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II. DÜNYA SAVAŞI ÖNCESİ GENEL DURUM

2.1. Almanya’nın Sovyetler Birliği’ne Saldırısına Kadar Türk-Sovyet İlişkiler

2.1.2. İkinci Dünya Savaşı Başlangıcında Türk-Sovyet İlişkileri

2.1.2.2. İngiltere’nin Türk-Rus İlişkilerini Yakınlaştırma Çabalar

O texto inicia-se com um prólogo que aponta para um sufocante futuro: uma condição de vida que leva a filosofia e a poesia à falência, restando - em um ímpeto final de uma perversa crença no Iluminismo, na razão cartesiana e no cego progresso - apenas a ciência como forma de sustentar o pensamento, os sentimentos e as relações humanas.

O prólogo serve como advertência, como recurso que atrasa o início da ação e coloca público e leitor para refletir sobre a condição comunicada a Arnold Toynbee por Edwin Bovan:

Em 1939, Edwin Bovan escrevia a Arnold Toynbee32: “Não penso que o

perigo que enfrentamos seja o da anarquia, mas sim o despotismo, a perda da liberdade espiritual, o estado totalitário universal, talvez. Então o mundo poderia entrar em um período de petrificação espiritual, uma ordem terrível, que para as altas atividades do espírito humano seria a morte. Em tal estado totalitário, parece-me possível, enquanto murchassem a filosofia e a poesia, que a pesquisa científica poderia continuar com descobertas sempre novas”. (HILST, 2008: 305)

Após o prólogo, as trevas se mantêm. Há apenas vozes proclamando conceitos da Física, em uma ausência de vida, de humanidade: as respostas são maquinais, os gritos são os de uma saudação automática que transmite um entusiasmo entorpecido – “He! Há!”-, e que se reproduzirá em série ao longo da peça.

32 “Entre os mais notáveis, ainda que mais hipotéticos, estudos dessas curvas de ascensão e queda de

civilizações cumpre citar a importante obra A study of history, de Arnold Toynbee. Segundo Toynbee, a gênese de uma civilização consiste na transição de uma condição estática para a atividade dinâmica. Essa transição pode ocorrer espontaneamente, através da influência de alguma civilização já existente, ou através da desintegração de uma ou mais civilizações de uma geração mais antiga. Toynbee vê o padrão básico na gênese das civilizações como um padrão de interação a que chama ‘desafio-e-resposta’. Um desafio do ambiente natural ou social provoca uma resposta criativa numa sociedade, ou num grupo social, e que induz essa sociedade a entrar no processo de civilização”. (CAPRA, 2001. p: 24)

Neste início fantasmagórico, o Escudeiro-Mor – representação do déspota autoritário e paranóico33, capaz de manipular até mesmo conceitos científicos exatos para favorecer seu controle – leciona conceitos da Física, impondo mudanças pela força e mobilizando instrumentalmente uma espécie de educação domesticável e alienante, aplicada em crianças mais parecidas a autômatos, que apenas respondem “He! Há!”, saudação que muito lembra as de outros sistemas totalitários, como “Heil Hitler!”, por exemplo34.

33 Jeanne Marie Gagnebin percebe um fundo paranóico no pensamento de líderes autoritários, sempre

sedutores. Envolvidos de um lado pela loucura e de outro pela extrema racionalidade, armam sistemas complexos, sem contradições ou falhas, pois tudo é regido por sua “voracidade semântica”. Gagnebin sustenta seu pensamento embasando-se em Adorno e Horkheimer e cita A dialética do esclarecimento:

É como se a promessa, feita pela serpente aos primeiros homens, de se tornarem iguais a Deus houvesse sido resgatada com o paranóico, que cria o mundo todo segundo sua imagem. Ele não parece precisar de ninguém e, no entanto, exige que todos se ponham a seu serviço. Sua vontade penetra o todo, nada pode deixar de ter uma relação com ele. Seus sistemas não têm lacunas [...] Como louco consumado ou como ser absolutamente racional, ele aniquila a vítima predestinada, seja mediante um ato de terror individual, seja mediante uma estratégia de extermínio cuidadosamente planejada. É assim que tem êxito. Assim, como as mulheres têm adoração pela paranóide impassível, assim também os povos caem de joelhos frente ao fascismo totalitário. (GAGNEBIN, 2006. p: 90)

Outra intérprete da Escola de Frankfurt, Olgaria Matos, que mais uma vez traz o diálogo com A

dialética do esclarecimento, também concorda com a paranóia dos líderes totalitários: seu pensamento patológico coloca-os como centro do mundo – palco para seus delírios -, o que lhes causa uma recusa acentuada e aguda à alteridade, pois nada pode ser diferente a ele, nada pode arriscar sua posição e sua totalidade:

A razão iluminista é uma razão paranóica “porque o paranóico só percebe o mundo exterior na medida em que corresponde a seus fins cegos, é capaz de repetir sempre e somente o seu próprio eu, alienado à mania abstrata (...). A disciplina do sempre igual torna-se o substituto da onipotência. É como se a serpente, que disse aos primeiros homens de se tornarem igual a Deus, tivesse mantido sua promessa no paranóico. Ele cria tudo a sua própria imagem e semelhança. Parece não ter necessidade de nenhum ser vivo e no entanto exige que todos o sirvam”. (MATOS, 1995. p: 148)

34 O mesmo tipo de saudação aparece como “G-I!... G-I!... G-I!...”, em 1984, de Geroge Orwell, descrita e

comentada por seu narrador:

Nesse momento todo o grupo ali presente prorrompeu num canto grave, lento, ritmado, em que entoava “G-I!... G-I!... G-I!...” – uma e outra vez, muito devagar, com uma longa pausa entre o “G” e o “I” -, um som grave, em surdina, às vezes curiosamente feroz, em cujo segundo plano parecia ouvir-se o ruído de pés descalços golpeando o chão e o latejar de tantãs. Aquilo continuou por uns trinta segundos. Tratava-se de um refrão ouvido com freqüência em momentos de emoção avassaladora. Em parte era uma espécie de hino à sabedoria e à majestade do Grande Irmão, mas antes de mais nada era um ato de auto-hipnose,

O Escudeiro-Mor dramatiza seus enunciados em dois tons, voz normal ou violenta, acentuando as falas que tratam de atitudes técnicas e que remetem à força e ao domínio; o oficial aponta conceitos exatos já instaurados, como a teoria cinética, e modificados pelas leis do novo sistema. Para isso cita obras e cientistas do “velho” mundo, junto a conceitos estranhos, repetidos sempre à coletividade. Não à toa são evocados e parodiados nomes consagrados que propõem novos rumos para Física e para o pensamento de forma geral: trata-se de Albert Einstein e Leopold Infeld, autores de A evolução da física, e de Niels Bohr, com sua teoria atômica.

VOZ DO ESCUDEIRO-MOR: Página 53: temos um vaso fechado por um êmbolo que pode deslocar-se livremente. O vaso contém uma certa quantidade de gás que deverá ser mantida a uma temperatura constante. Se o êmbolo estiver, inicialmente, em repouso em alguma posição, poderá ser movido para cima, retirando-se o peso. (voz violenta) Para empurrar o êmbolo para baixo deve ser empregada força (destacando) agindo contra a pressão interna do gás. (voz normal) Primeira pergunta: qual é o mecanismo dessa pressão interna, de acordo com a teoria cinética? Segunda pergunta: qual é o mecanismo dessa pressão interna de acordo com o Novo Sistema? A coletividade compreendeu?

VOZ DAS CRIANÇAS: He! Ha! (três vezes) (HILST, 2008, p: 306 – 307)

O líder usa e modifica conceitos de A evolução da física para implantar as coordenadas que constituirão os novos sujeitos em uma forma maquinal e repetitiva, que jamais permitirá o questionamento dos conceitos ofertados:

VOZ DO ESCUDEIRO-MOR: Página 17: todo corpo permanece em seu estado de repouso ou de movimento uniforme em linha reta, (voz

violenta) se não for obrigado a mudar de estado por forças nele aplicadas. Se não for obrigado a mudar de estado por forças neles aplicadas. A coletividade compreendeu? 35

um embotamento voluntário da consciência por intermédio de um ruído rítmico. (ORWELL, 2009. p: 27)

35 Temos aqui um claro processo de bricolagem, forma com que Hilst constrói seu teatro. Ao lermos A evolução da física encontramos o trecho do discurso do Escudeiro-Mor: trata-se de uma conclusão de Galileu mais tarde formulada por Newton. É interessante como Einstein e Infeld referem-se ao trecho, mostrando sua posição básica e pioneira na ordem pedagógica da Física como disciplina escolar. O mesmo acontece na peça:

/.../ Trata-se geralmente da primeira coisa sobre a Física que aprendemos na escola, e alguns de nós podemos estar lembrados dela:

VOZ DE CRIANÇAS: He! Ha! (três vezes) (IDEM, p: 307)

A força deve ser exercida para mudança, nada deve seguir seu próprio caminho: o sujeito deve ser a coletividade e a ação deve ser iniciada para que se instaure o novo sistema.

Após essa aula de Física introdutória, ironicamente a autora escreve a rubrica “início da peça”, que somada ao último conceito exposto pelo Escudeiro-Mor -

VOZ DO ESCUDEIRO-MOR: Uma força imprimida é uma ação exercida sobre um corpo a fim de modificar o seu estado. (lentamente) A força consiste somente na ação. (destaca) Ação. (pausa) E tudo isso quer dizer no Novo Sistema... tudo isso quer dizer... (HILST. 307)36

-, chama-nos para o caráter metalingüístico de seu teatro, sobretudo se lembrarmos da máxima aristotélica que define o dramático como gênero da ação. O didatismo – motivo central na peça - se apresenta também como componente estrutural do texto, que se completará com os momentos épicos e as paródias alegóricas, exercidas em vários níveis: linguagem, falas, símbolos cênicos e diálogo com outros textos, que aparecerem como decalques de seus lugares de origem ou como retomadas de idéias e modelos literários.

Hilst apresenta um novo sistema ecoando o passado, o próprio presente de sua escrita, potencializando a barbárie em que se encontra a humanidade. A razão técnica atinge o ápice e as relações sociais pautam-se na objetividade fria da ciência: a Física deve embasar o alicerce social que rege cidadãos orquestrados rumo à hegemonia e à demultiplicação serial, transformadora, até mesmo, do olhar, feito agora mera reprodução Todo corpo permanece em seu estado de repouso, ou de movimento uniforme em linha reta, se não for obrigado a mudar de estado por forças nele aplicadas. (EINSTEIN e INFELD, 1962: 17)

36 Aqui encontramos outro trecho, um pouco modificado, da obra de Newton, citado por Einsten e Infeld:

Uma força imprimida é uma ação exercida sobre um corpo a fim de modificar o seu estado, seja de repouso ou de movimento uniforme para a frente em linha reta.

Essa força consiste somente na ação; e não mais permanece no corpo quando a ação termina. Pois um corpo mantém todo novo estado que adquire, somente por sua vis inertia. As forças imprimidas têm origens diferentes; como percussão, pressão, força centrípeta. (EINSTEIN e INFELD, op. cit., p. 19)

instantânea de imagens: câmeras fotográficas que registram rapidamente cenas de alienação, forte influência para o sujeito se debruçar unicamente para a ideologia do Estado37.

Por enquanto, existem vozes, apenas. Não houve luz, nem atores agindo no palco. Tudo é fantasmagórico e repetição automática de discursos.

Mesmo quando se dá o “início da peça”, os fantasmas ainda estão presentes: deparamo-nos com um cenário hostil e uma atmosfera de “extrema gravidade”.

A petrificação do espírito se materializa na própria paisagem. O que se põe em cena é o início, ou melhor, o momento de transição e instauração do novo sistema, que não possui concreta definição no tempo ou no espaço, constituindo-se, portanto, como uma utopia ou como sua desrealização, pois o que se nota é a descrença da autora sobre o potencial de superação encarnado no progresso. Assim como George Orwell, no romance1984:

/.../ O sentimento que expressa é de quase desespero acerca do futuro do homem, e a advertência é que, a menos que o curso da história se altere, os homens do mundo inteiro perderão suas qualidades mais humanas, tornar-se-ão autômatos sem alma, e nem sequer terão consciência disso. (FROMM, 2009: 365).

Ambos os autores constroem distopias (ou utopias negativas), ao preverem um futuro “de impotência e desesperança do homem moderno”. O Novo Sistema expulsa a humanidade e a sociedade civil não idealizada pela nova constituição social: apenas os que servem ao Estado, ou os que se (de)formam por ele, aparecem em praça pública, com função invertida por não mais servir ao bem público - não há uma coletividade a se reunir para pensar em conjunto ou, ao menos, desfrutar do espaço público, transformado em lugar de ameaças e ordens de uniformização.

37 A demultiplicação em série e a homogeneização são analisadas por Gilberto Figueiredo Martins ao

interpretar as crônicas que Clarice Lispector escreveu sobre Brasília - “Brasília” e “Brasília: esplendor”: /.../ sua unidade de conjunto, sua feição antinatural, sua terrível simetria, a corporificação do poder tirânico de homogeneização e de demultiplicação serial previstas nas distopias literárias de G. Orwell e A. Huxley, tudo colabora para a instauração em Brasília de um efeito de terror e uma impressão de fantasmagoria (MARTINS, 2010: 165)