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A quarta notícia a ser analisada foi publicada no site de Zero Hora em 1º de abril de 2016. Com o título “Porto Alegre e Viamão têm os primeiros casos de gripe A do

RS em 2016”, o construto de ZH evoca um ethos compartilhado ante a ameaça da gripe A. Na linha de apoio, a sentença “Estado deve começar a vacinação na rede

pública em 25 de abril” estabelece um enredo que evoca tanto o arquétipo do herói quanto o do curador, papeis estes atribuídos ao “Estado”, caracterizando a estratégia de “hegemonia emotiva”.

O primeiro parágrafo do texto evoca a memória compartilhada ao relembrar alguns eventos passados, como mostra o bloco textual a seguir.

Em 2009, o Rio Grande do Sul foi o primeiro Estado brasileiro a registrar uma morte em decorrência da gripe A, classificada à época como uma pandemia pela Organização Mundial da Saúde (OMS). Sete anos depois, a doença volta a circular pelo país em uma intensidade maior do que em 2015: já são 42 óbitos contra 30 registrados ao longo do ano passado. Os casos recentes ocorreram em São Paulo e Santa Catarina. Por aqui, dois casos de H1N1 já foram confirmados, um em Porto Alegre e outro em Viamão.

A classificação da Gripe A como “pandemia”, atribuída à OMS, dá o tom de gravidade que a doença representa, estabelecendo um ethos alarmista, de ruptura, o que se sabe, pode monopolizar a atenção pelo medo (DAMÁSIO, 2000). Dessa forma caracteriza a estratégia retórica de “fragmentação seletiva”.

A imagem que acompanha o texto reforça o enredo do curador ao mostrar, de forma implícita, uma pessoa sendo vacinada por alguém, onde nenhum dos personagens pode ser identificado, como mostra a Figura 47.

FIGURA 47 - Screenshot vacinação

FONTE: ZH digital61.

Na sequência, duas frases são destacadas como hiperlinks62. A primeira informa que “Clínicas particulares já oferecem vacina contra a gripe”, identificando outros personagens curadores. A segunda evoca mais uma vez o sentimento alarmista ao anunciar “Morre paciente com gripe A em Brusque (SC)”. O parágrafo subsequente

61 Disponível em < http://zh.clicrbs.com.br/rs/porto-alegre/noticia/2016/04/porto-alegre-e-viamao-tem-os-

primeiros-casos-de-gripe-a-do-rs-em-2016-5714586.html>. Acessado em 30 de junho de 2016.

elicia acionamentos empáticos ao identificar que um dos casos de Gripe A é referente a uma criança de três anos, como mostra o bloco textual abaixo.

Na sexta-feira, o secretário estadual da Saúde, João Gabbardo, comentou a situação. Um dos pacientes é uma criança de três anos, vacinada em 2015, e internada desde o último dia 23. Conforme Gabbardo, ela se recupera bem. Outra ocorrência é de um homem de 36 anos que não foi vacinado em 2015 e está internado desde o dia 18. Como é cardiopata, seu quadro inspira mais cuidados.

De olho no que ocorre em São Paulo e em Santa Catarina, onde foram registrados respectivamente 38 e quatro óbitos em decorrência da H1N1 neste ano, os órgãos de saúde estão atentos às notificações, que já somam 152: - Já estamos com mais atenção, como sempre fizemos, nos casos internados. Tradicionalmente, a circulação do vírus aqui começa em abril - destaca a diretora do Centro Vigilância em Saúde (CEVS), Marilina Bercini.

A estratégia retórica de “transferência globalizadora” fica caracterizada pelo uso do modelo de indução de “citações”, ao mesmo tempo em que outras soluções “curadoras” são adicionadas ao enredo arquetípico. A partir deste ponto do discurso, o clima inicial de ameaça começa a ser aparentemente desconstruído, como fica perceptível no bloco a seguir.

Embora tenha ganhado status de surto de H1N1 em São Paulo, a presidente da Sociedade Brasileira de Imunizações (SBIm), Isabella Ballalai, reforça a ideia da prevenção como a melhor forma de barrar a circulação dos vírus: - Há um número de casos acima da média do que se espera para março, mês em que tem pouca circulação do vírus. Por isso, reforçamos a orientação da prevenção. A gripe é sempre um problema com potencial de gravidade, embora não seja motivo para pânico.

O uso da expressão “embora não seja motivo de pânico”, no final do segundo parágrafo em análise, no entanto, volta a eliciar o medo pelo modelo de indução “comando negativo”, que parte do pressuposto da incompreensão do inconsciente da palavra não para jogar um comando subliminar capaz de evocar pânico. Os motivos causadores da Gripe A começam então a ser explicados no discurso, como mostram os parágrafos abaixo.

Diretamente relacionada às questões climatológicas, em especial à temperatura, a circulação dos vírus ocorre de forma cíclica e é impulsionada pela aglomeração de pessoas em ambientes fechados.

- Há estudos que mostram que fenômenos como o El Niño podem antecipar ou adiar a circulação de vírus como o Influenza - explica o professor da faculdade de Medicina da UFRGS e representante da Sociedade Brasileira de Imunização no Rio Grande do Sul, Ricardo Feijó.

Outro personagem “curador” é evocado pelo discurso para dar mais detalhes sobre o contexto de surgimento do vírus, o que contribui para novamente se desconstruir o clima emocional de ameaça. No entanto, um novo perigo é evocado pelo subtítulo “Olho na validade das vacinas”, o que deixa implícito que o vírus da Gripe A não é a única ameaça do enredo. Na sequência, diversas informações consideradas como de “serviço” deixam implícitos comandos para o leitor, como mostram os parágrafos a seguir.

Estava programado para sexta-feira, o começo da distribuição das vacinas contra a gripe A pelo Ministério da Saúde para os Estados. O governo estadual deve repassar as doses para os municípios que vão dar início à vacinação no próximo dia 25, antecipando em cinco dias a imunização nacional.

O público-alvo são crianças de seis meses a cinco anos, doentes crônicos, idosos com 60 anos ou mais, trabalhadores da saúde, povos indígenas, gestantes, mulheres com até 45 dias de pós-parto, presos e funcionários do sistema prisional. Ao todo, devem ser aplicadas 3.574.750 doses. Em 2015 foram 3.295.874 e houve registro de nove casos em decorrência da Influenza. Quem não estiver dentro dos grupos deve procurar a imunização particular. Ao contrário da dose oferecida pelo governo, as clínicas privadas, em sua maioria, oferecem a versão tetravalente da vacina, que contempla duas cepas de gripe A (H1N1 e H3N2) e duas cepas da gripe B. A versão trivalente, que contempla duas cepas da gripe A e uma da B, são produzidas em menor quantidade, diz Feijó, e por isso pode haver dificuldade em encontrá-las. Quanto mais cepas foram cobertas, maior a proteção, segundo a presidente da Sociedade Riograndense de Infectologia, Lessandra Michelin.

É importante lembrar que todas as vacinas que estão sendo aplicadas pelas clínicas devem ser atualizadas e contemplar as cepas definidas em setembro passado pela OMS.

Algumas clínicas particulares já operam com número limitado de vacinas por dia em função da alta procura. Ainda assim, Gabbardo diz que é importante que as pessoas solicitem a caixa da vacina, que deve dizer que se trata da dose 2016 para o Hemisfério Sul.

Em São Paulo, a população começou a ser vacinada na rede pública com a versão do ano passado apenas como medida de combate:

- Elas foram usadas como medida de bloqueio ao surto - esclarece Lessandra. Ela reforça que mesmo estas pessoas que já receberam a dose do ano anterior precisam retornar e se imunizar com a versão atualizada da vacina.

As sentenças “Ao todo, devem ser aplicadas 3.574.750 doses” e “Gabbardo diz que é importante que as pessoas solicitem a caixa da vacina” caracterizam o modelo de indução “comando embutido”, que consiste em colocar ordens ao inconsciente embutidas em construções frasais maiores. Ao determinar o público-alvo das vacinações gratuitas, o discurso deixa implícito quem deve procurar as vacinas pagas. Esta matéria, em particular, evidencia a relação direta da retórica do medo com a lógica da sociedade capitalista, referida por alguns autores utilizados nesta pesquisa.