Se havia preponderância da capital Vitória nas notícias de festas, salões, teatros, entre outras, publicadas nos jornais pesquisados, a situação se inverte na análise das petições encaminhadas à Câmara Municipal, quando se verifica a Freguesia de São
João de Cariacica listada com maior freqüência nos requerimentos. A ascendência dos espaços sociais e dos eventos comemorativos da capital sobre as demais freguesias pode ser explicada pelo fato de ter sido a cabeça administrativa, política e judicial da Província do Espírito Santo. Por conseguinte, as atividades econômicas concentravam-se, também, na praça mercantil de Vitória. Isso não quer dizer, todavia, que as sociabilidades dos capixabas residentes fora da capital se constituíssem estritamente no interior de Vitória.
Vitória experimentava um fluxo contínuo de pessoas e cargas, num ir e vir incessante que proporcionava a troca de informações e falatórios, gerando igualmente costumes peculiares de cada freguesia. Além disso, a rotina movimentada da capital agia como um catalisador para o estabelecimento das sociabilidades. Não se defende aqui a idéia de um Município cujos moradores estivessem sempre alegres e dispostos a colocar de lado suas desavenças para viverem em harmonia plena. O exercício da sociabilidade inclui, necessariamente, o seu aspecto conflituoso, de ajustamento ou de rompimento de relações sociais. As lojas de comércio, as festas, os espetáculos – quaisquer que fossem –, as publicações particulares impressas e as reclamações serviam para moldar diariamente os arranjos sociais desenvolvidos por homens e mulheres, livres e escravos. Como explicou Max Weber (2004), as relações sociais provocam no indivíduo a identificação dele mesmo no outro, como em um espelho. A imagem observada refletiria a composição dos critérios identitários das pessoas, sendo um deles o sentimento de integração à comunidade.
Francisco Antunes de Siqueira (1999), clérigo já repetidamente citado e escritor importante do século XIX, forneceu pistas fundamentais a respeito da vida nas ruas do Município. As descrições de Siqueira são recheadas de movimento, de vida e de agitação, levando a crer que se tratava de um ambiente em perpétua ebulição. O processo de privatização da vida exposto por Jürgen Habermas (2003, p. 61), perceptível na Europa da transição do Setecentos para o Oitocentos, não havia ainda lançado raízes sólidas no Império brasileiro. Por isso, a vida e a convivência familiar transcorriam em ligação estreita com os vizinhos, os transeuntes e, principalmente, a rua. Provavelmente, a sobreposição da vida pública e privada contribuiu decisivamente para a formação de uma nova esfera de sociabilidades: a rua. Esse espaço comum de existência caracterizava-se por pessoas sempre em movimento, pelas festas e comemorações levadas a cabo no dia-a-dia dos habitantes da cidade, bem como pela música – a cargo dos escravos locais ou de bandas profissionais. Os moradores da época assentavam-se nas portas das casas, nas entradas das lojas, nas janelas e nas varandas para testemunharem de forma privilegiada o desenrolar incessante da vida.
Os obstáculos do cotidiano não impediam as ocasiões de júbilo e regozijo. A escuridão trazida pela falta de iluminação e os lamaçais e brejos formados pelas chuvas e braços de mar que invadiam a Ilha de Vitória eram contornados pela população de forma criativa e sem prejuízo das festividades. Quanto mais escuro estivesse, melhor seriam admirados os fogos de artifício lançados ao céu! Os buracos, a sujeira e o mato crescido das ruas eram vencidos pela cumplicidade vicinal, que unia esforços para a limpeza das vias. E a lama? Quando oportuno, lambuzavam-se o corpo e o rosto de muitos jovens, simulando um baile de máscaras.
No decorrer de 1850 a 1872, identifica-se alteração significativa das formas de sociabilidade no Município de Vitória. Paulatinamente, avança a transição de um convívio informal para outro de tipo associativo, baseado em sociedades e clubes constituídos em Vitória a partir de 1860. Associações de dança, de música, de assuntos literários, entre outras, multiplicavam-se nos anúncios publicados no Correio da Victoria e no Jornal da Victoria. Os bailes de rua, os encontros casuais à beira-mar ou nas praças de Santa Luzia, do Palácio e da Rua Fresca (Rua General Câmara), começam a ceder espaço para as sociedades fechadas, de particulares e regidas por um estatuto aceito pelos sócios.
Os jornais, como mediadores das sociabilidades capixabas, também alteram sua proposta jornalística a partir do decênio de 1860. Assumem uma postura mais impessoal e progressivamente as cartas particulares deixam de ser impressas. Passa- se, pois, ao momento das publicações particulares de cunho político, das disputas pela administração municipal e provincial. A vida ordinária e particular é cada vez menos assunto alheio. Os classificados preenchem o lugar dos anúncios que antes eram ocupados por negociantes e cartas de agradecimento. O comércio divulgado nas folhas impressas relaciona-se de forma progressiva às propagandas de lojas e aos produtos do Rio de Janeiro, pagas pelos grandes empreendedores de Vitória. O marco definitivo de mudança nos periódicos da capital ocorrerá somente em meados da década de 1870, mas já se sentem sinais das novas tendências durante os anos finais de 1860. Até 1872, entretanto, os jornais continuariam a ser interpretados pela população local como um espaço singular no desenvolvimento de um tipo de sociabilidade característico: a impressa. Ali, nos veículos de imprensa, os capixabas buscavam não só estabelecer amizades como também dirimir conflitos.