A. Yükseköğretimin Getirileri
1. Özel getiriler
O enunciado normal já emergido algumas vezes aqui será analisado em subcapítulo específico. Quanto ao enunciado cadeirante, farei uma análise na sequência, visto que ela estará mais recorrente e melhor posicionada para o recorte a ser feito. Discutimos em um de nossos grupos sobre a questão da deficiência física e os variados discursos que a constituem. A seguir, recomponho um extrato da discussão que, a meu ver, é necessário e relevante para a discussão e análise que se seguirá, por isso a opção por um período mais longo.
Pesquisador (P): E hoje, a gente vai falar principalmente sobre a questão desses variados discursos que são, que falam de quem tem lesão na medula: a mídia, a medicina, a justiça, a previdência. Todos eles falam de uma forma própria e até similar da lesão medular e já caracterizando como uma deficiência. [...] Aí, vamos lá voltar a duas coisas interessantes, foram dois termos que a gente começou a discutir, um que eu já falei no início que seria a palavra deficiente e a outra que você A. acabou de falar que é a palavra cadeirante. A deficiência, como é que vocês lidam com a deficiência, de onde vem esse nome deficiência, o que ele quer dizer? E lembrando a todos vocês que precisam para benefícios, passe livre são caracterizados como deficiente físico. O que vocês pensam sobre isso, ser denominado deficiente, não é uma coisa apenas de alguém, mas a justiça, a medicina, a previdência usam?
S: Já tá até mudando o nome né? Não tão usando tanto esse nome, mas portador de deficiência. [...] eu acho assim deficiente é que nem tem as variações né, auditivo, visual, eu acho que um termo assim que a pessoa tem que usar por partes cada caso, porque quando você fala de deficiência não engloba tudo, porque, tipo assim, que nem tu (aponta para mim) usa óculos e é um tipo de deficiência, mas que nem e tão vista como nos, mas se duvidar tem mais gente que usa óculos do que cadeirantes.
C: Mas o preconceito é maior com os cadeirantes. Eu acho assim a palavra deficiente é muito negativa, porque você tá falando com uma pessoa que às vezes, até uma menina mesmo, você tá dentro do carro, aí ela tá lhe vendo ali como uma pessoa normal, ai aceita até sair contigo, mas aí quando tu diz que é deficiente parece que o mundo caiu sobre a cabeça dela. [...] eu acho que ela não vê a nossa capacidade!
P: Você teve uma lesão, você se chamaria de deficiente? Inclusive no esporte que vocês praticam é chamado de deficiente, a associação se chama desportiva dos deficientes.
S: É um termo que pegou, mas vem mudando. C: É uma palavra formada!
A: Eu não sei o que é deficiência! Eu não sei, pra mim eu não me vejo assim, eu não encontro uma explicação pra essa palavra.
P: Você tem beneficio?(de auxílio-doença). A: Tenho.
P: Lá no beneficio, no INSS, você precisa fazer perícias, não é? A: Eu fiz uma só!
P: Mas, lá, eles pediram algo que comprovasse, um laudo, que é um laudo médico, esse laudo médico explica tudo o que você tem, e mesmo assim é caracterizada num conjunto de termos médicos e legais como deficiência.
A: Porque não portador de uma lesão? Outro dia um cara tava entrando na porta traseira do ônibus e gritou pro motorista pra abrir a porta que tinha um deficiente pra entrar! Ai o motorista veio, abriu, eu subi. Depois o cara foi falar comigo pra me pedir desculpa por ter me chamado de deficiente porque ele disse que não tinha encontrado outro termo! Ai, eu, tudo bem!
P: A deficiência foi construída na historia. Exemplo como chamavam o sujeito deficiente? Paralítico, vamos lá, outros termos.
C: Aleijado. S: Coxo. V: Manco.
P: cadeirante. [...] vamos falar sobre esse termo! Ele não tem origem, parece um provérbio popular. A deficiência, ela tem uma origem por base médica, legal, medico-legal, depois tem toda uma questão jurídica, e o cadeirante a gente sempre ouve e foi uma das palavras que eu escutei aqui no primeiro dia!
A: Eu acho mais simpático [...] porque não pesa tanto é como se fosse uma pessoa que anda de cadeira!
P: Você então traduz cadeirante aquele que anda de cadeira! S: Pessoa normal que anda de cadeira!
V: Moletante!
S: A mesma coisa cadeirante eu acho mais legal! Especifica! [...] especifica aquele que anda de cadeira! [...]: é uma continuação minha pra se locomover! Faz parte de mim!
P: Você acha que ela faz parte de ti?
A: Sim, apenas como meio de locomoção, isso não quer dizer que está me diminuindo como deficiente!
S: Porque fora da cadeira você também faz muitas coisas, lógico que eu não vou andar 10km me arrastando, mas nós somos capaz de subir uma escada, de fazer outras coisas entende, uma cadeira é como uma locomoção pra gente!
A: Deficiente é o preconceito já tá no adulto, porque várias crianças já me pararam e disseram: porque você tá na cadeira? Tá dodói? Quebrou a perna? Uma pergunta diferente né, não tem aquele preconceito pois é.
S: É mesmo criança é diferente!
C: Eu acho também que a cadeira é um acessório é uma parte intima do corpo da gente. S: Impacto! Se você tá numa cadeira pesadona é uma coisa e colocar numa coisa mais bonitinha já da uma diferença! Ora anda num fusca e anda numa Ferrari! (risos).
L: Você usa bengalas acho que do grupo e o único, não? V: Sim.
L: Então você já ouviu falar o termo moletante. V: Sim.
L: Já foi tratado assim? V: No meio esportivo, sim!
A: É um termo pra diferenciar entre a gente, por exemplo, eu sou cadeirante ele é moletante! Entendeu?
O trecho anterior é elucidativo com relação a algumas questões que são necessárias enfatizar: 1) o posicionamento múltiplo e as funções possíveis do sujeito dentro do discurso; 2) uma frase é relacionável a algo que é o enunciado; 3) os discursos são acontecimentos que têm um lugar, relação, acúmulo e dispersão (FOUCAULT, 1997, 2004b).
A tensão que propus na discussão recém-descrita visou problematizar o próprio discurso sobre deficiência dos sujeitos com lesão, que inevitavelmente estão circunscritos a essa prática, como já afirmei. Fiz questão de trazer as 03 condutas da análise de Foucault, porque por meio delas, irei assentar a minha estratégia analítica e minha posição como sujeito imbricado na mesma prática que problematizo.
Não é o termo deficiente em si, mas como o sujeito se posiciona e se constitui por meio dele, retomando-o, dispersando-o, refutando-o, comentando-o. Então, mesmo que eles falem de mudanças de termos como portador de deficiência ou de lesão, como propuseram alguns sujeitos do grupo, eles parecem não se distanciar, negar ou escapar da produção discursiva que não é unitária, tampouco tem uma origem ou uma data específica.
Não é o fato de eles se posicionarem como “eficientes”, capazes de várias atividades, independentes em suas vidas, imaginarem “mais simpático” outro termo como “cadeirante”, o que analiso é que a deficiência não desaparece, não sucumbe, nem seus enunciados deixam de comprovar a atuação prática discursiva que já se efetivou em seus próprios discursos e vidas.
Quando falo sobre o nome da associação de que participam, sobre o laudo médico, sobre a justiça e a previdência, tento aproximar-me da ideia de Foucault de materialidade discursiva, não somente por leis, escritos ou relatos, mas, essencialmente, não constituição das subjetividades desses indivíduos. Não cabe interrogar a deficiência como coisa, como uma verdade universal; suas arestas não podem exceder os discursos (médico, político-econômico, neoliberal, previdenciário, jurídico) de sua existência. Está circunscrita a tais instituições, pois seu discurso é distribuído e reiterado por meio dessas.
[...] os sujeitos-deficientes, ainda que possam ou desejem recusar uma posição de passividade ante as denominações legais, os diagnósticos e classificações médicas, necessitam de tais medidas legais e seus desdobramentos para usufruírem de direitos a que, em tese, fazem jus e por eles devem lutar.
Em suma, pela discussão e pela experiência laborativa, percebo que o sujeito se posiciona com relação à deficiência ou ao ser denominado pelo enunciado deficiente: 1) usando o termo para si e para outro no próprio discurso, nos espaços que ocupam, nas identificações; 2) necessitando dele como comprovação médica para acesso a políticas públicas e outros direitos; 3) avaliando ou condicionando a deficiência como algo advindo do olhar do outro, da sociedade, alheia a si (a deficiência não sou eu, não é minha, a deficiência está lá fora); 4) atribuindo a deficiência como termo advindo de terceiros e que se dispersa com a diversidade de olhares (adultos enxergam a deficiência, crianças os olham com curiosidade); 5) praticando um termo formado e que deve ser substituído por outro, uma vez que não se trata de uma prática, mas só de terminologia ou valoração de sua condição de diferente; 6) substituindo-o por outros termos (enunciados), como cadeirante, mais usualmente disperso e menos carregado da visão preconceituosa sobre seus corpos e vidas, o que os circunscreve em novas facetas das práticas discursivas. Por fim, com a cadeira de rodas se veem e se posicionam como pessoas normais.
Na prática, “cadeirante” é utilizado em diversos contextos (hospitais, profissionais de saúde, nos centros de reabilitação, na mídia, nas atividades desportivas, nas políticas públicas e nas associações para deficientes) e parece se inscrever como um termo mais validado, menos obsedante, posto que menos preconceituoso.
Aqui, a noção da perda de movimentos, da mudança corporal é transmudada ou remetida a essa fusão ou possível hibridização de um sujeito com um corpo alterado e acoplado/associado ao seu meio de locomoção. Seja a própria cadeira de uso diário, a cadeira esportiva, adaptada para manobras e mais habilidade dentro de quadras, ou o uso de órteses para facilitar também esse locomover-se.
Seguindo esse fluxo, mais uma vez a enunciação da normalidade é reiterada nas discussões, principalmente, quando os sujeitos se referem ao termo normal, o que se tornou patente nos depoimentos e sobre isso discorrerei em seguida.