II. DÜNYA SAVAŞI ÖNCESİ GENEL DURUM
2.2. Sovyet-Alman Savaşı Sırasında Türk-Sovyet İlişkiler
2.2.12. Yalta Konferansı (5-11 Şubat 1945)
Enquanto vimos o plano metafísico descer para constituir a situação infernal na modernidade, inclusive situando-o em um pano de fundo histórico, deparamo-nos com personagens que, em certo grau, se elevam para atingir condições de atmosfera trágica. Dentre eles, destaca-se o Padre Maximilian Kolbe, que se molda na figura de Cristo, o herói mártir e trágico por excelência.
O ato inicial de Kolbe já anuncia seu caminho: é a auto-doação ao sacrifício que possibilitará seu martírio e via-crúcis pelos círculos do inferno, gerando o ato incompreensível para os outros personagens, que não tiveram escolha quanto à estada na cela.
Às indagações, o Padre Kolbe anuncia uma força maior que acarreta seu impulso, força que em si traz conceitos cristãos, como “Deus... Amor...” (HILST, 246), e que cresce e resiste a cada instante de dor, a cada tentação que o desvie do caminho que escolheu trilhar.
Como Cristo em sua peregrinação, Maximilian enfrenta as tentações antes feitas àquele pelo demônio e que encarnam, agora, no sádico soldado SS e em seu ajudante Hans. Primeiramente, apresentam uma mulher, a fim de suprimirem seus próprios desejos voyeurísticos93. Depois, oferecem a troca de lugar pelo prisioneiro que fugiu - o número 5.659 - e a coroa de arame farpado, em um irônico e perverso gesto de escárnio, que agride Kolbe e a própria imagem de Cristo94.
93 “SS: /.../ Já é noite, sabiam? E a noite é feita para que mesmo? /.../ Para o quê? (pausa) Para foder,
porcos. (risada alta. Muda o tom de voz para a Mulher) /.../ Não, não, primeiro o nosso amigo de batina. (ri) De batina Hans! O que escolheu a merda, a morte e agora (delicadamente) o amor” (HILST, 258).
94 “SS (aproximando-se de Maximilian, que o encara): Ainda consegue levantar os olhos, Padre
Maximilian? Escute... ainda podemos trocar o 5.659 por você. Quer? (pausa) Não quer? (pausa) Eu já sabia. Bem. (mostra um pacote a Maximilian) Sabe o que é isso, Maximilian? É um presente para você. Vamos, abra, não tenha medo. (puasa)
Lentamente Maximilian começa a desembrulhar o pacote. MAXIMILIAN (ainda desembrulhando o pacote): Para mim? SS: É, para você, você vai gostar.
MAXIMILIAN (acabando de desembrulhar. Vê-se que é uma coroa de arame farpado): Mas... eu não sou digno. Não, eu não sou digno” (IDEM, 296).
As aproximações ainda aparecem em conceitos ditos pelo padre, como “Nós somos feitos à imagem e semelhança d’Aquele (IDEM, 252)”; na crença em uma melhora pós-morte, onde se encontra um lugar de união, pois “/.../ um dia estaremos juntos, todos nós, e nos abraçaremos, muito, muito (IDEM, 266)”; nos estados de delírio, sobre o qual se confunde com deus, ao responder “Quanto me glorificas!” (IDEM, 266) aos gritos do Poeta: “Meu Deus, meu Deus, meu Deus...” (IDEM, 266); e na crença pela palavra, que pode vir como cânticos, em momentos de união coletiva, como alívio pela fruição estética, ao gozarem todos com os poemas do Poeta e pelo estilo discursivo que assume para si: como Cristo, Maximilan fala, muitas vezes, por metáforas e parábolas e insiste para que os outros personagens nomeiem seus temores e relatem dados da memória individual, em procedimentos de expurgação do mal pela palavra, que aludem à psicanálise e à confissão cristã: “MAXIMILIAN: /.../ se nós falarmos... um com o outro... assim... tranquilamente, tudo será mais fácil” (IDEM, 251).
Assim, a Mulher, que até então é forçada a trabalhar para os soldados limpando o que sobra dos corpos exterminados, se confessa e narra a história de sua infância, fazendo com que os procedimentos de fala caminhem para a construção da memória pessoal. Em sua lembrança, a intimidade é recuperada pela narrativa que volta a dar o sentido elevado aos pássaros, não mais caídos e obscuros - características dos opressores -, mas aludidos agora pela figura dos olhos escuros da mãe:
MULHER (como uma confissão): Padre, eu quero dizer que... (com
espanto de si mesma) eu sinto tanta alegria de não estar ali daquele jeito, o senhor entende? Eu consigo sentir tanta alegria... é quase igual... quando eu era criança, a visita para os mortos era um passeio lindo. Eu nunca ficava triste quando visitava os mortos, eu me dizia: eles não sentem mais nada, e eu estou aqui respirando e dentro de mim havia um frescor, eu respirava várias vezes, sempre repetindo: eu estou viva, eu estou viva... e tudo em volta de mim era vida... apesar dos mortos. Eu olhava para o céu e de vez em quando passava um bando de passarinhos e eu me lembro um dia... quando eu era tão pequena... eu fiquei tão contente de estar ali, perto dos mortos, mas viva..., fiquei tão contente de estar viva... eu era tão pequena... sabe o que eu fiz? Eu levantei o meu
vestidinho e comecei a rodar a rodar a rodar, até que minha mãe pensou que algum espírito tinha me possuído, imagine... ela chegou a pensar isso... um espírito.
/.../
E eu continuava a rodar de alegria. E via o céu azul e os olhos da minha mãe, escuros enormes... o céu azul e os olhos escuros... (a Mulher parece
ter se esquecido que está ali. Está contente) Que alegria de estar viva! (Hilst pp. 280-281)
Porém, não podemos nos esquecer de que o Padre Kolbe fala de um lugar regido por símbolos de prisão, por círculos que se intensificam e marcam, inclusive, sua relação com Deus - uma cíclica cadeia alimentar:
MAXIMILAN (tom muito apaixonado. Crescente): O meu Deus é amante, é como um fogo! É como um grande fogo. Eu sou o alimento de Deus.
/.../
MAXIMILIAN (muito veemente): Mas não assim tão fácil, olha, foi preciso que primeiro eu O devorasse para que depois pouco a pouco Ele se alimentasse de mim. Eu também, eu também sou o lobo de Deus. (IDEM, 294).
Até mesmo pela forma dialógica, polifônica, em um mosaico que mistura tipos diferentes de discursos, existe um complexo de opostos que convivem dentro da peça: o sagrado e o mal existem dentro das percepções sobre deus, que se constitui ironicamente idealizado também pelos soldados: “SS: /.../ nós acreditamos em Deus também... O nosso Deus é o Deus dos justos...” (IDEM, 258).
Portanto, ao conviverem opostos dentro de uma mesma imagem, conceitos como arte, justiça, deus, imanência e transcendência são relativizados, como a própria idéia de civilização e progresso que começam a ser discutidos na modernidade e que ecoam questionamentos no teatro que aqui se apresenta.
O próprio Maximilian deve debater-se com seus ideais, a fim de não os perder; por isso, uma nova concepção de deus e de salvação germina e progride perante a condição instaurada:
ESTUDANTE (para Maximilian): Você sabia antes de tudo isso acontecer, quem era o teu Deus?
MAXIMILIAN: Eu O pensava... Cheio de ternura e piedade... e pensava também que o maior mal era a treva... a treva do espírito.
ESTUDANTE: E agora?
MAXIMILIAN: Agora a treva e a luz são uma coisa só (IDEM, 279).
É o sagrado e o mal que convivem e se confundem ao fim. Deus é predador e alimento; por isso, pode haver em Maximilian uma confiança na morte que se instaura: em plano metafísico pode estar localizado um mundo oposto ao presente provocador, que exige até mesmo certa fusão entre fé e lógica, como bem apontam as orações de Kolbe.
MAXIMILIAN (interrompe em grande comoção): Mas depois senti que era preciso que eu não tivesse nenhum conforto, que Deus queria que a minha oração fosse lúcida, clara, que era preciso rezar com os olhos bem abertos, que dentro de mim tudo ficasse nítido, limpo (IDEM, 254).
A idéia de deus como junção de opostos, como ser que cria e ao mesmo tempo abandona – e que o tempo todo aparece grafado alegoricamente com letra maiúscula, inclusive quando simbolizado por pronomes - parece ser exemplar para pensarmos a própria constituição da modernidade, da razão instrumental, da ciência como forma de pensar o mundo, da civilização como progresso. Pois, junto a tais constituições, surge a barbárie. Essa mesma idéia será perseguida ao longo da literatura de Hilda Hilst e em uma obra futura, - Poemas malditos, gozosos e devotos - aparecerá uma epigrafe, de Simone Weil, que tanto contribui para a relação acima descrita: “Pensar Deus é apenas uma certa maneira de pensar o mundo” (HILST, 2009, p. 7).
Dentro das provocações, o Carcereiro assume uma importante função na economia da peça: é ele quem questiona e faz o contraponto das idéias do Padre Kolbe. Sua importância também se dá por relativizar certas polarizações em princípio bem delineadas: como todos os membros do sistema totalitário, este personagem não admite a alteridade e como ser ligado à matéria e à aspereza do ferro, concentra certas baixezas que atingem o nível do discurso; é ele, pois, o único, entre os prisioneiros, a dizer
palavras de baixo calão. O Carcereiro não consegue conceber a impunidade do sistema e de deus, que aparecem como algozes, sádicos e injustos:
CARCEREIRO (para Maximilian. Tom ferido): Olha, toca em mim, toca em você... Você acha que Deus tem alguma coisa a ver com a gente? Com tudo isso que vai apodrecer? E se Ele tem alguma coisa a ver com a gente, Ele não é inocente, Ele sabe. (exaltado) De qualquer jeito ele não é inocente. Perto de nós, muito longe de nós (IDEM, 273).
/.../
CARCEREIRO (exaltado): As aves brincam com a gente como o teu Deus, Maximilain. Além da nossa carne e do nosso sangue, também a nossa pergunta. Para nos intrigar, hein? (IDEM, 276).
/.../
CARECEREIRO: Depois... Ele nos colocou aqui. (pra Maximilian muito
exaltado) Ou você pensa que o teu Deus se ofereceu por nada? Para o seu próprio gozo... para o seu próprio gozo. Um Deus que escolhe para Ele mesmo o martírio, nada é suficiente, você não vê? E para que Ele consiga um grande prazer, a nossa fome e a nossa sede não bastam /.../ (IDEM, 277).
Sua intolerância à alteridade é levada ao limite, o que o faz aproximar-se de procedimentos de tortura e de um discurso que também ataca por zoomorfização, como antes fizeram os SS. Não ao acaso, sua ira se projeta na Mulher, personagem que traz inclusive a alteridade de gênero:
CARCEREIRO (segurando as mãos da Mulher pelos pulsos. Primeiro
examina-as, depois obriga a Mulher a acariciar-se, no rosto, nos cabelos. A Mulher tem as mãos rígidas nesse momento e continua dizendo: “Não, não faz assim! Não, não, não!”): Assim, assim, assim, olha como nem você agüenta o teu próprio corpo, como você tem nojo delas, das porcas, da porca da tua mão. (mostra as mãos da Mulher para
ela mesma) Olha, vê se elas são iguais a todas as mãos. (a Mulher desvia
o rosto, mas o Carcereiro num gesto rapidíssimo segura os dois pulsos da Mulher com uma única mão, obrigando-a a olhar. Cospe nas mãos da Mulher) São iguais, são iguais? (IDEM, 281-282).
Portanto, ao se aproximar a vítima dos algozes, o Carcereiro, com procedimentos parecidos aos dos SS, ocorre uma denuncia no texto de Hilda Hilst: não havendo uma polarização totalmente definida entre bons e maus, a ação do torturador é ação humana, o
que sujeita todos nós a cometê-la. A arte deve servir como alerta, como motivo para não repetirmos os mesmos erros: ela deve proporcionar uma ética humanizadora.