2.9. YÖNETĐMDE DEĞERLER
2.9.5. OKUL YÖNETĐMĐNDE DEĞERLER
A primeira notícia a ser analisada foi veiculada no portal ZH Digital47 no dia 22
de março de 2016. Com o título “Atentados do Estado Islâmico deixam pelo menos
31 mortos e mais de 200 feridos em Bruxelas”, o conteúdo hipermidiático48 foi
apontado como eliciador da emoção do medo por três dos participantes do Grupo 2 (Figura 38).
FIGURA 38 - Screenshot Atentados Bélgica
FONTE: ZH digital49
47 Disponível em <http://zh.clicrbs.com.br/rs/noticias/noticia/2016/03/atentados-do-estado-islamico-
deixam-pelo-menos-31-mortos-e-mais-de-200-feridos-em-bruxelas-5192668.html>. Acessado em 30 de junho de 2016.
48Que é produzido para um sistema de registro e exibição de informações informatizadas por meio de
computador, que permite acesso a determinados documentos (com textos, imagens estáticas ou em movimento, sons, softwares etc.)
49 Disponível em <http://zh.clicrbs.com.br/rs/noticias/noticia/2016/03/atentados-do-estado-islamico-
deixam-pelo-menos-31-mortos-e-mais-de-200-feridos-em-bruxelas-5192668.html>. Acessado em 30 de junho de 2016.
A construção lexical do título privilegia a violência e evidencia a autoria dos atentados, o que pode eliciar o medo (estratégia de fragmentação seletiva) ao mesmo tempo em que estabelece o enredo para evocar o arquetípico do herói (estratégia de hegemonia emotiva). Os números de mortos e feridos inicialmente provocam um distanciamento em relação às vítimas, ao mesmo tempo em que evoca o arquétipo do curador, iniciando processos empáticos associativos e dissociativos em relação aos personagens até então apresentados.
A linha de apoio “Explosões ocorreram no aeroporto internacional e em uma
estação de metrô da cidade, quatro dias após a prisão de mentor de ataques em
Paris”, localizada entre o título e a primeira foto, deixa implícito que as explosões em
Bruxelas podem estar relacionadas à prisão do suposto mentor dos atentados ocorridos na França, caracterizando o metamodelo de Causa e Efeito (estratégia de transferência globalizadora), onde não fica especificado “como” a primeira ação se relaciona com a segunda.
Na composição fotográfica que acompanha as frases iniciais do construto uma das vítimas “ganha rosto” ao ser colocada sobre uma maca por paramédicos, o que caracteriza a ativação de circuitos empáticos (estratégia de adormecimento da racionalidade).
O lead que abre o texto repete informações das chamadas iniciais e detalha as localizações das explosões, informando ainda que o Estado Islâmico reivindicou os ataques, conforme mostra o trecho a seguir, retirado de ZH Digital.
Duas explosões no aeroporto internacional de Bruxelas e uma terceira na estação de metrô Maelbeek deixaram, na manhã desta terça-feira, pelo menos 31 mortos e mais de 200 feridos. O Estado Islâmico reivindicou os ataques. Não há confirmação de brasileiros entre as vítimas fatais. No entanto, o ex- jogador de basquete belga-brasileiro Sebastien Bellin está entre os feridos do atentado no aeroporto.
A sequência do lead chama a atenção para a possibilidade da existência de brasileiros entre as vítimas, aumentando a associação empática entre brasileiros e belgas. Ao identificar o belga-brasileiro Sebatien Bellin, as condições discursivas para a ativação de um “rosto empático” ficam ainda mais nítidas.
Os parágrafos seguintes são organizados em tópicos, antecedidos pelo subtítulo “O que se sabe até o momento”:
- As explosões foram por volta das 8h (4h em Brasília), e aconteceram quatro dias depois da prisão de Salah Abdeslam, peça-chave do planejamento dos atentados à casa de shows Bataclan e a outros pontos de Paris, em novembro. - O próprio Abdeslam informou o governo de que havia um ataque em preparação na Bélgica.
- Autoridades belgas fecharam o metrô, o aeroporto e o serviço de bondes e ônibus, assim como as principais estações ferroviárias de Bruxelas. Voos para a capital belga foram desviados.
A redundância das informações é acompanhada de argumentação clichê e metafórica como “peça-chave dos atentados” (estratégia de conforto interpretativo) que reforça a caracterização do ato terrorista. Nos parágrafos subsequentes, detalhes específicos são adicionados:
- Aconteceu uma pequena explosão e depois uma mais forte na altura do check-in. Todo o edifício tremeu, havia fumaça por todos os lados e pessoas jogadas no chão do terminal. Pedaços do teto caíram – afirmou a jornalista Teresa Küchler, do jornal sueco Svenska Dagbladet.
- O teto caiu, havia cheiro de pólvora – contou Jean Pierre Lebeau, um francês que havia chegado de Genebra.
Várias testemunhas afirmaram que ouviram tiros e gritos em árabe antes das explosões. Uma das detonações teria sido provocada por um homem-bomba, revelou o procurador federal da Bélgica, Frederic Van Leeuw.
Citações são consideradas modelos de indução por Milton Erickson por atribuírem percepções a terceiros e isentarem o construtor do discurso pelos recortes escolhidos. Este modelo cria a ilusão de isenção do falante (no caso, do jornalista que elaborou o texto) em relação ao que está sendo dito. O texto segue com um subtítulo que anuncia informações sobre o ocorrido no Metrô, local da terceira explosão.
NO METRÔ
Pouco depois, ocorreu pelo menos uma explosão na estação de metrô de Maelbeek, o bairro de Bruxelas onde ficam as instituições europeias. O ataque deixou "provavelmente 20 mortos e 106 feridos" no local, informou o prefeito da cidade, Yvan Mayeur, em coletiva de imprensa.
- A explosão foi muito violenta, a ponto de derrubar três muros em um estacionamento subterrâneo da estação – comentou um porta-voz dos bombeiros.
Um jornalista da AFP observou do lado de fora da estação 15 pessoas, com os rostos ensanguentados, recebendo atendimento médico. O ministro do Interior, Jan Jambon, elevou o alerta de ameaça terrorista no país ao nível máximo. A expressão “ocorreu pelo menos uma explosão” no primeiro parágrafo do bloco textual acima exposto deixa implícita a mensagem de que outras explosões podem ter ocorrido no local. A intencionalidade de eliciar o medo fica perceptível frente
a outras duas citações usadas para a construção do texto. Na primeira, atribuída a “um
porta-voz dos bombeiros”, a violência da explosão é dimensionada pelos estragos
que provocou em um estacionamento. Na segunda, “um jornalista da AFP”, também inespecífico, detalha “pessoas com os rostos ensanguentados”, evidenciando as estratégias de “fragmentação seletiva” por predileção à violência, e também de ativação da empatia e consequente “adormecimento da racionalidade”.
Nos blocos textuais subsequentes, o enredo arquetípico é acionado para que os “heróis” possam reagir ao ataque e proteger os inocentes, como mostram os parágrafos a seguir.
REFORÇO NA SEGURANÇA
As autoridades belgas fecharam o metrô, o aeroporto, o serviço de bondes e ônibus, assim como as principais estações ferroviárias da capital. A Comissão Europeia pediu aos funcionários que não compareçam ao trabalho ou permaneçam nos escritórios.
O centro de crise do governo belga solicitou aos moradores de Bruxelas que fiquem em casa. Ao mesmo tempo, as autoridades de vários países europeus reforçaram a segurança em seus aeroportos e fronteiras. Grã-Bretanha, França, Alemanha, Holanda e Dinamarca anunciaram a intensificação dos controles.
Além disso, a linha Eurostar, que liga Paris e Londres com Bruxelas por trem, suspendeu as viagens à capital belga.
Ao destacar as ações para proteger os cidadãos, o discurso reforça a identidade do lado heroico do enredo, na qual agrega aliados ao reproduzir falas de autoridades políticas internacionais e locais, como mostra o último trecho da matéria.
REAÇÕES POLÍTICAS
O presidente do Conselho Europeu, Donald Tusk, condenou os "ataques terroristas" em um comunicado. "Estou consternado com as bombas desta manhã em Zaventem e no distrito europeu em Bruxelas, que custaram a vida de várias pessoas inocentes e feriram muitas mais".
– É um ataque contra a Europa democrática. Jamais aceitaremos que terroristas agridam nossas sociedades abertas – comentou o primeiro-ministro sueco, Stefan Löfven.
CANCELAMENTOS
O treino da seleção belga previsto para esta terça-feira em Bruxelas foi cancelado, anunciou a Federação Belga de Futebol (URBSFA). A equipe se prepara para um amistoso no dia 29 de março contra Portugal. A Federação não confirmou se a partida será disputada ou não.
Além disso, a competição de ciclismo clássica A, na região de Flandres, prevista para quarta-feira em Waregem, ao norte do país, também foi cancelada.
– Temíamos um atentado terrorista e aconteceu – declarou o primeiro-ministro Charles Michel em uma entrevista coletiva, na qual pediu à população "tranquilidade e solidariedade".
O texto do construto simbólico de Zero Hora é entrecortado por fotografia e videográficos, que reproduzem o discurso em outras matrizes de linguagem, também passíveis de análise.
O maior dos três videográficos disponibilizados convida o internauta a “ver
como foram os atentados”, o que pode eliciar arquétipos e circuitos empáticos para
direcionamento da atenção à violência dos fatos.
No vídeo, uma música em tom dramático ativa outros canais de percepção do receptor. A retórica do medo se intercala agora entre as matrizes sonoras, visual e verbal. A frase “O Terror volta a assombrar a Europa” avança em movimento de zoom-in50 sobre uma tela preta (Figura 39), intensificando o clima de tensão. Na sequência, fotos de satélite da cidade também em movimentos de zoom-in e zoom-out localizam aos olhos do espectador os pontos onde as explosões ocorreram.
FIGURA 39 - Screenshot Videográfico do Terror em Bruxelas
FONTE: ZH digital51.
A narração de um locutor, ainda oculto, explica a cronologia das explosões, duas delas ocorridas em sequência dentro do aeroporto de Bruxelas, em áreas próximas ao embarque da empresa American Airlines. Imagens do aeroporto avariado se intercalam
50 Movimento de lente de câmera que causa sensação de aproximação do objeto.
51 Disponível em <http://zh.clicrbs.com.br/rs/noticias/noticia/2016/03/atentados-do-estado-islamico-
deixam-pelo-menos-31-mortos-e-mais-de-200-feridos-em-bruxelas-5192668.html>. Acessado em 30 de junho de 2016.
com imagens de celular que mostram pessoas fugindo de uma área em chamas. Letreiros em caixa alta acompanham imagens de pessoas em fuga para, novamente, informar que há dezenas de mortos e centenas de feridos (Figura 40).
FIGURA 40 - Screenshot Videográfico Mortos e Feridos
FONTE: ZH digital52.
A narrativa então volta para imagens de satélite para identificar o local de uma terceira explosão, desta vez na estação de Metrô de Maelbeek, em área próxima de onde estão sediadas representações da União Europeia. As imagens de satélite dão lugar a registros feitos por um celular do que seria o ponto da explosão em um dos trilhos subterrâneos que passam pela estação (Figura 41).
52 Disponível em <http://zh.clicrbs.com.br/rs/noticias/noticia/2016/03/atentados-do-estado-islamico-
deixam-pelo-menos-31-mortos-e-mais-de-200-feridos-em-bruxelas-5192668.html>. Acessado em 30 de junho de 2016.
FIGURA 41 - Screenshot Videográfico escuridão no metrô
FONTE: ZH digital53.
As imagens do metrô são substituídas por imagens de representantes do governo belga com semblantes que podem ser interpretados como de tensão e preocupação, como mostra a Figura 42.
FIGURA 42 - Screenshot Videográfico governo belga
FONTE: ZH digital54.
53 Idem
Na sequência, imagens de trânsito e de movimentação nas ruas de Bruxelas fornecem o cenário para que o locutor dê o significado de “alerta máximo” ao informar que o sistema de transporte público foi completamente paralisado e aos cidadãos foi recomendado que permanecessem em casa (Figura 43).
FIGURA 43 - Screenshot Videográfico ruas de Bruxelas
FONTE: ZH digital55.
A seguir, o locutor anuncia que, três horas depois das explosões, o grupo terrorista Estado Islâmico reivindicou a autoria dos atentados. A informação é acompanhada pela imagem do que parece ser um screenshot56 de um site com escritas em árabe. A incompreensão do que está escrito torna-se uma barreira para se estabelecer qualquer identificação com os reivindicadores da autoria dos atentados (Figura 44).
54 Idem
55 Idem
FIGURA 44 - Screenshot Videográfico site escrita árabe
FONTE: ZH digital57
A imagem então é substituída por imagens de bombeiros de Bruxelas em fusão com imagens dos locais atingidos. Créditos finais atribuem a locução a “Rodrigo
Lopes”, e o vídeo encerra.
As escolhas lexicais e a retórica do texto da narração merecem uma análise mais minuciosa. Por isto, a transcrição da locução segue abaixo na íntegra para posterior aferição.
Aeroporto Bruxelas-Zaventem, oito horas da manhã. Centenas de pessoas circulam pelo aeroporto internacional de Bruxelas. Oito horas e quinze minutos. Uma bomba explode na área de embarque próximo ao guichê da empresa American Airlines. Poucos segundos depois uma nova bomba é acionada a poucos metros dali, também dentro do terminal. Dezenas de pessoas morrem e outras centenas ficam feridas. O pânico toma conta. Em menos de dez minutos equipes de socorro chegam. O tráfego aéreo é interrompido e desviado para outras regiões. Estação de metrô Maelbeek. Nove horas da manhã. A nove quilômetros e meio de distância do aeroporto uma nova explosão ocorre. O local atingido é a estação de metrô Maelbeek, na região onde está sediada parte das representações da União Europeia. Logo após a explosão, centenas de pessoas tentam evacuar o local, e o desespero toma conta, mais uma vez. O terceiro ataque também deixa dezenas de pessoas mortas e outras centenas feridas. Alerta máximo. Nove horas e quinze minutos. Poucos minutos depois do terceiro ataque o governo belga eleva o alerta de terror para o nível máximo
57 Disponível em <http://zh.clicrbs.com.br/rs/noticias/noticia/2016/03/atentados-do-estado-islamico-
deixam-pelo-menos-31-mortos-e-mais-de-200-feridos-em-bruxelas-5192668.html>. Acessado em 30 de junho de 2016.
no país. O sistema de transporte público é paralisado em Bruxelas e autoridades pedem para moradores não saírem de casa. Tropas são enviadas para reforçar a segurança na capital belga. Poucas horas depois das explosões desta terça-feira, o grupo terrorista Estado Islâmico reivindica a autoria dos atentados.
A narração utiliza metamodelos de linguagem para compor o discurso. As generalizações “centenas”, “dezenas”, “poucos” e “muitos”, bastante usuais no jornalismo, caracterizam o que Bandler e Grinder (2012) chamaram de “quantificadores universais”. As generalizações, como já apontado, possuem um duplo viés: auxiliam na argumentação explicativa ao mesmo tempo em que ocultam características únicas, facilitando a formação de estereótipos e a indução de comportamentos.
As expressões “o pânico toma conta” e “o desespero toma conta” induzem o espectador a estados emotivos específicos por serem ao mesmo tempo metamodelos de “sujeito não especificado” (o pânico toma conta de quem?), “verbo não especificado” (de que maneira especificamente o desespero toma conta?), “substantivações” (quem está se desesperando? E de que maneira especificamente está fazendo isto?) e “leitura da mente” (como especificamente o repórter sabe o que as pessoas pensam ou sentem?). Estas expressões ainda caracterizam o modelo de indução de Milton Erickson chamado de “comando embutidos” por ordenar a ativação de um estado emocional.
Outro comando embutido é percebido na expressão “alerta máximo” (o que deixa implícito ao telespectador o comando de “fique em alerta”!).
A não especificação de ações nas sentenças “Uma bomba explode”, “centenas
de pessoas tentam evacuar o local”, “governo belga eleva o alerta”, “tropas são
enviadas para reforçar a segurança” e “grupo terrorista Estado Islâmico reivindica
a autoria” também caracterizam o metamodelo “verbos inespecíficos”, que possibilita o
questionamento “como especificamente cada uma destas ações ocorrem?”.
O fato de estas ações não serem especificadas permitem ao espectador preencher estas informações com a imaginação, porém sob efeitos de emoções induzidas pelos comandos de sentir desespero e pânico em profunda empatia com as vítimas dos atentados. Ao mesmo tempo, o espectador é induzido a se distanciar dos autores dos atentados. O Estado Islâmico é um grupo sem rosto, sem representação e de motivações não esclarecidas na construção simbólico-narrativa do vídeo.