Para Bronckart (2008, p. 93, grifo do autor), “o trabalho é uma forma de agir, ou uma prática, que seria própria da espécie humana”. Para que houvesse a garantia da espécie humana, os membros do grupo criaram atividades coletivas organizadas. Essas atividades se tornavam diversificadas e complexas e muitas possuíam o objetivo de produção de bens materiais, denominadas de atividades econômicas.
Bronckart (2008) enfatiza que nem sempre as atividades econômicas eram vistas como um trabalho e que Taylor é tido como criador da “ciência do trabalho”, tendo como fundamento assegurar grande rentabilidade nas empresas, atendendo aos
interesses dos patrões e operários conjuntamente, princípios esses que vingaram até a metade do século XX. Isso tudo induziu a psicologia do trabalho que além de harmonizar as funções dos trabalhadores às suas tarefas, também promovia sua adaptação a um cargo que colaborasse ainda mais para os lucros da empresa.
Uma disciplina que de certa forma se opôs ao taylorismo é a Ergonomia, fundada por Murrel em 1949, com o propósito que investigar as questões que envolvem os operadores humanos, bem como a preservação da boa saúde e, assim, continuar a boa produtividade. Já Clot (2007a, p. 69) ressalta que “o trabalho é a atividade mais humana que existe”. Clot destaca que o trabalho tem o poder de realizar coisas úteis, de constituir e cultivar a reciprocidade entre os sujeitos.
O trabalho é sem dúvida um dos gêneros principais da vida social em seu conjunto, um gênero de situação do qual uma sociedade dificilmente pode abstrair-se sem comprometer sua perenidade; e da qual um sujeito dificilmente pode afastar-se sem perder o sentimento de utilidade social a ele vinculado, sentimento vital de contribuir para essa perenidade, em nível pessoal (CLOT, 2007a, p. 69).
Clot desenvolve duas noções: a noção de gênero e a de estilo de atividade. O gênero é tido como o sistema aberto das normas impessoais não documentadas (escritas) que determinam o uso dos objetos e a interação entre os membros do grupo. É um corpo intermediário entre os sujeitos, entre os quais há o objeto do trabalho. Clot (2007a, p. 44) salienta que “o gênero pode definir-se como o conjunto das atividades mobilizadas por uma situação, convocadas por ela” e, também, “um gênero sempre vincula entre si os que participam de uma situação, como co-autores que conhecem, compreendem e avaliam essa situação da mesma maneira” (p. 41). O autor enfatiza que “o gênero social, ao definir as fronteiras móveis do aceitável e do inaceitável no trabalho, ao organizar o encontro do sujeito com seus limites, requer o estilo pessoal” (CLOT, 2007a, p. 49).
Para Clot (2007a, p. 50) o estilo seria o “movimento mediante o qual esse sujeito se liberta do curso das atividades esperadas, não as negando, mas através do desenvolvimento delas”. Então, o sujeito com o seu estilo individual possui a capacidade de transformar os gêneros em recursos para agir em suas atividades reais. Agir esse que pode ser representado por pessoas em diversas situações e práticas linguageiras. As práticas de linguagem são os maiores instrumentos para o
desenvolvimento humano que, segundo Bronckart (2009), estão associadas às atividades sociais humanas, sobre o agir das pessoas e, assim, o agir do trabalho docente.
De acordo com Amigues (2004, p. 37) sempre que se fala do trabalho do professor é comum pensar que “trabalhar é utilizar meios para atingir um fim” e complementa que esses meios podem ser os programas, os métodos pedagógicos ou didáticos. O objetivo é fazer com que os alunos aprendam a ler e escrever e sanar problemas de aritméticas, entre outros.
Machado e Bronckart (2009) buscam definir o trabalho docente depois de desenvolver uma longa revisão de autores que abordam o trabalho educacional ou da atividade do trabalho, como Clot (2007a e 2007b), Amigues (MACHADO, 2004) e Saujat (2004). Assim, conscientes da importância de essa atividade sempre acontecer em um contexto social específico, expõem essas características:
a) Pessoal e única, pois envolve o trabalhador em suas dimensões físicas, mentais, emocionais etc.;
b) Interacional porque quando o trabalhador age sobre o meio, ele o transforma e é também, transformado pelo meio;
c) Mediada por instrumentos, o trabalhador executa seu trabalho obtendo recursos materiais e simbólicos;
d) Interpessoal, pois o trabalhador interage direta ou indiretamente com outros indivíduos, presentes ou ausentes;
e) Impessoal, uma vez que o trabalhador recebe de instâncias externas as tarefas prescritas ou prefiguradas;
f) Transpessoal, visto que o trabalhador é orientado por modelos do agir próprio da cada métier.
Para falar do trabalho, reforça-se mais uma vez o agir humano e os textos que os sujeitos produzem em situação de trabalho. Machado et al. (2009b, p. 21) utilizam uma terminologia para os dois níveis de análise de um dado. No primeiro nível, o termo agir se refere a qualquer intervenção humana feita por um indivíduo (agir individual = ação) ou por muitos (agir coletivo = atividade); o termo actante se refere a qualquer entidade posta no texto como sendo a fonte de um agir; o termo trabalho significa o conjunto global do agir em circunstância de trabalho que pode sofrer repressões dos sistemas institucionais.
Dois tipos de condutas são estabelecidas: as verbais, em que o actante fala de alguma coisa que não estava planejada, e as não-verbais, em que usa os movimentos
corporais, como sair da sala, por exemplo. Essas condutas verbais e as não-verbais são prescritivas ou não-prescritivas e as interações verbais e as não-verbais se prescritas são nomeadas de tarefa, realizada por atos.
Dessa forma, Machado et al. (2009b, p. 22) dizem que, na atuação do professor ao ministrar a aula, sua tarefa é encarada como atos que, se decompostos, podem ser constituintes, dependendo da forma de atuação da tarefa do professor. Assim, dependendo do que o professor precisa trabalhar como conteúdo programático, ele deve seguir atos, em uma organização temporal, ou seja, uma sequência lógica dos atos que ele precisa adotar, para que os alunos possam compreender e seguir a tarefa.
O segundo nível de análise, de acordo com Machado et al. (2009b, p. 22), é chamado de interpretativo, em que há uma leitura interpretativa dos dados e, ainda, “que as representações/interpretações/avaliações detectáveis nos textos podem (ou não) referir-se a três elementos do agir: às razões que levam a ele, à intencionalidade e aos recursos para o agir”.
Os textos/dados produzidos pelos actantes possuem determinantes externos (razões exteriorizadas que induzem o indivíduo a agir de determinada forma) ou motivos (razões internas, que uma ou mais pessoas levam a praticar determinada ação ou atividade). No que se refere à intencionalidade do agir, as autoras dizem que aparecem nos textos de duas formas: como finalidades ou como intenções. Já aos recursos para o agir, as autoras salientam que podem ser “são instrumentos/ferramentas ou capacidades do agente” (MACHADO et al., 2009b, p. 23).
Para Machado (2009a), embasada pelos pressupostos teóricos de Bronckart, os três níveis da atividade educacional global são essenciais para a discussão sobre o trabalho do professor, conforme podem ser visualizados na figura 10:
Figura 10 – Esquema dos diferentes níveis da atividade educacional
Fonte: Machado (2009a, p. 50)
Para Machado (2009a), para discutir as relações entre linguística e ensino é necessário levar em consideração os três níveis apontados na figura 10. O nível dos sistemas educacionais é aquele em que são formuladas “as diretrizes gerais adotadas por uma sociedade para integrar seus novos membros a ela”, o MEC, as secretarias e subsecretarias de ensino são alguns exemplos. O outro nível, o dos sistemas de ensino, é o “das instituições construídas para que sejam atingidas as finalidades colocadas pelo sistema educacional, compreendendo os estabelecimentos de ensino, os programas, os instrumentos didáticos, o tipo de fluxo entre os sistemas de ensino etc.”. O último nível é o dos sistemas didáticos “envolvendo as classes em que se desenvolve o trabalho do professor, com seus três pólos constitutivos: o professor, os alunos e os objetos de conhecimento” (MACHADO, 2009a, p. 51).
De acordo com Machado (2009a, p. 51), é no cerne desse sistema didático que “se desenvolve grande parte da atividade de trabalho do professor, que, com inspiração em Clot (2006) e Amigues (2004), representamos” na figura 11.
Figura 11 – Esquema da atividade do professor em sala de aula
Fonte: Machado (2009a)
Na contemporaneidade, a tarefa do professor tem sido constantemente ampliada já que, a cada momento, ele se depara com inovações, novas prescrições, novos artefatos, novas descobertas. Aquele professor de outrora, visto como alguém que contribuía para o processo de ensino e aprendizagem e que utilizava os recursos disponíveis, necessita cada vez mais continuar a acompanhar essa evolução global. O mundo está mais rápido e mais exigente no sentido da necessidade, ainda maior, de pessoas capacitadas para lidar com as muitas exigências que o ambiente educacional pede.
Por esse esquema proposto por Machado (2009a) na figura 11, vê-se que o professor deve ter como objetivo oferecer condições e meio propícios à aprendizagem e ao desenvolvimento do corpo discente. Nessa figura de Machado (2009a, p. 51), para produzir seu objeto, o professor tem à sua disposição artefatos sócio-historicamente construídos, sejam materiais ou simbólicos.
O professor, para obter êxito nessa atividade docente, precisa se apropriar dos artefatos disponíveis, por si e para si, formando verdadeiros instrumentos que transformam tanto o objeto quanto os indivíduos que estão inseridos na atividade como, por exemplo, o próprio professor.