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Atentando ao fato da dificuldade de reunir sujeitos com lesão medular, mesmo aqueles com quem mantive contato, optei pelo atalho que julguei ser mais producente e mais

6 O Programa Bolsa Atleta do Ministério dos Esportes visa: “Garantir uma manutenção pessoal mínima aos atletas de alto rendimento, buscando dar condições para que se dediquem ao treinamento esportivo e a participação em competições visando o desenvolvimento pleno de sua carreira esportiva [...] investir prioritariamente nos esportes olímpicos e paraolímpicos, para formar, manter e renovar periodicamente gerações de atletas com potencial para representar o País nos Jogos Olímpicos e Paraolímpicos. Como pré- requisitos: Maior de 14 anos. Estar vinculado a uma entidade de prática desportiva (clube). Ter filiação à Entidade de Administração de sua modalidade, tanto Estadual (Federação) como Nacional (Confederação). A Bolsa tem o prazo de 1 ano.” (BRASIL, 2004). No Ceará, “O programa disponibiliza, mensalmente, com duração de 1 (um) ano, 30 bolsas categoria nacional, no valor de R$ 400 (quatrocentos reais), e 20 bolsas categoria internacional no valor de R$ 600 (seiscentos reais). [...] Categoria Nacional: atleta classificado entre os 3 (três) primeiros lugares no Campeonato Brasileiro de sua modalidade esportiva; 2.Categoria Internacional: Atleta classificado entre os 3 (três) primeiros lugares em campeonatos sul-americanos, pan- americanos ou mundiais de sua modalidade esportiva. (CEARÁ, 2008).

fácil: a associação de pacientes (um grupo já formado). Em Fortaleza, as duas maiores associações para deficientes são: a ADM-CE e a ADDECE. Ambas têm seu trabalho, principalmente, focado nas práticas desportivas, como forma de “inclusão” e “socialização”. Previamente, conhecia a atuação desportiva das associações, assisti a alguns jogos das equipes formadas, sabia de sujeitos destacando-se como atletas medalhistas, porém, nenhum conhecimento maior sobre seus históricos e suas outras “atuações”. Como meu contato, o referido ex-paciente, me indicou a ADDECE, esta se tornou a via de acesso escolhida.

A ADDECE, criada em 2009, adveio da ideia de um educador físico, atual representante e treinador da equipe, a partir de sua prática de desporto com sujeitos com deficiência física, que objetivava a inclusão social, atividade física como prática lúdica e terapêutica e participação em competições, uma vez que alguns sujeitos passaram a se destacar nesse aspecto, principalmente, no basquetebol, esporte praticado atualmente pelos associados.

É considerada “uma entidade sem fins lucrativos que promove o desenvolvimento de pessoas com deficiências por meio de práticas esportivas adaptadas, facilitando o processo de resgate da autoestima, integração e inclusão social.” (ADDECE, 2009, p. 1). Dentre as suas propostas de trabalho, destacam-se:

[...] a inclusão e a socialização dos portadores de deficiência por intermédio da prática de atividades físicas, resgatando assim o cidadão para o convívio social. Montar uma equipe de basquete em cadeira de rodas, masculino e feminino, uma vez que este é o esporte coletivo mais praticado por deficientes. (ADDECE, 2009, p.1)

Fundamentado nisso, o educador físico, com sua experiência e contatos, fundou a associação em janeiro de 2009, tendo à frente como presidência e vice-presidência dois associados. Apesar da ideia, da sede e da fundação já elaboradas, a associação não dispunha de local para os treinos, logo, fez-se uma parceria com uma faculdade privada de Fortaleza, onde são realizados os treinos que são realizados às segundas, quartas e sextas-feiras, de 14h às 16h. Do grupo participam, além dos dois educadores físicos, 15 associados/atletas, com outros tipos de deficiência física além da lesão medular, como amputados, sujeitos com sequela de poliomielite.

Cabe ressaltar que a parceria com a referida faculdade consta de uma via de duplo sentido. Enquanto é oferecido o espaço, o ginásio esportivo para os treinos, os próprios

treinos constituem-se como local de estágio para os estudantes de educação física. O próprio treinador acompanha tais atividades e relata que a equipe já participou de outras pesquisas, como pude comprovar em um de nossos encontros. Alguns estudantes aguardavam o término de meu grupo de discussão para realizar entrevistas com aqueles mesmos sujeitos. “Estamos importantes”, disse-me um deles.

Na atualidade, a associação não conta com nenhum patrocínio, mas com o apoio da Confederação Brasileira de Basquete sobre Rodas, no que diz respeito à inscrição de eventos e o pagamento de alimentação e transporte nos locais-sede das competições, isso por meio de uma anuidade menos onerosa para todo o grupo. Com relação ao transporte, em geral, a associação conta com o apoio financeiro da Secretaria de Esportes do Ceará.

Em conversa com o treinador principal, ele enumerou algumas dificuldades: manutenção das cadeiras de rodas adaptadas, adquiridas por doação da Secretária de Esportes do Estado há mais de 04 anos; falta de patrocínio com empresas privadas; escassa quantidade de bolsa-atleta (desde a fundação, apenas 4 atletas foram beneficiados com a bolsa).

Como medidas de confrontamento a essas situações, ele afirmou que expõe a sua equipe a necessidade de cada um tentar, na medida do possível, custear com algum auxílio para essa manutenção de cadeiras (câmara de ar, lubrificantes, assentos, rolamentos), que, para todos, é considerado uma questão relevante. Ademais, relatou que são realizadas rifas para esse fim, que quando há apresentações em escolas, costumam vender canetas com o nome da associação e acrescentou que há um projeto chamado “Pedágio” a ser realizado no mês em se escreve esse texto. Esse projeto visa realizar uma promoção do nome da associação e levantamento de custos por meio de venda de canetas e adesivos.

Ainda assim, foi-me acrescentado que serão feitas novas investidas com empresas privadas, que já possuem um trabalho de cunho social, além de novas solicitações de apoio junto à secretaria de esportes.

Do que pude ver, além do que é feito nos treinos, sempre com uma conversa preliminar sobre competições e projetos, o cotidiano dos sujeitos daquele grupo, naquele espaço do treinamento desportivo, constitui-se em realizar manutenção prévia das cadeiras, alongar músculos e praticar “cestas”. Em seguida, são divididos em subequipes e se confrontam, da dando sequência ao treino propriamente dito.

Em meu entender a experiência do grupo propiciou não somente a interlocução ou tornou-se o meio instrumental para constituir o corpus da pesquisa. O grupo permitiu desestabilizar ainda mais verdades legitimadas, saberes doutrinadores e problematizar um objeto, que amplamente julgava eu conhecer desde o início, não obstante meu espaço e trajetória laboral. Esse o meu traçado, essa a minha estratégia. Ali estava o terreno, faltava-me perscrutá-lo e “lançar-me de assalto”.