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Potsdam Konferansı Sonrası Sovyetler Birliği İle Diplomatik Savaş

II. DÜNYA SAVAŞI ÖNCESİ GENEL DURUM

3.1. İkinci Dünya Savaşı Sonrası Sovyetler Birliği’nin Türkiye’yi Doğrudan

3.1.2. Potsdam Konferansı Sonrası Sovyetler Birliği İle Diplomatik Savaş

CENÁRIO

Sala com estantes vazias. Piso de mármore branco e preto igual a um tabuleiro de xadrez. Estátua de Jesus Cristo de dois metros de altura. De costas para o público. Mesa de xadrez com duas cadeiras negras, altas. No lado direito e esquerdo ao fundo do palco uma “janela-porta” fechada e dando para uma sacada. Porta à direita. Porta à esquerda. No lado direito do palco, e bem à frente, um grande pássaro, ou melhor, um esqueleto de um grande pássaro feito de armações que dêem a impressão de que o pássaro é construído em ferro. Sobre a cabeça do pássaro uma coroa de aspecto burlesco. O rabo do pássaro é feito de plumas ou penas de material dourado. O pássaro deve ter aspecto agressivo (garras enormes, bico acentuado). Ao lado do pássaro, caídas no piso, duas asas (sem penas, só armação). O palco deve estar escuro. Apenas uma luz sinistra sobre o pássaro. Quando começar a peça, a sala, onde estão o

Papa, o cardeal e o Monsenhor, está em semi-obscuridade. O Papa e o Cardeal estão sentados nas cadeiras negras, jogando xadrez. O Monsenhor está tentando, com muito esforço, colocar as asas no pássaro, coisa aliás que não conseguirá. Nas estantes de altura superior às demais estão, do lado direito, os dois Anjos, isto é, dois jovens vestindo calça e camisa azul clarinha e asas diminutas, e, do lado esquerdo, o Demônio, vestindo calça e pulôver preto. O Demônio possui um rabo discreto e elegante. As roupas de todos devem ter aspecto de uso constante. Luz na cena de cima (HILST, 2008, p. 435-436).

Após vermos a fantasmagórica, sinistra e agressiva imagem do pássaro sem asas, inicia-se o primeiro diálogo, simultaneamente às ações do clericato. Trata-se da conversa entre os seres fantásticos, feita em sua maioria por perguntas dos Anjos ao Demônio, em um nível de palco superior e em oposição à simbolização da baixeza do esqueleto de metal.

A cena introduz a situação caótica e limite em que se encontra o mundo. Os seres sobrenaturais aludem a um estado de coisas onde tudo parece devastado e a humanidade encontra-se esvaziada de sentidos intelectuais e espirituais, vivenciando apenas os desejos corpóreos, junto à saciedade da fome, empanturrando-se em imagens escatológicas que anunciam a finitude dos tempos: os discursos faliram, as guerras silenciaram, a política se acovardou dos conflitos e as palavras já não expressam mais. Anuncia-se, portanto, um estado distópico, apocalíptico e massificador: “DEMÔNIO: Todos unidos. Uma só língua. Aliás, /.../ um só pensamento” (HILST, p. 438).

Em meio à apresentação, o espectador-leitor tem certa medida de temporalidade, pois personagens nos induzem a alguma percepção da progressão histórica, lendo e comentando trechos de livros que retiram das estantes. Começam com referências às teorias sobre o liberalismo e os sistemas de concorrência para passarem - a partir da frase chave do Manifesto do partido comunista, bordão da Revolução russa de 1917, e suas paródias - pela ascensão do comunismo, seus embates com a direita extremista, e seu fracasso com as ditaduras e os estados totalitários também de esquerda:

ANJO 1 (consultando um livro): Um disse: “Proletários de todo mundo, uni-vos”.

ANJO 2 (consultando um livro): Outros disseram: “Proprietários de todo mundo, uni-vos”.

ANJO 1: Aí foi aquele negócio horrível. (virando as folhas do livro

rapidamente)

DEMÔNIO: Horrível. (virando as folhas de um livro rapidamente) ANJO 1 (virando as folhas rapidamente): Horrível. (parando numa

folha) E de repente um outro achou que seria mesmo eficiente transformar todo mundo em proletário.

/.../

ANJO 2 (folheando o livro): Está aqui. Disseram: “Por que não transformamos todos em proprietários eficientes?” (HILST, p. 440).

Continuam com anúncios pretéritos de outras intervenções demoníacas aos rumos humanos, quando aquele agiu para que o mundo não chegasse ao fim, e discutindo momentos históricos, ilustram sua erudição enciclopédica, muitas vezes banalizada, dando-se ao luxo de interromperem as discussões para resolverem problemas pessoais, como o uso da asa do Anjo 2 pelo Demônio, que parece desinteressar-se pela propriedade privada, e o detalhe das árvores em construções de casas, talvez por partidos socialistas:

ANJO 2 (consultando o livro): Mas nós estávamos onde? Ah, sim... Ficaram todos proprietários. Fizeram casinhas para todos.

ANJO 1: Todas iguais.

ANJO 2 (consultando o livro): Com uma árvore.

DEMÔNIO (consultando um livro): Aí tem esse detalhe, é? Aqui não tem.

ANJO 2: Sim, sim, (lendo) uma árvore no jardim de cada casa. ANJO 1: A mesma árvore?

ANJO 2 (lendo): Na América do Sul... bananeiras, mangueiras... Na América do Nor...

ANJO 1 (interrompendo): Mangueira leva anos pra crescer. ANJO 2: Bem, mas cresceram.

DEMÔNIO: Mas isso não importa nada, por favor. Enfim, ficaram à sombra. (IDEM, 441-442).

Fora isso, resta o tédio dos anjos, que jamais provaram o gozo e os prazeres dos homens107, fechando-se e despedindo-se em estados de certa ingenuidade infantil108 e

107“ ANJO 2 (para o Demônio): Escute, e aqueles lá na praça, hein?

melancólicos109 - “ANJO 2 (com melancolia): Não sabemos o que fazer. (pausa) Vamos meditar” (p. 445). Assim, não podem mais realizar suas funções angelicais e, juntos aos seus retalhos de história, retirados de tantos livros e prateleiras, prendem-se ao passado. “A melancolia os coloca em situação de distanciamento a seu mundo, pois o melancólico vive um sentimento de estranhamento” (MATOS, 1989, p. 71).

Configura-se a imagem do Anjo da história benjaminiano, com

/.../ Seus olhos /.../ escancarados, sua boca dilatada, suas asas abertas. O anjo da história deve ter esse aspecto. Seu rosto está dirigido para o passado. Onde nós vemos uma cadeia de acontecimentos, ele vê uma catástrofe única, que acumula incansavelmente ruína sobre ruína e as dispersa a nossos pés. Ele gostaria de deter-se para acordar os mortos e juntar os fragmentos. Mas uma tempestade sopra do paraíso e prende-se em suas asas com tanta força que ele não pode mais fechá-las. Essa tempestade o impele irresistivelmente para o futuro, ao qual ele vira as costas, enquanto o amontoado de ruínas cresce até o céu. Essa tempestade é o que chamamos progresso (BENJAMIN, 1994, p. 226).

É com esta imagem estampada e cravada nos profundos da carne que Hilda Hilst, consciência autoral, organiza a matéria de seu texto, e o Demônio desce para operar suas peças - quinquilharias do mundo manobradas pelo anjo decaído. É Lúcifer mais uma vez quem desce aos homens para projetar neles sua luz e intervir nos rumos mundanos.