O ponto de partida para o reconhecimento da especificidade do pensamento reunido na revista Encuentro de la Cultura Cubana é ter claro quem são os autores e receptores, quem produz e para quem se direciona sua escrita, bem como as possíveis posições dos sujeitos diante dos discursos produzidos. Dessa forma, o banco de dados apresentado fornece um mapa que demonstra quem são os sujeitos desta intervenção narrativa. Um universo de intelectuais cubanos e estrangeiros que refletem sobre o contexto cultural e político em Cuba, tendo como referência o exílio em sua dimensão política interna e externa, dado o próprio lócus da publicação da revista – Madri, um dos principais territórios do exílio cubano. Por outro lado, na leitura das Cartas a Encuentro, obtém-se a visão do sujeito-receptor da revista. Composição social também de leitores cubanos intelectuais dentro e fora da Ilha, estrangeiros e os próprios colaboradores da revista.
A densidade da linguagem também é indicadora desse meio em que circulam seus volumes. Os intelectuais desempenham função representativa de uma imagem do mundo e de si mesmos, juntamente com a tentativa de falar a um público o mais amplo possível. Antonio Gramsci nos Cadernos do Cárcere refere-se aos intelectuais articulados e não tanto às classes sociais como categoria mobilizadora de novas situações e mudanças de mentalidade. Cabe aqui sua acepção a respeito do “intelectual orgânico” que emerge da sociedade civil para
mediar uma representação cultural e política autônoma frente ao aparelho de Estado. 80
Para Gramsci todos somos intelectuais ou filósofos , mesmo que não nos dediquemos especificamente a estas atividades. Mas o fato de pensarmos e termos uma concepção de mundo, compomos uma consciência, ou várias consciências do cotidiano, do “pensamento popular” que se traduzem na cultura de um povo. E esta se constitui em um campo de luta importante na medida em que uma teoria política ou trabalho intelectual organizado seja capaz de elevar seu pensamento. O intelectual possui uma responsabilidade especial na circulação de idéias, na difusão da cultura e na luta ideológica. É dessa função que Gramsci define o intelectual “tradicional” que se alinha à manutenção de um pensamento social já existente, e o intelectual “orgânico” que se posiciona na elaboração de idéias de transformação, de compromisso com novas formas de pensamento e atuação social. A contribuição importante de Gramsci é quanto à diversidade de pensamentos presente nas esferas de atuação dos intelectuais. 81
Em Representações do Intelectual, Edward Said considera que um dos deveres do intelectual é possuir independência e dissentir contra representações dominadoras. Afirma: “Daí minhas caracterizações do intelectual como um exilado e marginal, como amador e autor de uma linguagem que tenta falar a verdade ao poder.” 82 Ser “exilado” e “marginal” para Said, significa assumir uma condição de vida sob sacrifício social e familiar que se impõe quando se pensa diferente de uma ordem estabelecida. Para o intelectual a dissensão lhe custa ser posto à margem da sociedade, é carregar a imagem da culpa que lhe é atribuída por não colaborar ou se conformar com uma situação já definida. “Falar a verdade ao poder” é ser visto como um diferente que deve ser excluído, é um “Outro” que vai ser marginalizado e exilado e, ainda, assumir a culpa pela dissensão.
Numa visão mais completa da postura combativa e denunciadora dos intelectuais que Said defende é encontrada neste trecho:
A questão central para mim, penso, é o fato de o intelectual ser um indivíduo dotado de uma vocação para representar, dar corpo e articular uma mensagem, um ponto de vista, uma atitude, filosofia ou opinião para (e também por) um público. E esse papel encerra uma certa agudeza, pois não pode ser desempenhado sem a consciência de ser alguém cuja função é levantar publicamente questões embaraçosas, confrontar ortodoxias e dogmas (mais do que produzi-los); isto é, alguém que não pode ser
80
GRAMSCI, Antonio. Cadernos do Cárcere. Civilização Brasileira. Rio de Janeiro. 2001
81
Ibidem.
82
SAID, Edward. Representações do Intelectual. As conferências Reith de 1993. Companhia das Letras. São Paulo. 2005. p.15
facilmente cooptado por governos ou corporações, e cuja raison d’être é representar todas as pessoas e todos os problemas que são sistematicamente esquecidos ou varridos para debaixo do tapete.83
A reflexão sobre a intelectualidade cubana é um tema que envolve a discussão sobre o papel do intelectual e sua responsabilidade social. Não há, em princípio, uma determinação sobre as opções que fazem um intelectual frente às lutas sociais, seja por cooptação ou por espontaneidade de posicionamento, sua presença na história se faz a partir do momento em que seu pensamento se transforma em escrita e esta, por sua vez, atua na esfera social como referência teórico-prática. A grande questão é suscitar debates, gerar pensamentos outros e atitudes sociais diferenciadas, mais do que uma pretensão em conduzir uma ação de massa. Enrico Mario Santí faz uma reflexão na revista a respeito dos intelectuais cubanos diante do regime atual:
Reconocer el contexto histórico y actuar en él incluye, por cierto, la responsabilidad ante las generaciones futuras: esa cultura cubana que ya va hacia el nuevo milenio. Sin la reflexión de ese intelectual, esa cultura quedará gravemente mutilada, sujeta a la repetición inconsciente del mismo fenómeno que cometió. …
…Creo profundamente que el intelectual cubano existe, creo en su probidad intelectual y creo en su capacidad de reflexión. No creo, en cambio, ni en las soluciones colectivas ni en los llamados a discusiones en masa.84
Enrico Mario Santí atribui, então, ao intelectual a capacidade em testemunhar a autonomia da cultura e de atuar em sua defesa. Desta forma o intelectual assume o papel de transgressor de uma ordem dominante e se compromete com as gerações futuras, na medida em que lança iniciativa de um luta para ser recriada em momentos posteriores. Seguindo a presença contestadora do intelectual na sociedade, Efraín Rodrigues Santana, um dos fundadores da Encuentro de la Cultura Cubana, cita Antón Arrufat85 a respeito de seu livro Virgilio Piñera: entre él y yo (La Habana, 1994). Segundo Efraín, nesta obra Antón Arrufat
83
Ibidem. pp. 25-26
84
SANTÍ, Enrico Mario. Cuba y los intelectuales: una reflexión necesaria. Revista Encuentro… Madrid. Invierno de 1996/1997. Vol. 3. p.94. Enrico Mario Santí é escritor e professor universitário, reside nos Estados Unidos.
85
Antón Arrufat nasceu em Santiago de Cuba, em 1935. Dramaturgo, novelista, contista, poeta e ensaísta, entre suas obras se encontram, no teatro: Todos los domingos (1965), a coleção de peças Teatro (1963) e La tierra
permanente (1987); poesia: Repaso final (1963), Escrito en las puertas (1967), La huella en la arena (1986);
narrativa: La caja cerrada (novela, 1984) e ¿Qué harás después de mí? (cuentos, 1988). Em março de 2000, na Feira Internacional do Livro em Havana, recebeu o prêmio Alejo Carpentier de Novela pelo livro La noche del
aguafiestas. Em 1968 apresentou sua peça Los Siete contra Tebas censurada pela crítica ao socialismo cubano.
Foi chefe de redação da revista Casa de las Américas (1960-1965). Em 2005 ganhou o IV Prêmio Iberoamericano de Cuento Julio Cortázar, com o relato El envés de la trama.
reflete sobre o caráter transgressor de Virgilio Piñera que “fazia do absurdo, da truculência e do sobredimensional, material idôneo de sua existência e de sua literatura.” 86
E Efraín ressalta ainda em sua análise da obra de Arrufat a linguagem literária como contestadora e irônica ao comportamento político dominador.
Carlo Ginsburg afirma que é na literatura da imaginação que o paradigma indiciário se afirma. O método dos indícios, do pormenor pode revelar grandes fenômenos. Ao mesmo tempo em que é utilizado no controle social e ideológico, pode também ser utilizado no conhecimento que dissolva o obscurantismo das ideologias dominantes. 87 E neste sentido, Antón Arrufat descreve as circunstâncias adversas em que a literatura cubana resistia e de como os escritores cubanos foram submetidos nos anos de 1970 e, de modo semelhante nos anos de 1990 ao controle político do governo revolucionário:
Nuestros libros dejaron de publicarse, los publicados fueron recogidos de las librerías y subrepticiamente retirados de los estantes de las bibliotecas públicas. Las piezas teatrales que habíamos escrito desaparecieron de los escenarios. Nuestros nombres dejaron de pronunciarse en conferencias y clases universitarias, se borraron de las antologías y de las historias de la literatura cubana compuestas en esa década funesta. No sólo estábamos muertos en vida: parecíamos no haber nacido ni escrito nunca. Las nuevas generaciones fueran educadas en el desprecio a cuanto habíamos hecho o en su ignorancia. Fuimos sacados de nuestros empleos y enviados a trabajar donde nadie nos conociera, en biblioteca alejadas de la ciudad, imprentas de textos escolares y fundiciones de acero. Piñera se convirtió por decisión de un funcionario, en un traductor de literatura africana de lengua francesa. 88
Segundo a visão de Arrufat, a intelectualidade foi reduzida a situações de nulidade e impossibilidade de expressão independente, pressupondo uma hierarquia de funções estabelecidas pelos valores da conveniência oficial. Tal conveniência não permite o incômodo crítico e, principalmente, os instrumentos de sua difusão. Cabe-lhe, então, julgar a ocupação apropriada da inconveniência conforme os critérios da hierarquia funcional. A ocupação apropriada significa adequar-se a um trabalho que não tenha repercussão política e nem inviabilize o curso normal da condução de um projeto revolucionário, que deveria ser tacitamente aceito por toda a sociedade. Ou se põe à serviço da construção da revolução, ou
86
SANTANA, Efraín Rodriguez. Virgilio Piñera: la vida vive. Revista Encuentro... Verano de 1996. Vol.1. p. 116. Efraín nasceu em Palma Soriano em 1953 e reside em Havana. É poeta e ensaísta, autor do livro de poemas Otro día va comenzar.
87
GINSBURG, Carlo. Mitos, Emblemas, Sinais: Morfologia e História. Companhia das Letras. São Paulo. 1991. pp.143-179
88
ARRUFAT, Antón. Virgilio Piñera: entre él y yo. Ediciones Unión, La Habana, 1994 apud SANTANA, Efraín Rodriguez. Virgilio Piñera: la vida vive. Revista Encuentro... Verano de 1996. Vol.1. p.116
não há lugar adequado na sociedade à sua sobrevivência. Toda a cultura se reduz a instrumentalizar e alimentar a política revolucionária.
No artigo de Carlos Monsivais, intitulado “Revolución Cubana: los años del consenso”, cita um discurso de Fidel Castro, proferido em 1968 no Congresso Cultural de La Habana, acerca da posição dos intelectuais e da cultura em Cuba após a Revolução, traduzindo a utilização da cultura como veículo de difusão ideológica: “... que los intelectuales adoptan una posición cada vez más combativa”. E, em outra citação Fidel afirma: “La cultura es hija de la Revolución.” 89 A história veio assinalar a interpretação de que essa concepção de cultura é o resultado da igualdade entre Revolução, nação, estado, poder, governo e o socialismo. O verdadeiro intelectual é aquele que, antes de tudo, assume a condição e as tarefas revolucionárias na acepção de Fidel, fora dessa condição não há aceitação social e política. É pertinente citar aqui trechos de outro discurso de Fidel Castro (mencionado na Introdução desta dissertação) numa reunião em junho de 1961 com escritores e intelectuais cubanos, que culminou no fechamento da publicação Lunes de Revolución e na convocação do Congresso que criou a União dos Escritores e Artistas Cubanos (UNEAC). Esse discurso é ilustrativo da política cultural que seria definida a partir de então pelo governo revolucionário e instituída até o momento, mas com a presença heterogênea e resistente dos intelectuais ao longo do processo revolucionário:
El problema que aquí se ha estado discutiendo y vamos a abordar, es el problema de la libertad de los escritores y artistas para expresarse.
Se habló aquí de la libertad formal. Todo el mundo estuvo de acuerdo en que se respete la libertad formal. Creo que no hay duda acerca de este problema. La cuestión se hace más sutil y se convierte verdaderamente en el punto esencial de la discusión cuando se trata de la libertad de contenido. Es el punto más sutil porque es el que está expuesto a las más diversas interpretaciones. El punto más polémico de esta cuestión es si debe haber o no una absoluta libertad de contenido en la expresión artística. [...]
Permítanme decirles en primer lugar que la Revolución defiende la libertad; que la Revolución ha traído al país una suma muy grande de libertades; que la Revolución no puede ser por esencia enemiga de las libertades; que si la preocupación de alguno es que la Revolución vaya a asfixiar su espíritu creador, [...] esa preocupación es innecesaria, [...] esa preocupación no tiene razón de ser.
…dentro de la Revolución, todo; contra la Revolución, nada. Contra la Revolución nada, porque la Revolución tiene también sus derechos y el primer derecho de la Revolución es el derecho a existir, y frente al derecho de la Revolución de ser y de existir, nadie, por cuanto la Revolución comprende los intereses del pueblo, por cuanto la Revolución significa los
89
MONSIVAIS, Carlos. La revolución cubana: los años del consenso. Revista Encuentro… Madrid. 2000. Vol. 16/17. p.76
intereses de la nación entera, nadie puede alegar con razón un derecho contra ella.
Creo que esto es bien claro. ¿Cuáles son los derechos de los escritores y de los artistas revolucionarios o no revolucionarios? Dentro de la Revolución, todo; contra la Revolución, ningún derecho.90
Pode-se observar das palavras de Fidel Castro que a liberdade de conteúdo considerada essencial à expressão dos escritores e artistas se traduz naquela em que se encontre nos limites da Revolução. É dado o direito de somente à Revolução existir, portanto, toda liberdade dentro dela é permitida; mas fora dela esse direito já não existe e nenhuma liberdade é consentida, como enfatiza, sobretudo, no último parágrafo. Liberdade dentro da Revolução significa que a cultura passa a ser política controlada pelo Estado. E segundo Arrufat, “Donde toda actividad cultural es una actividad del Estado, ser marginado por el propio Estado constituye casi un destino.” 91
Para o intelectual, ser deslocado de sua atividade criadora e desempenhar funções que a restringem é uma situação que representa não só a falta de reconhecimento por parte do poder público, mas a inviabilidade de ser conhecido perante a sociedade e de dialogar com os interlocutores de uma comunicação social mais ampla. É impor-lhe a ruptura com a sociedade, tanto do ponto de vista profissional quanto em suas relações sociais mais próximas. Afasta-o de seus vínculos culturais para deslegitimá-lo de todas as formas de manifestação da própria cultura, seja a popular ou a considerada intelectualmente produzida. Enfim, é impor- lhe o exílio interno. O intelectual, em geral, ocupa no quadro social o lugar entre o poder e a sociedade, sendo porta-voz desta na compreensão crítica de uma estrutura dominante. Como também, pode se constituir num sustentáculo teórico de uma posição oficial. Mas seu desempenho tem relevância social na medida em que dinamiza e recria as idéias que circulam na sociedade, sinaliza mudanças e põe em movimento as representações sócio-culturais. Edward Said afirma que: “Uma das tarefas do intelectual reside no esforço em derrubar os estereótipos e as categorias redutoras que tanto limitam o pensamento humano e a comunicação”. 92
O apoio que a intelectualidade cubana, a latino-americana e européia dedicaram à Revolução Cubana, numa expectativa de que o desenvolvimento social adviria de um projeto coletivo, de uma consciência revolucionária e não dependente das forças capitalistas de
90
Citado por Roberto Fernández Retamar em Cuarenta años después. Disponível em: http://www.oceanbooks.com.au/espanol/puntos/pun37
91
Op. cit. p. 117
92
SAID, Edward. Representações do Intelectual: as Conferências Reith de 1993. Companhia das Letras. São Paulo. 2005. p. 10
produção foi gradativamente frustrando parcelas significativas desses setores. Um fato ilustrador desta mudança de olhar de boa parte dos intelectuais para com a Revolução foi o manifesto de intelectuais da América Latina e Europa contra a condenação à prisão de Heberto Padilla em 1971, pela publicação de seu livro Fuera del Juego, vencedor do prêmio da União Nacional de Escritores y Artistas de Cuba (UNEAC). Essa condenação lhe rendeu uma autocrítica pública e um reconhecimento de desculpas, em que ele mesmo considerou as páginas de seu livro uma posição contra-revolucionária. A confissão causou um novo repúdio de escritores com uma segunda carta endereçada a Fidel Castro, fazendo com que Mario Vargas Llosa renunciasse ao Conselho da Revista Casa de las Américas.
Dessa forma, a década de 1990 reviveu o drama de uma intelectualidade posta à margem da produção cultural interna. O exílio tornou-se um processo intensamente freqüente em Cuba neste período, devido à falta de perspectiva de parte dos intelectuais em intervir internamente na viabilização de uma “mudança no regime político ou de regime político”, conforme discute Carmelo Mesa-Lago. 93 (Grifo do autor)
É uma visão pela qual os intelectuais atuam e influem na sociedade com seus questionamentos e diferentes representações. A compreensão da história por meio das representações do social contribui para este estudo na medida em que as percepções que se concretizam em forma de narrativa traduzem não unicamente uma escrita em si, mas também uma ação que responde a um contexto histórico presente. A linguagem escrita ou o discurso narrativo adquire uma força resposta e uma dimensão prática social na luta entre as diferentes visões de mundo.
Conforme concebe Roger Chartier em seu livro História Cultural – Entre Práticas e Representações, as representações enunciam o meio de ação e “não são de forma alguma discursos neutros”. Ressalta a importância das representações coletivas como abordagem histórica por identificar a maneira como a “realidade social é construída, pensada e dada a ler” por diferentes grupos e em diferentes lugares:
as lutas de representações têm tanta importância como as lutas econômicas para compreender os mecanismos pelos quais um grupo impõe, ou tenta impor, a sua concepção do mundo social, os valores que são os seus e o seu domínio. 94
93
MESA-LAGO, Carmelo. Cambio de régimen o cambio en el régimen? Revista Encuentro… Madrid. Vol. 6/7. pp. 36-43
94
Na perspectiva da chamada história cultural, as representações do mundo social assinalam as formas simbólicas pelas quais os sujeitos constroem-no do modo como o pensam, interpretam e desejam num universo plural de concepções. Os discursos são formulados conforme a apreensão e interesse extraídos da realidade e designam uma determinada postura frente ao mundo. Retratam a semântica do poder de submeter, resistir, transgredir ou de simplesmente compreender e explicar uma dada realidade. Dessa forma, os discursos da Encuentro de la Cultura Cubana se delineiam por uma das narrativas da sociedade cubana, sobretudo pelos setores do exílio externo e interno (aquele que, apesar de se encontrar em seu território, o silêncio lhe é imposto) que lida com uma outra percepção sobre o esgotamento do regime político em Cuba e as novas expectativas de mudanças criadas.
O enfoque cultural não significa uma condição de neutralidade para evitar qualquer posicionamento configurador de uma contestação política, seja de que âmbito for. Mas representa uma outra maneira de enfrentamento a um contexto histórico de autoritarismo e centralização do poder. Possibilita uma reflexão aplicada tanto a uma sociedade de experiência capitalista, quanto socialista, guardada as especificidades do processo histórico de cada uma delas, pois não está em cena um grande movimento articulado sob a vanguarda de partidos políticos, mas um espaço onde expectativas individuais e coletivas são traduzidas em diferentes linguagens, a artística, acadêmica e popular que somam no processo de diferenciação das transformações políticas.
Neste sentido, torna-se um caminho politicamente subversivo, pois pretende que a cultura seja o espaço para que as diferenças se exponham livremente e seja a referência de uma luta que a faça ser compreendida como anterior, concomitante e posterior a um projeto político de poder. Não se entende aqui uma condução cultural linear, pois mesmo em suas transformações que lhe são próprias, a cultura propicia à sociedade caminhar de maneira autônoma, resistir aos mecanismos do poder e não se sucumbir aos mesmos.
A presença de uma cultura que faz a conexão entre passado e presente em processo constante de transformação, e a qualquer momento emerge de forma inesperada, contrastando a um contexto de homogeneidade política, pode ser observada no artigo Los paradigmas perdidos: la manigua del significado de Alan West, poeta e professor cubano