya:1996:47). Cahen (1996:27-33), Ngoenha
(1998:25-28), Aurélio (2003:7) e Lopes (2004:27-31)35 são unânimes em afirmar que as
35
Lopes (2004:27-31) refere que a nação moçambicana foi constituída a partir das fronteiras geográficas que dividiram nações diferentes tal como se pode verificar a partir das línguas faladas em cada região na seguinte descrição: em Cabo Delgado fala-se Kiswahili e Shimakonde, línguas também faladas na Tanzânia; em Niassa podemos ouvir Cyao e Cinyanja, línguas faladas, também, na Tanzânia e no Malawi; em Tete fala-se Cinyanja, igualmente falado no Malawi, Tanzania e Zâmbia; em Sofala, parte da Zambézia, e parte de Tete, fala-se Cisena, língua também falada no Malawi; na Beira e em Manica, fala-se o Cishona, que também é falado no Zimbabwe; em Gaza, fala-se o xichangane que também é falado na África do Sul;
44 fronteiras foram delineadas considerando-se interesses políticos e não socioculturais, étnicos e linguísticos, o que entendemos ser uma lacuna histórica. Quer dizer que a demarcação desse espaço não deu importância aos intercâmbios socioculturais que havia entre as diferentes nações até então existentes nesse território, nem à questão da pertença cultural e de cidadania36.
Referindo-se à reformulação da questão étnico-identitária, Cahen (1996:29) apresenta como exemplo o facto de os macondes de Moçambique terem consciência de que do ponto de vista de pertença a um Estado são moçambicanos sendo os da margem esquerda do rio Rovuma Tanzanianos. Mas o que se tem verificado é que, para estes povos, o sentimento de inclusão social e de identidade cultural se encontra intimamente ligado à respetiva etnia e não ao país a que cada uma dessas etnias pertence, pelo que, nestes termos, essas pessoas tanto se consideram tanzanianas como moçambicanas. Há uma ambiguidade na sua identificação naquilo que concerne a aspetos políticos, tal como o referimos quando abordamos a questão da nacionalidade subjectiva.
Este autor (idem: 31) refere também que o resto do país é constituído por várias bolsas étnicas, de confluências culturais moçambicanas ou não, excetuando-se a etnia chope que, no território nacional, existe num espaço delimitado, sem alargamento para regiões de fronteira entre Moçambique e outros países. Aurélio (2003:9) adianta sobre esta matéria que os Nyanja de Moçambique, do Malawi e da Zâmbia mantêm a sua identidade, apesar da divisão política administrativa que os separa.
Na mesma linha de pensamento que os autores anteriormente mencionados, Ngoenha (1998:20) afirma que essa ideia de criação de uma nação moçambicana acabou por reunir num mesmo espaço todas as microcomunidades existentes no contexto geopolítico sob o domínio colonial português, e integrá-las numa única dinâmica política. Mesmo após a independência, essa integração foi mantida. O autor defende que essa agregação de nações fez com que as pessoas, reunidas no território moçambicano, assumissem que tinham a mesma identidade nacional, independentemente das suas particularidades étnicas, regionais, culturais, linguísticas e religiosas.
Mondlane (1999:15) refere que, no período entre 1962 e 1974, decorreu a guerra colonial para libertar o país da tutela portuguesa. No início dessa luta, Eduardo
o Swazi é uma língua da Swazilândia que também é falada numa região de Maputo, o mesmo acontecendo com o Zulu, falado na África do Sul.
36
45 Mondlane, primeiro presidente da Frelimo, no âmbito da sua liderança, preconizava um ideal de identidade nacional que proporcionasse um ambiente de inclusão social e tolerância pela diferença entre os vários grupos étnicos moçambicanos. Nesse ideal de identidade, a grande preocupação do grupo deveria ser a de se unirem para libertar o país do jugo colonial. Essa decisão originou uma cultura na qual não se fazia a distinção das pessoas por tribo, nem por etnia e, assim, a questão da diferença cultural não foi discutida, e diversos conflitos interculturais foram postos de parte37.
Para Ngoenha (1998:28), a ideia advinha da iniciativa de que era necessário combater o tribalismo para se poder lutar contra o colonialismo, que era o inimigo comum a essa comunidade. Neste sentido, o objetivo era fazer com que as pessoas, reunidas nesses locais, assumissem que tinham a mesma identidade nacional, independentemente das suas particularidades étnicas, regionais, culturais, linguísticas e religiosas. Ngoenha (1998:18) refere ser importante que a filosofia se dedique a dar outros sentidos à identidade moçambicana e que deveria ser necessário criar instituições que zelem por esta questão não como um projeto político que defende a unicidade identitária, mas como instituições que encoragem a pluralidade.
O referido teórico (idem:20-22) adianta que a nação moçambicana globalizada teve o seu apogeu com a independência nacional. Entende-se pela ideia do autor que é necessário que se discuta a construção da interculturalidade para se dar lugar à manifestação da diversidade cultural existente em Moçambique, promovendo a contribuição específica ao bem comum da nação global, sem etnocentrismos, nem tribalismos.
Ainda no que respeita à mono-identidade, importa referir que, de acordo com Honwana (2002:227), como medida de implementação da política colonial em Moçambique, o governo português interditou a realização de rituais tradicionais, como por exemplo o de pedir que chova ou de convivência entre vivos e mortos. Esse governo baniu também a utilização das línguas moçambicanas impondo as suas, numa medida de manipulação dos nativos deste país. No entanto, segundo a autora, essa interdição nem sempre foi aceite. Apresenta como exemplo o facto de, aquando da construção de uma
linha férrea em Marracuene – distrito da província de Maputo, o trabalho de montagem
37
Referindo-se a este tipo de procedimento, Cuche (2003:144) afirma que com o surgimento dos estados- nação modernos, a identidade passou a ser gerida pelo Estado, regulamentando-a e controlando-a de tal forma que foi criada uma mono-identidade ou uma identidade de referência. Assim, identidade nacional passou a ser a defesa da homogeneidade cultural, mesmo em contextos pluriculturais.
46 da linha ter sido feito durante o dia. No entanto, verificou-se que à noite a ponte era desmontada – por alguém que nunca foi possível identificar. De manhã, quando as brigadas de trabalho reiniciavam a sua atividade, reparavam que estavam a repetir um trabalho anterior, pelo que o responsável pela obra solicitou à população local que realizasse o ritual de evocação dos antepassados, a que se designa Ku- phaxla38 dos residentes das zonas circunvizinhas do local, por onde passava a linha férrea, e só depois disso é que a construção terminou.
O que podemos depreender dessa questão é que a colaboração dos moçambicanos dependia de verem satisfeito o aspeto psicológico que simbolizava um pedido de licença para se realizar aquele empreendimento naquele lugar. Só assim poderiam trabalhar melhor, por se ter cumprido um dos rituais que fazem parte da sua cultura. As vidas desses moçambicanos decorriam entre realizarem ou não os rituais ligados às suas tradições, em alguns momentos impedidos pelo governo, daí que os realizassem secretamente; em outros momentos, execepcionalmente, esses rituais eram realizados para conveniência do governo, o que agudizava a ambiguidade identitária39.
Para além da interdição de realização de rituais tradicionais, a identidade dessas pessoas ficou marcada pelo facto de se terem visto impossibilitadas de utilizarem os seus nomes próprios, os que se encontram ligados à sua tradição ancestral, passando a receber nomes estrangeiros. A título de exemplo, alguns moçambicanos, no lugar de terem sido registados com os seus apelidos africanos como Khosa, Nheve, Djsonasse, Mphumu; foram registados como Cossa (Costa em alguns casos), Neves, Jonas e Fumo. Alguns de nome próprio Ntsay, Tchanaze, Khudzi, Sumbi ou Ndrawu, tiveram que ser chamados Madalena, Maria, Rita, Cristina. Houve bloqueios à autoestima dos diferentes povos naturais de Moçambique porque passaram a usar nomes não abençoados pela Religião Tradicional Bantu e que, segundo essa cultura e religião, deveriam ser escolhidos dentre um parente vivo ou morto, para que o nome transportasse a energia desejada pela família40.
A língua de comunicação nacional passou a ser o português em detrimento das línguas moçambicanas. É nesse sentido que Mondlane (1995:129) afirma que “antes da
38
É um ritual de pedido de benção aos antepassados. Esse ritual foi aceite por ter interferência nas questões económicas do governo vigente naquela época.
39
Do ponto de vista literário, este assunto é retratado em Palestra para um Morto, da autoria de Suleiman Cassamo, obra que abordaremos mais adiante.
40
47 guerra, coexistiam duas autoridades: a colonial e a dos chefes tribais, subordinados e integrados no sistema colonial, mas retendo apesar de tudo uma certa autonomia”. Além disso, a autora (idem:130) explica que “certos chefes, receosos de perderem os seus privilégios feudais com a vitória da revolução, aliaram-se aos colonialistas”. Isto significa que, por um lado, houve colonização imposta, mas também aceite por alguns desses chefes, como por exemplo o régulo Nhapale da região de Mutarara. Mondlane (idem:142) refere ainda que a cultura moçambicana passou a ser “subterrânea”, subjugada, crítica e abertamente desprezada pelas autoridades portuguesas.
Todo o processo acabado de referir contribuiu para a criação de uma mono- identidade, embora derivada de um processo consciente ou não da aceitação de alguns chefes tribais em Moçambique que colaboravam com o governo colonial. O que pretendemos realçar, neste estudo, é que todo esse processo reforçou a ambivalência cultural até então existente.
Nos dias que correm, vários estudos demonstram o quanto as teorias de supremacia não foram adequadas e podemos encontrar equivalências entre culturas ou ainda relativizar a informação encontrada, em caso de comparação entre culturas. Por exemplo, no que diz respeito às religiões, os africanos não tinham igrejas, nem altares convencionais, à maneira ocidental, mas tinham os seus lugares sagrados que, entretanto, tiveram de passar a usar de forma secreta. Não podiam expressar livremente a sua identidade nem religião. As árvores da família, florestas, rios sagrados – eram e continuam a ser os seus locais sagrados, lugares onde prestam culto às suas divindades e falam com os seus antepassados, sempre que se revele necessário, uma vez que o convívio entre vivos e mortos é algo natural.
Na tradição católica apostólica, por exemplo, quando alguém se casa, viaja ou está feliz com algo de bom que lhe tenha acontecido, reza uma missa. O mesmo acontece na Religião Tradicional Bantu, os antepassados são informados sobre esses mesmos acontecimentos e, nesse processo, pede-se-lhes bênçãos ou agradece-se-lhes a dádiva. A diferença entre essas duas religiões é o lugar onde ocorre o ritual; para uns, é dentro de uma igreja e, para outros, é num lugar sagrado, tal como foi mencionado acima. Em ambos os casos, há um apelo a um ente superior. Num caso, acredita-se ser Deus, no outro caso acredita-se entregar as preces a alguém que irá interceder por quem pede junto a Deus, mas para ambos Deus é a essência e é único. É um processo no qual ocorre a chamada absolutização etnocêntrica que explica que cada sociedade satisfaz as suas
48 necessidades culturais conforme lhe convém41.
Quanto a Graça (2005:131), refere que é difícil encontrar fórmulas do que pode ser considerado um sentimento de construção de nação, dada a ambivalência cultural caraterística dos países africanos. Tal como Cuche (2003:144), o autor acrescenta que o Estado pode induzir esse processo. Assim, no seu entender, não é possível falar-se de uma identidade moçambicana única. Tantas são as línguas como as culturas e, por consequência, várias as identidades. Assim acontece dentro do território moçambicano, e também em regiões fronteiriças do país. Há em Moçambique um sistema heterogéneo constituído por subsistemas homogéneos e cada um desses grupos projeta uma noção etnocêntrica que os diferencia dos outros e também do propalado conceito de nação.
Após o que ficou acima mencionado, é de realçar que falar sobre a nação moçambicana pressupõe lembrar que a cobertura linguística de Moçambique vai para além das fronteiras físicas, geográficas ou políticas. Nesses termos, pode-se afirmar que Moçambique é uma nação, tendo em conta a demarcação do território que geograficamente é governado pelo Estado Moçambicano desde 1975. Essa é uma conceção política da definição de Estado que defende que todos os cidadãos moçambicanos são governados por uma só lei, de acordo com a constituição vigente no território moçambicano, partilhando símbolos identitários como uma mesma bandeira, moeda, língua oficial, entre outros.
No entanto, considerando uma definição do ponto de vista social, lembrando que nação caracteriza um grupo de pessoas que fale a mesma língua e tenha os mesmos costumes ou viva geograficamente na mesma região (por exemplo, semelhanças e afinidades culturais entre pessoas e famílias do mesmo sangue ou da mesma cultura e língua, que acabaram ficando a viver em países diferentes, tal como se verifica nos casos acima mencionados), Moçambique é constituído por muitas nações dentro de si, ou seja, do ponto de vista social não é uma nação, por haver coexistência de várias nações dentro do mesmo território político. Há, portanto, até aos nossos dias, uma certa ambiguidade no que se refere à designação do conceito de nação moçambicana.
Na perspetiva de Ngoenha (1998:20-27), o desígnio de identidade moçambicana falhou por se ter considerado que o projeto da nação política só seria possível se as pessoas agissem da mesma maneira e assumissem que têm a mesma cultura sem distinção
41
49 tribal ou regionalismos. O autor assinala, contudo, que nação é um valor supremo de coesão dos estados contemporâneos, quer sejam homogéneos quer sejam heterogéneos do ponto de vista étnico, linguístico e cultural.
Defende ainda que a identidade nacional em Moçambique teve a tarefa de unificar, sob o mesmo signo de pertença, os moçambicanos, independentemente das diferenças culturais. O autor afirma que, no entanto, essa unificação abafou a discussão da interculturalidade, em nome da construção da moçambicanidade, que mutilou a discussão sobre diversidade e pluralidade42, até porque, desde 1975, altura da independência, e até hoje, Moçambique se encontra sob a governação do mesmo partido, a FRELIMO43, que detém o poder político.
Segundo se tem discutido44, no país esta formação política controla o funcionamento do Estado, a distribuição de recursos de índole económica, social, política, cultural e, consequentemente, do bem-estar das pessoas, incluindo o acesso ao emprego e à riqueza. No que à construção de mentalidades diz respeito, a força deste partido faz-se sentir, nos mais diversos sectores, por todo o país, embora comecem a surgir alguns focos de resistência, claramente legitimados em eleições autárquicas45.
O controlo do país, por parte de um partido político, revela quanto o país se confronta com uma mentalidade castradora de liberdade de pensamento, de tolerância, de aceitação de maneiras de pensar e fazer diferente e isso repercute-se a vários níveis institucionais e sociais. Além disso aponta-se, na maior parte das vezes, o facto de todos os presidentes de Moçambique serem do sul46. Os meios de comunicação social independentes têm referenciado esses factos, embora alguns dirigentes do país os
42
Um exemplo da falta de abertura e tolerância pelo diferente, dado sob um ponto de vista literário, vem de Mia Couto, através de uma crítica social, no texto de sua autoria, “A Porta”, que consta doanexo III.
43
O Movimento de Libertação de Moçambique acima referido, em 1977 transformou-se num partido político de índole marxista-leninista. Era o único partido até 1994, ano em que se iniciou o pluripartidarismo.
44
Referindo-se às formas de atuação da FRELIMO, o jornal Savana, uma publicação independente, alude, no seu editorial a: […] “Sua postura de arrogância, autocrática e de olhar para todos aqueles que não concordam com a sua visão de país como antipatriotas, distraídos, esquisitos, marginais, pobres de espírito, tagarela […]” Savana, nr. 976 (2012:6).
45
Repare-se que em 2010 (na Beira, província de Sofala), 2011 (em Quelimane, província da Zambézia), 2013 (em Nampula, província de mesmo nome) e 2014 (Gurué, província da Zambézia) foram eleitos presidentes de municípios de um partido diferente do que se encontra no poder, o Movimento Democrático de Moçambique (MDM).
46
Só em 2014 é que Moçambique, pela primeira vez, elegeu um presidente oriúndo do norte de Moçambique.
50 refutem47.
Devemos, todavia, realçar que a FRELIMO realizou, de 23 a 28 de Setembro de 2012, o seu décimo congresso e algumas das suas teses referem:
a unidade nacional foi sempre uma questão fundamental, desde a fundação da FRELIMO. A unidade nacional é um aspecto central para galvanizar as vontades e esforços de todos os moçambicanos para o desenvolvimento, promovendo a inclusão, cultura de diálogo permanente entre as forças vivas da sociedade. Só unidos é que poderemos superar todos os desafios que nos colocam. Tese 1: Unidade Nacional. Notícias(set. 2012:24).
[…] A democracia exige de todos os moçambicanos o respeito pelos direitos individuais e liberdades fundamentais, pela pluralidade política e pelas diversas formas de participação do povo na tomada de decisões sobre assuntos de interesse pessoal, das comunidades e de interesse nacional […] A FRELIMO continuará a promover em estreita colaboração com todos os actores sociais a cultura de paz através do diálogo, da tolerância, do humanismo e da reconciliação, tendo em vista a construção de uma sociedade justa, democrática e unida Tese 3: Paz e democracia. Notícias (set. 2012:25).
a FRELIMO é pelo fortalecimento do Estado de Direito democrático, das liberdades e direitos fundamentais, da justiça e equidade social […] A FRELIMO considera que o Estado é de todos os moçambicanos sem distinção de cor, raça, sexo, etnia, estrato social, religião, ou filiação partidária. […] rejeita todas as práticas discriminatórias […] Tese 5: O Estado e a Sociedade. Notícias(set. 2012:26)48.
Estas teses confirmam o postulado de Cuche (2003:144) e Graça (2005:22) que referem que a questão identitária é gerida pelo Estado. Além disso, elas parecem revelar um espírito de abertura para o diálogo sobre as diferenças culturais quando, o que acontece, de facto, é uma opacidade na forma de se estabelecer esse diálogo, não se dando lugar a abertura para a multiculturalidade, nem para a pluralidade política. É por isso que, em Ngoenha (1998:29-31) vemos advogada a necessidade de se estudarem formas de se dar outros sentidos à questão da identidade nacional moçambicana. Também o confirmam estas afirmações de Graça (2005:185; 294) que defende existir supremacia
47 Numa entrevista concedida por Joaquim Chissano, Presidente da República de Moçambique – no período
que decorreu entre 1986 e 2004 – aos jornalistas Muiambo e Gil, do jornal Notícias, quando questionado, em 2012, sobre o critério para a escolha do Presidente da República assenta sobre as origens étnicas do candidato, respondeu o seguinte: “ […] por aquilo que eu sei, como princípio da FRELIMO, esse nunca foi o critério de selecção […], porque o povo moçambicano precisa de se identificar com um líder que é capaz de manter este povo unido, um aglutinador deste povo […]. Poderá ser nessa ordem de ideias que o candidato a Presidente da República proposto, em 2014, pelo Partido FRELIMO, tenha sido Filipe Nyussi, originário da província de Cabo Delgado, tal como referimos anteriormente.
48
Porém, uma vez que esta tese não discute o modus operandi da política em Moçambique, para uma melhor compreensão sobre este assunto, leia-se Chichava (2008: 1-20).
51 dos grupos étnicos shangana e makonde sobre os outros grupos com consequências na distribuição do poder em Moçambique.
Antes de nos referirmos a outros modelos de construção de uma identidade nacional centrada na pluralidade, importa referir que uma revisão sobre o Estado da Arte relativa à construção deste processo, a partir de recursos bibliográficos diferentes, que não tinham a intenção de estabelecer uma periodização, permitiu-nos elaborar uma cronologia a partir da qual esse processo de construção de identidade nacional aconteceu, em contexto social – não ficcional49, o que permitirá perceber o que norteou a escolha do cânone literário50.
Cabaço (2010:104) defende que o primeiro enunciado concreto da política de identidade surgiu com a política de assimilação51, estabelecida pela administração colonial portuguesa em Moçambique e em outras colónias portuguesas em 1917. Na ótica desta pesquisa e naquilo que concerne ao tema da identidade em Moçambique,