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II. DÜNYA SAVAŞI ÖNCESİ GENEL DURUM

2.2. Sovyet-Alman Savaşı Sırasında Türk-Sovyet İlişkiler

2.2.4. Adana Görüşmelerine Sovyetler Birliğinin Tepkisi

A linguagem do discurso religioso e pedagógico, da esquerda ortodoxa e, sobretudo, das ciências exatas é posta à prova e parodiada por Hilda Hilst com o uso da técnica da construção mosaica em bricolagem.

Assim, todas as linguagens passivas de repetições, de esvaziamento e absorvidas como regras já definidas, são implodidas pela autora, que as detona internamente ao deslocá-las de seus lugares de origem, fazendo com que mesmo os conceitos da Física passem a significar outras coisas, a assumir significados plurais.

Há, por parte da autora, ao contrário dos oficiais do novo sistema, uma busca do conhecimento que não se quer isolado e administrado puramente pela ciência, pela razão e pela técnica. O conhecimento deve ser híbrido e comungado, assim como o teatro aqui

68 O mesmo acontece na página 352, principalmente se atentarmos para a passagem em que se menciona

“audácia e precisão”, considerando a fala como uma possível alegoria ao teatro e este como construção de imagem:

VOZ DO ESCUDEIRO-MOR: /.../ E agora um pequeno esclarecimento para lhes facilitar a mesma tarefa: a maior parte das decisões que tomamos, a maioria das informações que recebemos sobre o mundo, penetram através dos olhos. No cérebro humano, a área chamada córtex visual, que recebe os sinais do olho, é maior que a de todos outros sentidos juntos. O olho, seres do Novo Sistema, é uma caixa preta que usamos com audácia e precisão. Mas num quarto escuro, o olho se torna inútil. O olho depende de sinais luminosos. E o sinal luminoso, o grande sinal solar do nosso tempo, é o Novo Sistema. (HILST, 352)

apresentado, construído de forma aberta aos espectadores pela utilização de várias linguagens re-significadas que terão que ser interpretadas para um melhor entendimento, o que não permite posições passivas do público (ou leitores).

A própria idéia de um conhecimento que pretende a comunicação com outras áreas já se fazia presente em Niels Bohr - um dos físicos citados por Hilda Hilst e utilizado de forma perversa pelo novo sistema que faz, de suas descobertas sobre Física atômica, analogias que deformam os sujeitos. Como uma bomba atômica, o novo sistema se mostra reverso às luzes da ciência.

Com isso, é importante lembrarmos-nos de Niels Bohr humanista, presente na voz autoral, ao reconhecermos no cientista sua crença na verdade poética69, na autocrítica científica70 e na comunhão dos saberes71, pois:

/.../ mais como filósofo do que como físico, elucidou os mistérios do átomo e do núcleo; entendeu, desvendou e dominou os segredos da Mecânica Quântica; criou uma forma própria de trabalhar com os alunos, mantendo um humor formidável alimentado pela crença de que só um diálogo franco e genuíno propicia o clima para o progresso (ABDALA, 2002: 169).

É comum encontrarmos, nos próprios títulos dos artigos de Niels Bohr, a crença na comunhão dos saberes. São exemplos: A unidade do conhecimento; A ciência física e o problema da vida; e, entre outros, Filosofia natural e culturas humanas (discurso

69 “/.../ O enriquecimento que a arte pode nos trazer origina-se em seu poder de nos relembrar harmonias

que ficam fora do alcance da análise sistemática. Pode-se dizer que a arte literária, a arte pictórica e a arte musical compõem uma seqüência de modos de expressão em que a renúncia cada vez mais ampla à definição, característica da comunicação humana, dá à fantasia uma liberdade maior de manifestação. Na poesia, em particular, esse propósito é alcançado pela justaposição de palavras relacionadas com situações observacionais mutáveis, com isso unindo emocionalmente múltiplos aspectos do conhecimento humano.” (BOHR, 2008: 101)

70 “A exploração do mundo dos átomos feita neste século praticamente não tem paralelos na história da

ciência, no que concerne ao progresso do conhecimento e ao domínio da natureza de que nós mesmos somos parte. Entretanto, cada ampliação do conhecimento e das habilidades conduz a uma responsabilidade maior; e a realização da promessa de riqueza e de eliminação dos novos perigos da era atômica confronta toda a nossa civilização com um grave desafio, que só pode ser enfrentado mediante a cooperação de todos os povos, fundamentada numa compreensão mútua da confraternidade humana /.../” (IDEM, p. 105).

71 “/.../ Podemos dizer que as diferentes culturas humanas são complementares entre si.” (IDEM, p. 39).

“/.../ Na verdade, dificilmente se poderia separar o problema da unidade do conhecimento e o esforço pela compreensão universal, como meio de elevar a cultura humana.” (IDEM, p. 104).

pronunciado no Congresso Internacional de Ciências Antropológicas e Etnológicas), onde a comunhão se esclarece:

Por mais inesperada que possa afigurar-se essa ocorrência no campo da física, estou certo de que muitos de vocês terão reconhecido a estreita analogia entre a situação referente à análise dos fenômenos atômicos, que descrevi, e alguns aspectos característicos do problema da observação da psicologia humana (BOHR, op. cit., p. 34).

Portanto, há uma dialética entre forma e conteúdo que se complementam para a construção de O novo sistema, fazendo toda crítica do plano temático voltar-se como forma ao transformar e re-significar as linguagens esvaziadas, elevando-as ao nível estético; assim, deslocadas ao plano literário, podem ser lidas como alegorias.

O caráter alegórico da peça pode ser lido ou entendido em três níveis: o do sistema que utiliza as linguagens fechadas para manipular os sujeitos e, sobretudo, a Física para constituir os novos seres a partir de analogias; o dos personagens que percebem as alegorias do sistema - como é o caso da Mãe - para utilizar os procedimentos como resistência ao próprio sistema; e o do público (leitor) que pode ler/ver a peça como símbolo da tirania; da ditadura militar com suas perversas técnicas de tortura e massacre serial; da cega crença na razão instrumental, na ciência e na técnica; de certa esquerda radical, como muitas vezes foi lido 1984; e de todo outro tipo de poder totalitário. Com isso se amplia o nível alegórico da peça, pois o símbolo é revigorado pelas possibilidades de significados múltiplos, sobretudo ao levarmos em conta a reutilização e a revalorização da linguagem, o que faz com que o significante atinja outros significados.

No primeiro nível, o Escudeiro-Mor e seu novo sistema, através dos conceitos da Física e de todas as outras linguagens que se fecham à interpretação, compõem todo um discurso que serve à ideologia do Estado totalitário, fazendo dos conceitos científicos, analogias diretas das novas regras sociais, preocupadas com a alienação dos (a)sujeit(ad)os que podem contar somente com a identificação da publicidade estatal massificadora. Com isso, “Entendida apenas como representação concreta e convencional de uma idéia abstrata, a alegoria tem um caráter autoritário que inibe avanços” (KOTHE, 1986: 18) para a formação de uma humanidade íntegra. As novas regras sociais, como todas as outras normas, passam a ser uma convenção e “Enquanto convenção, a alegoria

tende a ser a linguagem da repressão”(IDEM, p. 67), pois todos os discursos, imagens e conceitos devem ser entendidos como integração coletiva ao novo sistema. Sendo assim, a alegoria “tem sido utilizada para que os principais chavões da ideologia da classe dominante sejam reiterados como logotipos de amplo espectro comunicativo” (IDEM, p. 67), principalmente por via da educação, mais parecida à domesticação e hipnose dos jovens discentes, capaz de exterminar todos os outros que tentam caminhar fora de seus limites.

O segundo nível de leitura alegórica fica por conta de alguns personagens que buscam interpretações e que não se satisfazem com a pura repetição de conceitos. São personagens que, por uma ampla conscientização, percebem a ideologia alienante do Estado, o que os leva a tentativas de alerta e resistência, principalmente pela via do amor, da memória e dos afetos como quebra da linguagem puramente racional. O caso mais explícito, como já anunciado, é a Mãe com seu ágil poder interpretativo e o Menino, que pelo percurso feito durante a peça, se dá conta de sua realidade:

/.../ À medida que a idéia não é, porém, apenas abstrata e a interpretação precisa avançar suas hipóteses além do objeto para poder chegar até ele, a alegoria introduz uma questão inovadora, assim como se mostra um rico instrumento de expressão. (IDEM, p. 18)

O terceiro nível pode ser alcançado pelo público (leitor), ao atribuir sentidos às cenas da peça, realizando “uma leitura alegórica” e “uma alegorização de todo o texto (ou melhor, a uma descoberta de sua natureza alegórica mediante a leitura crítica, mediante a “leitura alegórica”)” (KOTHE, p. 18). É neste nível inclusive que se dá a metalinguagem, tão importante para a abertura questionadora da peça, inclusive como forma de expressão, pois o teatro ao se mostrar ficção, mostra-se como alegoria, como alteridade perante uma realidade histórica instituída e, assim, “enquanto alteridade, tende a ser a linguagem da subversão (da mudança da ‘ordem’ estatuída)”. (IDEM, p. 67).

Por esses motivos de alerta e crítica ao mundo que se instaura (dentro e além do palco) - refletido na composição de sua estrutura filosófica, política e social – a peça O novo sistema marca-se como um teatro político, pautado e formalizado por certa estrutura material. Há, portanto, uma resistência autoral que se realiza esteticamente pelas problematizações temáticas que se respaldam na construção formal, sobretudo quando

esta se abre para a autocrítica, o que lhe dá certo caráter de atualidade, por não se fechar em uma forma já instituída ou que servisse apenas como veículo da ideologia autoral.

Muito do que é proposto pela peça é sintetizado no último poema, espécie de oração e súplica (de feição épica) do e ao homem moderno:

/.../ em seguida todo o elenco, não mais como personagens mas como atores, vai surgindo no palco.

TODOS (dirigindo-se ao público):

Nós temos medo, sim. Nós temos muito medo. Esse nosso tempo de feridas abertas

Esse Velho Sistema em que vivemos (aponta para o público)

Tu, esse homem

Que deseja agora ser o centro de todo o universo, (aponta para o público)

Tu, esse homem que usa de si mesmo Com infinita torpeza,

Tu, que estás aí, e que nos viste

Pensa: o que fizemos não foi advertência? Nós temos medo sim.

Nós temos medo de que o Velho Sistema, este em que vivemos,

Pelas chagas abertas, pela treva Nos atire

Para um Novo Sistema de igual vileza. Ah! Nosso tempo de fúria!

Ah! Nosso tempo de treva!

(abrindo os braços para o público) Dá-me a tua mão. Dá-me a tua mão. (o elenco de mãos dadas)

Que os nossos homens se dêem as mãos. Que a poesia, a filosofia e a ciência Através de uma lúcida alquimia Nos preparem uma transmutação: Asa de amor

Asa de esperança

Asa de espanto (pequena pausa) Do conhecimento72.

72 Mais uma vez o recurso de bricolagem aparece: os dois últimos versos antes foram apenas um, quando

parte do sétimo poema de “Corpo de luz”, parte do livro Pequenos funerais cantantes ao poeta Carlos

Maria de Araújo, de 1967 e publicado pela editora Globo em Exercício. Segue o poema: “Sabia de outro tempo? O universo/ Agora se parece a um grande pensamento./ Tu cantaste o espanto, asa de silêncio./ Eu canto o espírito/ Que penetrou no reino da material:/ Asa de espanto do conhecimento”. (HILST, 2002, p. 25)

Novamente um poema didático, porém oposto ao outro, aquele anunciado pela Menina. Este não possui estrutura tão racionalizada e sua mensagem é muito mais rápida e direta, a didática serve aqui à crítica e não à manipulação.

A voz autoral projeta-se diretamente, assumindo o distanciamento dos atores ao falar diretamente com o público, quebrando a tirania do poder totalitário ao buscar um conhecimento que se faz livre e comungado, capaz de transmutar73 os seres humanos para uma realidade mais integrada e por isso mais justa. Há uma possibilidade: o afeto, sobretudo o amor, se torna capaz, talvez utopicamente, de conduzir os homens a uma descoberta que os religue.

Há, portanto, uma religião sensorial capaz de quebrar as clausuras do espírito:

Amor, o que renasce.

Voltando sempre. Docilmente sábio Porque na suavidade nos convence

A perdoar e esperar. Em vida. In pace (Quase Bucólicas, Hilda Hilst)74.

73 É interessante notar que na década de 1980 surge um físico comprometido com questões políticas,

sociais, filosóficas e ecológicas que traduz em teoria o que Hilda Hilst parece propor com esta peça; trata- se de Fritjof Capra com suas obras O tao da física e Ponto de mutação. Capra, através das teorias da Física nuclear, percebe um grande ponto falho na forma como se faz ciência - seja ela exata, biológica, ou humana - e nos moldes de estruturação social.

Para o físico, nosso sistema patriarcal de administrar e pensar o mundo enxerga-o por sistemas isolados, o que leva à fragmentação do saber e até mesmo das relações que estabelecemos para nossa convivência.

O autor de O ponto de mutação chega a dizer que a única possibilidade para que se abra um caminho para a nossa existência é uma transmutação capaz de tornar o pensamento mais comungado e conectado com todos os outros ramos da sabedoria; assim, o mundo passaria a ser pensado por uma visada de teor feminino, capaz de percebê-lo em sua totalidade.

/.../ Estas páginas buscam sugerir que a Física moderna ultrapassa a tecnologia, que o caminho – ou Tao – da Física pode ser um caminho com um coração, um caminho que nos conduza ao conhecimento espiritual e à auto-realização. (CAPRA, 1986: 27)

3. QUANDO DESCE O INFERNO – Leitura de AS AVES DA NOITE