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II. DÜNYA SAVAŞI ÖNCESİ GENEL DURUM

2.1. Almanya’nın Sovyetler Birliği’ne Saldırısına Kadar Türk-Sovyet İlişkiler

2.1.2. İkinci Dünya Savaşı Başlangıcında Türk-Sovyet İlişkileri

2.1.2.3. Sovyetler Birliği’nin Mihver Devletleri ile Türkiye Üzerinde

CENÁRIO

Uma praça. Chão com aparência de pedra. Banco de pedra, sem encosto. No fundo, ao centro do palco há um enorme triângulo eqüilátero que pode ser feito de material leve, imitando pedra. Em cada um dos seus lados há a seguinte frase impressa em letras pretas: ESTUDE FÍSICA. Em frente ao triângulo, lateralmente, dois postes. Em cada poste há um homem amarrado (dois bonecos), de costas para o público. O triângulo tem um movimento lento, giratório. Deve manter esse movimento durante toda a peça. O aspecto geral da peça é de extrema gravidade. (HILST, 2008: 303)

A paisagem é monotonal, monótona, há apenas um triângulo eqüilátero que se mexe com movimento lento e circular, não ocasionando avanço e progressão em sua trajetória cíclica. A sensação é de prisão, de uma totalidade38 já representada pela única substância que sustenta a arquitetura do cenário39: a pedra é a matéria fundamental de construção; no plano baixo encontra-se a solidez que se iguala aos homens pendurados no alto dos postes como advertência - apenas corpos ausentados de vida, bonecos: elementos de morte por um lado e de meta-teatro por outro, linguagem que auxiliará na dimensão de

38 “A visão de mundo, transformada pelas descobertas da Física moderna, baseava-se no modelo

mecanicista newtoniano do universo. Esse modelo constituía a estrutura sólida da Física clássica. Tratava- se, na verdade, de uma fundação tão importante quanto uma rocha poderosa sobre a qual se apoiava toda a ciência”. (CAPRA, 1986.p: 48)

39 O mesmo símbolo aparece no cenário de A empresa, outra peça de advertência, em cuja trama a técnica é

levada à potência máxima, conduzindo à construção de máquinas que consomem luz e pensam no lugar dos homens. O triângulo envolto pelo círculo, além de ser parte constituinte do cenário, é também desenho feito por América, uma jovem heroína, que o faz com a intenção de criar um teorema que explique Deus: seria uma figura perfeita para representar a totalidade:

AMÉRICA (solene, grave, mas sem qualquer pedantismo): E se a mão não puder, hei de pensar o Todo sem o traço (aqui a figura perfeita deve ser projetada no quadro, por meio de um slide). E se olhar a um tempo se fizer sol e compasso... Esfera (contorna o círculo) e asa... (América aponta os lados laterais do triângulo) Uma... (América contorna novamente a esfera) Tríplice... (América contorna os três lados do triângulo) e infinita. (pausa). (HILST, 2008: 83)

A peça ainda traz o símbolo da pedra como representação da matéria que afasta o homem da terra, que desfaz sua ligação, abortando sua naturalidade e sua totalização com o universo. América, junto ao Menino, é a heroína que vê em profundidade e se espanta com o mundo, portanto, a heroína que não normaliza o absurdo: “AMÉRICA (com humildade, mas firme): Senhora, o meu olhar pode ver o mais fundo das coisas”. (HILST, 2008: 81)

advertência didática existente na peça40. Os bonecos, que sempre aparecem em pares, são primeiro vestidos de branco, talvez como representação direta dos cientistas que não contribuíram para as novidades sociais, depois como padre e bispo e, por último, representam os pais do Menino. As antigas hierarquias, que sustentaram por longa data a sociedade, ao menos no mundo ocidental, agora agonizam: certa parte da ciência, a família, núcleo da antiga sociedade, e o cristianismo, uma das mais influentes religiões e formas de pensar o mundo e suas relações. Os corpos dos seres não assimilados são vistos como resquícios naturais e animalescos, como pragas, e são mortos em série. O massacre é também produto de reprodução e aniquila “as asas” dos sujeitos, seus desejos, liberdades e possibilidades de evolução. Os bonecos substituem atores em ação e não encontram mãos de atores-manipuladores para ganharem vida, as únicas mãos que se aproximam são de Escudeiros, mas nunca para a vitalidade do objeto, eles apenas os trocam por outros bonecos. Já não servem neste caso para a função de títeres, são corpos inutilizados, gerados pela reprodutibilidade, pelo extermínio em série, exposto como representação dos horrores de um mundo totalmente administrado. São as sombras, os assombros, os fantasmas da escuridão: o outro lado das luzes esclarecedoras.

O cenário, extremamente hostil, aniquila qualquer possibilidade de contato do homem consigo mesmo ou com o próprio meio. Ele é a técnica potencializada, é o extremo dos efeitos alienantes das grandes cidades41, aqui ultrapassadas. Não resta nada

40Esse caráter de advertência aparece nos textos críticos a respeito da peça:

/.../ A peça, de forte cunho didático, se propõe como advertência: o Novo Sistema racionalista é o resultado da miséria e das contradições do Velho Sistema irracional que não teria oferecido outra saída. (ROSENFELD, 1969) /.../ Hilda Hilst retoma, com a intensidade que lhe é peculiar, o que talvez seja o interesse central de todo o seu teatro: o alerta para o risco de desumanização do homem pela perda de liberdade do espírito. (VINCENZO, 1992: 64)

/.../ a autora denuncia o uso desumano que pode ser feito da ciência e da técnica, num modelo totalitário que, por analogia com a ciência, não conhece o amor, identificando só reacções como a atracção e a repulsa e não sentimentos, conjuntura que favorecerá a eliminação dos mais velhos e daqueles que não conseguem adaptar-se /.../ (TEIXEIRO, 2009: 43)

41 “/…/ Cassirer define bem o universo do primitivo quando diz: ‘O homem já não pode confrontar

imediatamente a realidade, ele já não pode vê-la, por assim dizer, face a face. A realidade física parece regredir à medida que avança a atividade simbólica do homem. Em vez de tratar as coisas diretamente, o homem está, num certo sentido, conversando consigo mesmo’; a mitologia arcaica constituía esse meio

de natural, de humano e orgânico, não há ao menos dejetos corporais, tudo está limpo de humanidade, ficam apenas a opacidade, a frieza e a pedra monumental.

Surgem os seres que convivem neste novo sistema: personagens simbólicos que representam forças sociais, ora vindas do velho sistema, como Pai, Mãe, Menino, Menina, Padre, Bispo, Físicos; ora assumindo novas nomenclaturas e papéis; é o caso dos Escudeiros - agentes do novo Estado.

É interessante notar que o conceito de escudeiro remete sempre à idéia de um trabalhador privado, de um criado particular, e não de um funcionário público e estatal. Porém, o sistema vai se formalizando pelas regras totalitárias e autoritárias do Escudeiro- Mor - o mais alto grau da hierarquia -, tornando realizável a confusão em assumir posições de escudeiros, de algo particular, para o Estado: afinal, este se confunde à ideologia do ditador42.

Mesmo no progresso de uma civilização cientificista e extremamente técnica, as confusões entre público e privado, entre pessoal e coletivo não cessam - a estrutura jamais desaparece na constituição da sociedade brasileira que, junto à sua modernização, ou ao seu progresso, arrasta o mandonismo, as leis individuais para assuntos públicos, a política feita para bens próprios, o progresso que não se divide em justas porções: a mudança sem superação.

A totalização vai se forjando também na linguagem utilizada para modificar alguns conceitos da Física e para empregar novos nomes para as posições e cargos. A memória deve ser apagada a fim de amputar as subjetividades. As lembranças do passado devem ser extintas para que se cumpra o Estado totalizador, atento em perceber os seres como coletividade e massa unicamente direcionada ao seu funcionamento, sem possibilidade de os homens voltarem a si próprios.

simbólico que se acrescentava a physis e através do qual o homem a apreendia. É esse meio que a técnica está rompendo, mas para substituí-lo por outro, mais artificial, o dos produtos de sua indústria. Entre as coisas e os homens, um novo corpo intermediário se substitui ao antigo, composto de cidades de cimento e ferro, de usinas fechadas, de máquinas de viver, de comer, de dormir, de fazer amor. As fumaças escondem o céu, o ar e a água se emporcalham com nossos dejetos, os postes elétricos tomam o lugar de árvores vivas, as paisagens já não passam de cartazes de propaganda, as lâmpadas de neon apagaram as estrelas, e nós nos agitamos numa floresta de correias de transmissão, engrenagens giratórias, bielas e bateestacas.” (BASTIDE, 2006: 104 e 105)

42 “/…/ A sociedade, em sua atual estrutura – e, provavelmente, há milênios – não se funda, como se afirma

ideologicamente desde Aristóteles, no encanto e na atração, senão na perseguição do interesse próprio, em detrimento do interesse dos demais.” (ADORNO, 1995: 119)

O poder que se quer único trabalha a favor da extinção da memória, seja ela coletiva ou pessoal, pois a novidade é que se instaura como base do sistema por Hilst apresentado a fim de anular as possibilidades de reconciliação do sujeito consigo mesmo, com a natureza e com os outros seres; com a intenção também de manipular as verdades, apagando qualquer outra possibilidade de se fazer História: resta apenas a “verdade” do partido, do novo Estado.

A ficção literária, muitas vezes, aproveita desse dado como conteúdo e forma, a exemplo de 1984. No romance, o Estado - através do “socing”, seu sistema político - constrói a “novafala”, diminuindo, junto à memória, as possibilidades de expressão do sujeito que vê reduzido seu vocabulário com a intenção “de conferir expressão exata” à linguagem, impossibilitando o seu uso para “propósitos literários ou em discussões políticas e filosóficas”43.

Em O novo sistema, há uma construção paródica44 da linguagem, feita por um processo de bricolagem. Como vimos, conceitos de A evolução da física já foram recortados de seu lugar de origem para serem colados na boca de personagens teatrais; o mesmo acontece com o discurso religioso, principalmente pela figura central de Cristo, cujo discurso é assumido agora pela fala e pelas ações do algoz:

ESCUDEIRO 3: /.../ O Escudeiro-Mor achou a resposta muito engraçada e morrendo de rir respondeu: “Em verdade, só isso é que fareis daqui por diante, até a vossa morte” /.../ (HILST, 3400).

O que nos chama a atenção e reforça a paródia dos discursos de Cristo é a expressão “Em verdade”, se comparada a “Em verdade, em verdade, vos digo” e a utilização da segunda pessoa do plural - “vos” -, não utilizada em nenhuma outra fala até então.

Dentro ainda das modalidades do discurso religioso, encontramos na peça algumas parábolas - a de Lázaro parece ser o caso mais explícito - e a utilização de símbolos para reforçar as sensações: no próprio cenário há o triangulo enfatizando a comanda “estude física” e ironizando o número sagrado três, que alude à totalidade do

43 ORWELL, George. Os princípios da novafala. In: 1984. São Paulo: Companhia das letras, 2009. 44 O nível paródico da peça é daquele que desloca o discurso de seu lugar de origem.

deus cristão; assim como aparecem os bonecos pendurados na mesma prática litúrgica de expor as imagens de santos, sobretudo a do Cristo chagado e crucificado, como reforço doutrinário aos sujeitos, que as contemplam para sentirem, pela força estética, o seu rebaixamento perante a instituição – é afinal o horror mobilizado como estratégia de convencimento e adesão.

Um exemplo usado em A evolução da física transforma-se em poema para o novo Estado que o faz com as mesmas intenções de uso das parábolas: converter o receptor para certas práticas moralizantes, por meio de uma narração carregada de ressonâncias pedagógicas. Assim:

/.../ Todos já vimos as ondas que se espalham em círculos cada vez maiores quando uma pedra é jogada em uma poça de água. O movimento da onda é muito diferente do das partículas da água. Estas se movem simplesmente para cima e para baixo. O movimento da onda, observado, é o de um estado da matéria e não da matéria em si. Uma rolha flutuando sobre a onda mostra isso claramente, pois se move para cima e para baixo, em uma imitação do movimento real da água, em vez de ser levada pela onda. (EINSTEIN e INFELD, 87)

É transformado em:

Nós devemos ser iguais à pedra Que no grande mar do Novo Sistema Mergulha.

Nós devemos ser iguais à pedra

E não como a cortiça que flutua. (HILST, op. cit., pp. 342 e 343)

Podemos encontrar até mesmo uma espécie de parábola na própria A evolução da física, recortada e colada na voz do Escudeiro-Mor com pequenas modificações a seu favor:

VOZ DO ESCUDEIRO-MOR: A coletividade deve abrir a página 208 do livro A evolução da física, de Albert Einstein e Leopold Infeld. Vejamos: Consideramos uma muralha construída ao longo da orla marítima. As ondas do mar castigam continuamente a muralha, desgastam um pouco de sua superfície, recuam e deixam o caminho livre para as que vêm a seguir. A massa da muralha diminui e podemos perguntar o quanto é carreado (sic.), digamos em um ano. Mas

imaginemos agora um processo diferente. (voz violenta) A massa da muralha será diminuída e bem poderíamos imaginar que a mesma redução de massa seja conseguida nos dois casos. Mas poderíamos, e isso é importante, pela aparência da muralha (voz violenta) determinar se esteve agindo a onda continua do mar, ou chuva descontínua de balas. Será útil à compreensão dos fenômenos que estamos prestes a descrever, termos em mente a diferença entre as ondas do mar e a chuva descontínua de balas. A coletividade compreendeu? (HILST, op. cit., pp. 305 e 306).45

Outro discurso percebido por Hilda Hilst como clichê é o da esquerda radical, que, por não considerar o homem como indivíduo, também se transforma em ideologia rumo à coletividade massificadora e ao poder totalitário e ditatorial, como aconteceu na Rússia com Stalin na mesma época em que o totalitarismo de direita se instaurava na Itália, Alemanha, Espanha e Portugal.

Hilda Hilst se coloca em uma posição ainda mais marginal frente àquela encarnada programaticamente pelo Comunismo – em meados da década de 1960 no Brasil -, ponta de lança do pensamento intelectual que pretendia uma nova reestruturação social, oposta à ditadura instaurada e legalizada. Com isso, a posição da autora se assemelha mais uma vez à de George Orwell, cuja política “não apenas era de esquerda, mas à esquerda da esquerda.46” (PYNCHON, 2009: 395).

45 Lê-se na edição brasileira de A evolução da física, de 1962, na mesma página 208:

Consideremos uma muralha construída ao longo da orla marítima. As ondas do mar castigam continuamente a muralha, desgastam um pouco de sua superfície, recuam e deixam o caminho livre para as que vêm a seguir. A massa da muralha diminui e podemos perguntar quanto é carreado em, digamos, um ano. Mas imaginemos agora um processo diferente. Queremos diminuir a massa da muralha da mesma quantidade que antes, porém de modo diferente. Atiramos contra a muralha, rachando-a nos pontos em que as balas a atingem. A massa da muralha será diminuída e bem podemos imaginar que a mesma redução de massa seja conseguida nos dois casos. Mas poderíamos, pela aparência da muralha, determinar se esteve agindo a onda contínua de balas. Será útil à compreensão dos fenômenos que estamos prestes a descrever, termos em mente a diferença entre as ondas do mar e a chuva de balas. (EINSTEIN e INFELD, op. cit., p. 208)

46 “Orwell via a si mesmo como um membro da ‘esquerda dissidente’, distinta da “esquerda oficial”, que

significava basicamente o Partido Trabalhista Britânico, do qual boa parte ele passara a enxergar, bem antes da Segunda Guerra Mundial, como potencialmente, senão já fascista. Mais ou menos de forma consciente, fez uma analogia entre o Partido Trabalhista e o Partido Comunista sob o domínio de Stalin, os quais, sentia, eram movimentos que professavam a luta das classes trabalhistas contra o capitalismo, mas que na verdade estavam preocupados apenas em estabelecer e perpetuar seu próprio poder. As massas só existiam

Portanto, o discurso do novo sistema é o do clichê, o da repetição e o da tautologia, é o discurso no qual a linguagem se esvazia para não permitir a ação interpretativa: os conceitos devem ser apenas repetidos como dogmas e soluções exatas de problemas matemáticos, eliminando-se mais uma vez os elementos subjetivos47.

Na peça, são recorrentes afirmações como:

ESCUDEIRO 1: /.../ O máximo de rendimento é o máximo de rendimento (HILST, 326);

ESCUDEIRO 1: /.../ A nota mais alta da física é a nota mais alta da física (IDEM, 335).

ESCUDEIRO 2: a Física é a Física (IDEM, 333).

Há em muitos momentos o som de vozes gravadas, remetendo mais uma vez à simbologia da repetição e da linguagem oca, feita e utilizada como um sistema serial, como reprodução técnica que:

/.../ acaba com o que seja único e diferente (o que a obra de arte deveria ser) e reproduz inúmeros exemplares idênticos para seres que não podem se diferenciar a não ser conforme o sistema quer que se “diferenciem”. (KOTHE, 1978: 54)

para ser manobradas: por seu idealismo, seus ressentimentos de classe, sua disposição para o trabalho em troca de pouco – e para ser vendidas repetidas vezes.” (PYNCHON, 2009. p: 397e 398)

47 Como certa ciência percebe a linguagem:

As expressões verbais corriqueiras que permeiam a linguagem cotidiana podem ser imprecisas e confusas. /.../ Para descrever os fenômenos da Física, a linguagem matemática desempenha um papel essencial, que assegura o caráter “inambíguo” do evento (ABDALLA 2002: 165)

Ou:

Os conceitos científicos frequentemente começam com os da linguagem usual para os assuntos da vida cotidiana, mas se desenvolvem de maneira bem diferente. São transformados e perdem a ambigüidade a eles associada na linguagem usual, ganhando em rigor para que possam ser aplicados ao pensamento científico. (EINSTEIN e INFELD, op. cit., p. 21)

Ao final da peça, em uma de suas últimas cenas, até mesmo métodos filosóficos já estigmatizados são postos a favor dos clichês: ao responder aos questionamentos dos Físicos, o Escudeiro-Mor utiliza de interrogações, como no processo socrático de fazer com que o interrogador chegue às respostas por si mesmo. Algumas dessas interrogações podem ser encontradas em A evolução da física:

ESCUDEIRO-MOR: Eu vou responder. Mas antes também desejo lhes fazer uma pergunta. (os físicos assentem) Por que é que nasceu na mente de alguém a teoria da relatividade?

FÍSICO 1: De acordo com o seu descobridor, a teoria da relatividade

nasceu da necessidade, de contradições sérias e profundas na velha teoria, para as quais parecia não haver saída. (HILST, 360)48

E continua:

ESCUDEIRO-MOR: Apenas uma segunda pergunta: em que consiste a força dessa nova teoria?

FÍSICO 2: De acordo com o seu descobridor e com todos os nossos colegas, a força da nova teoria está na consistência e simplicidade com

que resolve todas as dificuldades, usando apenas poucas suposições muito convincentes.(IDEM, 360)49

A educação é o principal meio para que o discurso seja instaurado. Através de seus métodos serão formados seres integrados e integrantes da razão técnica supervalorizada e da linguagem feita sistema de reprodução: as notas mais altas da Física (por seres formados pela nova constituição) devem falar apenas consigo mesmas e muitas vezes repetindo os postulados físicos, já modificados para darem conta das novas estruturas sociais.

A pedagogia se faz pelos métodos autoritários, recalcando as angústias dos estudantes e, não como queria Adorno, crente de que “/.../ a educação só teria algum sentido como educação para a auto-reflexão crítica”, pois, ela:

/.../ deveria levar a sério uma idéia que de nenhum modo é estranho à filosofia: a angústia não deve ser reprimida. Quando a angústia não for

48 “A teoria da relatividade nasceu da necessidade, de contradições sérias e profundas na velha teoria, para

as quais parecia não haver saída /.../”. (EINSTEIN e INFELD, op. cit., p. 158)

49/.../ A força da nova teoria está na consistência e simplicidade com que resolve todas as dificuldades,

reprimida, quando o indivíduo se permite realmente ter tanta angústia quanto essa realidade merece, provavelmente, desaparecerá grande parte do efeito destrutivo da angústia inconsciente e protelada (ADORNO, 1995: 114-115).

Portanto, a educação do novo sistema cessa qualquer possibilidade de auto- reflexão crítica e de individuação: há apenas a possibilidade da perda de si na massa, sem percepção dos meios de manipulação a que se é submetido. Os sentimentos são deixados, a humanidade deve ser formada por ensinamentos que a conduzem rumo à coletividade alienada50, visto que as relações dos homens assumem caráter de experiências científicas conduzidas pela fetichização da técnica, levada ao extremo por seres já objetos amorfos:

/.../ na relação atual com a técnica, há algo excessivo, irracional, patógeno. Esse algo está relacionado com o véu tecnológico. As pessoas tendem a tomar a técnica pela coisa mesma, a considerá-la um fim em si, uma força com vida própria, esquecendo, porém, que ela é o prolongamento do braço humano. (IDEM, p. 118)