2.9. YÖNETĐMDE DEĞERLER
2.9.2. YÖNETĐM DEONTOLOJĐSĐ
Para entender como os meios de comunicação de massa operam para eliciar emoções e impactar na formação de crenças e do mapa cognitivo do sujeito, tendo em vista as interfaces até aqui estabelecidas que sugerem a existência de uma “retórica do
medo”, identificar no discurso midiático operadores retóricos que possam eliciar tal emoção, bem como as categorias em que ela ocorre, nos leva inevitavelmente a optar pela metodologia de análise de discurso para tal fim (ORLANDI, 1990).
Segundo Manhães (2012), tal metodologia permite a desconstrução de um texto em discursos, de forma a desmontar para perceber como foi montado.
A desconstrução leva-nos, assim, a identificar a pessoa que ocupa a posição de sujeito da ação. Quem fala? Que posição ocupa diante do interlocutor? Pragmaticamente, o que objetiva? Está pedindo ou está ordenando? Oque ele está fazendo com as palavras? (MANHÃES, 2012, p.312).
Como estamos em busca de indícios que evidenciem uma “retórica do medo”, cujas categorias estabelecemos numa interface entre os conceitos estudados e os estratagemas de sedução de Ferrés (1998), por óbvio estamos em busca dos atos de fala locutórios, que são as estruturas lógicas carregadas das intenções do autor, ilocutórios, que se relacionam ao contexto, e dos perlocutórios, relacionado à performance, como explica Manhães.
Se os atos locutórios acontecem sempre em situações sociais concretas e a interação do locutor/receptor é uma ação simbólica e social, a emissão de uma proposição linguística tem o sentido semântico interfaciado por intenções políticas, ideológicas, religiosas e pessoais. Porque se comunica, o sujeito, concomitantemente, realiza uma performance, representa papéis sociais, realiza atos perlocutórios (MANHÃES, 2012, p. 313).
Convergindo a uma das hipóteses desta pesquisa, de que existe um fundo ideológico por trás da predileção midiática pela violência e pela consequente eliciação do medo, em especial nos construtos simbólicos do jornalismo, Benetti (2016) lembra salutarmente que toda discursividade ocorre da interação entre sujeitos, e que, portanto, é carregada de sentidos compartilhados. Para a autora,
Não existe um sentido literal residindo no texto. Existe uma materialidade textual que carrega sentidos potenciais, e os sentidos são produzidos na relação intersubjetiva. Há tantas possibilidades de leituras de um texto porque este é sempre feito de “falhas” e “equívocos”. A linguagem não é transparente, e sim opaca, pois seu funcionamento não é evidente para os sujeitos que a utilizam. Ao contrário, seu funcionamento é profundamente complexo, ideológico e enraizado na história – uma história que é de conflito, luta, divergência e dominação, e tudo isso constrói a linguagem e as significações (BENETTI, 2016, p. 239).
O Registro Emocional por Construto Simbólico utilizado nos experimentos de campo da pesquisa de recepção possibilitou que se estabelecesse um corpus de análise dentro destes critérios. Foram fornecidas nos relatórios anotações indicando matérias e reportagens consumidas pelo período de 14 dias, em dois momentos distintos. Os voluntários também forneceram registros de auto-observação sobre emoções predominantes atribuídas aos construtos simbólicos considerados mais significativos por eles. Estes registros foram transpostos para uma tabela única anexada a esta pesquisa no Apêndice E.
Dos 609 registros fornecidos pelos voluntários participantes, 228 relacionaram as notícias consumidas a uma experiência emocional positiva, representada pela alegria. Os outros 381 registros atribuíram as notícias consumidas a vivências emocionais consideradas mais negativas, como o medo (150), a raiva (122) e a tristeza (114). Outros seis construtos simbólicos foram classificados como significativos pelos participantes, mas aos quais não foi atribuída qualquer emoção, sendo classificados por eles como “indiferentes” (Apêndice E).
A constituição do corpus da pesquisa, ou seja, a definição do conjunto de produtos midiáticos a serem analisados, foi realizada de maneira a obedecer às regras da exaustividade – que exige a consideração, nos períodos escolhidos, de todos os construtos relativos ao assunto pesquisado –; e de pertinência, que exige adequação dos documentos aos objetivos da pesquisa (MANHÃES, 2012). Também se observou critérios de sincronicidade e homogeneidade, conforme especifica Benetti:
Por sincronicidade, entende-se que os materiais devem ser coletados dentro de um ciclo de tempo determinado. [...] Por homogeneidade, entende-se que os materiais devem pertencer preferencialmente a um mesmo meio ou suporte e que não se devem misturar textos individuais e coletivos (BENETTI, 2016, p. 246).
Como a intenção é entender os construtos simbólicos que eliciam prioritariamente o medo, foram selecionadas as cinco notícias entre as mais citadas pelos participantes da pesquisa como ativadoras do medo. Este recorte evidenciou três notícias de Zero Hora e duas notícias do Correio do Povo, conforme Quadro 5.
QUADRO 5 - Notícias que mais eliciaram medo em receptores
Grupo Fichas Data Manchete / assunto Emoção eliciada Veículo
G2 27, 32, 36 22/03/2016 Explosões em aeroporto e metrô de Bruxelas matam 26 e ferem dezenas Medo ZH G2 27, 31, 36 23/03/2016
Desemprego volta a subir e atinge 8,2%,
indica IBGE Preocupação/Medo CP
G2 14, 23, 27 29/03/2016 Homem é executado no hospital Cristo Redentor Preocupação/Medo ZH G2 23, 27, 32 01/04/2016 Porto Alegre e Viamão tem primeiros casos de gripe A Preocupação/Medo ZH
G3 51, 53 12/06/2016
Massacre em Orlando coloca terror e controle de armas na agenda das
eleições Medo CP
FONTE: Elaborado pelo autor a partir dos registros do Apêndice G.
O tamanho do corpus foi suficiente para identificar que elementos específicos dos construtos simbólicos serviram como gatilhos indutores do medo. Também permitiu uma análise de sentidos, que busca enxergar a existência de duas camadas, uma discursiva e outra ideológica no discurso; bem como uma análise de estruturação, onde foi possível avaliar como os estratagemas retóricos foram organizados (BENETTI, 2016).
Por fim, ao propormos uma análise da retórica do medo no discurso midiático à luz do Pensamento Sistêmico e dos outros pressupostos teóricos explorados, encontramos respaldo na análise de discurso para entender as intenções dos emissores, bem como suas diretrizes ideológicas que resultaram em efeitos emocionais específicos.