Em geral, a revista chega a Cuba através de amigos, como transparecem as cartas, e a fazem circular entre outros conhecidos. Supõe-se que sua aquisição venha a ser por meio de viagens de amigos que chegam da Espanha, Estados Unidos, México, ou outro país até Cuba e entregam a publicação para os que residem na Ilha. A Encuentro de la Cultura Cubana pode ser acessada à Internet, mas as cartas não mencionam esta forma de acesso, informando se há alguma dificuldade em navegar pela Internet, em função da publicação ser considerada dissidente. Uma das formas de controle em Cuba, não só direcionado à revista, mas de um modo geral, quanto à comunicação on line, é a que se exerce por meio da cobrança de altas tarifas em seu uso, dificultando à maioria da população recorrer às informações através do contato virtual. Portanto, o uso da Internet em Cuba é restrito e controlado pelas autoridades do governo.
Mas, conforme os dados citados no segundo capítulo do portal cubaencuentro.com, em Cuba são duas mil assinaturas gratuitas que chegam aos universitários, acadêmicos de diversas áreas, à Igreja, aos funcionários estatais, ou seja, um público “formador de opinião” e “prováveis protagonistas de uma transição política”. A recepção das cartas confirma a expectativa de uma nova reflexão para o contexto atual. Quando adquirem a publicação, a reação dos leitores é de interesse em acompanhar o que se escreve sobre a cultura e a política cubana, porque se sentem sujeitos desta circunstância histórica, na qual um outro imaginário possa vislumbrar uma condição diferente para seu país. No volume dois, uma pequena carta de Havana escrita por Orlando Márquez Hidalgo, colaborador da revista, agradece a Encuentro de la Cultura Cubana por ter-lhe enviado o primeiro número. Como membro da Arquidiocese de Havana, certamente ele está
incluido no conjunto de assinaturas distribuidas gratuitamente. A carta de Orlando Márquez Hidalgo reflete um diálogo entre os discursos de transição veiculados pela revista e pela Igreja Católica dentro de Cuba. Ela retrata sua identificação com o que se apresenta na revista, uma discussão sintonizada com as necessidades “con los tiempos que vivimos”:
Sirva esta para manifestarles mi agradecimiento por haberme enviado el primer número de Encuentro, una buena publicación, a tono con los tiempos que vivimos. ORLANDO MÁRQUEZ HIDALGO (La Habana. vol.2, 1996, p.185)
Na carta de Flavio Garciandía, da cidade de Monterrey no México, mesmo que não esteja explicitada sua origem, deixa claro que foi em Cuba que adquiriu a revista e por meio de amigos:
Les envío un catálogo y con él una diapositiva para que la reproduzcan en Encuentro. La revista me parece más que buena; conseguí los dos primeros números en La Habana gracias a un amigo. Sólo me gustaría que me retribuyeran enviándome aquí los próximos números, que espero sean muchos. FLÁVIO GARCIANDÍA (México. vol. 4/5, 1997, p. 254)
O leitor Wilfredo Cancio, é colaborador da revista Encuentro de la Cultura Cubana, foi professor da Faculdade de Comunicação da Universidade de Havana. Atualmente ele reside em Miami onde leciona na Barry University. Por residir num território estigamtizado do exílio, Cancio revela por meio de sua carta o enfrentamento à dicotomia Cuba-Miami. Como leitor, Wilfredo Cancio escreve como os artigos da revista se tornam objeto de comunicação entre os cubanos e é criada a oportunidade de que se cruze o diálogo entre os amigos desta conexão Cuba – Miami e toda a simbologia que essa relação sugere sobre as polaridades ideológicas. A referida carta nos remete à reflexão do pequeno trecho onde o leitor aponta “los amigos de Miami y La Habana”, como um dado em que a condição de amigos se sobrepõe à barreira ideológica que tem separado Cuba e Miami. E as cartas cruzadas são indícios de uma vivência histórica que resiste à estereotomia política.
La gente la remite, conversa sobre los artículos aparecidos en ella y es tema de conversación entre los amigos de Miami y La Habana en sus cartas cruzadas. WILFREDO CANCIO (Miami. vol. 4/5,1997,p.255)
Da mesma maneira a carta de Albertina Garcia, de Havana, afirma como a leitura da Encuentro de la Cultura Cubana se espalha entre os cubanos em Havana, repassando-a de “mano en mano”:
Puedo asegurarles con absoluta certeza y conocimiento de causa que lo que más se ha leído en esta Habana este verano es el libro de Eliseo Alberto,
Informe contra mi mismo, y las revistas Encuentro. Y digo “las” revistas,
porque no sólo el número 3, sino los números 1 e 2 andan circulando de mano en mano, como “pan caliente”. ALBERTINA GARCÍA (La Habana. vol. 6/7, 1997, p.266)
O volume 6/7 traz uma carta também de Cuba em que o leitor se refere novamente a um amigo a forma pela qual leu a revista e ressalta sua qualidade poética e cultural na homenagem que a revista prestou a dois grandes expoentes da poesia cubana, Eliseo Diego e Gastón Baquero:
He leído, gracias a un amigo, el N° 3 de este Encontronazo poético y cultural que representa su revista. Encontrar ese pequeño homenaje a Eliseo Diego (ese grandísimo poeta nuestro) y también a Gastón —precisamente ahora—, que hace tan poco lo hemos perdido, envuelto en la nostalgia de los amigos, es sin dudas un elemento revelador, cargado de eternidad poética. La revista viene siendo como decimos los cubanos por acá: Un ajiaco con una sustancia exquisita”. GEOVANIS MANSO (Santa Clara, Cuba, vol.6/7, 1997, pg. 269)
O leitor Juan Antonio Molina, cubano residente na cidade de Pachuca, México, também mostra o impacto da recepção da revista numa carta enviada ao volume 8/9 de 1998, em que valoriza a estética material e cultural da publicação, disponibiliza sua contribuição como crítico de arte que será confirmada com a publicação de seu artigo El espejo y la máscara. Comentarios a la fotografía cubana postrevolucionaria no volume 11 de 1998/1999 da Encuentro de la Cultura Cubana. Nesse artigo questiona a relação entre imagem, história e ideologia com o problema do espelho e da máscara na fotografia cubana pós-revolucionária. Ele analisa a interferência dos interesses ideológicos no processo de criação e codificação da imagem em Cuba.220 Em sua carta anterior ao artigo, Juan Antonio Molina traduz o interesse em somar a este encontro de reflexão sobre o momento atual de seu país.
220
MOLINA, Juan Antonio. El espejo y la máscara. Comentarios a la fotografía cubana posrevolucionaria. Revista Encuentro… Madrid. Invierno. 1.998/1.999. Vol.11. P.59-73
Por cortesía de Eduardo Muñoz Ordoqui y Marta María Pérez Bravo han llegado a mis manos un par de números de Encuentro. La excelencia del material ahí publicado y el indudable valor que posee la revista para promover, discutir y “encontrar” nuestra cultura, me han estimulado para enviarles algo de mi trabajo como crítico de artes visuales. JUAN ANTONIO MOLINA (Pachuca, México. vol.8/9,1998 p.270)
A carta abaixo do cubano Juan José Molina, de Havana, acrescenta uma informação a respeito da idade dos leitores, que se encontra entre 20 e 70 anos, mostrando uma extensão ampla de faixa etária no interesse estético pela publicação. Apesar das autoridades cubanas obstaculizarem o acesso à revista, ela tem atingido um público com diferentes experiências durante esse período revolucionário dos anos de 1990, mas guardam em comum uma atitude de renúncia à fidelidade forçosamente real ao poder, assumindo ser Outro real nessa circunstância histórica. Os círculos de estudos clandestinos, como estão relatados na carta, sinalizam uma condição de se colocar em contradição ao poder social, abrindo um canal para que esse Outro se transforme numa instância também real e aceita pelos círculos sociais oficialmente permitidos. Eles trazem para si a responsabilidade histórica de serem esse Outro pensar e se posicionar na ordem social.
Los números nuevos de la revista se esperan con verdadera avidez. Como muchos amigos saben que la recibo, comienzan a llamarme cuando se imaginan que ya la tengo. La edad de los lectores oscila entre los 20 y los 70 años (no es un juego). Los jóvenes en su mayoría, son estudiantes de la Universidad que se la leen en una noche. ¡Hasta han llegado a realizar círculos de estudio! Claro, círculos de estudio caseros, por no decir clandestinos. Los más afortunados, los que “consiguen” (¡qué nos haríamos sin esta palabrita!) un ejemplar para ellos, quieren la colección completa. La revista nos pone al día de cosas que sucedieron hace muchos años y que debíamos haber sabido; y también nos mantiene al día de lo que está pasando ahora mismo, de los libros que se publican, los premios, las conferencias. Creo que por eso gusta tanto y se nos ha hecho imprescindible. Algún día, públicamente, se reconocerá la importancia de la revista y seguro nos llevaremos algunas sorpresas de lectores insospechados. JUAN JOSÉ MOLINA (Lawton, La Habana. vol. 10, 1998, pp. 189-90) (Grifos meus)
Por outro lado, o leitor desperta para o problema de quem consegue em Cuba adquirir a revista, e que aqueles que a obtêm, segundo observa, são os mais afortunados. A dúvida está posta: quem são os mais afortunados em Cuba? Só é possível deduzir que se trata de um círculo clandestino politicamente, organizações ou movimentos de dissidentes, e restrito do ponto de vista social, devido às dificuldades ou limitações do poder aquisitivo da sociedade cubana frente ao custo da publicação. Mas como já foi mencionado anteriormente
que a revista é distribuída gratuitamente em Cuba, tal carta lança dúvida ao mencionar “los más afortunados, los que conseguen”. Porém, Juan José Molina confirma o meio social que mais se destaca no acesso à revista, o universitário, ou intelectuais de um modo geral, no qual a produção e a difusão estéticas circulam com mais freqüência no seu cotidiano. É uma constatação extraída da leitura das cartas que revelam um público possuidor de uma linguagem acadêmica com senso estético elaborado.
Outra carta, proveniente de um leitor cubano, Luis Alberto González, reafirma o interesse pela revista e também a dificuldade em conseguí-la nos dois níveis anteriormente abordados, o cerco político das autoridades cubanas e questões financeiras. Solicita informações sobre assinatura que suplantem as dificuldades mencionadas:
Recientemente un amigo me prestó un ejemplar de la revista y así tuve conocimiento de su existencia. Me pareció maravillosa, y me gustaron todos los artículos, por lo cual les hago llegar mis más sinceras felicitaciones. Quisiera saber qué puedo hacer para poder leerla todos los meses, pues de seguro, aquí está prohibida y no debe conseguirse ni en bibliotecas. Veo que incluyen un cupón para la suscripción pero, como saben, para nosotros es imposible pagar ese precio. ¿Se puede conseguir en algún lugar en pesos cubanos? ¿Dónde? LUIS ALBERTO GONZÁLEZ (Cuba. Vol.10, 1998, pp. 190-191)
A carta de Jeanette Erfuth aponta outro grupo de leitores da revista, os membros da UPEC – União de Periodistas de Cuba – entidade fundada em 1963
representante dos jornalistas cubanos. A UPEC, desde sua fundação, tem em seu regulamento o princípio de afirmar a política que move a sociedade cubana, como consta no site da Internet. A UPEC tem como um de seus objetivos contribuir “a la formación de los periodistas en las mejores tradiciones del pensamiento político cubano, y en los elevados principios patrióticos, éticos y democráticos que inspiran a la sociedad cubana.” 221
Mas conforme o artigo de Wilfredo Cancio Isla, El periodismo en Cuba: otra vuelta de tuerca, na década de 1990 a direção da UPEC apresentou uma posição crítica ao jornalismo oficialista desta entidade e aponta a necessidade de seguir um caminho autônomo. Cita o dirigente da UPEC numa entrevista: “el modelo que podemos llamar oficialista, apologético o unanimista (había agotado) sus polibilidades.”222 É uma polêmica que não está encerrada nos círculos dessa organização, mas a existência de uma postura crítica pode ser
221
UPEC – Perfil. Disponível em: www.cubaperiodistas.cu/001_sobre-la-upec/perfil.htm
222
“En una cuerda fina y tensa”, entrevista com Julio García Luis: Juventud Rebelde, 21 oct. 1990, p. 8-9. apud ISLA, Wilfredo Cancio El periodismo en Cuba: otra vuelta de tuerca. Revista Encuentro… Madrid. 1.996. Vol.2.p.33)
confirmada pela carta de Jeanette Erfuth da cidade de Colônia da Alemanha, quando esteve em Cuba. Pela data de sua publicação isto se deu por volta do ano de 1998, quando ela presenciou a circulação da revista Encuentro de la Cultura Cubana dentro da UPEC e o interesse de seus integrantes quanto à leitura da revista, conforme retrata a leitora:
Estimados “aventureros”:
Ayer llegué, regresé del “pueblo de las maravillas” y hoy enseguida llené la suscripción para Encuentro. (...) en la UPEC de La Habana circula la publicación de ustedes y hay bastantes personas que entonces leen los artículos con gran interés. Fui allí y gracias a estas personas descubrí Encuentro, que ya una vez (el primer número) había caído en mis manos, pero se me había perdido de vista. Realmente considero una buena señal que fue en Cuba misma, donde volví a tener un “encuentro” con esta impresionante publicación (...) entre las pocas publicaciones serias alrededor de la actualidad cultural cubana. JEANETTE ERFUTH (Colonia, Alemanha. vol.10, 1998, p. 193)
O artista plástico cubano Rafael López Ramos faz sua apresentação na carta, menciona como conseguiu a revista, doada por um amigo de Miami, e o efeito da recepção em sua memória de militância no início dos anos de 1990, como um dos artistas que permaneceu na Ilha nesse período, porém atualmente reside no Canadá. Suas tentativas de uma mudança pacífica dentro de Cuba, ao que parece, foram frustradas, mas lhe trouxeram a compreensão da realidade social de seu país e o que isto significou para “los nacidos en los años 60”. Sua reflexão é de que esses cubanos cresceriam juntos com a Revolução e formar- se-iam no projeto de educação revolucionária. Essa geração não traria nenhum resquício ou vício da era pré-revolucionária, portanto se encontrariam num estado de pureza apropriado às pretensões de formação do homem-novo, já que teriam não só uma educação dentro dos princípios revolucionários, mas seriam beneficiados pelo contexto histórico socialista, que abrigaria as condições ao pleno desenvolvimento de uma consciência “superior”, na perspectiva do poder revolucionário. Rafael López Ramos ressalta ainda a importância da revista como “puente intercontinental” da cultura cubana “dispersa por el mundo”:
Soy un pintor y crítico de arte cubano, que participó del movimiento plástico de la Isla a finales de los 80. Cuando la mayor parte de estos artistas se fueron al exilio, por diversas razones yo permanecí en la Isla, integrándome al movimiento de oposición pacífica, a principios de los 90; breve militancia que sólo me sirvió para entender un poco más ampliamente el llamado «problema cubano», y conocer el papel que le tocó a mi generación — los nacidos en los años 60 — en esa tragicomedia que es nuestra Historia nacional quiero reconocer la importante función de puente intercontinental
que está cumpliendo Encuentro, uniendo trimestralmente, en un solo haz, todas las ramas y lianas de nuestra Cultura dispersas por el mundo. Recibir los dos primeros números —donados por un amigo de Miami — para mi fue como ser invitado a un Oxigen Bar de la cubanía — que sigue siendo amor, según sentenció un día el profesor Grau, con su voz nasal. RAFAEL LÓPEZ RAMOS (Canadá. vol.11, 1998-99, p.192)
Na carta em seguida, o leitor cubano residente em Miami relata sua colaboração com a divulgação da revista tanto em Miami quanto em Cuba, reitera o alcance “nacional y racional” dos cubanos de diversas partes do mundo por meio da Encuentro de la Cultura Cubana. Desta forma o leitor assume a tarefa de contribuir em suplantar as barreiras que apresentam no acesso à revista, procurando ampliar o universo de leitores e intérpretes de seu significado social e político.
Estamos divulgando la revista por todos los medios a nuestro alcance, inclusive dentro de Cuba, y promoviendo su venta aquí, y haciendo circular nuestros números entre otros que tal vez no lo adquirirían, pero que lo divulgarán de seguro...
Una vez más quiero que sepan que la labor de la revista por establecer un encuentro nacional y racional entre todos nosotros, cubanos dentro y por todos los rincones del mundo, está avanzando, y que estamos promoviéndolo con convicción y entusiasmo.
ROBERTO JIMÉNEZ (Miami. vol.21/22, 2001 p. 298)
O conjunto das cartas apresentadas até aqui, traduz sentimento de receptividade e empatia com a revista, que se aproxima da concepção de Jauss sobre “identificação primária” no processo de recepção, como foi analisado no início desse capítulo. As cartas mencionam não apenas uma leitura particular, mas o envolvimento de sentidos entre autores e leitores que torna real e significativo sua subjetividade no atual contexto histórico de cubano.
4.2.2. CARTAS QUE POLEMIZAM COM OS ARTIGOS DA REVISTA