BÖLÜM 2. PRĐZREN TÜRKLERĐNDE GEÇĐŞ DÖNEMLERĐ
2.1. Doğum
2.1.3. Doğum Sonrası
2.1.3.6. Yaşamayan Çocuk
Ex-comandante do exército nacional libanês, e agora presidente da República, Fuad Shihab estava em contato direto com os oficiais e os soldados, cuja principal origem social era a periferia das cidades e o campo ou a montanha. Assim, Shihab estava a par dos efeitos políticos e sociais que as desigualdades regionais causavam, o que explicava a insurreição popular armada dessas áreas periféricas libanesas contra o Estado e suas autoridades. Shihab iniciou seu mandato aproximando o seu projeto nacionalista e reformista da política neutralista do nacionalismo árabe terceiro-mundista do presidente egípcio Gamal Abd Al- Nasser e do regime baathista sírio.
Os primeiros anos de seu governo serviram para acalmar as tensões do período anterior, através da adoção de um discurso de unidade nacional e, sobretudo, para conclamar a igualdade entre os libaneses, por meio de uma ampla reforma social que levasse à construção
de uma nova sociedade, segundo a qual, ele dizia, “para ser libanês, não há [lugar] para a discriminação nem para o privilégio” (TRABOULSI, 2007, p. 139, trad. nossa). O projeto político shihabista buscou constituir uma classe política alternativa no Líbano, através da cooptação dos participantes dos conflitos de 1958, o que foi possível graças a uma maior protagonismo experimentado pelo exército, pelo serviço secreto e pelos tecnocratas do funcionalismo público, que saíram fortalecidos após impedirem a tentativa de golpe de estado por parte de algumas unidades militares lideradas por oficiais ligados ao Partido Nacional Social Sírio (SSNP, em inglês).
A criação de uma administração paralela – Traboulsi fala do famoso “Deuxième Bureau” para referir o papel político decisivo da inteligência do exército nos assuntos do governo nacional – por meio de agências e de um serviço público mais descentralizado e independente era uma forma de instituir um setor público, cuja burocracia fosse afastada da influência direta dos “políticos feudais” (os chamados “zuama”). 20 Com isso, o Estado e seus agentes dobraram de tamanho através da contratação de milhares de novos funcionários, investidos pelo Conselho de Serviço Público Civil, que limitou o papel dos membros do Parlamento nacional (os deputados) no clientelismo, reduziu a corrupção e favoreceu a contratação para o serviço público com base no mérito e na especialização. Ademais, a composição sectária e confessional nas esferas do Executivo nacional foi alterada em favor das comunidades muçulmanas, especialmente a xiita. Apesar disso, o sectarismo político não foi questionado e verdadeiramente reformado ou abolido, uma vez que o enfoque constitucionalista de Shihab limitou-se a estabelecer apenas um maior e mais justo equilíbrio entre as comunidades. Na verdade, Shihab pretendeu corrigir algumas das falhas do sistema político sectário e confessional, através da promoção de uma maior justiça econômica e social.
Na área econômica, fazia-se necessária uma racionalização e uma recuperação do controle sobre o desenvolvimento do capitalismo libanês por duas principais razões: reforma do sistema bancário e financeiro; e mudança na matriz econômica nacional, isto é, do domínio do setor primário para o terciário. Assim, o Estado passou a desempenhar um papel ativo no desenvolvimento regional do Líbano e na redistribuição social do crescimento econômico do PIB nacional. Somas significativas foram investidas no desenvolvimento da infra-estrutura
20 “Zuama”: plural de “zaim” que, em árabe, significa “líder”. No caso do Líbano, trata-se do líder político que
realiza serviços gerais e favores pessoais. Seu poder funda-se na lealdade de sua clientela política e na relação que possui e mantém com o Estado ou com suas autoridades. Assim, seu estilo de liderança é mais pessoal do que construído a partir de um partido político. Esse líder também pode dispor de uma sustentação religiosa ou comunitária, ou, por outro lado, transcender limites confessionais, a partir de uma base local ou geográfica. (cf. ESPOSITO, 2003, p. 345)
econômica e na unificação do mercado interno através da construção de malha viária e na distribuição de redes de água e luz em vilarejos remotos – aumentando os rumores de que Shihab estava desperdiçando o orçamento estatal. hospitais foram construídos em regiões rurais e projetos de desenvolvimento agrícola foram introduzidos. Reformas educacionais também foram realizadas, como no setor público de ensino, cujo principal exemplo foi a criação da Universidade Libanesa, pública e independente.
Apesar dessas reformas, três principais interesses se viram afrontados pelos programas de desenvolvimento nacionalista e público do governo Shihab. Primeiro, a oligarquia libanesa, tanto cristã quanto muçulmana, rejeitou qualquer ingerência estatal em seus rendimentos e lucros. Além dela, os “zuama” se opuseram às novas formas de clientelismo do serviço público diante de sua perda de influência no governo. Por fim, o domínio político e econômico dos maronitas fora desafiado pelo que diziam ser uma parcialidade governamental em favor dos muçulmanos e pelo aumento do intervencionismo estatal na sociedade.
A oposição ao fenômeno político que ficou conhecido pelo nome de “Shihabismo” (para referir uma ideologia de reformas políticas e econômicas limitadas que visava à formação de uma burguesia libanesa a partir de camadas da pequena burguesia e das classes médias urbanas e rurais que fosse realmente nacional, e não apenas aliada e/ou refém do capital externo), era principalmente representada pelas lideranças políticas de Raymon Iddih, Camille Chamun e Saib Salam. Este, desprovido do cargo de primeiro-ministro em favor de seu adversário Rashid Karami, e amedrontado (assim como outros membros da burguesia sunita) pelas reformas estatizantes e pelas nacionalizações de Nasser no Egito, inclinava-se mais pelo apoio da Arábia Saudita. A oposição obteve êxito ao relacionar liberalismo político a liberalismo econômico e, conjuntamente, explorar e trazer à tona o receio da direita cristã e maronita a respeito do Nasserismo e do socialismo árabe baathista (sírio e iraquiano). 21
Por outro lado, o regime de Shihab atraiu forças sociais que com ele compartilhavam interesse na construção do Estado: uma parte da burguesia que lutava contra os monopólios e a concentração de poder nas mãos da oligarquia comercial e rural, e que buscava reconhecimento político e conquista de espaço no sistema; classes médias que haviam atingido certo nível e capacidade de mobilidade social através do capital árabe investido no Líbano; amplos setores da pequena burguesia, que incluíam intelectuais e funcionários públicos; e, em termos gerais, as massas muçulmanas. Os principais protagonistas da rebelião
21 Com a derrocada da monarquia iraquiana em julho de 1958 pela revolução dos “Oficiais Livres” liderada pelo
general Abd Al-Karim Kássim, foi instaurada a república parlamentar no Iraque, que, assim, retirou-se do Pacto de Bagdá, fórum regional que reunia as nações conservadoras e pró-EUA do Oriente Médio, como a Arábia Saudita e a Turquia.
de 1958 – o Partido Falangista (Kataib) de Pierre Jumayil e o Partido Socialista Progressista (PSP, em inglês) de Kamal Junblatt – formavam a base política e social do governo Shihab. Junblatt pretendia aproximar sua marginalizada e frustrada comunidade – a muçulmana druza 22 – das camadas sunitas pró-nasseristas. Recém convertido ao Nasserismo, Junblatt reconheceu nessa ideologia uma confirmação de seus ideais socializantes e, na figura de Nasser, um poderoso e prestigiado aliado externo.
Já as relações entre a Falange de Jumayil e o Shihabismo eram mais conturbadas. A participação daquela no governo reafirmara seu poder político como representante de parcela significativa da comunidade cristã e, particularmente, maronita, além de proporcionar-lhe a oportunidade de oferecer serviços e favores a um número maior de afilhados políticos. Entretanto,
[os falangistas] sentiam-se repelidos pelo estatismo de Shihab e pelo aumento da influência de Nasser no Líbano, que iam de encontro à sua autonomia maronita, ao seu nacionalismo libanês extremo e à sua ideologia “laissez-faire” anti-nasserista e anti-comunista. (TRABOULSI, 2007, p. 143, trad. nossa).
Enfim, nos dois casos, ambas forças populistas souberam preservar muito bem suas posições políticas, o que lhes permitiu alterar as relações de poder em suas respectivas comunidades em seu favor. Em 1964, chegava ao fim o mandato do presidente e, portanto, o período que ficou conhecido como “era Shihabista”, uma vez que, apesar das pressões pela renovação de seu mandato, Shihab decidiu não tentar a reeleição em virtude de ameaças de revolta da oposição cristã sob as lideranças de Chamun e Iddih.
Com isso, Charles Hilu, maronita e um dos fundadores do Partido Falangista, foi eleito presidente pelo Parlamento para o período 1964-70. Seu governo é lembrado por ter permitido ao aparato da inteligência militar o controle dos assuntos do Estado, pois alguns oficiais eram mais poderosos do que os parlamentares eleitos. O governo Hilu foi considerado responsável pelo agravamento e pela deterioração da situação política no Líbano, causados pela ausência de um plano governamental de ação do Estado contra os ataques israelenses e a atuação dos
22 Druzos: dissidência milenar do xiismo ismaelita, fundada por Hamzah Ibn Ali, um missionário persa, no Cairo
do séc. X. O termo origina-se do nome de Muhammad Al-Darazi, missionário do séc. XI, cujos seguidores acreditavam no imamato xiita (governo islâmico) do califa fatímida Al-Hakim Ibn Amr Allah, e denominavam- se “muwahhidun” (unitários) graças à ênfase dada ao monoteísmo. As atividades missionárias druzas cessaram no séc. XI, e conversões não foram mais aceitas. Assim, a fé é secreta para não iniciados, e proíbe também o concubinato e o casamento temporário, admitidos, respectivamente, no Islã sunita e no Islã xiita. Uma das crenças que torna o druzismo peculiar é a da “transmigração da alma” (reencarnação), que ocorre geração após geração. As maiores comunidades druzas hoje vivem no Líbano, Síria e Israel. (cf. ESPOSITO, 2003, p. 70)
comandos guerrilheiros palestinos, que, após a derrota árabe na Guerra dos Seis Dias de 1967 e, mormente, com a expulsão da OLP da Jordânia em 1970, transferiram sua sede para Beirute e instalaram sua frente de combate no sul do Líbano.