C. İÇTİMA
2. Zincirleme Suç
No entanto, para além da dinamização econômica e estruturação de um setor produtivo, este modelo não era suficiente para garantir a incorporação dos trabalhadores nos grandes centros urbanos. Assistia-se a um crescimento acelerado do país e especialmente das cidades8, e na falta de políticas públicas estruturadas para as cidades absorvessem de maneira adequada a população de mais baixa renda, a situação habitacional do país já aparecia como um grave problema caracterizando-se pela precariedade das moradias e infraestrutura inadequada (SILVA, 2003). Neste contexto surge, por parte da sociedade, reinvindicações, mobilizações e propostas que também passam a dialogar com o Estado. Nesta conjuntura aparecem as primeiras propostas que mais tarde formaram a pauta da Agenda da reforma urbana.
As origens e matrizes discursivas da reforma urbana no Brasil remontam ao período entre a eleição de Jânio Quadros em 1961 e o golpe militar em 1964. Nesse período, foram feitas mobilizações políticas em torno do que se chamou de "reformas de base" de João Goulart que buscavam estabelecer uma nova linha política para o país. Neste contexto, ocorreu no Rio de Janeiro, em 1963, o Seminário de Habitação e Reforma Urbana9, com o objetivo de
8 Entre as décadas de 1950 e 1960, o país teve um acréscimo populacional de quase 20 milhões de
pessoas, sendo que grande parte delas passou a se concentrar nas cidades. Enquanto nesta década a população total do país cresceu 35%, a população urbana cresceu 68% (IBGE - censos demográficos de 1950 e 1960). Este período foi marcado pelo forte êxodo rural em consequência da forte política de industrialização adotada no governo de Juscelino Kubitschek, entre outros fatores (MARICATO, 1987).
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O Seminário de Habitação e Reforma Urbana foi um evento realizado pelo Instituto de Arquitetos do Brasil - IAB e pelo Instituto de Aposentadoria e Pensão dos Servidores do Estado (IPASE), em duas fases: a primeira no Hotel Quitandinha, na cidade de Petrópolis, Rio de Janeiro, entre os dias 24 e 26 de julho de 1963, e a segunda em São Paulo, SP, na sede do IAB, entre 29 e 31 de julho do mesmo ano. Tal evento ocorreu por ocasião das discussões ao redor das reformas de base do governo João Goulart (BONDUKI; KOURY, 2010).
inserir a temática urbana nas discussões dessas reformas de base. Participaram deste Seminário aproximadamente setenta profissionais, de diversas áreas, como arquitetos, engenheiros, sociólogos, economistas, advogados, assistentes sociais, técnicos, líderes sindicais, estudantis, representantes de entidades civis, entre outros. Neste Seminário foi cunhado pela primeira vez o termo “reforma urbana” com o propósito de diagnosticar e elaborar propostas para o enfrentamento dos problemas urbanos, de forma a inserir a temática nas discussões das reformas (SILVA, 2003).
Embora o diagnóstico apresentado sobre o problema urbano e habitacional não fosse algo inovador frente ao que vinha sendo demonstrado em seminários e encontros de arquitetos e engenheiros desde o 1º Congresso de Habitação, de 1931, no qual já se identificava a necessidade, por exemplo, do desenvolvimento tecnológico e do controle da propriedade do solo urbano para viabilizar habitação social, foi no Seminário de 1963 que se apresentou um conjunto elaborado de instrumentos institucionais para o combate do problema urbano e habitacional (BONDUKI; KOURY, 2010).
A questão da habitação entrou neste documento como um dos principais problemas, orientando o diagnóstico e as propostas formuladas. As resoluções do Seminário já afirmavam pautas que mais tarde seriam levantadas na luta do Movimento Nacional de Reforma Urbana (MNRU) elencando entre os direitos fundamentais do homem, o direito à habitação. Direito este que ao exigir limitações ao direito de propriedade e o uso do solo, se consubstanciaria em uma reforma urbana – conjunto de medidas estatais, visando à justa utilização do solo urbano, à ordenação e ao equipamento das aglomerações urbanas, e ao fornecimento de habitação digna a todas as famílias.
O documento final propunha uma nova organização institucional na crença de que a solução para os problemas urbanos viria da ação de um Estado forte. Assim, deveriam ser operadas alterações necessárias na ordem jurídica e no organograma do executivo federal, com a criação de novos órgãos focados na questão habitacional e na reforma urbana (SILVA, 2003).
Especificamente, propunha-se a criação de um órgão federal, com autonomia financeira para executar a política urbana e habitacional, em substituição à FCP e o CFH (Conselho Federal de Habitação). Deveria ser instituído um Fundo Nacional de Habitação (FNH) que reunisse a arrecadação de tributos já existentes, assim como dos tributos propostos, novos instrumentos para a reforma urbana com especial ênfase à desapropriação, planejamento territorial e habitacional (por meio do Plano Nacional Territorial e do Plano Nacional de
Habitação) e criação de um sistema de informações para o planejamento urbano e habitacional (BONDUKI; KOURY, 2010).
A partir das propostas do documento final, foi elaborado um anteprojeto de lei que propunha a criação de um Banco Nacional de Habitação, de um Plano Nacional de Habitação e um Plano Emergencial para as habitações “subnormais”. O mesmo foi transformado no Projeto de Lei nº 87, de 1963, do Deputado Floriano Paixão, em que constava o Plano Nacional de Habitação (PNH), o Conselho Nacional de Habitação (CNH), o Fundo Nacional de Habitação (FNH), além da reformulação da Fundação da Casa Popular (BONDUKI; KOURY, 2010).
Como aponta Serafim (2013), as bases do ideário da Reforma Urbana surgiram no seio da “intelligenzia revolucionária” nesse período, e apenas depois foram gradualmente incorporadas nas agendas políticas dos movimentos sociais urbanos, em especial os de moradia, de meados da década de 1970 em diante, como é verificado a seguir.
Contudo, com o golpe militar, assim como as demais formulações sobre as reformas de base elaboradas pela sociedade no período anterior, as ideias da reforma urbana foram abortadas pelo novo regime não indo além da propositura. O novo regime implementa apenas a parte que não se choca com sua agenda conservadora: o Banco Nacional de Habitação (BNH) e o Serviço Federal de Habitação e Urbanismo (SERFHAU).