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Com base em Barros (1994), Schossler (2005) propõe trabalhar com o conceito de grupo-experiência, em que o grupo é tratado como texto, sendo algo a ser compreendido, e o grupo na instituição, que o torna assim contexto. Em outras palavras, aproxima-se da ideia de processo, trabalhando com duas noções básicas: a de texto, em que se aborda grupo como objeto, e de contexto, que traz à baila o conceito de instituição na situação grupal, logo, concebe grupo como “múltiplos modos de existência”. (SCHOSSLER, 2005, P. 33).

Desse modo, a decisão em trabalhar com grupos de discussão se articula com as premissas dos trabalhos já realizados na área de análise institucional ensejados pela pesquisa- intervenção. Ou como indicam Rocha e Aguiar (2003, p.68) deve-se considerar os grupos como “dispositivos de afirmação de outros modos de subjetivação.”

Ainda Barros (1994, p. 8), reafirmando o caráter o grupo como dispositivo catalisador de produção de subjetividades, esclarece que essa noção “recusa qualquer forma de totalização e unidade. Como dispositivo, é sempre multilinear”.

Tomando como referência minha experiência já mencionada com grupos de interação, orientação e discussão entre profissionais e sujeitos no contexto da reabilitação, intentei não me extrair desse espaço de encontro de experiências, nem me desfocar dessa noção de dispositivo, desse aspecto processual e transversal a ser efetuado. Desse modo, apoiei-me nessas noções relacionadas para reafirmar o papel de intervenção, político e ético do pesquisador dessa linha: estar em contato e implicado, sendo produzido e produzindo modos de subjetivação.

Lourau (1993, p. 29) admite que Georges Lapassade fez reaparecer o que estava ocultado nas análises de grupo. De fato, essa coisa oculta era a instituição

[...] que faz, cria, molda, forma e é o grupo [...] O sentido do termo intervenção quando circunscrito à realidade dos grupos é a que chamamos de campo de intervenção. [...] O nosso modelo de análise de grupo se funda na compreensão de alguma coisa que é invisível e terrivelmente presente no grupo, como um espectro; isto é, a instituição. (LOURAU, 1993, p. 29).

De outro modo, a implicação inclui a análise do sistema de lugares ocupados ou que se busca ocupar e os riscos decorrentes dos caminhos em construção. A análise das implicações com as instituições em jogo nas intervenções visa romper as barreiras entre sujeito-conhecedor e objeto a se conhecer. (AGUIAR; ROCHA, 2007).

Após a aprovação do Comitê de Ética em Pesquisa da Universidade Federal do Ceará (UFC), conforme Resolução 196/96 do Conselho Nacional de Saúde (BRASIL, 1998), realizamos 05 encontros para a realização dos grupos de discussão. Em nosso primeiro encontro, em decorrência de atrasos e de mais uma vez necessitar explicar a pesquisa e o plano de trabalho, foi feito o preenchimento do Termo Consentimento Livre e Esclarecido (APÊNDICE).

Optei por tempo de lesões acima de 05 anos pelo fato de que a fase mais aguda, conhecida como choque medular, já tem passado, assim como já se dá a inserção da fase de ajustamento mais amadurecida, também considerada nesse momento como fase adaptativa (GREVE; CASALIS; BARROS FILHO, 2001; KIRSHBLUM; DELISA; CAMPAGNOLO, 2002; TRIESCHMANN, 1988).

Subsequente ao aceite de 07 (sete) sujeitos, foi formalizado o acordo dos encontros a partir da semana seguinte, em uma hora antes do início do treino deles, ao início da tarde. Caso houvesse necessidade de mais tempo, tanto os sujeitos quanto os educadores físicos estavam cientes e acataram a decisão de todo o grupo, para que não houvesse comprometimento com suas atividades. Como dito, a associação não possui sede própria, então, combinamos de nos encontrar na quadra onde treinavam. Todos os encontros foram gravados em áudio e vídeo, com o auxílio de uma acadêmica de educação física, minha irmã, que foi convidada para as gravações, enquanto eu articulava e moderava as discussões.

Efetivamente, no entanto, participaram 06 (sujeitos) do sexo masculino. Quanto à descrição do grupo, todos apresentam paraplegia, apenas 01 de causa não-traumática (mielite transversa). As outras causas: acidentes automobilísticos ou quedas. Média de tempo de lesão: 9,5 anos (de 06 a 16 anos). Quanto à faixa etária, entre 24 e 44 anos de idade. Nível de

escolaridade: 02 (dois) possuem o ensino médio completo, o restante, ensino fundamental incompleto. A respeito do estado civil, 03 casados e 03 solteiros. Quanto à ocupação atual, 03 (três) declararam trabalhar, todos com negócios próprios. Com relação à questão previdenciária, quatro (04) são aposentados e os outros recebem benefício de auxílio-doença do Instituto Nacional de Seguridade Social (INSS).

O segundo encontro começou na hora prevista e foi utilizado como disparador da discussão um conjunto de palavras (enunciados) que remetiam/remetem ao cotidiano da experiência em lesão medular e da prática discursiva da reabilitação. Além disso, algumas cartelas foram deixadas em branco sobre uma mesa, caso eles quisessem acrescer algo. Os participantes foram orientados a selecionar aquela palavra que em seu entender lhe dizia respeito, concernindo à vida com lesão medular. As palavras (advindas de enunciados da prática em reabilitação) foram: deficiência, eficiência, incapacidade, imobilidade, acessibilidade, cadeirante, paralisia, autonomia, independência, reabilitação, adaptação, habilitação, mudança, sexualidade, construção, invenção, superação.

A partir disso, falou-se sobre a lesão medular, suas dificuldades e outras questões referentes ao corpo modificado, de onde veio de alguns participantes a pontuação sobre a sexualidade, que em comum acordo, foi inserida como temática de discussão.

A seleção de tais enunciados tem a ver com a minha própria experiência em cuidados na reabilitação, uma vez que eles são alguns da multiplicidade encontrada, fomentada, dispersa na prática discursiva que denomino neste trabalho de reabilitação. E ainda, como afirma FISCHER (2001, p. 214): “o próprio recorte feito pelo pesquisador é também um ‘fato de discurso e, como tal, introduz mais um dado que amplia e dinamiza o que por definição é já heterogêneo.”

Para o terceiro encontro em que todos estiveram presentes, a discussão pautou-se sobre os diversos discursos da deficiência física. Como estratégia inicial, havia pedido a tarefa ao grupo no encontro anterior que trouxesse trechos de jornal, notícias, revistas, filmes, imagens referentes à deficiência. Infelizmente, nenhum participante trouxe qualquer material, entretanto, quando estimulados a falarem sobre a deficiência física e como ela é vista e dita por diversos meios, um deles iniciou contando de sua experiência quando leu uma biografia

sobre um outro sujeito com lesão medular, o livro Minha profissão é andar, de João Carlos Pecci.

Iniciada a discussão, emergiram termos que me despertaram a argui-los sobre suas proveniências, origens, porquês. Para melhor elucidar, trouxe enunciados presentes em alguns excertos da lei n. 8213/91, que aborda tanto o benefício de auxílio-doença e da aposentadoria. Então, suscitaram-se questões como discriminação, dificuldades, acessibilidade, perícias médicas.

Nesse encontro também expus diversas imagens de corpos com alterações, com órteses, corpos de pessoas ditas no “padrão” de beleza, corpos malhados, sujeitos emblemáticos que sofreram também lesão medular, como o ator Christopher Reeve, o músico Herbert Viana, dentre outras. Nesse momento, a discussão girou em torno mais uma vez do corpo eficiente e padronizado e da deficiência física.

No quarto encontro, em virtude de o tempo ter sido curto no encontro anterior e a percepção de que a discussão renderia mais, trouxe à cena o posicionamento da mídia com relação à deficiência física. Falaram de novelas, documentários e dos jogos paraolímpicos. Emergiram algumas questões como o dia-a-dia da pessoa com lesão medular ser exposto, reportagens explicativas, divulgação das práticas desportivas, e mais uma vez acessibilidade, dificuldades, trabalho, lei de cotas, qualificação profissional, políticas públicas.

O segundo momento, como previamente combinado, abordei a sexualidade, a qual rendeu uma discussão interessante, em que as questões do corpo, do novo jogo erótico após a lesão, dos receios e da desinformação acerca do tema, dos relacionamentos, da vida conjugal.

O quinto encontro ficou marcado por temáticas que envolviam as noções de autonomia, do esporte, da construção de si após a lesão. Como proposta, apresentei alguns vídeos sobre atletas, sobre o corpo do atleta, sobre o que a mídia e as campanhas chamam e consideram “superação”. Discutiram sobre o esporte, sobre a divulgação, patrocínios ausentes ou insuficientes, sobre paraolimpíadas, sobre mídia. Por fim, expus um trecho do filme Mar Adentro, constando a cena do voo onírico, apresentado na introdução deste trabalho.

Em seguida, solicitei que desenhassem ou escrevessem sobre a visão que tinham de si na atualidade, após esses anos todos com sequelas da lesão. Após apresentarem suas descrições, discutimos sobre elas e, por fim, despedi-me e agradeci ao grupo, que cobrou um

momento para que eles pudessem ver o vídeo. Expliquei que esse momento já estava proposto e previsto e que fazia parte de nossa perspectiva de trabalho como restituição.